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25 fevereiro 2025

Duas Últimas

Este fim de semana estive no Porto para um concerto comemorativo (haverá mais) da Acreditar, que celebra este ano o seu 30º aniversário. Nesse dia, ao jantar, conversando com grandes amigos, com quem tenho uma dívida de gratidão com quase 25 anos, soube desta música que poderia ser a música dos nossos sobreviventes (uma expressão de que ninguém gosta - mesmo no estrangeiro - mas para a qual não se encontrou ainda substituto linguisticamente eficiente). Ouvi-a ontem pela primeira vez. E sim, concordo, a música e a letra aplicar-se-iam bem à história destas crianças / jovens afectados pelo cancro. 

Digam lá se não concordam...

JdB 

Voar

Eu queria ser astronauta O meu país não deixou Depois quis ir jogar à bola A minha mãe não deixou Tive vontade de voltar à escola Mas o doutor não deixou Fechei os olhos e tentei dormir Aquela dor não deixou Ó meu anjo da guarda Faz-me voltar a sonhar Faz-me ser astronauta E voar O meu quarto é o meu mundo O écran é a janela Não choro em frente à minha mãe Eu que gosto tanto dela Mas esta dor não quer desaparecer Vai-me levar com ela Ó meu anjo da guarda Faz-me voltar a sonhar Faz-me ser astronauta E voar Acordar, meter os pés no chão Levantar, pegar no que tens mais à mão Voltar a rir, voltar a andar, voltar, voltar Voltarei, voltarei, voltarei Voltarei, voltarei, voltarei Voltarei, voltarei Acordar, meter os pés no chão Levantar, pegar no que tens mais à mão Voltar a rir, voltar a andar, voltarei!

29 novembro 2022

Músicas dos dias que correm *

 

* último álbum de Katia Guerreiro, nesta faixa com uma colaboração interessante de Rui Veloso.

12 outubro 2020

Duas Últimas

 


A gente não lê

Ai Senhor das Furnas Que escuro vai dentro de nós, Rezar o terço ao fim da tarde, Só pr'a espantar a solidão, E rogar a Deus que nos guarde, Confiar-lhe o destino na mão. Que adianta saber as marés, Os frutos e as sementeiras, Tratar por tu os ofícios, Entender o suão e os animais, Falar o dialecto da terra, Conhecer-lhe o corpo pelos sinais. E do resto entender mal, Soletrar assinar de cruz, Não ver os vultos furtivos, Que nos tramam por trás da luz. Ai senhor das furnas, Que escuro vai dentro de nós, A gente morre logo ao nascer, Com os olhos rasos de lezíria, De boca em boca passando o saber, Com os provérbios que ficam na gíria. De que nos vale esta pureza, Sem ler fica-se pederneira, Agita-se a solidão cá no fundo, Fica-se sentado à soleira, A ouvir os ruídos do mundo, E a entendê-los à nossa maneira. Carregar a superstição, De ser pequeno ser ninguém Mas não quebrar a tradição Que dos nossos avós já vem.

24 junho 2014

Duas Últimas

Há muitos anos - quase cinquenta, por aí - havia quem fizesse colecção de autógrafos. Uns juntavam-nos nas folhas de papel mais diversas - bilhetes de espectáculos, recortes, etc. - outros em livros criados especialmente para o efeito, como os álbuns de selos. Eu nunca fui dado a qualquer tipo de coleccionismo (sou mais ajuntador de um ou outro artigo), mas tenho a ideia desse tempo. Íamos a uma corrida de touros e queríamos uma assinaturazinha do cavaleiro ou do forcado, porque o peão de brega não nos pareceria relevante.  Era um tempo, talvez, em que havia uma espécie de mito dos artistas. Os actores de cinema, os cantores, os desportistas ou outra gente quejanda pareciam-nos ser de acesso difícil por viverem num plano (e numa idade) superior ao nosso. Era por isso que lhes pedíamos autógrafos - para termos uma evidência objectiva, se não da sua existência, pelo menos da sua passagem pelo nosso horizonte visual ou extensão de um braço. 

Hoje, estou em crer, tudo isso acabou, pelo menos em Portugal. Os actores de novelas pululam por aí nas festas e na noite roçando-se pelo comum dos mortais, os actores de cinema são os actores de novelas a quem foi dada uma oportunidade melhor, os escritores são gente moderadamente comum e com os cavaleiros tauromáquicos (de quem só uma minoria se interessa em Portugal) podemos cruzar-nos num linear do Continente que vende duas gelatina pelo preço de uma. Os nossos melhores desportistas estão lá fora, e os verdadeiros fãs desinteressam-se do autógrafo do Ronaldo, preferindo levantar alto uma cartolina A2 onde se escreve uma frase simples, sem hipótese de erros ortográficos: "Cristiano, faz-me um filho!"

