As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
Mostrar mensagens com a etiqueta Rachmaninov. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rachmaninov. Mostrar todas as mensagens
23 fevereiro 2026
15 outubro 2018
Da música e dos povos
Uma leitura mais arrojada da história da música suscitará esta interrogação: o que apareceu primeiro: a música, ou os povos que a compõem? Isto é, somos o que cantamos ou cantamos o que somos? A resposta mais óbvia dirá que os povos surgiram primeiro. A resposta mais diplomata - e a diplomacia pode ser uma forma de adiamento das resoluções - dirá que o importante é a beleza das coisas; a resposta arrojada afirmará, categoricamente, que a música surgiu antes de ser composta.
Se pegarmos na última teoria - e só essa é que interessa neste tempo outonal - podemos então defender que o samba é anterior ao achamento do Brasil, pelo que, nesse sentido, foi a música (que já existia) a fazer o brasileiro - e não a inversa. Talvez o samba já existisse e requeresse apenas uma mente que o puxasse para fora, uma voz que o cantasse ou um corpo que o requebrasse.
Em 1900 o conde Tolstoi escrevia um texto, que intitulou "tinha de ser assim?", onde pinta um retrato terrível da sociedade desse tempo: um retrato de miséria e opulência, de tristeza e sofrimento, de fome e excesso. Um retrato com cores outonais ou invernosas, onde a alegria não tem lugar e os corpos estão cobertos de chagas, de pele e osso, de jóias e caviar. É um tempo doloroso, que existiu em tantos outros países, em tantos outros tempos.
Em 1915 Sergei Rachmaninov compunha as Vésperas, a sua maior obra para coro a capella. Uma obra monumental, baseada em antigos cantos tradicionais, que recupera raizes nacionais e pretende fugir das influências ocidentais. Uma obra terrível, como só a beleza absoluta o pode ser. Uma obra volumosa e densa, inadequada para tempos modernos de ligeireza e rapidez, imprópria para quem acha que o mundo é o seu pequeno mundo.
Tal como não foi Ary Barroso que compôs Aguarela do Brasil (embora em termos oficiais o seja) também, em bom rigor, não foi Rachmaninov quem compôs as Vésperas. Quando, em 1500, Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, já ouviu o ritmo daquele batuque, batuque que fez do brasileiro o que ele é. O conde Tolstoi em 1900, e o compositor quinze anos depois, revelaram o que já existia desde há milénios: o peso, a sonoridade baixa, a espessura, a elevação ao céu de almas divididas entre o penoso e a abundância.
Parece-me óbvia a resposta à pergunta inicial: na verdade, é a música que faz os povos.
JdB
Etiquetas:
JdB,
música,
Rachmaninov,
Tolstoi,
Vésperas
09 dezembro 2016
Das parábolas
"Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles; de outro modo, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está no Céu.
Quando, pois, deres esmola, não permitas que toquem trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, a fim de serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: Já receberam a sua recompensa. Quando deres esmola, que a tu mão esquerda não saiba o que faz a direita, a fim de que a tua esmola permaneça em segredo; e teu Pai, que vê o oculto, há-de premiar-te." (Mt 6, 1-4)
***
Que este post, escrito no dia em que houve ordenações e lembramos o dia antigo da mãe e pensamos na importância de Nossa Senhora em Portugal, não seja considerado inadequado ou atentatório da moral e dos bons costumes.
No tempo de Mateus a criatividade era bem mais simples, ou bem mais pobre. Cristo socorria-se das parábolas para ensinar palavras sábias às mentes inocentes. Eram comparações que Ele, na Sua infinita sabedoria, acreditava ter um intuito pedagógico. E as parábolas ficaram até hoje, para deleite de muitos, indiferença de alguns e desprezo de poucos.
O excerto acima, do Evangelho de S. Mateus, não contém nenhuma parábola. Ensina, segundo se crê, a virtude da discrição, da humildade que sempre deve haver, mesmo nos grandes obras; ensina a colocar os olhos em baixo, postura tão do agrado da vida monacal e que contaminou a atitude das senhoras virtuosas. Que façamos caridade, mas não o façamos com alarde; que ajudemos o próximo, mas não o gritemos aos quatro ventos. Se acreditarmos que Mateus quis falar disso não vamos mal servidos, e temos ensinamento para o resto da vida.
Ora, acontece que Mateus nos fala em modo parábola, e menciona uma actividade que não existia no tempo dele, nem no tempo dos filhos dele ou dos filhos dos filhos dele - e por aí em diante, até uma certa descendência. Por mais que achemos estranho, uma parte substantiva da meia dúzia de linhas que encima este post tem a ver com uma actividade artística - a de pianista.
Temos duas mãos. Para cortar carne, uma mão segura a peça, a outra insere a faca em movimentos de vaivém - há um trabalho síncrono; para partir um ramo de árvore, pegamos no dito ramo com ambas e mãos e sujeitamo-lo a movimentos alternados, até a gavinha partir à fadiga - há um movimento síncrono. Podia citar exemplos variados, mas arrisco à debandada geral.
Uma pianista tem duas mãos, mas acontece que a mão esquerda não sabe o que faz a direita, porque entre ambas parece não haver qualquer sincronismo - uma vai para a esquerda enquanto a outra vai para a direita, uma zurze o teclado com vigor enquanto a outra o percorre com uma doçura erótica; uma fala-nos no sofrimento do homem, enquanto a outra nos mostra o sublime de um mar impetuoso.
Peço desculpa por qualquer coisinha mais pagã, mas hoje foi para aqui que tombei... Ora atentem no video abaixo. Se não conseguirem ver que a mão direita não sabe o que faz a esquerda, imaginem; se não conseguirem imaginar, apreciem a beleza serena de Hélène Grimaud. Só isso é já de si uma espécie de esmola. Como esta música que ela toca, antes de ir alimentar os lobos.
JdB
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Acerca de mim
- JdB
- Estoril, Portugal