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09 janeiro 2026

Da ideia de Céu

Leio o livro acima, por sugestão de um amigo. De uma forma potencialmente simplista, o livro assenta numa história fácil de contar: Javier Cercas, escritor espanhol que se considera (e cito) ateu, anticlerical, laicista militante, racionalista obstinado e ímpio inveterado, é desafiado pelo Vaticano para acompanhar o Papa Francisco na sua viagem à Mongólia e para escrever um livro, tendo-lhe sido dado acesso a figuras altas do Vaticano. O escritor impõe, no entanto, uma condição: poder estar a sós com o Papa durante 5 minutos para lhe perguntar se, depois de morrer, a sua (do escritor) mãe verá o pai (do escritor) que já morreu. No fundo, precisa de informar a mãe se há Céu, e quer interrogar o Papa sobre a ressurreição da carne e sobre a vida eterna. Na fase em que estou essa conversa já existiu, mas não se sabe o que o Papa respondeu. Ou ainda não se sabe, ou nunca se saberá.

A conversa sobre este livro surgiu num jantar de amigos, todos católicos. Discutiu-se o que nós achamos, o que o Papa acha, o que o Papa pode ou deve responder (e poder e dever são coisas diferentes). Talvez a resposta mais próxima da certeza teológica seja esta: o Céu é a contemplação de Deus. No entanto, eu gostaria que o Papa respondesse: não sei. Gostava que ele respondesse uma coisa humana, feita de um desconhecimento humano mas, também, de uma esperança humana.

O meu Pai, já aqui o escrevi, tinha também essa dúvida sobre o que era o Céu, quem e como iria encontrar quando morresse. A minha visão do Céu é algo infantil, talvez, ou apenas humanamente ingénua e compreensível: quero encontrar a minha filha. E não só quero, como estou mais do que certo de que irei encontrá-la; se assim não for, muitas coisas em que acredito não farão sentido. 

Não domino os dogmas da igreja Católica, mas parece-me que a ideia de Céu não é dogmática, pelo que cada um de nós pode - dentro dos limites da razoabilidade - imaginar o Céu à sua maneira, encontrar uma definição pessoal do que é a ressurreição da carne ou a vida eterna. Se eu quero contemplar Deus, como lugar geométrico da felicidade eterna? Sim, quero, mas sou revolucionário: talvez a contemplação da felicidade eterna seja a contemplação de uma filha que morreu com 7 anos. E nisso não estou sozinho: todos os Pais enlutados com que conversei - e muitos não seriam crentes - tinham a mesma esperança: a de encontrar um dia o seu filho ou filha. Seguramente que a sua ideia de felicidade eterna (ou apenas de felicidade desejada) é a contemplação, feliz e desprovida de angústia, de um filho que lhes morreu (muito) cedo demais. É a alegria do reencontro porque é isso, também, que os sustenta. 

Como ainda não cheguei ao fim do livro, não sei se se saberá a resposta do Papa à inquirição do escritor. Se a resposta constar do livro, só rezo para que não seja uma resposta excessivamente teológica, feita de um jargão que não nos conforta a alma nem nos alimenta a fé. Ou o Papa tem certezas - do que duvido - ou então que responda: não sei se existe, não sei como é, mas estou em crer que será bom. Depois disso olharei para a minha fotografia com o Papa durante a sua vinda a Lisboa e imaginarei que ele me confortou: sim, acredito que vais encontrar a tua filha. É imaginação eu sei, mas para já chega.

JdB

22 abril 2025

Em memória do Papa Francisco (1936 - 2025)

 

Em 2023, aquando da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, tive a oportunidade de conhecer o Papa, de lhe dirigir algumas palavras e de cumprimentá-lo. Fi-lo enquanto presidente da Acreditar, tendo sido acompanhado por cerca de 25 pessoas, maioritariamente pais / mães e crianças / jovens doentes. Para um católico, o privilégio foi imenso.

***

Sou contemporâneo de cinco Papas, embora relativamente a dois - Paulo VI e João Paulo I - não tenha grande memória nem opinião, por motivos diferentes: o primeiro morreu em 1978, tinha eu 20 anos, e a religião ocupava um lugar rotineiro talvez menor na minha vida, numa altura em que estaria focado noutras áreas da existência. O outro Papa não viveu tempo suficiente para deixar marca.

