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04 maio 2023

"Mas quem é esse que te segue do outro lado?"

(...)
Who is the third who walks always beside you?
When I count, there are only you and I together
But when I look ahead up the white road
There is always another one walking beside you
Gliding wrapt in a brown mantle, hooded
I do not know whether a man or a woman
—But who is that on the other side of you?
(...)

[Quem é o outro que sempre anda a teu lado?
Quando somo, somos dois apenas, lado a lado,
Mas se ergo os olhos e diviso a branca estrada
Há sempre um outro que a teu lado vaga
A esgueirar-se envolto sob um manto escuro, encapuzado
Não sei se de homem ou de mulher se trata
- Mas quem é esse que te segue do outro lado?]

Tradução de Ivan Junqueira, tirada daqui. 

A dado momento, no seu vasto poema The Waste Land, the T. S. Eliot, é mencionado um terceiro que te segue do outro lado. Quem é este terceiro?   

***

O livro South, de Ernest Henry Shackleton, conta a viagem do Endurance ao Pólo Sul, no início do séc. XX. Numa delas, o barco fica preso no gelo e a tripulação tem de procurar a salvação por terra. Há um momento em que o explorador escreve, retratando uma das incursões: "often there were four, not three". 

Numa passagem do Evangelho segundo São Lucas (Lc 24,13-35) pode ler-se esta famosa passagem:

Dois dos discípulos de Emaús
iam a caminho duma povoação chamada Emaús,
que ficava a sessenta estádios de Jerusalém.
Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido.
Enquanto falavam e discutiam,
Jesus aproximou Se deles e pôs Se com eles a caminho.
Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem.

***

Estas são - entre possíveis outras - as explicações para o trecho de The Waste Land: num conjunto de três tripulantes do Endurance, há uma quarta "entidade" (o explorador chama-lhe providence, Worsley, um tripulante, refere-se-lhe como another person. A caminho de Emaús não há apenas dois discípulos, mas uma terceira personagem. Ambas as alusões se referem a algo positivo, isto é, Jesus Cristo, a providência. Ora, esse que te segue do outro lado poderia ser não alguém, mas algo? Será que por vezes o que caminha connosco é um passado que tanto nos redime como nos amaldiçoa? Pode ser apenas lastro que nos equilibra ou lastro que tem de ir borda fora para que o barco não afunde? 

Quem é - ou quem, na verdade, pode ser - esse que nos segue sempre do outro lado?

JdB

12 junho 2019

Das perguntas como espécies desaparecidas


Fotografia tirada da net

Ernest Shackleton partiu de Plymouth para o Polo Sul a 8 de Agosto de 1914. A viagem a que ele se propunha foi um rotundo fracasso - não chegou ao destino. No entanto, toda a viagem do explorador inglês é um acto de enorme heroísmo: nas piores condições atmosféricas possíveis, sem comunicações, sem barco, com pouca comida, com uma equipa debilitada, com um frio antártico e sem cães, que foram sendo abatidos por questões de necessidade, conseguiu empreender o resgate de todos. Não ficou ninguém para trás.  

Em 1916 chegou a Elephant Island, na Antártida, um espaço reclamado pela Argentina, pelo Chile e pelo Reino Unido. Uma das primeiras frases que proferiu, dirigida ao responsável pela estação baleeira, foi na forma de pergunta: "diga-me, quando é que acabou a guerra?". A resposta foi cruel: "a guerra não acabou, há milhões de pessoas a morrer. A Europa enlouqueceu. O mundo enlouqueceu." 

Durante dois anos, Shackleton não teve notícias da Europa. Não porque não quisesse - tanto que se interessou - mas porque não conseguia. Não havia tecnologia. Shackleton era um explorador exactamente por isso - porque não havia tecnologia; hoje já não seria, porque onde quer que estivesse poderia falar com a mulher, ver os cães, saber notícias da vizinha do terceiro andar ou da política. Já ninguém é obrigado a estar dois anos incomunicável - ou se quer ou não se quer. 

A fotografia acima foi tirada no topo do Everest. A curiosidade não está na desolação da geografia ou no colorido dos fatos. O interessante da fotografia é o facto de revelar um engarrafamento. Num certo sentido caricatural, ir ao Everest é, hoje em dia, semelhante a ir à feira do livro num feriado: as pessoas amontoam-se, e temos de pedir com licença para nos chegarmos a um renque de livros em promoção. Todas estas pessoas que se veem na fotografia quiseram isso mesmo - picar uma espécie de ponto, tirar uma selfie, publicá-la em tempo real no instagram ou no facebook, falar com a namorada, a mãe, os filhos, o patrocinador.

Parece que a varíola já só existe em frascos. Parece que a ideia de explorador já só existe em livros de aventuras. Um dia haverá uma máquina de senhas para chegar ao topo do mundo, as pessoas acotovelar-se-ão para lá chegar, talvez empurrem um desconhecido para não correrem o risco de falhar o alvo, de não chegar lá acima em tempo útil.

"Tell me, when was the war over?" A frase, mais do que uma pergunta em inglês correcto, tem o encanto terrível das espécies desaparecidas. 

JdB   

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