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04 junho 2021

Da música triste

 


Esta ária, da ópera Les pêcheurs de perles, de Bizet, acompanha grande parte do filme O Pai, que tem como actor principal - e vencedor de um Oscar - Anthony Hopkins. Não é exactamente do filme que quero falar, embora valha muito a pena ver.

Um dia ouvi um jesuíta a dizer qualquer coisa parecida com isto: quem não é para viver sozinho não é para casar.  Um dia li num livro qualquer que a vida de um monge cartuxo não era a mais desejável para quem gosta de viver em silêncio. Não sei se as frases estão relacionadas ou se as relaciono eu, porque isso faz parte da minha leve compulsão em encontrar relações entre tudo e mais alguma coisa. 

O que nos dizem ambos os pensamentos? Talvez que estejamos de estar preparados para tudo e o seu contrário, e que o voto de silêncio e o casamento não são caminhos naturais para quem tem muito gosto pela vida em conjunto ou pela vida em silêncio. Isto é, ambas as opções são projectos de vida, não saídas profissionais para gente que tem jeito para isto ou para aquilo. 

Ouvir Je crois entendre é assumir o confronto como uma música triste, apesar de muito bonita. Talvez, seguindo o raciocínio aplicado ao casamento e à vida cartuxa, possamos afirmar que a música triste não é para gente triste. Significa isso que eu, muito adepto de música triste porque muito adepto de música bonita, não sou um homem triste. E que as pessoas que odeiam música triste não são pessoas alegres. 

O meu mundo ficou estranho.

JdB   

29 abril 2020

Das histórias inverosímeis

Ontem publicou-se neste estabelecimento um texto encimado por um título: bem-aventurados os mansos. Neste vendaval que por vezes me assola comecei a associar muitas coisas, todas elas derivadas do título: KGB, música triste ou alegre, sinais gráficos de exclamação ou de interrogação, Outono ou Verão, gente irada ou gente triste.

Um dia contaram-me uma história (totalmente verídica) que penso já ter revelado neste estabelecimento: dois elementos do KGB foram a uma casa de fado; não percebendo português fixaram-se na melodia, na entoação, nos sons da voz ou da guitarra, no ambiente. E, afiançam-me, comoveram-se ao ponto das lágrimas. Ora, esta história é uma contradição em termos e há nela, por isso, algo de potencialmente falso. Eu explico, recorrendo a um silogismo:

1ª premissa: o fado é uma música triste; 
2ª premissa: a música triste é uma música centrípeta; 
Conclusão: o fado é uma música centrípeta.

Ora, um agente da KGB, habituado à tortura, à eliminação dos homens, à violência verbal e física, à ausência de remorso, é um homem com um potencial de fúria grande, com um tom de voz todo projectado para fora, para a defesa do Estado; é um ponto de exclamação, uma afirmação. A ira, pela sua própria natureza (tal como a alegria) é centrífuga. Assim sendo, um homem da KGB não pode gostar de fado porque é protagonista de uma força para dentro em simultâneo com outra para fora. A história tem de ser, por isso, mentira. Ou o fado é uma música alegre, o que não se afigura correcto.

Gostamos da música que revela o nosso íntimo. Gente pessimista (o pessimismo é, na sua versão mais arrojada, um ponto de interrogação, embora na maioria das vezes seja apenas uma reticência) gosta de Outono, de música triste. Podem até ter um pendor para a nostalgia, para a mansidão que não é a mencionada nas bem-aventuranças, mas a que se refere ao desequilíbrio de fluidos, a uma certa hidropisia, ao curvar-se sobre si mesmo que sugere o sinal gráfico já referido. A pessoa alegre é hirta, exclama, pontua, enche o peito de ar com vista ao esvaziamento assertivo, deseja a alegria que provoca a centrifugação da tristeza e a desfaz contra as paredes escuras do destino.

Desconfiem de gente irada, alegre ou que tortura, mas que gosta de música triste. Há uma contradição dentro delas que pode ser altamente perigosa, como se no interior dessa gente não houvesse equilíbrio, mas um estraçalhar de forças contrárias, um rasgamento violento.

É isto, no fundo.

JdB      

04 junho 2019

De uma certa ideia de fábrica

Num certo e desejável sentido arquitectónico, há uma semelhança entre o Outono e uma fábrica: a estação do ano que medeia o calor do Verão e as agruras do Inverno tem uma natureza centrípeta, ou seja, voltada para dentro. Uma fábrica - a arquitectura de uma fábrica - tem de estar voltada para dentro, isto é, tem também uma natureza centrípeta. A natureza centrípeta de ambas as realidades deve-se à necessidade de interioridade, não como perscrutação da alma, mas como segurança de um corpo que se fecha sobre si mesmo para se resguardar e proteger. O carácter centrípeto é protecção, apenas.  

Uma fábrica, como já o terei dito algures neste estabelecimento, é mais, muito mais, do que um alinhamento de máquinas, uma escala de trabalho, uma espaço geográfico onde se controlam efluentes gasosos ou líquidos, uma lista de vencimentos. Uma fábrica é um micro-cosmos, uma cidade - uma comunidade. É um espaço que obedece a regras próprias, onde cada elemento tem uma função própria, e esse carácter singular de seres humanos e de equipamento, não se repetindo noutras áreas da vida, repete-se indefinidamente naquela realidade. Um escritório, um atelier, um consultório, sendo espaços fundamentais para a sã convivência das pessoas com os outros e consigo próprios, não é um micro-cosmos. É um espaço onde se trabalha, se cria, se cura, se ajuda. Mas as actividades mudam de dia para dia, de minuto para minuto, de instante para instante.

Há algo no mundo que contraria a entropia para onde caminha, e que tende para a repetição. É esse carácter distintivo que lhe dá o encanto. Não se concebe uma fábrica sem a repetição sonora das bielas, dos órgãos em movimento, do atrito entre peças, dos sistemas de vácuo ou de rejeição das peças defeituosas. A protecção de uma fábrica não está na solidez dos rácios, na constâncias dos indicadores, na implementação de modernos sistemas de gestão. Uma fábrica sobrevive na, e pela, rotina das actividades e repetição dos sons, nas paredes altas - ainda que penetradas pela luz natural - que impedem, não as pessoas de sair, mas os estranhos de entrar. Uma fábrica fechada é um casulo onde as marés têm uma suave rotina, os dias se repetem e a música tem a previsibilidade dos futuros seguros. A arquitectura moderna das paredes de vidro, com um ângulo de visão rasgado de 360º, deitará por terra o sistema industrial mundial, remetendo-o à aparente modernidade que tudo iguala, dando a aparência que tudo diferencia. 

O Outono é centrípeto, a música triste é centrípeta; uma fábrica eficiente é centrípeta. Tudo o que deveria ser a vida.

JdB    

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