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31 outubro 2019

Poemas dos dias que correm

O 3 de Maio de 1808 em Madrid  (Francisco de Goya, 1814)

Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena

22 abril 2016

Do passado e do futuro

Heráclito, grego que viveu e morreu por alturas do Século V a.C., percebeu que a a água do rio que passava por ele nunca era a mesma. Para o filósofo, só a mudança e o movimento são reais. Mais de dois mil anos depois, aparentemente sem nenhuma conexão entre ambos os personagens da cultura mundial, Francisco de Goya, espanhol, desenhava nas paredes de sua casa um quadro terrível, intitulado qualquer coisa como Saturno devorando os seus filhos. De acordo com uma interpretação tradicional, o quadro representa Chronos que, receoso de perder o poder para os seus filhos, os comia à nascença.


O pintor espanhol ter-se-á baseado num quadro de Rubens sobre o mesmo tema 


O que liga Heráclito e Goya (ou Rubens)? Aparentemente nada, a não ser que entendamos que Chronos não devora o futuro mas o passado. Os filhos não representariam o o porvir, o caminho pela frente, mas apenas o passado. Chronos devora o passado para o passado não o devorar a ele. Tal como Heráclito, o tempo flui, só a mudança e o movimento são reais. A água que no rio me banha os pés já não volta a banhar-me.

Os quadros são incomodativos pela sua violência gráfica. Não sei mesmo qual deles incomodará mais. Resta-nos, por isso, uma interpretação mais desafiante que aligeire o sangue que escorre e a carne que é repuxada. Imaginemos Saturno - ou Chronos - não a alimentar-se do que já foi, o que lhes alimentaria a nostalgia, mas a alimentar-se do que está para vir. Algum futuro, como sabemos, só se constrói eliminando o passado. E eliminar pode não significar matar, mas apenas guardá-lo no sítio certo.

JdB

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