As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
Mostrar mensagens com a etiqueta Rodrigo Leão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rodrigo Leão. Mostrar todas as mensagens
07 setembro 2026
20 maio 2010
Deixa-me rir...
Hoje o tema é “Música e Pintura”. Para variar um pouco do formato habitual, apresento-vos um quadro que descobri há pouco tempo (desconhecia-o; mas não ao seu autor) e uma canção cheia de pasión que nada tem a ver com o quadro!
O quadro é de Gustav Klimt, intitula-se Lady with a Fan, e foi pintado (e não acabado) entre 1917-1918. Klimt morreu antes de acabar o quadro. Mas mesmo inacabado (ou aparentemente inacabado, porque não parece …), é impossível (digo eu) não se ficar rendido à sua sedução.
Em grande primeiro plano, uma senhora deixa deslizar um luxuriante quimono do ombro e segura um leque. A expressão é distante. Não está “lá”. Está de corpo, não está de alma. Será uma gueixa? Talvez. Klimt foi coleccionador de pinturas japonesas. O que fazia todo sentido numa época em que se dá a re-descoberta de países longínquos, suas culturas e manifestações. O orientalismo estava na moda no final do séc XIX - início do séc XX. E o conjunto do quadro evoca isso mesmo: nos padrões, nas texturas, no colorido e nas flores e aves do paraíso em background. Este quadro lembra-me o colorido do Bonnard ou do Vuillard, a delicadeza dos retratos do Renoir, e talvez (!), muito livremente, o Gauguin, pela força das cores e pelo gosto pelo exótico
À maravilha do traço, à sensibilidade dos contornos, acresce a vibração das cores e, para mim, o elogio ao estilo decorativo per se. Como diz um amigo meu, decorar, é “colocar com o coração” (de-corazione). Se é com o coração é para ser bonito à vista, agradável aos sentidos, confortável ao “estar”. Dito por outras palavras, privilegia-se a forma em detrimento do conteúdo. A forma é Bela e é isso que conta. O significado passa para segundo plano, não há grandes ilações a tirar. Interessa que há uma modelo que é bela, que tem a expressão e o enquadramento que o artista lhe quis dar e ponto final.
Estou convencida que muitos pintores do Impressionismo e seus contemporâneos não tinham a pretensão de imbuir os seus trabalhos de significados especiais. Os significados parece-me que ficaram mais lá para trás, para épocas em que a pintura, e a arte em geral, tinha uma carga religiosa e simbólica muito forte, em que cada quadro era uma narrativa com um intuito muito claro. A nítida quebra com essa simbologia e sacralidade deu-se com o início do séc. XX. Curiosamente, parece-me que é novamente a partir da Pop Art (late 50's) que os significados são redescobertos em obras que nem sempre agradam aos que privilegiam o belo, o estético, a harmonia.
Parece-me que o mesmo se passa, de outra forma, em relação a poetas/escritores. Quando estava no liceu e era obrigada a dissecar Bocage, Cesário Verde e Camilo, senti muitas vezes que estava a fazer um exercício interessante, sem dúvida, mas talvez excessivamente especulativo. Penso que muitas vezes somos nós, leigos, que, maravilhados com o que vemos ou lemos, nos sentimos impelidos a tentar descobrir sentidos e conexões que nos revelem o mistério do talento/génio ou a personalidade de alguém que admiramos. Do ponto de vista intelectual, estes raciocínios são interessantíssimos, maravilhosamente construídos, qual espiral de pensamentos cada vez mais profunda. Mas serão estes raciocínios válidos do ponto de vista da realidade, da real intenção do artista? Não sei ….
Mas isso não interessa nada agora. O que interessa é que me apaixonei por este quadro ….
…. e que gosto cada vez mais de tango. Aqui fica o nosso brilhante Rodrigo Leão com Luna Pena. E uma fabulosa e curiosíssima sequência de imagens desfocadas e cheias de “pasión”.
pcp
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Acerca de mim
- JdB
- Estoril, Portugal
