Mostrar mensagens com a etiqueta Luiza Neto Jorge. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luiza Neto Jorge. Mostrar todas as mensagens

06 março 2018

Poemas dos dias que correm

Acordar na Rua do Mundo

madrugada, passos soltos de gente que saiu
com destino certo e sem destino aos tombos
no meu quarto cai o som depois
a luz. ninguém sabe o que vai
por esse mundo. que dia é hoje?
soa o sino sólido as horas. os pombos
alisam as penas, no meu quarto cai o pó.

um cano rebentou junto ao passeio.
um pombo morto foi na enxurrada
junto com as folhas dum jornal já lido.
impera o declive
um carro foi-se abaixo
portas duplas fecham
no ovo do sono a nossa gema.

sirenes e buzinas, ainda ninguém via satélite
sabe ao certo o que aconteceu, estragou-se o alarme
da joalharia, os lençóis na corda
abanam os prédios, pombos debicam

o azul dos azulejos, assoma à janela
quem acordou. o alarme não pára o sangue
desavém-se. não veio via satélite a querida imagem o vídeo
não gravou

e duma varanda um pingo cai
de um vaso salpicando o fato do bancário

Luiza Neto Jorge, in 'A Lume'

***

O Êxito Parece a Mais Doce das Coisas

O êxito parece a mais doce das coisas 
A quem nunca venceu na vida. 
Ter a compreensão de um néctar 
Exige a mais dolorosa necessidade. 

De entre o purpúreo Exército 
Que hoje empunhou a Bandeira 
Nenhum outro poderá dar uma tão clara 
Definição da Vitória 

Como o vencido - agonizante - 
Em cujo ouvido interdito 
A distante ária triunfal 
Ressoa nítida e pungente! 

Emily Dickinson, in "Poemas e Cartas" 
Tradução de Nuno Júdice 

Acerca de mim

Arquivo do blogue