O meu Papa não é o Papa Francisco. Não por uma questão política ou doutrinária, mas, talvez, porque João Paulo II tenha imprimido uma marca suficientemente forte em mim para relegar os Papas seguintes para uma posição menos cimeira. Como qualquer católico - e uma vez que o Papa só é infalível em matéria de fé - olho para o papado de Francisco com um olhar misto. Não concordei com tudo, mais na forma do que no conteúdo, mas reconheço que houve momentos determinantes para a Igreja nos últimos anos: mudou-se o discurso, o foco, a importância relativa das coisas. Abordaram-se temas fracturantes para o mundo católico, mas que são temas que merecem ser discutidos, nomeadamente o acesso aos sacramentos por parte dos recasados e a relação da Igreja com os homossexuais; deu-se uma conotação mais significativa à palavra periferia e a expressão igreja em saída deixou de ser mera retórica. Para a posteridade ficará o rompimento do Papa Francisco com alguns sinais de grandeza tradicionais e, na memória de muitos, o todos, todos, todos. 

Perguntei há pouco tempo a um padre quem seria o próximo Papa. Falou-me de um asiático (bispo de Manila) ou de um africano (Guiné Equatorial ou Gana, talvez). A ver vamos quem tocará esta difícil barca da igreja para a frente. A mim, como católico, resta-me rezar para que o Espírito Santo ilumine quem vai ter de escolher a pessoa mais indicada para os tempos que atravessamos.

JdB    

08 agosto 2023

A JMJ, o Papa e a Acreditar


Fruto de um golpe de sorte, de uma grande credibilidade de que gozamos e ainda, mas não menos importante, daquilo para que existimos, a Acreditar foi convidada para um encontro com o Papa no Centro Paroquial de S. Vicente de Paulo, uma obra fantástica liderada pelo cónego Francisco Crespo. Comigo, como presidente da instituição, iam 25 pessoas, entre pais / mães, doentes e sobreviventes. Enquanto católico, este encontro foi uma benção para mim e, estou certo, para todos aqueles que fui acompanhar, para quem este encontro foi um motivo de alegria e alento para a jornada que vão fazendo com os seus filhos doentes. Eis o meu breve discurso, cuja "construção" teve uma intervenção decisiva de membros da equipa da Acreditar:

"Santo Padre, 

Somos um grupo de crianças e jovens com cancro, de crianças e jovens que o ultrapassaram, e também de pais. Em conjunto formamos a Acreditar que há trinta anos fomenta a esperança na cura e tenta minorar o sofrimento durante os tratamentos, na sobrevivência e nas famílias cujos filhos não sobrevivem. 

Damos apoio emocional, psicológico, material e escolar, e acolhemos nas nossas Casas quem vive longe do hospital. A nossa missão é estar com todas as crianças e jovens, procurando que o cancro nunca os defina e que a evolução da cura e a melhor qualidade de vida sejam uma realidade. Sabemos que nos fortalecemos nas vidas partilhadas e na defesa dos direitos, por isso criamos elos entre os sobreviventes, doentes e pais para que, com esperança, nunca se sintam sós. 

Gracias, Santo Padre, por tener los niños com cancer y sus famílias en su corazón y en sus oraciones."


“Queridos irmãos e irmãs, bom dia! 

Agradeço ao pároco as suas palavras, e saúdo a todos vós, em particular aos amigos do Centro Paroquial da Serafina, da Casa Família Ajuda de Berço e da Associação Acreditar. E agradeço as vossas palavras, que mostraram o trabalho que se faz. Obrigado. É lindo estarmos aqui juntos, enquanto, no contexto da Jornada Mundial da Juventude, olhamos para a Virgem Maria que Se levanta e vai ajudar Isabel, sua parente idosa. De facto, a caridade é a origem e a meta do caminho cristão, e a vossa presença, realidade concreta de ‘amor em ação’, ajuda-nos a não esquecer a rota, o sentido daquilo que fazemos. Obrigado pelos vossos testemunhos, dos quais quero destacar três aspetos: fazer juntos o bem, agir no concreto — não só com ideias, mas concretamente — e estar próximo dos mais frágeis.

