Sempre gostei do Kris Kristofferson. Escritor, actor, cantor e intérprete de vários géneros musicais (folk, rock, country), fui seguindo, ainda que muito esporadicamente, a carreira deste artista relativamente desconhecido do público português. Para além de sempre o ter achado bem giro e de gostar do seu sorriso franco e aberto, lembro-me do seu romance com a Barbara Streisand e de ter sido casado com a Rita Coolidge, uma cantora “do meu tempo” (muito famosa na América, aqui francamente menos). Hoje em dia já não é (nada) novo – nasceu em 36 – mas teve uma vida incrivelmente cheia: desportista nato, 8 filhos, 3 mulheres, uma passagem honrosa pela vida militar, intelectual (tem um degree em Literatura pela Universidade de Oxford), dado às drogas e aos excessos durante largos anos, foi autor de canções de grande sucesso, privou com n artistas do seu tempo, ganhou Emmys e Grammys … enfim, uma vida rica de conteúdos. (e se dúvidas houvesse quanto a isso, reparem na letra da canção abaixo).
Desta vez, procurando músicas alusivas ao Natal, encontrei esta balada country que achei particularmente bonita e comovente. Da sua autoria (1972), foi reinterpretada mais tarde por Johnny Cash, artista de quem o PO já falou há muitos meses atrás.
Ora ouçam:
why me lord?
what have i ever done,
to deserve even one,
of the pleasure i've known,
tell me lord,
what did i ever do,
that was worth lovin' you,
for the kindness you've shown,
lord help me Jesus,
i've wasted it so help me Jesus,
i know what i am,
but now that i know,
that i needed you so help me Jesus,
my souls in your hand,
try me lord,
if you think there's a way,
i can try to repay,
all i've takin' from you,
maybe lord,
i can show someone else,
what i've been through myself,
on my way back to you,
Jesus, my soul's in your hands
what have i ever done,
to deserve even one,
of the pleasure i've known,
tell me lord,
what did i ever do,
that was worth lovin' you,
for the kindness you've shown,
lord help me Jesus,
i've wasted it so help me Jesus,
i know what i am,
but now that i know,
that i needed you so help me Jesus,
my souls in your hand,
try me lord,
if you think there's a way,
i can try to repay,
all i've takin' from you,
maybe lord,
i can show someone else,
what i've been through myself,
on my way back to you,
Jesus, my soul's in your hands
À primeira vista, esta canção não tem nada a ver com o Natal. E, no entanto, tem. Tem porque se não fosse o nascimento de Jesus, dessa figura divina e humana que veio ensinar a Paz e dar um sentido mais profundo à existência humana, nem o Kris Kristofferson (nem ninguém) poderia ter escrito uma canção tão doce, tão humilde, tão cheia de gratidão e abandono absoluto (curiosamente, fez-me lembrar os escritos de Santa Teresinha do Menino Jesus!). Não sei, talvez seja meu problema, mas não estou a ver nenhum budista, hindu ou muçulmano a escrever uma canção tão “doce”! E tem a ver com o Natal por uma segunda razão: é que todo o nascimento (e o Natal é O nascimento por excelência) é sinónimo de renovação e de abertura ao futuro. Que, por definição, encerra todas as potencialidades. O futuro é fresco, é puro, é uma tela branca onde podemos pintar o que quisermos. Ainda que as experiências passadas nos tenham tingido e quebrado. O Natal representa a possibilidade de nos renovarmos e de podermos reescrever a nossa vida interior e história pessoal. Talvez não com a alegria espontânea das crianças, com a esperança da juventude, com o entusiasmo dos 20’s, mas com a certeza das conquistas interiores: que o Amor não é uma abstracção e que “my (our) soul's in your hands”.
Um Santo Natal para todos.
pcp