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26 janeiro 2024

Em memória de Melanie Safka (1947 - 2023)

 Em 9 de Outubro de 2015 repesquei um texto que teria escrito algures no tempo. Reproduzo-o abaixo:

Lembras-te em que ano dançámos estas músicas? Era seguramente Verão, no terraço de um qualquer prédio no Algarve. Tínhamos todos a mesma idade, mesmo que tivéssemos nascido em anos diferentes. Tínhamos todos o mesmo dinheiro, mesmo que algumas mesadas fossem mais generosas. Jogávamos o verdade ou consequência, certos de que coraríamos se nos perguntassem de quem gostávamos, ansiosos por não fazer má figura se as regras nos levassem a beijar a rapariga que nos criava borboletas no estômago. 

Depois, alguém punha discos de vinil num gira-discos que talvez funcionasse a pilhas. As estrelas eram imensas, e a Janis Joplin arrancava com o seu Me and Bobby Mc Gee. E a Melanie Safka com o seu Ruby Tuesday. Eu olhava em volta e ia buscar-te, porque estes eram os nossos slow. Não tinha pressa, porque tinha a certeza de que esperarias por mim, que disfarçarias se te viessem buscar para dançar. Íamos para o meio da pista - quer dizer, do terraço - e enroscávamo-nos na ingenuidade da juventude, com a embriaguez provocada por dois corpos justos, um cabelo cheiroso, uma face encostada, uma forma de dançar que pouco mais era do que a imobilidade de dois adolescentes apaixonados. 

Lembras-te em que ano dançámos estas músicas?

Pessoa amiga informou-me que Melanie Safka havia morrido esta semana. Confirmei que tinha morrido a 23 de Janeiro, a poucos dias de fazer 77 anos. 

Dancei muito ao som de Melanie Safka e o texto acima, carregado de nostalgia mas não dirigido a ninguém em especial, pois perdi o rasto às pessoas com quem dançaria esta música, reproduz um ambiente que desapareceu pela lei natural da vida. 

Sou um homem de nostalgias pois, como já o disse aqui, o passado é certo e o futuro, até prova em contrário, não existe. Muito do meu gosto pela música pop advém da associação que lhe faço. Não é so gostar de Ruby Tuesday cantado pela Melanie Safka - é gostar da música e associá-la a uma época, a uma pessoa, a uma juventude sem grandes dramas e pejado de emoções fortes e juvenis, a dois corpos justos a mexerem-se de forma quase imperceptível.

JdB   

03 outubro 2023

Das nostalgias persistentes *

 Quer dançar?


Fixei-a com um português suave sem filtro numa mão clandestina, uma cerveja tirada à pressão na outra, um coração palpitante de enervamento e uns olhos bailarinos que não se fixavam em nada, mas que a retinham apenas a ela - o cabelo curto, um sinal discreto junto a uma sobrancelha, uma ligeira assimetria da boca, uns dedos que revolviam um anel comprado na feira do artesanato, um fio de cabedal de onde pendia uma cruz que só era dolorosa nos adultos. Sorriu-me, e não estou certo de que tenha percebido que os olhos dançarinos são um desobediência infantil, duas esferas vítreas que revelam o que o sentimento não é, que mostram o que a alma não executa. De mim para ela era uma linha recta apenas, a certeza do caminho mais curto, batimento em uníssono, vislumbre do mesmo ponto na lonjura das férias. 

Sim, quero...

Pousei o cigarro e a cerveja e os olhos que não paravam, desobedientes. Uma mão na cintura, a outra quase nervosa, quase húmida, quase imóvel num ombro, num pescoço, numa nuca, num cabelo curto, num afago, numa eternidade de quatro minutos. Rosto encostado a cheirar perfumes de frança, uma agitação mínima como se à terra bastasse isso, ou como se à terra não fosse permitido mais do que isso para a salvação das almas, do amor adolescente, dos olhos irrequietos, da exaltação que vem do silêncio, das mãos dadas, das palavra sem jeito, da vitória sobre um outono indesejado que era uma placa levantada pelo destino a dizer fim do verão. 

