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22 setembro 2026

Moleskine texano

San Antonio, Texas (Setembro de 2026)

Tal como referi a semana passada neste estabelecimento, estive a semana passada no Texas, mais precisamente em San Antonio, para a conferência anual da oncologia pediátrica. Alguns episódios soltos:

Copos. Sou convidado para o que se chama Presidential dinner, oferecido pelo presidente do SIOP (sociedade internacional de oncologia pediátrica, na quase totalidade profissionais de saúde). O jantar, de cerca de 70 - 80 pessoas é, normalmente (já fui a quase 10) em sítios com alguma categoria. No ano passado, por exemplo, foi no Rijksmuseum, em Amsterdão. Não é todos os dias que se trinca um naco de carne olhando de frente para a Ronda da Noite. Este ano foi na Coates Chapel, um recinto vocacionado para eventos. A nota desconfortável? O calor. A nota detestável? Vinho tinto servido em copos de plástico.

Rapidez de serviço. Refiro-me ao mesmo jantar. Meses de 10 pessoas onde há, forçosamente, ritmos diferentes. 8 pessoas acabaram o prato principal, duas ainda não. Os empregados não se importam - retiram os pratos de quem acabou e servem a sobremesa. A nota desconfortável e detestável? A sobremesa era arroz doce - mau - e o talher colocado era apenas um garfo. 

Quantidades. Tudo nos EUA é grande: o frio nos aviões e nos aeroportos, o copo de água nos jantares (atulhado de gelo) as refeições que nos deram generosamente - em caixas de plástico - as pessoas nas ruas. Apanhei um Uber para ir a um centro comercial fazer uma compra. Era um carro enorme - para o qual tive dificuldade em subir - com uma caixa aberta descomunal, onde caberia um boi.

Centro comercial. Terminada a compra, dirijo-me à saída do centro comercial para apanhar um Uber. Faço uma pergunta a duas pessoas que aparentavam ser funcionários; não eram, e percebo que têm uns auriculares como se vê nos filmes nas orelhas dos agentes dos serviços secretos. 5 minutos mais tarde assomam à porta de saída dois personagens: um, na casa dos 50, de fato cinzento; o outro, de botins e calças de ganga, ligeiramente mais novo. Num instante são rodeados por 7 ou 8 guarda-costas que os encaminham para dois carros enormes e pretos, de vidros fumados. Seria empresários, políticos ou barões da droga?

San Antonio, Texas (Setembro de 2026)

Civilização. Não tenho problemas 'morais' com a potencial injustiça da generalização, talvez tenha com o potencial erro intelectual que decorre desta generalização: nada nos EUA parece ter classe, ou vislumbre de requinte. As pessoas almoçam ou jantam de chapéu de pala na cabeça, falam alto, bebem vinho em copos de cartão ou de plástico, colocam o pão num jantar a meio do prato principal, servem os pratos pela direita ou pela esquerda de forma indiscriminada. 

Espanto. Diz-me uma amiga local que houve, num determinado momento, uma grande emigração de alemães para San Antonio. O próprio marido é descendente de 2ª ou 3ª geração de um desses emigrantes. Não fazia ideia: para mim, Texas só tinha influência mexicana. 

Música a desoras. Gala dinner do CCI: é convidado um grupo de mariachi, tipicamente mexicano. Sentamo-nos a jantar e o grupo começa a tocar. As pessoas querem conversar e o grupo continua a tocar. Ninguém ouve a música, ninguém ouve o seu parceiro do lado, ninguém bate palmas. Quem é que terá tido a peregrina ideia de convidar um grupo mexicano - cuja música é muito audível - a performar enquanto as pessoas estão a jantar e a conversar. Americanices: não lhes ocorre dedicar à música a importância que ela - e os músicos - merece.

Conferência. Voltarei ao tema - para lamentar uma ou outro aspecto e, sobretudo, para dizer bem.

JdB       


16 setembro 2026

Dos congressos de oncologia pediátrica

 

Comecei nestes congressos em 2009, talvez, em S. Paulo, Brasil. De lá para cá falhei alguns, assisti a muitos, fossem globais fossem regionais. Ao longo destes 17 anos fiz amigos, conheci dezenas e dezenas de pessoas, chorei, ri-me, comovi-me com histórias. 

Talvez já tenha partilhado esta ideia aqui. Quando me perguntaram o que tirava eu de 17 anos de oncologia pediátrica a nível global, a minha resposta foi rápida: (i) a fantástica comunidade que se formou entre Pais e profissionais de saúde. Uma comunidade solidária, que reconhece a importância de ser médico e de ser Pai para a sobrevivência das crianças e jovens com cancro; (ii) uma metáfora: em Washington, num dos congressos, uma egípcia a dançar com um israelita. Era uma altura em que a política não tinha a relevância que tem agora, e a dança de dois 'países' tradicionalmente inimigos - ou com relações sempre tensas - é uma metáfora: nada é tão relevante como a doença dos nossos filhos; (iii) os Pais querem contar a história dos seus filhos e nem sempre encontraram uma escuta activa. Aqui sim, porque falamos todos a mesma linguagem, os nossos ouvidos e corações estão abertos para esta realidade.  

Este talvez seja o meu último congresso. Já não sendo presidente da Acreditar, faz sentido dar o lugar ao meu sucessor. Foi com muito gosto, por isso, que acompanhei o Álvaro Bessa, Pai e novo presidente da associação que se estreia nestas andanças. Por razões políticas, o número de participantes neste congresso - sejam de organizações de Pais, sejam de profissionais de saúde - é muito menor do que os costume: da Europa muita gente não vem por questões políticas; de África vem pouca gente, porque a maior parte dos países faz parte da lista negra para concessão de vistos. Mesmo assim será uma boa experiência para o Álvaro: conhece pessoas, fica a par da dinâmica do CCI e da conferência, derrama um olhar mais vasto e global sobre o mundo da oncologia pediátrica. Acompanhar o Álvaro Bessa é, também, olhar em frente, perceber a continuidade

Só quem me conhece e me vai ouvindo percebe o que deixo para trás: os conhecimentos técnicos, a dimensão social e humana, as apresentações e as histórias que me comoveram, as coincidências significativas, as amizades, a rede construída, as histórias fantásticas de gente que faz tanto com quase nada, a minha vida partilhada com pessoas que mal conhecia. E também uma grega, outsider desta comunidade, que me dedicou e autografou um livro de poemas bilingue, do qual retiro duas linhas sobre esperança:   

E quando desperta / representa uma ameaça iminente para a realidade.

JdB


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