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17 junho 2021

Dos 20 anos

Aos meus 20 anos estava-se em 1978. Nada de muito memorável me vem à memória: estava atrasado nos estudos, tinha amores felizes e infelizes, fazia praia na altura certa e punha meias na altura certa. Tinha amigos, festas, bebia cerveja e dançava. Era imberbe, magro e fumava Português Suave sem filtro - o fumo mais agressivo que atravessou os meus pulmões, sendo que nas veias nunca entrou nada nocivo.

Como me disse um amigo num ano particularmente difícil, aos 20 anos o drama mais grave das nossas vidas era não saber o que fazer nessa noite. O drama era igual em 1977 e, vou apostar, em 1979. Um anos antes de ter 20 anos e um ano depois de ter 20 anos estava atrasado nos estudos, namorava, fazia praia, dançava, etc., etc. Uma vida que, em bom rigor, pouco acrescentava à riqueza das nações.

Ora, acontece que os 20 anos serão importantes - pelo menos do ponto de vista musical. Senão vejamos:

Na sua famosa música, Hier Encore, Charles Aznavour canta:

Hier encore, j'avais vingt ans, je caressais le temps
J'ai joué de la vie
Comme on joue de l'amour et je vivais la nuit
Sans compter sur mes jours qui fuyaient dans le temps
J'ai fait tant de projets qui sont restés en l'air
J'ai fondé tant d'espoirs qui se sont envolés
Que je reste perdu, ne sachant où aller
Les yeux cherchant le ciel, mais le cœur mis en terre

 

 Por sua vez, no seu fado igualmente famoso Primeiro amor, Cidália Moreira canta:

Ai quem me dera
Ter outra vez vinte anos
Ai como eu era
Como te amei, santo Deus!
Meus olhos
Pareciam dois franciscanos
A espera
Do sol que vinha dos teus

 

O que une Charles Aznavour e Cidália Moreira? Em que ponto do Universo, tangível e intangível, se encontram o arménio e a fadista cigana? Em tudo: no palco, na emoção, na paixão pela música e, sobretudo, num olhar retrospectivo sobre os 20 anos - anos de brincar aos amores, de fazer castelos no ar, de ter olhos franciscanos e amores de Santo Deus. 

Os 20 anos cantam-se aos 50 ou aos 60. Ninguém, com 20 anos, canta músicas sobre os 20 anos. Ou, mais certo ainda, ninguém na grande noite do fado infantil deseja ter outra vez 20 anos... Os 20 anos são coisas sempre do passado. Já dos 19 ou 21 ninguém canta...

JdB

02 outubro 2018

Duas Últimas

Soube ontem da morte de Charles Aznavour. Tive um vislumbre fugaz de notícia nos jornais e depois, a meio da tarde, veio a confirmação, veiculada pelo meu amigo ATM. 

Com a morte de Aznavour não morre nenhuma época em mim. Não morrem pessoas a quem o associaria, não morrem lembranças felizes de juventude ou adultez, não morre nenhuma cidade onde tenha sido particularmente feliz. Paris é Paris (embora valha bem uma missa, terão dito) e nunca conheci a Arménia, onde estavam as raizes do cantor. 

Com a morte de Aznavour não se fecha nenhuma porta, nenhum ciclo, nenhuma fase. Nada desapareceu de verdadeiramente palpável com o desaparecimento dele. Não o vi ao vivo, não o conheci, dancei ao som dele uma música - talvez o She - que não me fica na memória, porque tem um ritmo que me é difícil e porque não é das que mais me atrai no repertório dele.

Com a morte de Aznavour desaparece o cantor francês que mais apreciei em toda a vida; admito que num dado momento me tenha entusiasmado com outros - talvez por alturas dos meus 18 anos - mas este cantor específico perdurou. Aprecio-lhe a elegância, o francês, a beleza das músicas, a forma de cantar, as letras. Oiço, oiço e volto a ouvir, com o encanto das coisas nostálgicas, com o encanto de uma época, digo eu, que passou: o tempo das coisas que se apreciam, que se sentem com vagar. Com Aznavour talvez desapareça (também) isso: um certo prazer, uma certa delicadeza, um je ne sais quoi, embora talvez saiba o que é.

Deixo-vos com duas músicas apenas, de entre tantas e tantas que poderia escolher porque as oiço incessantemente. Que c'est triste Venise, porque todos temos a nossa venise em tempos de amores que desapareceram e Hier encore, porque sim, porque há nostalgia, porque há o olhar para trás, porque há uma certa felicidade indizível aos vinte anos, aos dois minutos e nove segundos da música. E porque é muito cá de casa, da minha casa imaterial. 

JdB

    

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