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04 agosto 2015

Duas Últimas

Hoje, mas há rigorosamente sete anos, partia para o Zimbabwe onde me quedaria durante dois meses carpindo mágoas, gozando alegrias, olhando para a frente e para trás com intensidades desiguais. Em bom rigor, é hoje que este estabelecimento faz anos, porque foi por esta viagem que ele foi criado. Tudo o que se passou antes teve uma dimensão de estágio, apenas. Por mais anos que viva esta foi, seguramente, a viagem da minha vida, frase que se tornou maçadora e gasta pela profusão de repetições. 

Conheci Harare e o encanto dos jacarandás e das crianças fardadas por igual. Conheci Lusaca e a missão de padres portugueses. Conheci a Beira, um infantário para crianças no Macúti que abriram sorrisos que geraram outros sorrisos. Conheci a savana, as flat top acacia, o elefante e o rinoceronte a dois passos do nosso gin and tonic ao cair do dia. Conheci a montanha sagrada de Ngomakurira e a ala das crianças com cancro. Conheci o Pointe e a desvergonha do karaoke. Conheci gente que me ficou na memória e gente que se tornou minha história. Escrevi como nunca mais escreverei, numa dimensão de total liberdade criativa. Conheci o impacto do Mia Couto na construção de pontes. Tudo o que eu conheci e vivi não cabe nesta folha de computador, não cabe no espaço de tempo que entendi dedicar-lhe. Quase tudo agradeço ao embaixador da altura e meu amigo JdC.  

Lembrar a minha partida para o Zimbabwe com música é afunilar tudo até à escolha única e possível: esta que vos apresento, talvez pela terceira vez desde que este estabelecimento está aberto. Agitem-se!

JdB


04 setembro 2012

Duas últimas

Há uns dias, nestas romagens nostálgicas a que sempre me atiro, e vencido, também, por uma certa falta de inspiração para o blogue, fui ver o que estava a fazer naquele exacto momento, mas em 2008, quando estive no Zimbabwe. A crónica relatava o meu primeiro e único safari - uma experiência de luxo a preços módicos, um contacto próximo com a natureza africana, os animais à distância de um bafo. No dia anterior tinha escrito para Portugal, no que seria o princípio de uma conversa muito interessante e profícua, assente, também, em Mia Couto. Outra coincidência significativa.

Ontem, ao ter de escrever para a crónica Duas Últimas, fiz o mesmo exercício. Dia 3 de Setembro de 2008 estava a usufruir de uma das experiências que mais impacto teve nos meus sentidos: a subida à montanha mágica de Ngomakurira (a crónica pode ser lida aqui, para quem tiver vontade e paciência). Por mais anos que viva não esquecerei este dia, não só pela simpatia do convite, pela beleza esmagadora da paisagem mas, também, pela sincronicidade: ao meu lado, por puro acaso do destino, caminhava uma pessoa que não me conhecia (nem eu a ela) e me levaria, no dia seguinte, à ala das crianças com cancro de um hospital de Harare.

Tive a sorte de viajar muito, sozinho ou acompanhado, com amigos ou em família. Sem desprimor por todas as viagens e por todas as companhias, nada se comparará nunca ao Zimbabwe - até pelas circunstâncias em que fui. Ali encontrei tudo: beleza, extensão, cor, música, ritmo, simplicidade, amizade, companhia, saudades, futuro. Entre a sensualidade de uma dança no Pointe e o destino de uma casa no Macuti transformada em orfanato, tudo se aproveitou, de tudo se construiu alguma coisa.

Peço desculpa, mas hoje é dia de Zimbabwe (embora a música seja sul-africana). Vejam o vídeo e dancem.

JdB
    

06 agosto 2009

Memórias dos dias que correm

Hoje, mas há um ano, mais dia menos dia, chegava ao Zimbabwe para aí permanecer dois meses. Preparava-me para uma travessia longa - não só o percurso aeronáutico, como também a duração da estadia, além do estado de espírito com que me atirava à jornada. Dizer que adorei lá estar não traduz, nem pouco mais ou menos, as lembranças que me ficaram desse tempo - o fascínio de uma África que eu só imaginava, o conhecimento de gente com quem faria facilmente amizade, uma vida ao mesmo tempo intensa e sossegada que me foi fundamental. Durante estas próximas semanas relembrarei, aqui e ali, episódios mais interessantes desse Verão. Hoje, deixo-vos com o excerto de uma crónica que escrevi sobre sobre a minha primeira experiência de Karaoke. Fica também a toada que atirava toda a gente para a pista de dança.
Adeus, até ao meu regresso...

