18 janeiro 2022

Dos lados por onde se olha para uma tragédia

 Aviso prévio: não é um post animado.

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Já aqui falei neste caso, penso eu. Não tenho a data certa, mas foi certamente em Abril do ano passado que pediram a minha intervenção no caso de um pai confrontado com o cancro num filho com 6 ou 7 anos. O meu apoio seria emocional, nada mais do que isso. Do IPO tinham-lhe dito que pouco havia a fazer pela criança, mas quem é o pai que está preparado para aceitar não lutar até às últimas consequências pela vida de um filho? Assim foi: o pai recorreu a medicinas alternativas, a terapeutas alternativos, viu melhoras no filho. O Verão prometia boas notícias. Em Setembro o pai percebeu que pouco havia a fazer; em Dezembro, pouco antes do Natal, num fim de tarde gelado e ventoso, disse-me que tudo estava no domínio do milagre. A criança está em casa da mãe à espera que chegue a hora dele. A ideia de que ninguém sabe dia nem hora é algo de tormentoso. O pai sabe que o fim se aproxima; no entanto, estou certo, no momento antes, naqueles segundos antes, talvez ainda seja vencido pela ideia do milagre, do inexplicável. Ou talvez seja vencido pelo sossego.  

Podemos olhar para este caso sob vários prismas, embora o que nos domina será o da compaixão. Nenhum pai merece isto (não conheço a mãe), nenhuma criança merece isto. Sobreviver a este calvário é obra que requer muito equilíbrio, muito acompanhamento, muita força. Ou muita fé, que o pai não tem, embora, disse-me ele, gostasse de ter, de acreditar em alguma coisa.

O lado médico. Como se diz a um pai que o filho com 7 anos vai morrer? A última vez que me comovi, numa conferência internacional, foi quando uma médica confessou que tinha sido treinada para curar, não para dizer a uma adolescente que ia morrer. Este pai pergunta a uma médica muito jovem o que vai acontecer, quer estar preparado para os sinais. A médica, muito jovem, diz que não sabe. Como é que se diz não sei a um pai aflito, perdido, angustiado? Será que os médicos não deviam saber mais destas coisas, saber o que dizer, como dizer, o tom de voz que se deve usar ou os gestos físicos que se devem empregar? 

O lado da fé. Um amigo que enviuvara disse-me que, na altura, se tinha zangado com a religião. Este pai diz-me que gostava de ter fé, de acreditar em alguma coisa. O que faz a religião por nós? Qual a intervenção que atribuímos a Deus nestes acontecimentos? Se acreditarmos que Deus está por trás de tudo isto queremos acreditar em Deus? Ou não pensamos nisso, e a fé ajuda-nos em que sentido? Serei eu capaz de amar um Deus que provoca tanto sofrimento a uma criança pequena? Ou é por este absurdo violento que se comprova a ideia de que Deus não é senão amor, que permite que as coisas aconteçam mas que não tem intervenção directa?

O lado das dúvidas. Sempre que converso com ele penso se estarei à altura. Questiono-me se serei capaz, não porque revivo coisas, mas porque não sei o que dizer. O que se diz a um pai que me conta as angústias do filho, as dores, os pânicos? Sabendo eu que ele fala comigo porque ele sabe que eu sei que ele sabe que eu sei, o que lhe digo, como mostro a um homem que oiço, um homem a quem abraço porque seremos iguais um dia, ainda que só nos tenhamos visto duas vezes, o que é manifestamente pouco para manifestações físicas de amizade? 

O lado das interrogações. Vamos à lua, pomos telescópicos gigantes na atmosfera, somos donos de tecnologia avançada, identificamos micróbios do tamanho de nada, sabemos o que se passou há um milhão de anos na Terra. E no entanto, em 2021, uma criança de 7 anos vai morrendo em casa com sofrimento físico, emocional e psíquico. Enquanto isto acontecer, ou acontecer numa dose superior à aceitável - seja por que motivos for - ainda vivemos na idade da pedra.

Há-de chegar o dia em que receberei um whatsapp de quem não está tão emocionalmente próximo. Há-de chegar o dia em que me encontrarei com este pai. Não terei palavras para confortá-lo, lhe dar esperança em dias diferentes, porque não serão melhores. Só me resta rezar para que Deus acompanhe este pai; o mesmo Deus que não está por trás de tudo isto.

JdB 

2 comentários:

Anónimo disse...

Francamente bom escrito.
oliveira

Laurus nobilis disse...

Grande abraço

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