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16 novembro 2020

Música e poema dos dias que correm

 


Simplicidade


Queria, queria
Ter a singeleza
Das vidas sem alma
E a lúcida calma
Da matéria presa.

Queria, queria
Ser igual ao peixe
Que livre nas águas
Se mexe;

Ser igual em som,
Ser igual em graça
Ao pássaro leve,
Que esvoaça...

Tudo isso eu queria!
(Ser fraco é ser forte).
Queria viver
E depois morrer
Sem nunca aprender
A gostar da morte.   

Pedro Homem de Mello, in "Estrela Morta"

24 junho 2019

Duas Últimas

Passei os últimos dias a trabalhar intensamente na tradução de um livro de que falarei um destes dias. Percorri abundantemente os olhos pela Summa Theologica de S. Tomás de Aquino e só lamentei não ter menos 20 anos e saber o que sei hoje, talvez percebesse mais do que percebi. 

Como contraponto à densidade de S. Tomás, deixo-vos com a intensidade de Concha Buika, para aqueles que gostam de coisas intensas, densas, roucas e vindas directamente da alma. Há uma pessoa que põe o seguinte comentário: Javier la mira con una admiración y fascinación absoluta.... a mí, ni mi madre me ha mirado así...

JdB



En la penumbra de esta noche divina y prieta
sobre la tundra que puebla mi alma siempre despierta
se oye un lamento como preludio de las horas muertas
horas que pasan con la agonía de una muerte lenta
vuelve el silencio a vestirme de oro mi santo
vuelve el recuerdo de mis abuelas a endulzar mi espera
vuelven los discos que me enseñaron a adorar la música
volvió mi padre después de 20 años, ay si tú volvieras

si tú volvieras, te vestiría de oro mi santo
callaría las cosas para que pudieras oír mi canto, desesperado

si tú volvieras, te vestiria de oro mi santo
que se calle todo para tú puedas oír mi canto, desesperado

En la penumbra de esta noche de brillante dulce de luz oscura
se oye la voz de mi recuerdo solo caminando lento
se oye el recuerdo de quien quisiera morir en el intento
ay cómo quisiera, ay cómo quisiera quererte menos
ay como quisiera quererte menos y más oscura quisiera quererte lento
no más penurias a la hora de amarte, no más tormento
y si se hicieran realidad todos mis locos sueños
yo dejaría de soñarte tanto y adorarte lento

si tú volvieras, te vestiría de oro mi santo
callaría las cosas para que pudieras oír mi canto, desesperado

si tú volvieras, te vestiría de oro mi canto
callaría las cosas para que pudieras oirme tanto, desesperando.

16 junho 2017

Notas dissonantes - Duas últimas

Há alturas em que gosto da ideia de nota dissonante, uma expressão que podia ser substituída pela ideia de incoerência sociológica, por exemplo. Eu explico: numa família de gente feia, há alguém que se destaca pela sua beleza. Há ali uma dissonância estranha, que podia ser ao contrário - a fealdade pontual no meio de uma beleza generalizada. O encanto manter-se-ia. Em Buenos Aires fui confrontado com este conceito mais do que uma vez, talvez porque estivesse mais atento, não sei porquê, talvez porque tenha conseguido explicar a ideia a um companheiro pontual de viagem de uma geração abaixo da minha. 

Na rua Caminito encontrei uma casal sentado à mesa numa esplanada. Ele era preto, ela era branca. Ambos estiveram o tempo todo de volta dos seus próprios telemóveis, nunca falando um com o outro. Passados 15 minutos, talvez, a artista que no restaurante cantava e dançava tango para os clientes veio buscá-lo para uma fotografia conjunta: a artista todo sensual e coleante e ele de chapéu de feltro debruçado sobre um olho, como se ambos fossem dançarinos locais. Mas ele era preto, e o tango é uma música de brancos, como há músicas de pretos, ou de chineses. Havia ali uma dissonância, como se víssemos um esquimó vestido de campino a dançar o fandango. 

Em San Telmo, no bairro onde fui roubado, o domingo é agitado de gente pelas ruas, pelas bancas, pelas esplanadas, pelos cafés ou pelos bancos de jardim. Não há sofisticação, elitismo, elegância fruto de casacos de peles bonitos ou de gente assumidamente milionária. E não obstante, no restaurante onde estávamos a beber umas tiradas e a comer amendoins com casca, um casal jovem bebia uma garrafa de Moet et Chandon, como se estivessem num hotel sofisticado de Paris.

Deixo-vos com Concha Buika em duas notas dissonantes: a cantar Jacques Brel e a cantar Carlos Gardel.

JdB




09 agosto 2016

Duas Últimas

Está um calor de ananases, diria o Eça (Cartas de Fradique Mendes?). 

O penúltimo casamento a que compareci como convidado deve ter sido o mais chuvoso do ano. O último casamento a que compareci como convidado, embora com um estatuto especial, deve ter sido o mais quente do ano - sábado passado. Comecei a suar pelas 15.30h, altura em que, no jardim, tirei algumas fotografias, e parei de suar 12 horas depois, quando me meti debaixo de um duche frio. Tive o secreto desejo de me abraçar até à eternidade a um aparelho de ar condicionado, mas temi ser mal interpretado.

Enfim, anseio pelo Outono com a mesma vontade com que o veado anseia pelas águas cristalinas. Não sei o que fazer com tanto calor, tanto incómodo, tanta loja de perfume e tanta pomba assassinada. Imaginar que teria de postar para amanhã foi penoso, que até o editor e dono do estabelecimento tem raivas intestinas. 

Enfim, pedi ajuda ao meu filho e nora, que me salvaram com um desvelo que comove. Deixo-vos, portanto, com Concha Buika. Se não gostarem digam, que eu indico o telefone dos responsáveis.

Sejam felizes - com menos 10ºC.

JdB


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