Primeiro, fazer juntos o bem. ‘Juntos’ é a palavra-chave, que ouvi repetir muitas vezes nas vossas intervenções. Viver, ajudar e amar juntos: jovens e adultos, sãos e doentes… juntos. O João disse-nos uma coisa importante: é preciso não se deixar ‘definir’ pela doença, mas fazer dela parte viva do contributo que prestamos ao conjunto, à comunidade. É verdade! Não devemos deixar-nos ‘definir’ pela doença ou pelos problemas, porque não somos uma doença nem um problema. Cada um de nós é um dom, um dom único com os seus limites, um dom precioso e sagrado para Deus, para a comunidade cristã e para a comunidade humana. E, assim como somos, enriquecemos o conjunto e deixamo-nos enriquecer pelo conjunto!

(...)"

Para um católico, estar com o Papa é uma alegria indizível. Acompanhar estes pais, estas mães, algumas crianças doentes que foram connosco é, passe a ligeireza da expressão, a cereja em cima do bolo. É imaginar-lhe o boost de alento, de força, de esperança. Imagino o quanto pode valer um encontro destes; sei a importância de um encontro destes para o reforço da fé em dias melhores. 

Que estes 25 que foram comigo sejam o lugar geométrico de toda a comunidade da oncologia pediátrica e daqueles que não puderam ir porque era impossível levar todos. E que esta Jornada Mundial da Juventude dê alegria e esperança a quem percorre um caminho cheio de espinhos.

JdB 


04 agosto 2023

Duas Últimas

Um momento de nostalgia argentina numa singela homenagem ao Papa, que me parece muito cansado. Nos intervalos - talvez, afinal nos momentos chave - revela uma alegria e um entusiasmo grandes para a idade. São os momentos não de música ou espectáculo cénico, mas quando está com as pessoas mais comuns, quando se dirige aos jovens e os incita a serem melhores, a serem diferentes. Um pouco como se nos dissesse o que é fundamental nesta meia dúzia de dias.

JdB

07 dezembro 2020

Orações dos dias que correm *


Natal és tu


Natal és tu,

quando decides nascer novamente todos os dias

e deixar entrar Deus na tua alma.


A árvore de Natal és tu

quando resistes fortemente

aos ventos e às dificuldades da vida.


As decorações de Natal és tu

quando as tuas virtudes são as cores

que adornam a tua vida.


O sino de Natal és tu

quando chamas,

reúnes e tentas unir.


És também a luz de Natal

quando iluminas com a tua vida

o caminho dos outros

com a bondade, a paciência, a alegria e a generosidade.


Os anjos de Natal és tu

quando cantas para o mundo

uma mensagem de paz, de justiça e de amor.


A estrela de Natal és tu

quando levas alguém

ao encontro com o Senhor.


És também os reis magos

quando dás o melhor que tens

sem te importares a quem o dás.


A música de Natal és tu

quando conquistas a harmonia dentro de ti.


O presente de Natal és tu

quando és um verdadeiro amigo

e irmão de todos os seres humanos.


As felicitações de Natal és tu

quando perdoas e restabeleces a paz

mesmo quando sofres.


A ceia de Natal és tu

quando sacias com pão e com esperança

o pobre que está a teu lado.


Tu és a noite de Natal

Quando humilde e consciente recebes

no silêncio da noite

o Salvador do Mundo

sem barulho nem grandes celebrações;

tu és o sorriso da confiança e ternura

na paz interior de um Natal perene

que estabelece o reino dentro de ti.


Um bom Natal a todos os que

se assemelham ao Natal.


* retirado de uma homilia do Papa Francisco


14 janeiro 2020

Do filme Dois Papas: o meu olhar

Janto com amigos. Das dez pessoas à volta da sala, nove são aquilo a que se chamaria vulgarmente (e algo disparatadamente) católicos praticantes. São pessoas de missa semanal, com militância passada ou presente em movimentos da igreja, com desejos de pertença completa. São católicos discernidos, com um olhar genericamente discernido (embora por vezes pessoal) sobre a Igreja Católica e sobre o que gira à volta dela. 

