As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
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10 novembro 2025
17 maio 2022
30 julho 2013
Duas Últimas (ou da gestão das amizades)
Como formamos amizades? Melhor ainda, como as mantemos? Poderíamos falar na antiguidade, no manancial de memórias comuns que revestem os amigos de um capa que os protege da erosão do tempo. Poderíamos falar na semelhança de interesses, sangue, percursos, que juntam seres humanos e lhes conferem um relacionamento mais ou menos duradouro. Poderíamos falar ainda da intensidade com que as pessoas convivem umas com as outras, o grau de intimidade, de proximidade, de partilha.
Não haverá, estou certo, argumentos que se excluam. Talvez a resposta à pergunta inicial seja apenas uma: tudo é possível, tudo é aplicável - a antiguidade, a semelhança, a proximidade, outras. Talvez uma resposta à pergunta inicial não esteja tanto na generalização do universo, mas na redução ao indivíduo: como formo eu as amizades, como as mantenho eu? Mesmo com este afunilamento do espectro não haverá, seguramente, respostas únicas. Se calhar a forma como criamos e mantemos os nossos amigos é mais uma vez díspar - a antiguidade, a semelhança, a proximidade, outras.
Em momentos da vida de um indivíduo - e falo, sobretudo, da minha faixa etária - há escolhas que se fazem, porque somos amigos da maria e do manel e um deles desapareceu, porque somos amigos da maria e do manel e os dois estão desavindos, porque somos amigos da maria e do manel mas aproximamo-nos naturalmente de um ou de outro. O que nos faz pender para a maria ou para o manel? O que nos faz continuar com um quando o outro desapareceu? Haverá respostas certas? Não sei, mas estou em crer que a proximidade é um factor importante. Não falo apenas da proximidade inerente a amizades antigas e militadas mas, sobretudo, da proximidade que advém da partilha da intimidade, da quantidade de vezes que abrimos a alma a quem, à nossa frente, aprecia um café e uma bola de berlim enquanto ouve as nossas angústias, as nossas incoerências, as nossas inseguranças.
Em momentos de viragem, dificilmente as amizades resistirão à antiguidade e à semelhança se a relação não tiver sido alimentada com outras coisas. Um pouco como se houvesse uma estética e uma rotina no relacionamento que não sobrevivem à eventualidade das escolhas, dos tempos difíceis, do desejo de interlocução e de intimidade, do lugar único à mesa que se prefere ocupar com um coração que se abriu connosco, e não com a finura de umas mãos ou com o porreirismo de uma conversa.
Nicolas de Chamfort, francês e poeta, entre outras coisas, terá afirmado: M. dizia: "renunciei à amizade de dois homens, um porque nunca me falou de si, o outro porque nunca me falou de mim."
Deixo-vos com Pavarotti and friends, porque me pareceu a propósito...
JdB
06 março 2012
Duas últimas
Em África, ou pelo menos no país em que me encontro, o Zimbabwe, a religião é levada a sério. Aqui não há agnósticos e muito menos ateus e, se os há, não se assumem. É habitual, num qualquer contexto social, perguntarem-me que igreja frequento e suscitarem assuntos religiosos para fazer conversa. Os estrangeiros e principalmente os europeus, campeões do laicismo, sentem-se muitas vezes ofendidos com estas manifestações de religiosidade e consideram-nas um sinal de sub-desenvolvimento.
Perguntaram-me ontem qual era o meu sacrifício de Quaresma. Assim, sem mais nem menos. A pessoa que me fez a pergunta nem sequer me conhecia bem e não sabia portanto se eu era cristão. Não lhe passou pela cabeça que a pergunta pudesse ser deslocada ou considerada indiscreta. É sub-desenvolvimento, dirão os europeus. Os africanos contrapõem no entanto que o declínio da Europa começou exactamente com a negação da Fé. "O futuro pertence-nos porque nós temos Deus e vocês já O abandonaram", dizia-me no outro dia um amigo local.
Depois de todas estas acusações, senti-me compelido a postar algo alusivo à quadra quaresmal. Para que os africanos saibam que nem tudo está perdido na Europa.
JdC
31 maio 2011
Duas últimas (ou crónica de um peregrino urbano, parte III)
À hora a que me lerem - queridos Amigos, companheiros deste modesto mas tocante espaço - estarei em Itália. Gostava de dizer que estou a banhos, porque a expressão encanta-me, mas sou demasiado cívico para me jogar na Fontana di Trevi com umas bermudas elegantes, um polo da margem sul, uns óculos de ver ao perto e um corpo que já conheceu melhores dias. Há a prudência e o pudor - e eu tenho ambos.
