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26 janeiro 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, data irrelevante.

O Fábio, o meu namorado actual, tinha um colega de cartas – chamavam-lhe o Fêquê – que, nos serões inglórios e intermináveis de azarina, como eles diziam, mantinha a sua atitude de perdedor educado rematando a noite com uma frase intemporal: quando a sorte é maniversa, nada vale ao desinfeliz. Pagava o que era devido e saía cabisbaixo, abafado por um fatalismo de noite negra que nenhuma mestria conseguia vencer.

O futebolista que estacionou o carro potente e mediu a Solange com uma precisão de microscópio vinha, acabei por saber, de uma série de jogos aziagos, entre lesões sem gravidade e desinspirações no relvado. Tinha sido assobiado algumas vezes pela massa associativa, essa imensidão de gente que tem a solução para os males de qualquer clube: da gestão das finanças ao espírito do balneário, da sagacidade na aquisição de jogadores aos contratos ferozes com os patrocinadores. Se não fosse o anonimato da mole, já fariam parte dos órgãos sociais e não havia presidente que não gostasse de lhes ouvir uma opinião atinada e salvadora.

O atleta entrou consciente do furor que faria junto das operárias desta Fábrica da Ilusão. Seguiu gingão para o quarto, olhando à volta com ar confiante, como se fosse um matador arrojado que domina o touro com os olhos postos na barreira. Mirando al tendido, dizem os aficionados. Riu muito, falou alto, achou-se grande, irresistível, sensual e provocador. A Solange precedeu-o, ufana e orgulhosa na sua condição de escolhida, para abrir caminho ao eleito, ao amante de todos os prazeres.

(Termina aqui o que os meus olhos viram e o que a minha sensibilidade interpretou. De ora em diante fala a brasileira nordestina, filha de um qualquer porto de galinhas onde a sua beleza exótica e o seu corpo irrepreensível não seriam suficientes para a tirar de uma bancada de artesanato alegórico. Falarei um dia sobre ela – e sobre as outras operárias deste estabelecimento quase fabril.)

O atleta entrou no quarto e nem terá olhado à volta para se ambientar ao lugar, para equilibrar a sua própria temperatura com a daquele ninho de satisfação onde a hora seguinte era sua por direito. Olhou para a Solange e não viu uma nudez extasiante, um peito perfeito, um rabo levantado, uma criatividade toda posta ao serviço do cliente. Não viu uma mulher – muito menos uma parceria onde a expressão negocial do win-win assumiria foros de plenitude. O futebolista terá olhado para a jovem que o acompanhava e leu-lhe no corpo, nessa volúpia em carne e osso, uma expressão poderosa, porém demoníaca: massa associativa.

De aí em diante comportou-se como se comportaria no campo depois de ter falhado todos os golos, errado todos os passes, titubeado em todos os lances, fugido a todos os contactos, vexado com todos os assobios. Vingou-se na Solange, exibindo uma atitude desagradável, agressiva, prepotente e malcriada, naquela convicção ilimitada de que o cliente tem sempre razão - inclusivamente num tratamento humilhante por quem presta um serviço. Usou apenas dez minutos dos sessenta a que teria direito, desfrutando da brasileira como quem usa um equipamento descartável e de baixa qualidade para o fim a que se destina. Nenhum ímpeto, grito, posição ou ordem cumpriu propósitos de erotismo ou fetiche. O futebolista fez com a Solange o que não podia fazer com a bancada.

Quando passou por mim revelou todo o seu desprezo pelas minhas características físicas. Foi como se o contacto com a realidade o enojasse ou, quem sabe, o aterrorizasse, e me visse, também, o remate que sai defeituoso, a visão de jogo que se não tem, a ilusão do podium que é esmagada por semanas a fio de desacertos.

Soubesse eu o que se tinha passado e ter-lhe-ia evidenciado ainda mais uma perna coxa, uma cicatriz feia e a frase lapidar: quando a sorte é maniversa, nada vale ao desinfeliz.

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

19 janeiro 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália (data ilegível)

Confesso a minha estranheza quanto ao dia de ontem. De manhã fui a uma consulta médica, para que o especialista ajuizasse do estado da minha perna, se o coxear piorou ou não. Assunto desinteressante, sigamos para bingo, porque a bizarria não está, apesar de tudo, na minha deficiência.

