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01 fevereiro 2009

Notas soltas acompanhadas por música triste



Já aqui o disse: toda a melodia particularmente bonita o é igualmente triste. (Ou será a inversa que é a verdadeira?) Todos os dez ou doze trechos de música – principalmente clássica – que eu considero especialmente belos, são de uma grande tristeza. Ao ouvi-los, não foi uma nem duas pessoas que disseram: tira lá isso que me dá neura. Oiço-os de bom grado, independentemente do meu estado de espírito. Já me acompanharam em momentos de grande euforia e em alturas de profunda nostalgia. Já me aconteceu chorar, porque a Beleza pode ser profundamente comovente, e a alegria mais funda nem sempre se acompanha com risos.

Há uma semana, ao discorrer sobre o perdão, mencionei o carácter igualmente difícil e libertador desse gesto de desvalorizar a ofensa alheia. Na realidade, e como partilhava num escrito a um amigo próximo, como tudo aquilo que nos faz subir acima da nossa própria mediania. Ouvir os dez minutos e trinta e um segundos do adágio para cordas de Samuel Barber tem essa capacidade. Mais, mas muito mais do que ouvir uma obra bem composta, escutá-la é abraçar uma tristeza imensamente bela, é ter a possibilidade de nos confrontarmos com o mais íntimo do nosso ser, escutarmos os nossos silêncios, vislumbrarmos o nosso próprio rosto. É, em certa medida, uma prova difícil – mas potencialmente libertadora. Pode ser um acto redentor, de aquietação do pior que há em cada um de nós, dos nossos instintos mais sombrios. Ouvir algo de uma Beleza imensa e transcendente pode não ser um acto lúdico apenas, pode ter essa função apaziguadora. Tal como o perdão nem sempre é, como partilhei também, um acto de santidade, mas uma vontade de sobrevivência, para que não nos devoremos a nós próprios.

Hoje, há 101 anos, o Rei D. Carlos e o Príncipe D. Luís Filipe eram assassinados em Lisboa a sangue-frio. Como monárquico e português, recordo essa data que envergonha a nossa História, embora deixe para os historiadores a análise das causas e consequências desse acto. De então para cá, o dia 1 de Fevereiro foi palco de casamentos e baptizados, nascimentos e mortes e outros acontecimentos que marcaram, sobretudo, os protagonistas de cada um desses factos. Fica o parágrafo dedicado a quem olha para o dia de hoje com nostalgia ou contentamento, esperança ou descrença.

Algures durante o dia de hoje o Adeus, até ao meu regresso ultrapassa a barreira dos quatro digitos de visitantes, entrando na casa dos dez mil. Um singelo feito, neste 1 de Fevereiro de 2009. Obrigado a todos os que por cá passam.

Antes que me passe: hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico, se bem que não se perceba no texto...

JdB

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