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25 novembro 2016

Das descobertas

Contam-me um sketch humorístico brasileiro: estamos em 1500 e Pedro Álvares Cabral chega ao Brasil. Escondidos por trás da vegetação, dois índios (provavelmente da tribo aymoré) dizem um para o outro: fomos descobertos! 

Obviamente que não somos descobertos, não só se não estivermos a fugir de ninguém e, menos ainda, se desconhecermos que há mundo lá fora. Os índios, como é óbvio, não saberiam do mundo exterior. E no entanto, todos as tribos de índios ou de aborígenes do mundo inteiro - do pantanal brasileiro à Nova Guiné - poderiam dizer isso com propriedade de horror se seguissem a ideia de Lévi-Strauss que, sendo antropólogo, tinha uma ideia fraquíssima e muito crítica da antropologia a ponto de dizer: "todo o esforço para compreender destrói o objecto pelo qual nos tínhamos interessado, em proveito de um objecto de natureza diversa."

Lévi-Strauss destruiu os Bororo quando os descobriu. Fez o mesmo aos Nambiquara e a outras tribos do interior brasileiro. Quando os descobriu e, na sua convivência com eles, redigiu registos de campo com os hábitos dos homens, dos chefes, das mulheres e das crianças de cada tribo, começou a destruí-los, porque lhes perturbou um sossego milenar e lhes revelou uma civilização indesejada. E talvez tenha sentido este paradoxo que é um antropólogo na sua terra querer mudar tudo em nome do conforto, dos direitos dos homens, das minorias, das mulheres ao seu corpo e, no interior brasileiro onde conviveu com os Tupi-Cavaíbas, não querer que mude nada. 

O que queremos mudar nós nas tribos que descobrimos? O que é legítimo mudar e em nome de que moral? Temos o direito de querer impedir a poligamia numa tribo africana? Ou dizer como se devem vestir as mulheres no médio oriente? Ou regular as relações de poder ou as regras de vizinhança numa comunidade escondida da Nova Guiné? Ou impedir os chineses de comer cão? Ou querer catequizar os incréus? O que é razoável? Quais são os valores morais ou éticos absolutos que nós, europeus / ocidentais, nos achamos com direito de impor ao mundo? E o que ganharam os cadiueus quando viram aproximar-se Lévi-Strauss de bloco de notas e máquina fotográfica?

Fomos descobertos! Há um certo horror genuíno na frase. Não sei bem é onde...

JdB       

08 novembro 2016

Ainda das viagens (ou uma espécie de Duas Últimas)

Nos anos 30 do século passado Claude Lévi-Strauss estava na selva amazónica para estudar antropologicamente algumas tribos índias - Cadineus, Bororos, Nambiquaras e Tupi-Cavaíbas. Dessa experiência - e de muitas outras - saiu um livro chamado Tristes Trópicos que, escrito na primeira pessoa, começa de uma forma esperançada: odeio as viagens e os exploradores.     

Diz Lévi-Strauss a certa altura: 

Do mesmo modo que os homens e as paisagens, à conquista dos quais eu tinha partido, perdiam, quando eu os alcançava, o significado que deles esperava, do mesmo modo a essas imagens decepcionantes, ainda que presentes, substituíam-se outras, guardadas no meu passado e às quais não dera valor algum, quando ainda faziam parte da realidade que me rodeava. Caminhando, por regiões que poucos olhares tinham contemplado, partilhando a experiência dos povos cuja miséria era o preço - pago em primeiro lugar por eles - para que eu pudesse recuar no curso dos milénios, eu já não apercebia nem uns nem outros, mas sim visões fugitivas da província francesa que a mim próprio tinha negado ou fragmentos de música ou de poesia que eram a expressão mais convencional de uma civilização contra a qual seria bem necessário que eu me persuadisse de ter optado, com riscos de desmentir o sentido que tinha dado à minha vida. Durante semanas inteiras, nesse planalto do Mato Grosso Ocidental, tinha estado obcecado, não mais por aquilo que me rodeava e que eu não voltaria a ver, mas por uma melodia muito batida que a minha recordação ainda empobrecia mais: a do Estudo número três, Opus 10 de Chopin, na qual me parecia, por uma ironia a cujo amargor eu também era sensível, que tudo o que deixara para trás de mim nela se resumia.

Há quem vá a Budapeste e só veja Budapeste. Há quem vá a Budapeste e, de frente para o Danúbio, consiga ver a calçada de Portimão, o cheiro da sardinha assada e do pingo em cima do pão, a força de uma mão maternal que nos confere segurança nas ondas do nosso mar. Viajar é, parece-me que li, partir para longe à procura de um regresso. Quem em Budapeste só vê Budapeste talvez nunca tenha partido, ou o pudesse fazer sem nunca sair do quarto.

Deixo-vos com o estudo número três, opus 10 de Chopin, aquele que Lévi-Strauss ouviu no Mato Grosso.

JdB


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