Dançámos quietos como nunca mais ninguém dançaria, dizíamos nós dois, para quem a existência era um português suave sem filtro e um anel feito por mãos artistas, um sorriso envergonhado nuns olhos que não paravam. Apertámo-nos mansamente, tão mansamente que mais ninguém percebia, achávamos nós. Só que eles percebiam, riam comentários, adivinhavam tudo, tinham como certezas aquilo que nos nossos íntimos eram só aspirações, esperanças, um dueto acertado de dois corações descompassados.

No fim sorri-lhe e disse obrigado, como se fosse uma palavra-passe - o sorriso ou o agradecimento ou a dança, sei lá eu... - que me abriria a porta do paraíso cuja extensão eu desconhecia mas que sabia ser já ali, a cheirar a perfume e a cabelo curto, na imobilidade de um chão que me fugia dos pés. O paraíso ao alcance de uma mão que afagava umas costas onde tudo começava e acabava, uma nuca cujas curvas eram a geografia de um tempo eterno que os adultos, para quem a cruz pendurada no fio de cabedal era uma dor - ou um Amor, talvez - garantiam não voltar.  E por isso não lhes perguntávamos nada, nem lhes dizíamos nada, nem lhes contávamos nada. Não era por segredo, era apenas para podermos sobreviver.

JdB 
    

* publicado originalmente a 16 de Setembro de 2014

21 agosto 2023

Para um momento de nostalgia

 Ouvi muito esta música no tempo do "Idade da Inocência", de boa memória, um fantástico programa de rádio com locução, parece-me, de Margarida Pinto Correia, e que deu origem a alguns CD's. Fui à procura de uma história por detrás da música, sendo que a busca foi infrutífera - não há nada relevante a declarar. Repesco, no entanto, duas informações que recuperei da Wikipédia. Lançado em 1968...

"Honey" was immediately and immensely popular. It sold a million copies in its first three weeks.

 In a 2011 poll, Rolling Stone readers ranked "Honey" the second-worst song of the 1960s.

JdB   

03 dezembro 2021

Do regresso a casa



Revi ontem Cinema Paraíso. Cruzei-me com o filme por puro acaso, nas minhas deambulações vagas de fim de noite, quando procuro algo que me distraia e que não requeira atenção: uma receita de cozinha inesperada, um fim de filme, alguém que recita uns versos ou lê um trecho de um romance. É a minha hora dos excertos, dos fragmentos, dos bocados de coisas. Tenho sempre a esperança de encontrar algo luminoso, ou vence-me o desejo de não adormecer com nada triste, muito pelo contrário: um adeus redentor, um beijo apaixonado, um fim feliz apesar das possíveis dores da alma ou das feridas do corpo.

Num certo sentido, Cinema Paraíso é um filme sobre o regresso a casa, seja do ponto de vista geográfico, seja do ponto de vista afectivo.  E é, ainda, um filme que contraria a ideia de que não devemos regressar aos sítios onde fomos felizes. Talvez Salvatore - o Tótó - tenha voltado ao único sítio onde foi feliz, embora de lá tenha fugido para se realizar no cinema, sem nunca mais ter visto Elena, a sua namorada da altura.

Numa cena cortada do filme, Salvatore e Elena reencontram-se e beijam-se na terra onde se viram pela última vez 30 anos antes. Uma série de desencontros tinha-os afastado irremediavelmente. Felizmente não incluíram essa cena no filme que todos vimos, pois o filme tornar-se-ia demasiado feliz, demasiado previsível. Há uma certa nostalgia triste nos olhos de Salvatore a olhar para o passado, para a sua casa afectiva. Talvez haja um destino que não se tenha cumprido, porque a vida é mesmo assim. Também tenho horas assim: excertos, fragmentos, bocados de coisas, vidas inacabadas, nostalgias.

JdB

23 julho 2019

Música e poema para os dias de hoje



Lugares da Infância

Lugares da infância onde
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
já lá não estão nem lá estou.

Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?

Venderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, põem-se hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recordações.

O quarto eu não o via
porque era ele os meus olhos;
e eu não o sabia
e essa era a sabedoria.

Agora sei estas coisas
de um modo que não me pertence,
como se as tivesse roubado.

A casa já não cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.

Falta alguém, não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois,
já o jantar tinha arrefecido.

E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e eu cubro a cabeça com os lençóis.

Manuel Pina, in 'Um Sítio onde Pousar a Cabeça'

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