Lembrei-me deste raciocínio pateta num fim de tarde outonal. É que Domingo estive largos minutos à conversa com o Rui Veloso, encostados ambos à barra de um bar com vista sobre alguma cidade. Apresentaram-nos e eu disse-lhe o meu nome. Ele disse simpaticamente olá, porque não carecia de mais nada. Falámos do Tony Carreira, sobretudo, e um pouco de futebol. Abordámos o piquenicão gigante de Lisboa e alguém lhe perguntou pelos filhos. Gostei de o conhecer e de o ver, quanto mais não seja porque numa festa de 30 pessoas, talvez, ele era o mais velho. Logo a seguir vinha eu, a seis meses de distância. Há cinquenta anos ter-lhe-ia pedido um autógrafo, assim como ao outro cantor e duas actrizes com quem, no mesmo coktail, podia ter roçado um braço na luta por um camarão panado. Perdeu-se o fascínio ou é da minha idade?

Deixo-vos, algo nostalgicamente, com Rui Veloso, a quem não pedi um autógrafo, talvez por eu já ser demasiado velho para ter ídolos da canção.

JdB

  



09 outubro 2012

Duas últimas

Vivemos num tempo em que, sobretudo na gestão da “cousa pública”, as promessas são as mais das vezes vãs e despudoradas. Há aquelas que até poderiam ser cumpridas, não fora a manifesta incompetência, inépcia ou algum desvario de quem as profere e há aquelas que são manifestamente impossíveis de cumprir/honrar, feitas portanto de má fé e intenção enganosa, em busca de um voto a mais aqui ou de uma qualquer vantagem ali.

Não sei se foi sempre assim, mas tenho a convicção de que pelo menos nunca foi tanto assim. No caso dos eleitos e dos por estes escolhidos, sucede com inusitada frequência que, acossados como nunca pelo tempo ou pela falta dele (pensam eles), pelos implacáveis media que têm uma actividade que não conhece limites ou por entidades cinzentonas mas com mando efectivo, prometem mundos e fundos, quimeras e mais quimeras, e depois é o que sabemos. Desrespeitando em absoluto os destinatários e descredibilizando-se a eles e ao país.

Não lhes ensinaram, ou então esqueceram-no convenientemente, que só devemos prometer o que podemos honrar, porque de alguma forma conseguimos controlar ou no mínimo influenciar. A frase que muitas vezes ouvi a meu pai de que “ é um privilégio raro servirmos um chefe que admiramos” tem também aqui pleno sentido. Pois só se admira quem, entre outras qualidades, cumpre a palavra dada! Ainda existem algumas pessoas desse quilate, daquelas que cumprem com o prometido, porém e infelizmente poucas.

E assistir a tantas promessas incumpridas por certo que não fará muito bem à esfera privada dos nossos compromissos e, pior ainda, não deixará de influenciar negativamente os mais novos, que tenderão a achar tudo isso normal, sobretudo se essas situações, e são muitas, não forem convenientemente explicadas e conversadas.

Hoje trago duas músicas de Rui Veloso. Uma sobre mais uma promessa que não passou disso mesmo, a outra porque é uma música dele que me vai a gosto.
 
Espero que também apreciem.

fq



05 agosto 2010

Deixa-me rir...

Tive o privilégio de acompanhar um grupo de arquitectos do Porto a um local intitulado “Moderno Escondido” num destes últimos fins-de-semana. Trata-se de um local perdido no Nordeste Transmontano, lá para os lados de Mogadouro e Miranda do Douro, na terra de 9 Meses de Inverno, 3 Meses de Inferno, uma espécie de Alentejo nortenho. Planalto ondulado, paisagens a perder de vista, uma mão cheia de povoações, cores térreas e secas, castanheiros, muitas oliveiras, amoreiras, penedias ao jeito beirão … e veados, javalis, abutres necrófagos, lobos e cobras (para meu horror, vi uma esmigalhada e ressequida numa estrada que atravessámos). Senti-me noutro país, num outro mundo, e esqueci, completamente, a minha realidade lisboeta.

Mas para explicar o que é concretamente o “Moderno Escondido”, prefiro transcrever as seguintes citações (que tirei da net), e que ilustram muito melhor do que eu em que consiste este título tão curioso e que desde logo me fascinou:

O “Moderno Escondido” é o titulo dado pelos arquitectos Cannata (italiano) e Fernandes a uma exposição sobre o trabalho de pesquisa numa aldeia perdida em Trás-os-Montes.… um dos maiores tesouros arquitectónicos portugueses. Nos confins de Portugal, com Espanha à vista, esconde-se uma aldeia perdida no calendário mas não no tempo.

