Comecei nestes congressos em 2009, talvez, em S. Paulo, Brasil. De lá para cá falhei alguns, assisti a muitos, fossem globais fossem regionais. Ao longo destes 17 anos fiz amigos, conheci dezenas e dezenas de pessoas, chorei, ri-me, comovi-me com histórias.
Talvez já tenha partilhado esta ideia aqui. Quando me perguntaram o que tirava eu de 17 anos de oncologia pediátrica a nível global, a minha resposta foi rápida: (i) a fantástica comunidade que se formou entre Pais e profissionais de saúde. Uma comunidade solidária, que reconhece a importância de ser médico e de ser Pai para a sobrevivência das crianças e jovens com cancro; (ii) uma metáfora: em Washington, num dos congressos, uma egípcia a dançar com um israelita. Era uma altura em que a política não tinha a relevância que tem agora, e a dança de dois 'países' tradicionalmente inimigos - ou com relações sempre tensas - é uma metáfora: nada é tão relevante como a doença dos nossos filhos; (iii) os Pais querem contar a história dos seus filhos e nem sempre encontraram uma escuta activa. Aqui sim, porque falamos todos a mesma linguagem, os nossos ouvidos e corações estão abertos para esta realidade.
Este talvez seja o meu último congresso. Já não sendo presidente da Acreditar, faz sentido dar o lugar ao meu sucessor. Foi com muito gosto, por isso, que acompanhei o Álvaro Bessa, Pai e novo presidente da associação que se estreia nestas andanças. Por razões políticas, o número de participantes neste congresso - sejam de organizações de Pais, sejam de profissionais de saúde - é muito menor do que os costume: da Europa muita gente não vem por questões políticas; de África vem pouca gente, porque a maior parte dos países faz parte da lista negra para concessão de vistos. Mesmo assim será uma boa experiência para o Álvaro: conhece pessoas, fica a par da dinâmica do CCI e da conferência, derrama um olhar mais vasto e global sobre o mundo da oncologia pediátrica. Acompanhar o Álvaro Bessa é, também, olhar em frente, perceber a continuidade
Só quem me conhece e me vai ouvindo percebe o que deixo para trás: os conhecimentos técnicos, a dimensão social e humana, as apresentações e as histórias que me comoveram, as coincidências significativas, as amizades, a rede construída, as histórias fantásticas de gente que faz tanto com quase nada, a minha vida partilhada com pessoas que mal conhecia. E também uma grega, outsider desta comunidade, que me dedicou e autografou um livro de poemas bilingue, do qual retiro duas linhas sobre esperança:
E quando desperta / representa uma ameaça iminente para a realidade.
JdB

2 comentários:
JB,
admiro a sua determinação e coragem para pegar numa situação tão dolorosa e transformadora e enveredar por esse caminho tão altruista. Se nada ficou igual, permito-me dizer que você ganhou uma dimensão superior e ficou mais perto do céu, onde mora a Madalena
Obrigado, Francisca. Nunca se sabe se fazemos isto pelos outros ou para nos salvarmos... Há-de ser ela que me inspira.
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