Fala-se no filme Dois Papas, que passa no Netflix. De entre o grupo há quem tenha visto e há quem não tenha visto. Há quem tenha gostado e há quem não tenha gostado, ou não tenha gostado de um aspecto mais específico. De entre as críticas negativas talvez realçasse o seguinte:

- o excesso de ligeireza do filme;
- a clara preferência do realizador pelo Papa Francisco, muito à custa de Bento XVI; 
- o engano assente na frase "baseado em factos reais";
- a ilegitimidade de se fazer um filme sobre duas pessoas vivas, sem que lhes tenha sido pedida autorização;
- "a importância do Papa que não se compadece com exercícios de ficção cinematográfica".

Sou dos que viram e gostaram do filme, pese embora subscrever claramente as três primeiras críticas referidas acima: há ligeireza na abordagem à vida de Bento XVI, aos temas tratados; a sustentação de que são factos reais é um exercício impossível, apesar de qualquer um dos papas ter proferido alguns daqueles pensamentos numa dada altura. Porem, apesar disso gostei do filme: não achei insultuoso, não achei que denigra claramente a imagem de Bento XVI; vi-o como uma obra de ficção (muito bem filmada), não como um documentário; fixei uns pormenores, não dei importância a outros.

Numa leitura pelas críticas ao filme feitas por gente da Igreja, ou ligada à Igreja, encontra-se de tudo: gente que gostou e gente que não gostou, o que parece dar a entender que, mesmo nos meios católicos equilibrados, não há unanimidade, a não ser na representação desigual de ambos os Papas. Muitas críticas referem a inverosimilhança de algumas cenas, o que é verdade. Talvez o problema não esteja então só no filme, mas no facto de se ter vendido a ideia de que ele se baseava em factos reais. Se virmos o filme como uma espécie de documentário, ele está pejado de disparates. Mas se o virmos como uma obra de ficção talvez ali vejamos coisas interessantes, como a humanidade de ambos, visível na forma como se entusiasmam com o futebol, na imperfeição da obra tocada ao piano, ou no modo como se relacionam com Deus. Não sei, em bom rigor, se Bento XVI e Francisco se confessaram um ao outro nem isso me interessa muito, reconheço. Prefiro demorar-me nas dúvidas interiores que revelam, um em relação ao problema da pedofilia na igreja, outro na sua interacção com a ditadura de Videla. Interessou-me a dimensão da fragilidade humana, mais do que a evidência de uma atitude correcta. Não vi o filme como um panfleto, mas como uma janela que se abre sobre dois homens de carne e osso; vi o filme, talvez, como uma metáfora sobre a condição humana.

***

Num âmbito ainda relacionado com o filme, amigo que prezo afirmou e escreveu-me: "(...) nem consente esta tendência tão tolerada de a Igreja Católica ser tema de domínio público, sobre que todos opinam e botam sentença."

Tenho a dizer que, acima de tudo me espanta o desejo interminável de pessoas que, nada tendo a ver com a Igreja, estarem sempre de olhar atento e crítico sobre a Igreja; indigna-me que na primeira página dos jornais venha o mal que a igreja faz, mas não o bem que pratica; exaspera-me este escrutínio permanente, desequilibrado e persecutório. O que me separa, talvez, da frase deste meu amigo é que a Igreja não tolera tendência nenhuma, porque não está nas mãos da Igreja agir contra esta tendência. 

A Igreja vive num tempo moderno, de twitter e instagram, de whatsapp e notícias ao minuto. Este é, também, o tempo da Igreja - tempo esse a que não pode fugir. O que lhe resta, para além de tudo o que já faz de forma fantástica? Trabalhar o melhor possível, corrigir as más práticas internas, emendar a mão onde deve emendar. A nós, católicos - e, portanto, igreja - espera-se a militância e a defesa. Na minha opinião, fazer um filme - este filme - sobre o Papa (ou sobre dois papas) não fere a dignidade da Igreja nem dos personagens, porque não há insulto e porque o papel de ambos na História do Mundo está muito acima de um filme. A dignidade da Igreja, para além da sua dignidade inerente enquanto Estado, está na pureza com que segue e põe em prática os ensinamentos de Cristo: a atenção aos pobres e necessitados, a luta incansável pela justiça social, o castigo inequívoco de práticas indignas.