(…)
Ontem, pela hora de jantar, éramos cinco à volta de uma mesa redonda no Pointe, um estabelecimento de diversão nocturna propriedade do Sr. Quintas, que assegura ter sido, em tempos mais idos, o cantor romântico de maior sucesso na África Austral.

Posso assegurar que foi o local mais interracial que conheci em toda a minha vida: encontrei angolanos, locais brancos e pretos, portugueses, um médico da ex-Jugoslávia, um advogado grego, alemães, brasileiros, iranianos, gente da polícia, indianos, diplomatas, pessoas com ar de leste, homossexuais, um chinês e tantos outros cuja proveniência me é desconhecida.

O estabelecimento serve jantares (classificado, no Michelin que me habita os sentidos, como satisfaz / satisfaz pouco). É um restaurante arquitectonicamente algo degradado, esteticamente indefinível, com pormenores curiosos: no cimo da parede, junto à sanca, um friso de lâmpadas verdes e encarnadas brilha em contínuo, revelando um nacionalismo iluminado; nas paredes, quadros diversos, variando entre o impressionismo, marinhas inglesas, tapeçarias ou óleos locais pendurados sem rigor de esquadria nem de cota; a um canto, um sistema traiçoeiro electrocuta insectos esvoaçantes num ruído de fritura; ventoinhas diversas e em profusão, lutando contra a estagnação dos aromas; no topo do salão principal do estabelecimento, dois semáforos grandes, projectando sem qualquer regularidade uma luz avermelhada forte. Indaguei, curioso, se estaria relacionado com algum código entre patrão e empregados, um morse luminoso que agilizasse o serviço, apressando a rotação das mesas. A resposta de um dos meus colegas de repasto veio imediata:

- não! Indica apenas casa de banho cheia…

Perguntar-me-ão, então, o que lá fui fazer, o que leva ao Pointe todo o mundo de Harare, sem qualquer distinção do que quer que seja. Eu explico numa palavra simples – mas demolidora: o karaoke! Na realidade, é esta espécie de semi-playback com legendas que impele dezenas de pessoas, todas as 6ªs feiras para, à volta de uma feijoada, de uma garoupa, de um chicken piripiri ou, simplesmente, de uma cerveja, se divertirem até ao limite da (sua) decência.

A sala não estava ainda quente – embora cheia – e já eu me abalançava para o primeiro teste, sabendo que o clima mundial se altera quando canto. Olhei para uma lista infindável de canções e não encontrei o Requiem de Mozart, espécie musical onde me sinto como peixe na água. Optei por uma toada que conheço, que tem uma letra (na minha imaginação, “assexuada”) que se adequa aos vários mundos em que vivo e que permite aos espectadores cantar em uníssono com o herói que se chega à frente: Che sera, sera.Quando dei por mim, era um artista no palco, com 1,86m, barbudo, um peso a rondar (para cá ou para lá) os três dígitos, pronto a enfrentar o possível arremesso de loiça e de vegetais sobrantes. Quando dei por mim cantava, simplesmente:


When I was just a little girl
I asked my mother, what will I be
Will I be pretty, will I be rich
Here's what she said to me.


Imaginei nos espectadores aquele olhar de espanto que antecede o do nojo ou da fúria – ou simplesmente o da estupefacção. Não sei se terá sido um sonho, mas o facto é que supus alguém, ao ver-me cantar uma música de mulher, a gritar da penumbra do salão:

- canta o like a virgin…

No fundo, dentro de nós vive um cançonetista em permanência, pronto a emergir ao menor sinal de despudor, de descontracção – ou excesso de vinho. Percebi, aos 50 anos, que quem habita o meu canto esmagado de entertainer se chama Doris Day…É isto, meus amigos. O karaoke levou-me, mais tarde, a enfrentar o la bamba e o obla di obla da num dueto de amigos e no recato da mesa.

Entre séries de voluntários (JdC levou uma multidão ao rubro entoando o Here comes the Sun e o Like a Rolling Stone) havia música diversa, para animar uma pista sempre cheia, mista, onde ocupei o meu lugar com a ligeireza que Nosso Senhor me quis dar. No espaço de um instante dançava com gente local e desconhecida uma toada sul-africana, sensual, batida, que me levou ao encanto de uma escultura dengosa e próxima – muito próxima, mesmo - que se contorceu com o à-vontade de quem tem estes sons dentro de si. Entre mim e ela chegou a haver, apenas, os meus óculos de meia-lua. Posso arrimar-me na dança com quem não conheço, roçar o corpo por uma beldade local, mas o facto é que já não vejo bem ao perto.




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