Há cerca de 50 anos, aquando da construção dos três aproveitamentos hidroeléctricos do douro internacional, num dos mais remotos pontos do país, houve necessidade de alojar uma enorme quantidade de trabalhadores, onde é hoje a aldeia de Barrocal do Douro, junto à barragem do Picote.

3 arquitectos recém-formados pela Escola de Belas Artes do Porto, tiveram liberdade para dar azo à criatividade e transformar um morro nas escarpas do Douro Internacional num local habitável e «revolucionário» numa região isolada onde faltava praticamente tudo. Archer de Carvalho, Nunes de Almeida e Rogério Ramos projectaram há cinquenta anos o que os entendidos da arquitectura moderna classificam hoje como «uma cidade ideal», fundada a partir do nada com todas as infra-estruturas e serviços, inacessíveis à maioria da população daquela época.

O novo aglomerado tinha capacidade para suportar o quotidiano de quatro mil pessoas, número em muito superado durante a construção do empreendimento. Actualmente a aldeia "ideal" é considerada património nacional pelo IPPAR.

......

A política de electrificação do país nos anos 50 promoveu a construção de numerosas barragens no leito de alguns dos mais importantes rios portugueses. A Hidroeléctrica do Douro contou com a participação de um conjunto de arquitectos recém-formados na Escola de Belas Artes e voluntariamente dedicados à Arquitectura Moderna – João Archer de Carvalho, Nunes de Almeida e Rogério Araújo Ramos. As construções das barragens do Douro Internacional, divulgadas na exposição “Moderno Escondido”, são um testemunho da vontade transformadora da arquitectura no interior do país e de uma colaboração estreita e frutuosa entre arquitectos e engenheiros.

E ainda um link para um artigo do blogue “O Dolo Eventual” que nos remete para a negligência que caracteriza, grosso modo, a nossa maneira de ser e de estar e que é transversal a quase todos os sectores deste país tão, tão, tão imensamente cheio de potencial. Sem palavras.


Isto tudo para dizer que adorei o passeio, as pessoas com quem fui, as conversas entabuladas e a frescura, leveza, juventude, quase alegria que estes edifícios, escondidos no Portugal profundo, transmitem. Pergunta: e não estariam alegres, super entusiasmados, electrizados, os recém-formados arquitectos a quem deram a responsabilidade, e a oportunidade, de desenhar, algo de novo, de diferente, no contexto da arquitectura do nosso país? Claro que sim! E isso VÊ-SE completamente. (por acaso sei que estavam neste estado de espírito porque um destes arquitectos, agora com 80 e poucos anos, um senhor deliciosamente sedutor, cativante e criativo, contou histórias que o ilustravam na perfeição - para quem pudesse ter alguma dúvida!).

Recomendo a visita a este canto da nossa pátria. Que constitui o retrato de um Portugal radical, fresco, imponente, dramático, longínquo, revolucionário, inovador, pleno de criatividade. Revi-me, verdadeiramente, neste Portugal. Quem dera que tudo fosse assim…

Mas adiante – não quero ser “Velha do Restelo” - … vamos, então, à música. Claro que hoje só poderia ser música portuguesa. E aí sim, temos feito coisas muito boas nas últimas décadas. Aqui ficam algumas “pérolas”:






PCP

03 setembro 2009

Deixa-me rir...

Inicia-se hoje neste espaço, por grande amabilidade do dono deste estabelecimento, uma nova rubrica intitulada “Deixa-me rir …”. E como de uma rubrica musical se trata, nada melhor do que lhe dar um nome inspirado numa line de uma música de um cantor de que gosto muito – Jorge Palma -, que já tive a oportunidade de ver ao vivo num memorável, e afortunadamente interminável, concerto no Coliseu do meu querido Porto. Esta rubrica será produzida a meias em português (pcp) e inglês (po), pelo que se espera que a informação proveniente directamente de Londres, pela “mão” do po, grande amigo meu e imenso conhecedor (ainda que amador) de música anglo-saxónica, seja compreendida por todos os bloguistas.

Vamos então celebrar a Música, na sua forma menos erudita e clássica, ainda que esta definição tenha muito que se lhe diga, e começar com música do nosso Portugal. Concretamente com um famoso artista do meu (mais uma vez) querido Porto, o chamado “pai do rock português”. Não o dito cujo “Chico Fininho”, essa música cheia de ritmo e algo revolucionária à época, mas uma música cheia de soul e sentimento (como quase todas as músicas dele são, ou eram, aliás). A escolha foi difícil (podiam ter sido outras 10!), mas esta foi a contemplada. Espero que gostem. Até breve.

pcp + po


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