Na sala de espera folheei uma revista cor-de-rosa, destas que evidenciam felicidades eternas em casamentos repetidos, e gente que demonstra uma manancial sem fim de lugares-comuns, todos eles publicados a letras grandes e salientes. Como me dizia no outro dia uma amiga, as gravidezes eram, dantes, alegrias partilhadas na intimidade da família. Agora são notícias de primeira página, ilustradas com frases simples, do tipo é um pouco cedo para falar porque ainda estou de três meses, mas estamos todos muito felizes, ou é um filho muito desejado, ou ainda sinto que não estou a dividir o meu amor, é a dobrar, para aqueles estatisticamente menos vulgares que têm gémeos. Às vezes dou por mim a desejar que alguém diga de uma forma crua: a criança vem, mas não pode vir em pior altura! Que estranho, imaginar-se a alegria da maternidade como uma notícia com direito a parangona. Ser-se mãe ou morder-se o cão tem valência semelhante...

Foi neste número que vi uma reportagem com um jogador de futebol de um dos grandes clubes, onde aparece com a esposa e duas filhas revelando o amor pela família, a tranquilidade e estabilidade que encontrou junto a uma mulher que ganhou um concurso de beleza numas festas regionais. Todo ele é, nas fotografias, carinho, dedicação, respeito e amor, afirmando ideias de fidelidade, felicidade e dependência saudável. A casa é o meu centro de gravidade, rematou, enquanto a Tânia e a Vanessa brincavam com o Pops, um Retriever que debrua a ouro aquele idílio.

Por um alinhamento mais do que bizarro dos astros, o dito jogador de futebol apareceu aqui na Fábrica da Ilusão, revelando a sua chegada através dos ruídos de um motor possante de um carro baixo, de duas portas, platinado. Depois entrou, confiante, com um cabelo rapado dos lados como se fosse um militar norte-americano, uma patilha que mais parecia um fio de cabelo a escorrer junto às orelhas, um casaco vistoso e à moda comprado numa loja chique de um centro comercial e uns sapatos de biqueira quase quadrada.

Tudo nele transpirava confiança, segurança, disponibilidade e vontade para impressionar, criar uma aura de sucesso antecipado. Como se se sentisse disputado ao nível do duelo, e certo de que seria, para qualquer uma das raparigas, um petisco irrecusável. No fundo, no fundo, como se a justiça e correcção do mundo lhe dessem a certeza de que seria pago por uma hora de prazer, e não a inversa.

A Dra. Clara escolheu a Solange, uma brasileira típica: peito pequeno, rabo levantado, desinibida, com espírito de iniciativa e poucos pudores. Uma mulher à altura e com experiência suficiente para domar a fera que se apresentava na recepção, olhando de soslaio e com um ar incomodado para as minhas características físicas. O futebolista está habituado ao porte atlético, ao pé ligeiro, ao olho sagaz, e eu não tenho nada disso. Tem, da fantasia, uma visão própria - e eu sou uma realidade que ele não conhece, a que não está habituado, porque não se senta ao lado do carro potente nem no sofá da casa minimalista.

A Solange foi irrepreensível: deu-lhe as boas noites e dois beijos com uma amplitude muito curta, gabou-lhe o físico e alegou não falhar um jogo do atleta, apelidando o mister, sempre que não o punha a jogar, com duas palavras demolidoras: cafageste incompetente. Depois, mantendo um ar dengoso e brasileiro que foi a perdição de muitos casais estáveis, susurrou-lhe uma proposta ao ouvido. O futebolista riu-se muito, exageradamente, como se fosse dono daquele espaço e respondeu que só vendo.

Seguiu-a para o quarto tirando-lhe as medidas com uma visão de alfaiate. Teve tempo, ainda, de observar o meu olho desfeado por uma cicatriz e a minha perna coxa. Inquietou-se com o contraste Amália versus Solange e seguiu o caminho da ilusão, da caxemira em versão nordestina, do pelo que se afaga com gentileza sábia. Para trás fiquei eu, a realidade desta Fábrica da Ilusão, que espera a saída do futebolista e da brasileira.

MTS

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