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23 dezembro 2014

Duas Últimas

O Natal aproxima-se a passos largos e reconheço que, se por um lado devo e quero valorizar o muito que representa, o que me pode trazer de bom para o espírito (que para o corpo….) e o que me compele a levar de bom aos outros (dois pontos que dependem sobretudo de mim), por outro não me é de todo estranho o sentimento de “não passar pela casa da partida” a que JdB aqui se referiu há uns dias.

No meu caso particular atribuo isso sobretudo a hábitos rotineiros demasiado arreigados, para quem o Natal representa perigo e sobressalto. Que são claramente manifestações clássicas de egoísmo. “Largos dias têm 100 anos”, diria por certo com a-propósito Pinto da Costa, o eterno Presidente do FCP (não confundir com “Longos dias têm 100 anos”, de Agustina).

Não esqueço todavia que no Natal as nossas memórias mais tristes se tornam especialmente vivas e presentes. Mas acho sinceramente que não há época mais propícia para bem lidar com elas do que o Natal, tempo por excelência de amor, esperança e agradecimento.

Trago-vos para final de ano 2 músicas portuguesas. A 1ª, actual, integrando um álbum com nome de uma rua que me é familiar, e estamos em tempo de festejar as famílias. A 2ª, já com uns anitos, porque há muito a queria apresentar neste blogue, que também há muito me vem suportando…

Um Santo Natal, com muita paz e alegria para todos.

fq






05 agosto 2010

Deixa-me rir...

Tive o privilégio de acompanhar um grupo de arquitectos do Porto a um local intitulado “Moderno Escondido” num destes últimos fins-de-semana. Trata-se de um local perdido no Nordeste Transmontano, lá para os lados de Mogadouro e Miranda do Douro, na terra de 9 Meses de Inverno, 3 Meses de Inferno, uma espécie de Alentejo nortenho. Planalto ondulado, paisagens a perder de vista, uma mão cheia de povoações, cores térreas e secas, castanheiros, muitas oliveiras, amoreiras, penedias ao jeito beirão … e veados, javalis, abutres necrófagos, lobos e cobras (para meu horror, vi uma esmigalhada e ressequida numa estrada que atravessámos). Senti-me noutro país, num outro mundo, e esqueci, completamente, a minha realidade lisboeta.

Mas para explicar o que é concretamente o “Moderno Escondido”, prefiro transcrever as seguintes citações (que tirei da net), e que ilustram muito melhor do que eu em que consiste este título tão curioso e que desde logo me fascinou:

O “Moderno Escondido” é o titulo dado pelos arquitectos Cannata (italiano) e Fernandes a uma exposição sobre o trabalho de pesquisa numa aldeia perdida em Trás-os-Montes.… um dos maiores tesouros arquitectónicos portugueses. Nos confins de Portugal, com Espanha à vista, esconde-se uma aldeia perdida no calendário mas não no tempo.

Há cerca de 50 anos, aquando da construção dos três aproveitamentos hidroeléctricos do douro internacional, num dos mais remotos pontos do país, houve necessidade de alojar uma enorme quantidade de trabalhadores, onde é hoje a aldeia de Barrocal do Douro, junto à barragem do Picote.

3 arquitectos recém-formados pela Escola de Belas Artes do Porto, tiveram liberdade para dar azo à criatividade e transformar um morro nas escarpas do Douro Internacional num local habitável e «revolucionário» numa região isolada onde faltava praticamente tudo. Archer de Carvalho, Nunes de Almeida e Rogério Ramos projectaram há cinquenta anos o que os entendidos da arquitectura moderna classificam hoje como «uma cidade ideal», fundada a partir do nada com todas as infra-estruturas e serviços, inacessíveis à maioria da população daquela época.

O novo aglomerado tinha capacidade para suportar o quotidiano de quatro mil pessoas, número em muito superado durante a construção do empreendimento. Actualmente a aldeia "ideal" é considerada património nacional pelo IPPAR.

......

A política de electrificação do país nos anos 50 promoveu a construção de numerosas barragens no leito de alguns dos mais importantes rios portugueses. A Hidroeléctrica do Douro contou com a participação de um conjunto de arquitectos recém-formados na Escola de Belas Artes e voluntariamente dedicados à Arquitectura Moderna – João Archer de Carvalho, Nunes de Almeida e Rogério Araújo Ramos. As construções das barragens do Douro Internacional, divulgadas na exposição “Moderno Escondido”, são um testemunho da vontade transformadora da arquitectura no interior do país e de uma colaboração estreita e frutuosa entre arquitectos e engenheiros.

E ainda um link para um artigo do blogue “O Dolo Eventual” que nos remete para a negligência que caracteriza, grosso modo, a nossa maneira de ser e de estar e que é transversal a quase todos os sectores deste país tão, tão, tão imensamente cheio de potencial. Sem palavras.


Isto tudo para dizer que adorei o passeio, as pessoas com quem fui, as conversas entabuladas e a frescura, leveza, juventude, quase alegria que estes edifícios, escondidos no Portugal profundo, transmitem. Pergunta: e não estariam alegres, super entusiasmados, electrizados, os recém-formados arquitectos a quem deram a responsabilidade, e a oportunidade, de desenhar, algo de novo, de diferente, no contexto da arquitectura do nosso país? Claro que sim! E isso VÊ-SE completamente. (por acaso sei que estavam neste estado de espírito porque um destes arquitectos, agora com 80 e poucos anos, um senhor deliciosamente sedutor, cativante e criativo, contou histórias que o ilustravam na perfeição - para quem pudesse ter alguma dúvida!).

Recomendo a visita a este canto da nossa pátria. Que constitui o retrato de um Portugal radical, fresco, imponente, dramático, longínquo, revolucionário, inovador, pleno de criatividade. Revi-me, verdadeiramente, neste Portugal. Quem dera que tudo fosse assim…

Mas adiante – não quero ser “Velha do Restelo” - … vamos, então, à música. Claro que hoje só poderia ser música portuguesa. E aí sim, temos feito coisas muito boas nas últimas décadas. Aqui ficam algumas “pérolas”:






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