Vivemos um tempo de exposição mediática, quer queiramos quer não. Se fizermos o que devemos fazer, e o fizermos bem, não há filme que nos destrua nem diminua - mesmo que diga alguns disparates.

JdB      
    

11 abril 2016

Da exortação



Qual a diferença entre Miguel Strogoff e Madre Teresa de Calcutá? Qual a diferença entre Jean Valjean e o Padre Maximiliano Kolbe? Ou entre o Major Alvega e Thomas Moore? Não é, seguramente, o facto de uns serem franceses, outro ser luso-britânico, uns serem consagrados e outro um inglês. A diferença é apenas esta - independentemente da valentia ou dos actos de heroísmo de pendor diferente, uns existiram e outros não. Miguel Strogoff, Jean Valjean e o Major Alvega são personagens de ficção, a que se poderiam juntar tantos outros. Madre Teresa, Maximiliano Kolbe e Thomas Moore existiram de facto. De uns poderemos tirar lições de ética, valentia, despojamento, defesa das suas convicções. Os outros, porque nunca existiram, podem suscitar-nos momentos de emoção, apenas. Mas não nos podem dar lições.

Ler um romance pode implicar, como disse na semana passada, a suspensão da incredulidade. Fazemo-lo quando lemos os actos de heroísmo de quem não existiu. Quando lemos a vida de quem viveu a vida numa entrega ao próximo, de quem morreu por amor ao próximo ou na defesa dos seus princípios,  não suspendemos nada. 

***

Durante os últimos dias segui a conferência de imprensa e li o capítulo IV (O Amor no Matrimónio) da exortação Amoris Laetitia do Papa Francisco. E dei por mim a pensar, ao terminar a leitura desse capítulo, que é preciso, de alguma forma, suspender uma espécie de incredulidade. Podemos ler a exortação como um texto bonito, cheio de ideias fantásticas e correctas, que abre as portas para a correcção de uma situação que diminuía tantos e tantos divorciados recasados. Mas podemos ler a exortação com uma suspensão da racionalidade e da lógica e, nesse sentido, abraçá-la como algo que tivesse sido escrito exclusivamente para nós. O Capítulo IV foi escrito só para mim? Sim, se eu suspender essa espécie de incredulidade (porque de facto não foi) e o ler como uma conversa entre duas pessoas que se conhecem tão bem que não têm segredos uma da outra, identificando-se como mais ninguém se identifica no mundo.

Ler a exortação (ou pelo menos o capítulo IV) só faz sentido (sim, sim, tenho consciência da dimensão da afirmação) se for lida como um documento que nos é dirigido de forma pessoal e intransmissível. Porque só assim poderemos dizer: olha isto sou eu, ou então olha, isto é ela ou mesmo olha, isto somos nós os dois ou talvez eu já fui tudo isto.  Repito: o Capítulo IV (porque só li esse) foi escrito individualmente para cada um dos seus leitores. Quando o Manel o lê, lê algo que se refere a ele, que podia ter sido escrita na segunda pessoa do singular; quando a Maria o faz é a mesma coisa. Suspender a incredulidade na leitura desta exortação é abraçar a personalização do que é geral, é crer no impossível e, como isso, repito, deixar entrar o Sublime.

Talvez a suspensão total da incredulidade seja colocarmos todos no mesmo saco - Miguel Strogoff, o Major Alvega e a Madre Teresa, Jean Valjean juntamente com o Pe. Maximilano Kolbe e com Thomas Moore. Porque todos foram heróis e nos ensinaram alguma coisa. Mesmo os que não existiram.

