As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
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08 janeiro 2025
27 abril 2020
23 agosto 2017
Whispering Grass *
Por Harare inteiro, sobretudo nos subúrbios, onde há vegetação, se sente o cheiro da terra queimada. Adormeço, muitas vezes com esse odor que me entra suavemente pelo quarto adentro. Traz-me à memória vaga o encanto de uma lareira, onde as chamas são sempre diferentes, onde os nossos olhos se perdem horas infindas enquanto a mente devaneia por outros lugares. É um cheiro que não me cansa, não me sufoca, se entranha mansamente nas minhas rotinas diárias.
Um dia, movido pela curiosidade que sempre entusiasma alguns ignorantes, perguntei a uma rapariga de cá o verdadeiro motivo das queimadas. Respondeu-me mencionando a renovação da terra, a necessidade de a tornar mais fértil, o carácter purificador e regenerador do fogo. No fundo, disse-me, to make a new green grass grow.
Há uma ou duas semanas troquei mensagens assertivas com pessoas de quem me sinto muito amigo. Algumas palavras tiveram contornos de dureza – não aquela que se serve de objectos de arremesso, mas a que nos faz olhar o outro nos olhos e verbalizar a franqueza, a diferença, o desacordo, a vontade de reparação, a certeza do seguir viagem. No fundo, fizemos uma queimada, porque a terra se regenerou, esfumando-se os vestígios do desalinhamento de pensamentos na cinza que a brisa levou. Cresceu uma nova green grass na maneira como nos relacionamos.
Lembrei-me então de uma toada lindíssima, chamada Whispering Grass, interpretada pela voz não menos bonita da Sandy Denny.
Why do you whisper, green grass
Why tell the trees what ain't so?
Whispering grass
The trees don't have to know
Why tell them all your secrets
Who kissed there long ago?
Whispering grass
The trees don't need to know
Numa cena de uma versão do filme Orgulho e Preconceito, que também "usa" esta música, há olhares que se cruzam, que se perdem, mãos que se entrelaçam e se afastam, encontros e desencontros de duas pessoas entre varandas, salões, danças inacabadas, beijos interrompidos. O verdadeiro encanto das coisas está na possibilidade que nos oferece de uma visão muito única, muito nossa. Uma cena que é uma bonita metáfora para a vida.
JdB
* Repescado de um texto escrito originalmente em 21.08.2008
26 agosto 2016
Queimadas *
Por Harare inteiro, sobretudo nos subúrbios, onde há vegetação, se sente o cheiro da terra queimada. Adormeço, muitas vezes com esse odor que me entra suavemente pelo quarto adentro. Traz-me à memória vaga o encanto de uma lareira, onde as chamas são sempre diferentes, onde os nossos olhos se perdem horas infindas enquanto a mente devaneia por outros lugares. É um cheiro que não me cansa, não me sufoca, se entranha mansamente nas minhas rotinas diárias.
Um dia, movido pela curiosidade que sempre entusiasma alguns ignorantes, perguntei a uma rapariga de cá o verdadeiro motivo das queimadas. Respondeu-me mencionando a renovação da terra, a necessidade de a tornar mais fértil, o carácter purificador e regenerador do fogo. No fundo, disse-me, to make a new green grass grow.
Há uma ou duas semanas troquei mensagens assertivas com pessoas de quem me sinto muito amigo. Algumas palavras tiveram contornos de dureza – não aquela que se serve de objectos de arremesso, mas a que nos faz olhar o outro nos olhos e verbalizar a franqueza, a diferença, o desacordo, a vontade de reparação, a certeza do seguir viagem. No fundo, fizemos uma queimada, porque a terra se regenerou, esfumando-se os vestígios do desalinhamento de pensamentos na cinza que a brisa levou. Cresceu uma nova green grass na maneira como nos relacionamos.
Lembrei-me então de uma toada lindíssima, chamada Whispering Grass, interpretada pela voz não menos bonita da Sandy Denny.
Why do you whisper, green grass
Why tell the trees what ain't so?
Whispering grass
The trees don't have to know
Why tell them all your secrets
Who kissed there long ago?
Whispering grass
The trees don't need to know
Do filme Orgulho e Preconceito, parece-me que noutro videoclip fornece as imagens à música, não gostei da sequência de uma das cenas – olhares que se cruzam, que se perdem, mãos que se entrelaçam e se afastam, encontros e desencontros de duas pessoas entre varandas, salões, danças inacabadas, beijos interrompidos. O verdadeiro encanto das coisas está na possibilidade que nos oferece de uma visão muito única, muito nossa. E eu gostei de ver, naqueles pouco mais de quatro minutos, tantas coisas que dizem respeito à vida.
