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03 abril 2019

Duas Últimas

Evgeny Kissin, cujo nome conheço bem é, indiscutivelmente, um grande pianista. Vou presumir que La Campanella, de Liszt, não é uma obra para meninos. Ver esta interpretação é ver algo que se aproxima da perfeição.



Não sei quem é Nobuyuki Tsujii - confesso que não fui ver de onde é nem que idade tem. Imagino que no mundo civilizado de hoje, cheio de tecnologia de diagnóstico, os pais deste rapaz teriam ouvido a informação terrível: o vosso filho nascerá cego; para além disso tem síndrome de Down.  Talvez os pais não quisessem ter este filho pelos motivos mais egoístas, por não acreditarem que a vida nasce a partir do momento da concepção, por acharem que um ser humano assim ia ser uma fardo para eles ou para a sociedade, que seria para sempre infeliz. Talvez a mãe fizesse um aborto... 

Deixo-vos com La Campanella. A mesma obra que Evgeny Kissin interpreta acima. Agora tocada por um pianista cego e com síndrome de Down. Não sei se há grande diferença na interpretação, imagino que haja pormenores aos quais não chegarei. Mas a grande diferença está entre aquilo que poderia ter sido um morte anunciada e uma vida feliz, a tocar Liszt nos concertos Promenade de 2013. 

JdB 




08 novembro 2016

Ainda das viagens (ou uma espécie de Duas Últimas)

Nos anos 30 do século passado Claude Lévi-Strauss estava na selva amazónica para estudar antropologicamente algumas tribos índias - Cadineus, Bororos, Nambiquaras e Tupi-Cavaíbas. Dessa experiência - e de muitas outras - saiu um livro chamado Tristes Trópicos que, escrito na primeira pessoa, começa de uma forma esperançada: odeio as viagens e os exploradores.     

Diz Lévi-Strauss a certa altura: 

Do mesmo modo que os homens e as paisagens, à conquista dos quais eu tinha partido, perdiam, quando eu os alcançava, o significado que deles esperava, do mesmo modo a essas imagens decepcionantes, ainda que presentes, substituíam-se outras, guardadas no meu passado e às quais não dera valor algum, quando ainda faziam parte da realidade que me rodeava. Caminhando, por regiões que poucos olhares tinham contemplado, partilhando a experiência dos povos cuja miséria era o preço - pago em primeiro lugar por eles - para que eu pudesse recuar no curso dos milénios, eu já não apercebia nem uns nem outros, mas sim visões fugitivas da província francesa que a mim próprio tinha negado ou fragmentos de música ou de poesia que eram a expressão mais convencional de uma civilização contra a qual seria bem necessário que eu me persuadisse de ter optado, com riscos de desmentir o sentido que tinha dado à minha vida. Durante semanas inteiras, nesse planalto do Mato Grosso Ocidental, tinha estado obcecado, não mais por aquilo que me rodeava e que eu não voltaria a ver, mas por uma melodia muito batida que a minha recordação ainda empobrecia mais: a do Estudo número três, Opus 10 de Chopin, na qual me parecia, por uma ironia a cujo amargor eu também era sensível, que tudo o que deixara para trás de mim nela se resumia.

Há quem vá a Budapeste e só veja Budapeste. Há quem vá a Budapeste e, de frente para o Danúbio, consiga ver a calçada de Portimão, o cheiro da sardinha assada e do pingo em cima do pão, a força de uma mão maternal que nos confere segurança nas ondas do nosso mar. Viajar é, parece-me que li, partir para longe à procura de um regresso. Quem em Budapeste só vê Budapeste talvez nunca tenha partido, ou o pudesse fazer sem nunca sair do quarto.

Deixo-vos com o estudo número três, opus 10 de Chopin, aquele que Lévi-Strauss ouviu no Mato Grosso.

JdB


28 setembro 2010

Tostão Contado

Escada acima, escada abaixo. Tapetes levantados, almofadas do sofá incomodadas, cadeiras arredadas do seu lugar de repouso habitual, esquinas de salas esquecidas que tiveram direito a ser olhadas segunda e terceira vez. Nada dentro de casa escapou a esta busca impiedosa pelo tostão perdido.

Os cortinados foram mexidos, remexidos e abanados que, estando sempre tão fechados sobre si próprios, são o esconderijo perfeito para um tostão transviado. Tantas dobras e tanto pano oculto só podem servir para esconder o que não se quer mostrar.

As molduras foram rodadas ou deitadas, quem sabe se por trás dos sorrisos das fotografias não se esconde alguém que gosta de ficar com o que não é seu. Houve mesmo algumas que, por distracção ou vingança, quem sabe?, foram deixadas voltadas para uma parede vazia, ou ainda pior, voltadas para fotografias de pessoas de quem não gostam.

Nem mesmo o piano, avô de todos os móveis da casa, foi poupado a esta violação de privacidade. Espreitaram para dentro dele, sem pedir licença, sem bater no tampo para anunciar que iam entrar. Levantaram e afastaram as cordas, já frouxas e moles devido ao abandono e esquecimento a que foram votadas, como os velhos que vão contando o tempo que têm, com dedos que já não mexem e articulações que rangem.

Em lado nenhum se encontrou a moeda. Evaporou-se. Desapareceu. Fugiu sem deixar morada nova. Já não havia pedaço de chão que não tivesse sido esquadrinhado. A casa tinha sido toda passada a pente fino.

Amanhã viria o leiteiro fazer contas, e como reagiria quando lhe fosse dito, Olhe, eu até tinha o dinheiro que lhe devo, mas o tostão decidiu fazer pouco de mim e saiu de casa sem me dizer para onde ia. Como seria paga a manteiga para dar sabor às torradas? O pão para a torradeira? A electricidade que dá vida, não só à torradeira, mas também ao resto da casa? E se nós sem comida corremos o risco duma fraqueza, o que acontecerá a uma casa sem electricidade que, vendo bem, é a sua fonte de alimentação?

Bem diz o Evangelho que devemos ir sempre em busca da dracma perdida, mas, nessa parábola, a dona da moeda desaparecida tinha outras nove guardadas em lugar seguro. Essas não iam a lado nenhum, estavam fechadas a sete chaves dentro de um cofrezinho de madeira que, por sua vez, estava guardado dentro de um baú, esse fechado não a sete mas a nove chaves. Uma por cada dracma. Com tanta tranca não há, realmente, o perigo de desaparecimento de mais dinheiro.

Mas neste caso a moeda era exemplar único. Não havia mais nove dentro de um cofrezinho, dentro de um baú. Por isso, esta busca tinha mais de necessidade que de misericórdia.

Mas, seja quais forem as razões por trás da busca, parece que o dinheiro levou a melhor. Partiu para parte incerta, lançou-se ao mundo, foi descobrir novos porta-moedas. Ou então, talvez esteja só bem escondido dentro de casa, amuado num esconderijo secreto, a descansar de todas as transacções a que tem sido sujeito, e toda esta busca furiosa pelo tostão perdido seja um pouco exagerada.

SdB (III)

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