Mostrar mensagens com a etiqueta Sinais Ortográficos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sinais Ortográficos. Mostrar todas as mensagens

26 setembro 2016

Dos sinais ortográficos

It was still possible for people to know each other fairly well without the dimmest idea of their opinions.

(Patrick Leigh Fermor, in a A Time of Gifts)

***

Como conhecemos os outros? E como demonstramos o nosso interesse pelos outros? A resposta é para mim clara, e igual para ambas as perguntas: perguntando. Este pensamento inicial leva-me a outro raciocínio: existem três sinais de pontuação com as quais podemos redigir um ensaio sobre relações sociais (incluindo as afectivas, na sua componente social) - o ponto final, o ponto de interrogação e o ponto de exclamação. Todos eles - e, talvez acima de tudo, a proporcionalidade deles - são determinantes para definir as relações entre seres humanos.

O ponto de exclamação, sinal prussiano firme e hirto como uma barra de ferro, é a arma de quem diz, de quem afirma, de quem perora de quem julga saber. O ponto de interrogação é de quem se interessa, de quem quer ou gosta de saber, de quem tem curiosidade (e não a classifiquemos de momento). O ponto final é utilizado por quem responde a uma pergunta ou a uma dúvida, independentemente da veemência com que o faz. Não se responde nunca com um ponto de exclamação, ainda que se possa responde de forma exclamativa. Responde-se sempre com um ponto final.

Um destes dias dizia-me alguém (e não reproduzo ipsis verbis, para aperfeiçoar o exemplo: faço perguntas e interesso-me; curioso que a mim ninguém faz perguntas sobre a minha vida genérica, nem sequer as pessoas a quem as fiz no momento anterior

Num texto sobre riso e sorriso, escrevi neste estabelecimento há mais de um ano: o sorriso estabelece o comércio entre os seres humanos.  Rimos sozinhos, mas sorrimos para outro -  ou com outro. Não há em bom rigor, uma diferença muito grande entre o sorriso e o ponto de interrogação, porque ambos, em sequência ou concomitantemente, estabelecem um comércio. O ponto de exclamação é o riso da comunicação escrita, ou uma metáfora para o riso da comunicação verbal.

Vivemos numa época de parca utilização do ponto de interrogação, como se ele fosse, não uma mão cheia de cominhos que deve utilizar-se com parcimónia, mas uma dose letal de veneno ou desinteresse que nos inibe o seu emprego. Nos facebooks desta vida revelamos a nossa vida: fotografias dos filhos ou dos netos, pormenores de toilettes ou de festas, restaurantes da moda ou inutilidades que transformam o ócio inútil noutro ócio aparentemente divertido. Sentamo-nos de volta de uma mesa e ao parceiro que está ao nosso lado temos dificuldade em verbalizar uma pergunta a que, só por acaso, falta um ponto de interrogação: conta-me da tua vida...

JdB

     

Acerca de mim

Arquivo do blogue