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09 janeiro 2026

Da ideia de Céu

Leio o livro acima, por sugestão de um amigo. De uma forma potencialmente simplista, o livro assenta numa história fácil de contar: Javier Cercas, escritor espanhol que se considera (e cito) ateu, anticlerical, laicista militante, racionalista obstinado e ímpio inveterado, é desafiado pelo Vaticano para acompanhar o Papa Francisco na sua viagem à Mongólia e para escrever um livro, tendo-lhe sido dado acesso a figuras altas do Vaticano. O escritor impõe, no entanto, uma condição: poder estar a sós com o Papa durante 5 minutos para lhe perguntar se, depois de morrer, a sua (do escritor) mãe verá o pai (do escritor) que já morreu. No fundo, precisa de informar a mãe se há Céu, e quer interrogar o Papa sobre a ressurreição da carne e sobre a vida eterna. Na fase em que estou essa conversa já existiu, mas não se sabe o que o Papa respondeu. Ou ainda não se sabe, ou nunca se saberá.

A conversa sobre este livro surgiu num jantar de amigos, todos católicos. Discutiu-se o que nós achamos, o que o Papa acha, o que o Papa pode ou deve responder (e poder e dever são coisas diferentes). Talvez a resposta mais próxima da certeza teológica seja esta: o Céu é a contemplação de Deus. No entanto, eu gostaria que o Papa respondesse: não sei. Gostava que ele respondesse uma coisa humana, feita de um desconhecimento humano mas, também, de uma esperança humana.

O meu Pai, já aqui o escrevi, tinha também essa dúvida sobre o que era o Céu, quem e como iria encontrar quando morresse. A minha visão do Céu é algo infantil, talvez, ou apenas humanamente ingénua e compreensível: quero encontrar a minha filha. E não só quero, como estou mais do que certo de que irei encontrá-la; se assim não for, muitas coisas em que acredito não farão sentido. 

Não domino os dogmas da igreja Católica, mas parece-me que a ideia de Céu não é dogmática, pelo que cada um de nós pode - dentro dos limites da razoabilidade - imaginar o Céu à sua maneira, encontrar uma definição pessoal do que é a ressurreição da carne ou a vida eterna. Se eu quero contemplar Deus, como lugar geométrico da felicidade eterna? Sim, quero, mas sou revolucionário: talvez a contemplação da felicidade eterna seja a contemplação de uma filha que morreu com 7 anos. E nisso não estou sozinho: todos os Pais enlutados com que conversei - e muitos não seriam crentes - tinham a mesma esperança: a de encontrar um dia o seu filho ou filha. Seguramente que a sua ideia de felicidade eterna (ou apenas de felicidade desejada) é a contemplação, feliz e desprovida de angústia, de um filho que lhes morreu (muito) cedo demais. É a alegria do reencontro porque é isso, também, que os sustenta. 

Como ainda não cheguei ao fim do livro, não sei se se saberá a resposta do Papa à inquirição do escritor. Se a resposta constar do livro, só rezo para que não seja uma resposta excessivamente teológica, feita de um jargão que não nos conforta a alma nem nos alimenta a fé. Ou o Papa tem certezas - do que duvido - ou então que responda: não sei se existe, não sei como é, mas estou em crer que será bom. Depois disso olharei para a minha fotografia com o Papa durante a sua vinda a Lisboa e imaginarei que ele me confortou: sim, acredito que vais encontrar a tua filha. É imaginação eu sei, mas para já chega.

JdB

26 maio 2020

Da felicidade e do Céu

Um dia destes falava com alguém sobre terceira pessoa, tendo eu afirmado: Deus queira que seja feliz. Do lado de lá do telefone a resposta veio rápida e assertiva: Deus queira que vá para o Céu; se conseguir ser feliz antes ainda melhor. Hoje, no meu passeio muito matinal no paredão (com muito mais gente do que é costume) dei por mim a pensar na afirmação e na resposta.

Usei muitas vezes o argumento do Céu como objectivo máximo na vida de um cristão. Afinal, ir para o Céu é ir para Céu - e isso é sempre bom; ser-se feliz, pelo contrário, pode ser um objectivo egoísta, porque podemos atingir a felicidade à custa da infelicidade dos outros. Nesse sentido, a resposta que me deram está correcta: Deus queira que vá para o Céu; se conseguir ser feliz antes ainda melhor. 

Ora, antes do mais falamos de momentos diferentes; se eu entendi correctamente a frase que me foi dita, ela contém uma espécie de contradição em termos. Vamos para o Céu quando morrermos, e só quando lá chegarmos é que sabemos que estamos no Céu. Também pode acontecer - como eu acredito que acontece - que para o Céu vão todos, menos aqueles que o rejeitam até ao fim, nunca se arrependendo de nada que possam ter feito de mal. Mesmo assim, se pensarmos que Deus não é senão Amor, não estou certo de que esses não vão também para o Céu. Então, se esta teoria assente na fé for válida, não vale a pena estar a desejar algo que sabemos que de facto nos vai acontecer. Na verdade, até o bom ladrão se arrependeu no último momento, chegando ao Paraíso nesse mesmo dia.

Por outro lado, se bem que o Céu se ganhe na Terra, não é na Terra que vamos para o Céu - e essa é uma decisão que não nos compete tomar, apenas podemos querer ser merecedores dela.  O que podemos então desejar para a caminhada terrena de alguém? Que vá para determinado sítio quando morrer? Devemos então estabelecer um objectivo terreno, que tenhamos a possibilidade de atingir e que nos garanta o Céu? A felicidade pode ser um deles? Ou talvez seja mais correcto pretendermos que alguém deseje o Céu, não que vá para o Céu?

Socorro-me de duas citações:

De Aristóteles (in Ética a Nicómaco):

Parece ainda que todas as características procuradas na felicidade existem de acordo com o sentido estabelecido. Para uns é a excelência, para outros a sensatez, para outros ainda parece ser uma certa sabedoria, para outros, finalmente, todas estas actividades ou algumas delas em conexão com o prazer ou então, pelo menos, não sem o prazer. 

(...) 

O sentido fixado por nós concorda com aqueles que dizem que a felicidade é a excelência ou uma certa excelência.

Agora de Santo Agostinho (in Confissões):

Há uma alegria que não é concedida aos ímpios, mas àqueles que desinteressadamente te servem, cuja alegria és tu mesmo. E a vida feliz consiste em sentir alegria junto de ti, vinda de ti, graças a ti: esta é a vida feliz e não há outra.

Para obviar discussões talvez pudéssemos desejar, então, que esta pessoa de quem estávamos a falar levasse uma vida boa, que é diferente de levar uma boa vida - a ordem dos factores não é, de facto, arbitrária. Porém, lendo Aristóteles e Santo Agostinho - nascidos com um intervalo de 700 anos - acho que posso continuar a desejar que a dita pessoa seja feliz. Em bom rigor, se for esta a felicidade que ele procura, de certeza que vai para o Céu.

JdB

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