Hoje - estimados Visitantes, erráticos ou não, deste albergue que também é vosso - ofereço-vos duas-pérolas-duas, como se fosse um cartaz tauromáquico a anunciar hastados e matadores. Pareceu-me boa ideia brindar-vos, não com uma faena audaz, mas com uma singeleza popular: Pavarotti, o tenor que maravilhou o mundo - e não só - entoa duas músicas italianas que podereis (apeteceu-me esta segunda pessoa do plural, tradição de um clericalismo démodé) escutar com os ouvidos e com os olhos, mas também vice-versa, se assim me faço entender. Isto, a bem dizer, sou eu a dizer onde estou e a levantar um peti rien d'envie (este francesismo é oferecido ao saudoso ATM) nos meus poucos leitores.
No dia em que esta crónica sai talvez esteja em Roma, escorropichando uma imperial na Piazza Navona, imaginando histórias sobre as belezas autóctones, dizendo grazie com a presunção de quem quer ser um deles, e não um qualquer turista que come esparguete mau com os olhos revolvidos de gastronomia ignorante; talvez esteja em Florença, debruçado sobre o Arno, afagando as pedras da Ponte Vecchio e imaginando-me um nobre renascentista, debruçando um olhar de patrono generoso sobre um pintor em início de carreira.
A conversa convosco é muito agradável, mas, se não se importam, vou debicar um spaghetti alla putanesca e volto já. No fundo é isto.
JdB
http://www.youtube.com/watch?v=AVpl983ytNg&feature=player_embedded
http://www.youtube.com/watch?v=fVhKPHFzPMQ&feature=player_embedded
11 novembro 2010
Deixa-me rir...
A propósito da grande novidade introduzida este ano na programação da nova temporada Gulbenkian, resolvi escolher esta aria do L’Elisir d’Amore, do Donizetti. A propósito da novidade e porque adoro ópera, bem entendido.
Excessiva, exagerada, dramática, elitista e, claro, extremamente cara, a ópera é, para mim, o apogeu, tantas vezes sublime, do extraordinário casamento das artes musicais, do teatro e da cenografia, enquadradas por um virtuosismo vocal, às vezes quase surreal, que não deixa indiferente quem as presencia e ouve.
Talvez por isso mesmo, e à semelhança de outros países europeus, a Gulbenkian resolveu incluir algumas óperas na sua programação para o ano 2010/2011. Este ano é possível assistir, no Grande Auditório da Av. de Berna, à transmissão em directo, a partir do Metropolitan de Nova Iorque, de um conjunto de óperas que começam já no próximo sábado com o Dom Pasquale do Donizetti, passando pela Traviata do Verdi em Abril do próximo ano, com algum Wagner, e outros, à mistura.
Os bilhetes são baratíssimos e a ideia excelente. Assistir numa mega tela - ou seja, "quase lá" - à chegada das pessoas, ao frenesim que antecipa os grandes eventos, o presenciar o afinamento dos instrumentos musicais, o movimento da câmara e os grandes planos da sala de espectáculos e de senhoras e senhores impecavelmente vestidos ou, antes pelo contrário, de jovens totalmente baldas mas profundamente apaixonados por uma arte que não é do seu tempo, é, a meu ver, algo de verdadeiramente estimulante.
E é também o sentirmo-nos enquadrados por um ambiente cosmopolita, de verdadeiro luxo intelectual e artístico, numa ilusória sensação de pertença a um mundo ao qual só temos acesso quando viajamos. Lamentavelmente (ou não), estamos longe, muito longe, deste nível de cultura, desta oferta do que há de melhor no mundo a nível artístico. Para mim, que gosto de cultura, isto é mais ou menos heaven. Mas don’t take me wrong! Não quero com isso dizer mal do meu país, tão fustigado pela comunicação social nos últimos tempos, tão maltratado pelos nossos governantes e tantas vezes por nós próprios. Basta ler os jornais, revistas, assistir a determinados programas na RTP2 ou ler a Time Out Lisboa e Porto, para nos apercebermos que o panorama das artes e da cultura em Portugal está cada vez melhor. E que os prémios se vão acumulando. E que a nossa visibilidade lá fora é cada vez maior. E que os nossos criadores se têm desdobrado em obra feita, alimentados por referências nacionais e influências estrangeiras, agora que vivemos num mundo cada vez mais global. Por isso não me interpretem mal! Adoro o meu país – então da nossa arquitectura nem se fala (a minha preferida de todas as que conheço) -, o Rui Veloso, o Rodrigo Leão, os fadistas de outros tempos (talvez à excepção da Kátia Guerreiro), a nossa língua, os nossos Miguel Torga, Eça de Queiroz ou Fernando Pessoa, a nossa poesia (nomeadamente a do gi!), as nossas livrarias antigas, a moda do José António Tenente, o programa Bombordo, a efervescência do Chiado, a beleza da Ribeira, as noites nos Clérigos, as árvores do Porto, o romantismo de Sintra, a luz de Portugal (ouro no Sul, prateado no Centro, verde e fria no Norte), o vento atlântico, a nossa magnanimidade, o facto de termos coroado Nossa Senhora como Rainha de Portugal, enfim… não parava de dizer bem do nosso país. Por isso, termino já, já. Espero que gostem da minha escolha desta semana.
PCP
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