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16 janeiro 2025

Em memória de Fernanda Maria (1937 - 2024)

Não passes com ela na minha rua 

Ao fim de tantos anos de ser tua
Amaste outra, casaste, foste ingrato
Vi-te passar com ela à minha rua
Abracei-me a chorar ao teu retrato 

Podia insultar-te quando te vi
Ferida neste amor supremo e farto
Mas vinguei-me a chorar, chorei por ti
Por entre as persianas do meu quarto 

Eu bem sei que me tentas convencer
Mas o que me propões, não é bastante
Se não servi, p'ra ser tua mulher
Também não devo ser a tua amante 

Casaste, sê feliz, Deus te proteja
Não te desejo mal, e tanto assim
Que não tenho ciúme nem inveja
Como a tua mulher teve de mim 

Mas olha meu amor, eu não me importa
Antes que fosses dela, eu já fui tua
Podes sempre bater à minha porta
Mas não passes com ela à minha rua 

***

Ler esta letra com atenção (talvez antes de a ouvir cantada por Fernanda Maria) é perceber uma certa genialidade de Carlos Conde, o seu autor. Em cinco quadras conta-se uma vida - ou um fim de vida: o ciúme, a dor, a dignidade de não ser amante de ninguém. Carlos Conde é impar, basta ler alguns versos de grande criatividade: um amor supremo e farto, o choro entre as persianas do meu quarto, o trocadilho em antes que fosses dela, eu já fui tua, ou a ligação entre porta e rua.

Desaparece Fernanda Maria, e já não há ninguém (parece-me) daquela geração de fadistas. 

JdB 


06 agosto 2019

Versos dos dias que correm (ou fado, canção de vencidos)

Drama de uma velhinha

Senhor Juiz... o meu filho
Não me bateu nem roubou
Com alguém já disse aqui;
Tropecei num empecilho
E ele até me levantou
No momento em que caí

Não tem profissão marcada
Mas na sua triste rota 
Mal ou bem lá se governa
E nunca me exigiu nada
Para perder na batota 
Ou p’ra gastar na taberna

É mentira o que se diz!
Este arranhão sem valor
A marcar o meu desgosto
Não chega a ser cicatriz
É uma ruga maior
Entre as rugas do meu rosto

Senhor juiz... eu sou mãe
E juro que o meu menino
Não me roubou nem bateu
O cadastro que ele tem
Traduz o negro destino
Da sorte que deus lhe deu

Neste conto se adivinha
Mercê de frases tão frias
O destino dum ladrão
E o drama de uma velhinha
Que passa todos os dias
A caminho da prisão

Versos de Carlos Conde

***

Janela da Vida

Para ver quanta fé perdida
E quanta miséria sem par
Há neste orbe, atroz ruím
Pus-me à janela da vida
E alonguei o meu olhar
P´lo vasto Mundo sem fim.

Vi dar aos ladrões valores
E sentimentos perdidos
Nas que passam por honradas
Vi cinísmos vencedores
Muitos heróis esquecidos
E vaidades medalhadas

Vi no torpor mais imundo
Profundas crenças caíndo
E maldições ascendendo
Tudo vi neste Mundo
Vi miseráveis subindo
Homens honrados descendo

Esse é rico, e não tem filhos
Que os filhos não dão prazer
A certa gente de bem
Aquele tem duros trilhos
Mas é capaz de morrer
P´los filhinhos que tem

Esta é rica em frases ledas
Diz-se a mais casta donzela
Mas a honra onde ela vai
Aquela não veste sedas
Mas os garotitos dela
São filhos do mesmo pai

Por isso afirmo com ciso
Que p´ra na vida ter sorte
Não basta a fé decidida
P´ra ser feliz é preciso
Ser canalha atá à morte
Ou não pensar mais na vida.

Versos de Carlos Conde

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