As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
20 fevereiro 2025
26 janeiro 2024
Em memória de Melanie Safka (1947 - 2023)
Em 9 de Outubro de 2015 repesquei um texto que teria escrito algures no tempo. Reproduzo-o abaixo:
Lembras-te em que ano dançámos estas músicas? Era seguramente Verão, no terraço de um qualquer prédio no Algarve. Tínhamos todos a mesma idade, mesmo que tivéssemos nascido em anos diferentes. Tínhamos todos o mesmo dinheiro, mesmo que algumas mesadas fossem mais generosas. Jogávamos o verdade ou consequência, certos de que coraríamos se nos perguntassem de quem gostávamos, ansiosos por não fazer má figura se as regras nos levassem a beijar a rapariga que nos criava borboletas no estômago.
Depois, alguém punha discos de vinil num gira-discos que talvez funcionasse a pilhas. As estrelas eram imensas, e a Janis Joplin arrancava com o seu Me and Bobby Mc Gee. E a Melanie Safka com o seu Ruby Tuesday. Eu olhava em volta e ia buscar-te, porque estes eram os nossos slow. Não tinha pressa, porque tinha a certeza de que esperarias por mim, que disfarçarias se te viessem buscar para dançar. Íamos para o meio da pista - quer dizer, do terraço - e enroscávamo-nos na ingenuidade da juventude, com a embriaguez provocada por dois corpos justos, um cabelo cheiroso, uma face encostada, uma forma de dançar que pouco mais era do que a imobilidade de dois adolescentes apaixonados.
Lembras-te em que ano dançámos estas músicas?
Pessoa amiga informou-me que Melanie Safka havia morrido esta semana. Confirmei que tinha morrido a 23 de Janeiro, a poucos dias de fazer 77 anos.
Dancei muito ao som de Melanie Safka e o texto acima, carregado de nostalgia mas não dirigido a ninguém em especial, pois perdi o rasto às pessoas com quem dançaria esta música, reproduz um ambiente que desapareceu pela lei natural da vida.
Sou um homem de nostalgias pois, como já o disse aqui, o passado é certo e o futuro, até prova em contrário, não existe. Muito do meu gosto pela música pop advém da associação que lhe faço. Não é so gostar de Ruby Tuesday cantado pela Melanie Safka - é gostar da música e associá-la a uma época, a uma pessoa, a uma juventude sem grandes dramas e pejado de emoções fortes e juvenis, a dois corpos justos a mexerem-se de forma quase imperceptível.
JdB
03 outubro 2023
Das nostalgias persistentes *
Quer dançar?
No fim sorri-lhe e disse obrigado, como se fosse uma palavra-passe - o sorriso ou o agradecimento ou a dança, sei lá eu... - que me abriria a porta do paraíso cuja extensão eu desconhecia mas que sabia ser já ali, a cheirar a perfume e a cabelo curto, na imobilidade de um chão que me fugia dos pés. O paraíso ao alcance de uma mão que afagava umas costas onde tudo começava e acabava, uma nuca cujas curvas eram a geografia de um tempo eterno que os adultos, para quem a cruz pendurada no fio de cabedal era uma dor - ou um Amor, talvez - garantiam não voltar. E por isso não lhes perguntávamos nada, nem lhes dizíamos nada, nem lhes contávamos nada. Não era por segredo, era apenas para podermos sobreviver.
JdB
21 agosto 2023
Para um momento de nostalgia
Ouvi muito esta música no tempo do "Idade da Inocência", de boa memória, um fantástico programa de rádio com locução, parece-me, de Margarida Pinto Correia, e que deu origem a alguns CD's. Fui à procura de uma história por detrás da música, sendo que a busca foi infrutífera - não há nada relevante a declarar. Repesco, no entanto, duas informações que recuperei da Wikipédia. Lançado em 1968...
"Honey" was immediately and immensely popular. It sold a million copies in its first three weeks.
In a 2011 poll, Rolling Stone readers ranked "Honey" the second-worst song of the 1960s.
JdB
03 janeiro 2022
27 dezembro 2021
03 dezembro 2021
Do regresso a casa
21 outubro 2021
06 outubro 2021
27 setembro 2021
21 setembro 2021
07 setembro 2021
03 setembro 2021
16 agosto 2021
23 julho 2019
Música e poema para os dias de hoje
Lugares da Infância
Lugares da infância onde
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
já lá não estão nem lá estou.
Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?
Venderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, põem-se hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recordações.
O quarto eu não o via
porque era ele os meus olhos;
e eu não o sabia
e essa era a sabedoria.
Agora sei estas coisas
de um modo que não me pertence,
como se as tivesse roubado.
A casa já não cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.
Falta alguém, não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois,
já o jantar tinha arrefecido.
E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e eu cubro a cabeça com os lençóis.
Manuel Pina, in 'Um Sítio onde Pousar a Cabeça'
Acerca de mim
- JdB
- Estoril, Portugal
