Mão amiga mandou-me este youtube. Ouvi-o uma vez no telemóvel e não gostei muito. Tenho uma relação ambígua com o violino: se for integrado numa orquestra ou for um concerto gosto muito, se for muito isolado acho um pouco estridente. Comentei isto com quem me mandei que me respondeu: tem que ouvir alto para conseguir contemplar esta obra prima, eu ontem ouvi isto em repeat horas consecutivas. Fui ouvir alto numas boas colunas - e gostei. Talvez não ao ponto de ouvir isto em repeat, mas...
Na semana passada fui ver Romeu e Julieta de Gounod à Gulbenkian. Do alto da minha ignorância, e se me tivessem perguntado o que compôs o músico francês (Paris 1818 - 1893), teria respondido sem hesitar: uma ave-Maria... Compôs mais, muito mais, mas não é a contabilidade musical que aqui me traz.
À saída perguntei a opinião a amigos que também haviam assistido ao concerto. Nenhum dos dois gostara, e um deles disse-me uma frase enigmática que não explorei, porque entretanto se interpôs uma multidão e, posteriormente, uma ceia: Faltou ali Shakespeare...
Romeu e Julieta é, de facto, uma obra de Shakespeare. Na ópera de Gounod, no caso vertente com uma encenação moderna e uma história que pode desviar-se um pouco (muito ligeiramente, penso eu) do original, os protagonistas falam em francês. Por outro lado, para mim ópera tem três línguas: italiano, alemão e russo, cada uma com as suas peculiaridades. O francês associo-o à opereta. Assim sendo, ouvir uma ópera em francês já pode ser um motivo de estranheza. Se lhe associarmos a estranheza de ouvir uma peça de Shakespeare em francês...
Não tenho a certeza de o meu raciocínio estar certo. Ouviria de bom grado o Hamlet em português ou em inglês, mas estranharia ouvi-lo em francês. Não há lógica na estranheza, porque um francês poderia dizer o mesmo se ouvisse o Hamlet em português (presumindo que entenderia o texto). O que significa, então, faltar Shakespeare à ópera de Gounod? Não sei, e talvez a frase nada tenha de críptico, mas apenas de desilusão inexplicável de forma simples. A língua em que uma determinada obra é cantada / falada afecta a percepção e apreciação que fazemos dela? O D. Quixote tem de ser sempre falado em castelhano, nunca em alemão? Mas o Guerra e Paz, obra russa, pode ser falado em inglês? E se for em americano? E para um japonês é esteticamente normal ouvi-lo na sua língua natal?
Em Outubro do ano passado escrevi um post, a que intitulei Da música e dos povos, em que me questionava o que tinha surgido primeiro, se os povos se as músicas. Isto é, eram os povos que faziam a música ou era a música que fazia os povos. Por uma questão de arrojo irresponsável achei que a hipótese mais interessante era a última: era a música que definia o que os povos seriam. O tema ficou adormecido dentro de mim, até porque não tinha mais sabedoria para acrescentar ao tema.
Ontem jantei num restaurante semi-taberna que disponibiliza fado amador. Nunca fui grande apreciador deste tipo de fado mas fui com gosto, até porque iria conhecer gente potencialmente interessante. O acompanhamento era de qualidade superior ao dos cantadores, todos eles populares, amigos da casa, que fazem desta actividade o cumprimento de um gosto genuíno onde talvez não haja dinheiro envolvido. O estabelecimento é familiar e, numa dada altura, o dono e a cozinheira (casados um com o outro) dançavam na cozinha enquanto um tocador de harmónica se entretinha com a ternura dos quarenta acompanhado à guitarra e à viola.
Tive uma espécie de epifania modesta, toda nascida, desenvolvida e desaparecida dentro de mim - e de mim apenas. O que diria o fado - talvez mesmo este tipo de fado - a um marciano ou a um habitante de uma outra época a quem fizessem a mesma pergunta, agora adaptada: foi o povo português que fez o fado, ou foi o fado que fez o povo português? O que diz de nós - independentemente de quem fez o quê - um género musical (neste caso) deficientemente interpretado, embora genuíno, com letras que falam de amores perdidos, de ciúme, de saudade ou de traição? O que diz de nós um género musical triste, dolente, do qual não exala genica ou fulgor, um género musical que Eça considerou uma comédia, que alguém propôs trocar-se pelo canto coral, ou que foi acusado de fazer mal ao fígado…? Somos o que cantamos ou cantamos o que somos?
No seu livro Noise - The Political Economy of Music, Jacques Attali, o autor, refere (tradução minha): (...) É por isso que a economia política da música não é marginal, mas premonitória. Os ruídos de uma sociedade estão à frente das suas imagens e dos seus conflitos materiais. A nossa música prevê o nosso futuro. Imaginemos este trecho escrito no século XIX, quando surgiu o fado: a nossa música prevê o nosso futuro. Será que podíamos perceber onde estaríamos no início do século XXI?
Uma leitura mais arrojada da história da música suscitará esta interrogação: o que apareceu primeiro: a música, ou os povos que a compõem? Isto é, somos o que cantamos ou cantamos o que somos? A resposta mais óbvia dirá que os povos surgiram primeiro. A resposta mais diplomata - e a diplomacia pode ser uma forma de adiamento das resoluções - dirá que o importante é a beleza das coisas; a resposta arrojada afirmará, categoricamente, que a música surgiu antes de ser composta.
Se pegarmos na última teoria - e só essa é que interessa neste tempo outonal - podemos então defender que o samba é anterior ao achamento do Brasil, pelo que, nesse sentido, foi a música (que já existia) a fazer o brasileiro - e não a inversa. Talvez o samba já existisse e requeresse apenas uma mente que o puxasse para fora, uma voz que o cantasse ou um corpo que o requebrasse.
Em 1900 o conde Tolstoi escrevia um texto, que intitulou "tinha de ser assim?", onde pinta um retrato terrível da sociedade desse tempo: um retrato de miséria e opulência, de tristeza e sofrimento, de fome e excesso. Um retrato com cores outonais ou invernosas, onde a alegria não tem lugar e os corpos estão cobertos de chagas, de pele e osso, de jóias e caviar. É um tempo doloroso, que existiu em tantos outros países, em tantos outros tempos.
Em 1915 Sergei Rachmaninov compunha as Vésperas, a sua maior obra para coro a capella. Uma obra monumental, baseada em antigos cantos tradicionais, que recupera raizes nacionais e pretende fugir das influências ocidentais. Uma obra terrível, como só a beleza absoluta o pode ser. Uma obra volumosa e densa, inadequada para tempos modernos de ligeireza e rapidez, imprópria para quem acha que o mundo é o seu pequeno mundo.
Tal como não foi Ary Barroso que compôs Aguarela do Brasil (embora em termos oficiais o seja) também, em bom rigor, não foi Rachmaninov quem compôs as Vésperas. Quando, em 1500, Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, já ouviu o ritmo daquele batuque, batuque que fez do brasileiro o que ele é. O conde Tolstoi em 1900, e o compositor quinze anos depois, revelaram o que já existia desde há milénios: o peso, a sonoridade baixa, a espessura, a elevação ao céu de almas divididas entre o penoso e a abundância.
Parece-me óbvia a resposta à pergunta inicial: na verdade, é a música que faz os povos.