JdB

   

23 junho 2015

Laudato Sí

Com uma periodicidade errática, sempre por sugestão do meu querido amigo ATM, irei publicando partes da Carta Encíclica do Papa Francisco sobre o cuidado da casa comum


47. A isto vêm juntar-se as dinâmicas dos mass-media e do mundo digital, que, quando se tornam omnipresentes, não favorecem o desenvolvimento duma capacidade de viver com sabedoria, pensar em profundidade, amar com generosidade. Neste contexto, os grandes sábios do passado correriam o risco de ver sufocada a sua sabedoria no meio do ruído dispersivo da informação. Isto exige de nós um esforço para que esses meios se traduzam num novo desenvolvimento cultural da humanidade, e não numa deterioração da sua riqueza mais profunda. A verdadeira sabedoria, fruto da reflexão, do diálogo e do encontro generoso entre as pessoas, não se adquire com uma mera acumulação de dados, que, numa espécie de poluição mental, acabam por saturar e confundir. Ao mesmo tempo tendem a substituir as relações reais com os outros, com todos os desafios que implicam, por um tipo de comunicação mediada pela internet. Isto permite seleccionar ou eliminar a nosso arbítrio as relações e, deste modo, frequentemente gera-se um novo tipo de emoções artificiais, que têm a ver mais com dispositivos e monitores do que com as pessoas e a natureza. Os meios actuais permitem-nos comunicar e partilhar conhecimentos e afectos. Mas, às vezes, também nos impedem de tomar contacto directo com a angústia, a trepidação, a alegria do outro e com a complexidade da sua experiência pessoal. Por isso, não deveria surpreender-nos o facto de, a par da oferta sufocante destes produtos, ir crescendo uma profunda e melancólica insatisfação nas relações interpessoais ou um nocivo isolamento.

12 julho 2013

A homilia do Papa em Lampedusa


Emigrantes mortos no mar; barcos que em vez de ser uma rota de esperança, foram uma rota de morte. Assim recitava o título dos jornais. Desde há algumas semanas, quando tive conhecimento desta notícia (que infelizmente se vai repetindo tantas vezes), o caso volta-me continuamente ao pensamento como um espinho no coração que faz doer. E então senti o dever de vir aqui hoje para rezar, para cumprir um gesto de solidariedade, mas também para despertar as nossas consciências a fim de que não se repita o que aconteceu. Que não se repita, por favor. 

(...) 

Nesta manhã quero, à luz da Palavra de Deus que escutamos, propor algumas palavras que sejam sobretudo uma provocação à consciência de todos, que a todos incitem a reflectir e mudar concretamente certas atitudes. 

«Adão, onde estás?»: é a primeira pergunta que Deus faz ao homem depois do pecado. «Onde estás, Adão?». E Adão é um homem desorientado, que perdeu o seu lugar na criação, porque presume que vai tornar-se poderoso, poder dominar tudo, ser Deus. E quebra-se a harmonia, o homem erra; e o mesmo se passa na relação com o outro, que já não é o irmão a amar, mas simplesmente o outro que perturba a minha vida, o meu bem-estar. E Deus coloca a segunda pergunta: «Caim, onde está o teu irmão?» O sonho de ser poderoso, ser grande como Deus ou, melhor, ser Deus, leva a uma cadeia de erros que é cadeia de morte: leva a derramar o sangue do irmão! 

Estas duas perguntas de Deus ressoam, também hoje, com toda a sua força! Muitos de nós – e neste número me incluo também eu – estamos desorientados, já não estamos atentos ao mundo em que vivemos, não cuidamos nem guardamos aquilo que Deus criou para todos, e já não somos capazes sequer de nos guardar uns com os outros. E, quando esta desorientação atinge as dimensões do mundo, chega-se a tragédias como aquela a que assistimos. 

«Onde está o teu irmão? A voz do seu sangue clama até Mim», diz o Senhor Deus. Esta não é uma pergunta posta a outrem; é uma pergunta posta a mim, a ti, a cada um de nós. Estes nossos irmãos e irmãs procuravam sair de situações difíceis, para encontrarem um pouco de serenidade e de paz; procuravam um lugar melhor para si e suas famílias, mas encontraram a morte. Quantas vezes outros que procuram o mesmo não encontram compreensão, não encontram acolhimento, não encontram solidariedade! E as suas vozes sobem até Deus! Uma vez mais vos agradeço, habitantes de Lampedusa, pela solidariedade. Recentemente falei com um destes irmãos. Antes de chegar aqui, passaram pelas mãos dos traficantes, daqueles que exploram a pobreza dos outros, daquelas pessoas para quem a pobreza dos outros é uma fonte de lucro. Quanto sofreram! E alguns não conseguiram chegar. 

