Mostrar mensagens com a etiqueta Padre Ricardo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Padre Ricardo. Mostrar todas as mensagens

30 junho 2016

Padre Ricardo - livros dos dias que correm

Do prefácio da obra, de D. Manuel Clemente: “tudo é direto, como só acontece com quem já sabe e não precisa de andar à volta do assunto. Tudo é expressivo, com alusões fortes e certeiras. Fala de Cristo e das Bem-Aventuranças, lembra-nos o Sermão da Montanha como quem realmente O ouviu e já subiu ao monte. Não acontece assim com muitos. Mas acontece em alguns por todos e para todos. Aconteceu com o Padre Ricardo, por ele e para nós. Nos dois braços da Cruz, vertical e horizontal como são”.




12 agosto 2015

Ainda do Padre Ricardo

Faz hoje uma semana que morreu o Padre Ricardo. Nas conversas de amigos, de gente que é paroquiana do Estoril, fala-se de outras coisas, mas a morte dele surge sempre. Nas duas missas a que fui (5ªf e 6ªf) a Igreja da Boa Nova estava cheia, a deitar por fora. Muitas centenas de pessoas daqui, mas também de outros sítios; muitas dezenas de padres, diáconos, acólitos, quatro bispos, o Cardeal Patriarca. O elencar aparentemente estatístico das pessoas obedece a um critério - não o da importância da pessoa que morreu, mas das tantas e tantas pessoas que ele tocou durante as suas funções no seminário, em Santo António do Estoril, em tantos casais e em tantas famílias. Mas também da forma como morreu - uma brutalidade num homem bom, com 42 anos.

O Padre Ricardo não tinha importância institucional. Actualmente seria fundamentalmente prior de uma paróquia, com uma ou outra função. A multidão que lhe fez companhia nas duas missas de corpo presente não seguiu uma personalidade relevante a nível nacional, um pensador com créditos firmados publicamente, um candidato a qualquer coisa ou alguém que já foi qualquer coisa. As pessoas seguiram o homem Padre Ricardo Neves - o homem que dava abraços como se não nos visse há anos, que nos conhecia pelo nome, que nos identificava a história, que nos desafiava com compaixão e amor firme até às lágrimas; o homem que ria, que fazia caretas, que nos dizia uma graça provocadora e que se ria das que lhe dirigíamos; o homem que tinha uma fé inquebrantável e uma agenda de loucos.

À minha volta vi vários homens comovidos. Gente feita e direita, de barba rija, alguns com a sua dose de estragos e dramas. Para cada um destes, para cada um de nós - para mim - não morreu o prior: morreu o homem que me ouviu, que me falou, que me ensinou, talvez que comigo tenha aprendido um módico de coisa nenhuma, que me fez perguntas cujo alcance só percebi mais tarde, que preferiu a compaixão ao cumprimento estrito de um regra seca e, sei lá eu, de uma quase desumanidade árida. Não morreu, de facto, o prior: morreu o Padre Ricardo que existia em cada um de nós, que vivia com cada um de nós. 

Com o desaparecimento do Padre Ricardo desaparece mais do que um interlocutor: desaparece quem me conhecia a alma e os dramas, os desejos e as alegrias; desaparece o homem mais pequeno a quem abracei forte e comovidamente depois de lhe desnudar tantas e tantas vezes a minha vida. Com o desaparecimento dele não acaba o meu mundo, mas fecha-se um ciclo na minha vida de paroquiano de Santo António do Estoril. Ainda não sei o que isso quer dizer, pelo que talvez volte ao tema.

JdB    

07 agosto 2015

Dos dias desafiantes (e sobretudo do Padre Ricardo)

Aqui há cerca de quinze dias escrevi um post intitulado 'Crer tudo ou negar tudo', assente num excerto muito bonito, mas sobretudo muito desafiador, d'A Peste, de Albert Camus: 'Meus irmãos, chegou o instante. É preciso crer tudo ou negar tudo. E quem, de entre vós, ousaria negar tudo?'

Há poucos meses soube que um amigo recente sofria de uma doença grave. Foi internado na semana passada, quase ao mesmo tempo que a mulher de um primo que, na sequência de um aneurisma, está no hospital em coma induzido. Nesse mesmo dia, uma grande amiga de uma pessoa que me é próxima - e que vive momentos familiares muito difíceis - era morta a tiro pelo ex-namorado. Este amigo recente morreu anteontem, um dia antes do Padre Ricardo Neves, pároco do Estoril, muito muito lá de casa, com 40 e poucos anos e um destino traçado há meses. Dois outros amigos / primos sofrem de uma problema de saúde grave, com um prognóstico muitíssimo reservado. Podia citar mais exemplos, mas fico-me por aqui.

(Lembro-me de há alguns anos, talvez na sequência do tsunami que matou milhares e milhares de pessoas, um jornal perguntar a representantes de várias confissões religiosas: onde estava Deus nesse dia?)


Hoje, talvez, irei a uma missa por alma do Padre Ricardo. Gostava que o Cardeal Patriarca, que celebrará, nos falasse ao ouvido, encostasse o ombro a cada um dos nossos ombros, chorasse com quem chorar, desse as mãos a quem tremer de saudade ou de pena ou de frio na alma. Talvez eu queira falar-lhe no amigo que morreu, na mulher morta a tiro que tanta falta faz a quem já pouco tem, na pessoa que está em coma induzido, nos outros dois agarrados à vida e aos próximos por um fio cada vez mais ténue. Gostava de lhe falar nas crianças que morrem antes do riso adolescente, nos adultos que morrem antes do tempo estatístico, em todos os que sofrem cheios de lembranças e lágrimas. Gostava de lhe falar no Pe. Ricardo e na falta que me faz. Gostava de lhe falar dos abraços dele, dos desafios que me lançou, na compaixão com que me ouviu ou na sabedoria com que me respondeu. Gostava de lhe falar no capital de inteligência, proximidade, fé militante que desaparece com ele. Gostava de lhe perguntar o que se está a passar... 

Não esqueço a minha condição de crente, de quem está certo da existência da eternidade, do colo imenso de Nossa Senhora, do céu azul e infinito onde cabem todos, que Deus não é senão amor. Mas, reconheço, não quero que me falem de vida eterna, da dimensão teológica da morte, da inevitabilidade que nos toca a todos, de Jesus Cristo que a venceu. Talvez gostasse que nos sentássemos e reconhecêssemos a nossa pequenez, a nossa tristeza, a nossa incredulidade - talvez até a nossa perplexidade ou mesmo o sentido de injustiça de tudo. Ontem, à hora a que escrevia, não queria palavras piedosas nem cheias de esperança num futuro de uma dimensão superior. Talvez quisesse que alguém me dissesse, cheio de uma humanidade frágil e reconfortante: a gente não percebe nada disto... 

Creio tudo, porque não quero negar tudo. Mas há dias difíceis...

JdB    

Acerca de mim

Arquivo do blogue