JdB
* Adaptado de um post de 21 de Agosto de 2008
JdB
* Adaptado de um post de 21 de Agosto de 2008
12 agosto 2015
Músicas dos dias que correm
Hoje, mas há sete anos, estava no Zimbabwe, e escrevia para o continente europeu sobre Harare. Tinha chegado há pouco mais de uma semana. Numa troca de comentários com uma amiga, referi esta música excelente com interpretação igual. Falava-se em green grass, a relva que cresce forte após as queimadas.
Ontem tivemos amigos a jantar. Entre um folhado de pato rematado com um licor de figo caseiro (uma pomada, diria o personagem do Herman José...) a noite alongou-se, pelo que a criatividade fica pelos mínimos.
A quem está de férias, que continue a gozá-las. A quem trabalha, que nada lhe seja pesado. E apreciem a Sandy Denny, que canta este Whispering Grass de forma magnífica.
JdB
05 junho 2012
Duas últimas
Hoje compenso alguma economia com que vos poupo no texto
com 3-músicas-3 de Sandy Denny, cantora e compositora que foi nome maior da
folk britânica e mundial. Uma voz de estarrecer (e comover!), que não se ouve
sem um estremeção. Música quase obrigatória em minha casa, sempre ouvida com
boas e renovadas sensações.
Terá atingido o seu apogeu com os Fairport Convention,
em finais dos anos 60 e, como vários outros grandes músicos desse tempo, a vida
que levava, de excessos e desequilíbrios, amores e desamores, fez-se pagar muito
cedo, tendo Sandy desaparecido em 1978, com 31 anos, na sequência de uma
violenta queda numas escadas de que nunca recuperou. Voltara aos Fairport e
gravara, nos anos imediatamente anteriores, alguns dos seus álbuns mais
conhecidos.
Como li na internet, “ falar do folk inglês sem falar de Sandy Denny ou Fairport Convention, é
como ir a Roma e não ver o Papa”!
Espero que gostem das músicas, desejando que as ditas
não tenham sido já postadas neste blogue. Se estiver errado acho, em todo o
caso, que qualquer uma delas vale uma nova audição!
fq
08 setembro 2011
Deixa-me rir...
Caros audiophiles, this week I am highlighting one of the great voices of English folk music. Sandy Denny began performing solo in small folk clubs in the late 1960s before joining the soon-to-be-legendary folk group Fairport Convention. Reflecting later on Sandy's audition for them, the group noted: "It was a one-horse race...she stood out like a clean glass in a sink of dirty dishes."
In the space of only two years there followed three still classic albums which deeply influenced and evolved traditional English folk music towards electric folk rock, thanks to the combination of the group's multi-talented rock musicianship and her folk roots.
With their innovative reputations cemented, Sandy Denny decided to pursue a solo career again and develop her songwriting during the 1970s. During this period, she was invited to become the only guest singer ever to record with Led Zeppelin. Sadly, like so many, she also pursued drink and drugs, and in 1978 she fell down some stairs and suffered a fatal brain haemorrhage, aged only 31 years.
However, her artistic status was already secured, most notably by one of her very earliest compositions, which recently has been voted the greatest English folk song ever.
This song exemplifies her constant songwriting preoccupations with love and loss, the passage of time and the changing seasons, and highlights her timeless evocative voice, matched perfectly by Fairport Convention's understated instrumental accompaniment and, in particular, the legendary Richard Thompson's sympathetic guitar.
Who knows where the time goes?
Across the evening sky, all the birds are leaving
But how can they know it's time for them to go?
Before the winter fire, I will still be dreaming
I have no thought of time
For who knows where the time goes?
Who knows where the time goes?
Sad, deserted shore, your fickle friends are leaving
Ah, but then you know it's time for them to go
But I will still be here, I have no thought of leaving
I do not count the time
For who knows where the time goes?
Who knows where the time goes?
And I am not alone while my love is near me
I know it will be so until it's time to go
So come the storms of winter and then the birds in spring again
I have no fear of time
For who knows how my love grows?
And who knows where the time goes?
But how can they know it's time for them to go?
Before the winter fire, I will still be dreaming
I have no thought of time
For who knows where the time goes?
Who knows where the time goes?
Sad, deserted shore, your fickle friends are leaving
Ah, but then you know it's time for them to go
But I will still be here, I have no thought of leaving
I do not count the time
For who knows where the time goes?
Who knows where the time goes?
And I am not alone while my love is near me
I know it will be so until it's time to go
So come the storms of winter and then the birds in spring again
I have no fear of time
For who knows how my love grows?
And who knows where the time goes?
A proxima.
PO
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