«Onde está o teu irmão?» Quem é o responsável por este sangue? Na literatura espanhola, há uma comédia de Félix Lope de Vega, que conta como os habitantes da cidade de Fuente Ovejuna matam o Governador, porque é um tirano, mas fazem-no de modo que não se saiba quem realizou a execução. E, quando o juiz do rei pergunta «quem matou o Governador», todos respondem: «Fuente Ovejuna, senhor». Todos e ninguém! Também hoje assoma intensamente esta pergunta: Quem é o responsável pelo sangue destes irmãos e irmãs? Ninguém! Todos nós respondemos assim: não sou eu, não tenho nada a ver com isso; serão outros, eu não certamente. Mas Deus pergunta a cada um de nós: «Onde está o sangue do teu irmão que clama até Mim?» Hoje ninguém no mundo se sente responsável por isso; perdemos o sentido da responsabilidade fraterna; caímos na atitude hipócrita do sacerdote e do levita de que falava Jesus na parábola do Bom Samaritano: ao vermos o irmão quase morto na beira da estrada, talvez pensemos «coitado» e prosseguimos o nosso caminho, não é dever nosso; e isto basta para nos tranquilizarmos, para sentirmos a consciência em ordem. A cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, torna-nos insensíveis aos gritos dos outros, faz-nos viver como se fôssemos bolas de sabão: estas são bonitas mas não são nada, são pura ilusão do fútil, do provisório. Esta cultura do bem-estar leva à indiferença a respeito dos outros; antes, leva à globalização da indiferença. Neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença. Habituamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é responsabilidade nossa! 

Reaparece a figura do «Inominado» de Alexandre Manzoni. A globalização da indiferença torna-nos a todos «inominados», responsáveis sem nome nem rosto. 

«Adão, onde estás?» e «onde está o teu irmão?» são as duas perguntas que Deus coloca no início da história da humanidade e dirige também a todos os homens do nosso tempo, incluindo nós próprios. Mas eu queria que nos puséssemos uma terceira pergunta: «Quem de nós chorou por este facto e por factos como este?» Quem chorou pela morte destes irmãos e irmãs? Quem chorou por estas pessoas que vinham no barco? Pelas mães jovens que traziam os seus filhos? Por estes homens cujo desejo era conseguir qualquer coisa para sustentar as próprias famílias? Somos uma sociedade que esqueceu a experiência de chorar, de «padecer com»: a globalização da indiferença tirou-nos a capacidade de chorar! No Evangelho, ouvimos o brado, o choro, o grande lamento: «Raquel chora os seus filhos (...), porque já não existem». Herodes semeou morte para defender o seu bem-estar, a sua própria bola de sabão. E isto continua a repetir-se... Peçamos ao Senhor que apague também o que resta de Herodes no nosso coração; peçamos ao Senhor a graça de chorar pela nossa indiferença, de chorar pela crueldade que há no mundo, em nós, incluindo aqueles que, no anonimato, tomam decisões socioeconómicas que abrem a estrada aos dramas como este. «Quem chorou?» Quem chorou hoje no mundo? 

Senhor, nesta Liturgia, que é uma liturgia de penitência, pedimos perdão pela indiferença por tantos irmãos e irmãs; pedimo-Vos perdão, Pai, por quem se acomodou,  e se fechou no seu próprio bem-estar que leva à anestesia do coração; pedimo-Vos perdão por aqueles que, com as suas decisões a nível mundial, criaram situações que conduzem a estes dramas. Perdão, Senhor! 

Senhor, fazei que hoje ouçamos também as tuas perguntas: «Adão, onde estás?» «Onde está o sangue do teu irmão?».

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