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04 outubro 2008

ABC da contagem decrescente – zero dias, chego hoje a Portugal

Zimbabué – Este extraordinário país foi a minha casa durante praticamente dois meses, abriu-me a porta de uma África que eu só conhecia dos livros, da televisão, dos jornais, das opiniões alheias. Quando decidi vir, muitos acharam ser uma doidice, considerando o clima político que aqui se vivia. Em boa hora vim – se houve violência, não a senti; falta tudo e, embora nunca a tenha sentido verdadeiramente, foi uma boa aprendizagem humana; por outro lado, é interessante ver o pouco que se fala do Zimbabué nos noticiários portugueses e, quando é referido, o desconhecimento evidenciado.

Falar do Zimbabué é repetir, letra a letra, o ABC da contagem decrescente e a esmagadora maioria dos posts que foram publicados desde que aqui cheguei. De facto, viver dois meses num país estrangeiro não é ter a visão pura e simples do turismo. Instalamo-nos, vivemos os ritmos locais, convivemos com quem é de cá, estabelecemos relações de amizade que perdurarão para além do regresso a casa, conhecemos as vidas de quem nos rodeia. Tudo isto, para quem gosta de escrever, de inventar histórias, de romancear a vida alheia é um manancial de informação, de personagens e de acontecimentos que eu tentei redigir em crónicas que entretivessem. Muito do que escrevi é verdade, muito tem a pincelada criativa de quem ortografa a história. Cabe aos meus leitores curiosos descobrir o que é realidade e ficção.
Fui um privilegiado, não só porque consegui atingir os verdadeiros objectivos que me trouxeram a esta parte de África, como algumas das minhas expectativas foram ultrapassadas. Fruto da minha estadia na Embaixada tive a oportunidade de conhecer parte do mundo diplomático, assim como parte, também, de tudo que o rodeia - convívio, conversas políticas, actividades sociais, conhecimentos, etc. Mas conheci, como já referi, o verdadeiro mundo local - pessoas, anseios, disponibilidades, sonhos, frustrações, realidades.

Saio de cá, passe a expressão, de papo cheio. Saio com a vontade imensa de regressar, desdenhando a convicção de que não devemos voltar aos sítios onde fomos felizes. Saio ainda com a enorme presunção de que haveria quem gostasse de me rever. Razões várias impedir-me-ão de tornar tão cedo como gostaria, mas o futuro a Deus pertence. Para os que cá ficam – e que me deram o gosto da sua amizade – deixo a frase com que tantas vezes me despedi:

Adeus, até ao meu regresso…

01 outubro 2008

ABC da contagem decrescente - faltam 4 dias

Saudades que já tenho – dos meus filhos, da restante família, dos amigos, dos passeios no paredão, das rotinas caseiras, dos meus livros, do Outono, dos locais da minha espiritualidade, de comprar livros, de cozinhar, do antigo canal Mezzo, de guiar, do Monte Estoril, de tudo aquilo que me empolga ou me sossega e faz parte do meu íntimo, do mar, da humidade, do que me é familiar e agradável, da simples possibilidade de consumismo, do retomar de conversas com pessoas que me são privilegiadas.

Saudades que vou ter – dos amigos que cá fiz, dos conhecimentos, do contacto com a gente local, da minha ausência total e completa do racismo, da música africana, da simplicidade, da afabilidade, das acácias, dos jacarandás floridos, das ruas largas, do mato, das fardas das crianças da escola, do wine tasting, do tratamento por João, do game viewing, do verde, do despojamento, da habituação à falta de bens essenciais, do bule com flores e borboletas que me servia o chá duas vezes por dia. Terei saudades, ainda, da forma como fui recebido pelo JdC: muito para além dos luxos e das mordomias, o revisitar de uma amizade com décadas que resistiu bem à erosão do tempo.

Sentimentos – em dois meses passei por tudo, fruto do que sou e da minha circunstância: solidão, satisfação, exaltação, tristeza, entusiasmo, necessidade de companhia e de isolamento. Feita a contabilidade do que aqui referi e do que não mencionei, considero-me um privilegiado por ter conseguido, entre outras coisas, que as saliências e reentrâncias da minha vida se fossem encaixando mansamente.

Sílvia – uma rapariga brasileira, alta, bonita, que veio para Harare há mais de um ano e que passou os últimos três meses a passear sozinha por esta zona do Mundo: Malawi, Botswana, Zâmbia, Namíbia, África do Sul, Moçambique, Tanzânia…

Tengenenge – o local do Zimbabué onde tive o primeiro contacto intenso com a cultura shona de esculpir a pedra, e onde comprei a minha primeira obra de arte.

Tribo – conjunto de famílias que provém de um tronco comum, sob a autoridade de um chefe.

Tsvangirai – o futuro hipotético primeiro-ministro, líder da oposição e vencedor da primeira volta das eleições. Sobre ele recai uma tarefa de magna importância – restituir a dignidade a este país, recolocá-lo nos caminhos do desenvolvimento e do respeito humano, consolidar o conceito de democracia num estado tribal e rural, onde a noção de bem comum é muito particular.

Um blogue? – Desde Julho que mantenho a disciplina e o gosto de alimentar o Adeus até ao meu regresso. Criei-o com a ajuda preciosa da Ana V., que me ensinou os primeiros passos. Com o meu espírito matemático – mesmo sabendo que a estatística é uma ciência que se manipula – sei que tive em média 1.000 visitas por mês, o que equivale a trinta por dia, pouco mais ou menos. Estou muito agradecido àqueles que o frequentaram pela distracção, pela amizade, pela curiosidade. Qual o futuro dele? Será revelado em tempo útil e próximo. Mas vou andar por aí…

Vitória – Todos nós enfrentamos conflitos na nossa actividade profissional, social, familiar. A vida (ou o caminho que me foi oferecido) foi-me ensinando a necessidade da procura da paz, mais do que da evidência da razão. Em carta escrita a um amigo partilhava este sentimento: a paz de que te falo não é rendição. Aquele que hoje se rende numa batalha que trava vence outra amanhã e não faz prisioneiros – elimina-os. Procurar a paz é pretender a justiça, o equilíbrio entre as partes, a magnanimidade genuína – porque a dignidade se vê, tantas e tantas vezes, nos olhos de quem derrota. Em linguagem de cartas, digo-te, prefiro mil vezes um mau perder a um mau ganhar.

Xatear (dá-me jeito esta grafia) – o que me xateou no Zimbabué: a lentidão exasperante da Internet; as quebras constantes de energia e o ruído decorrente do gerador; o facto de se ter extraviado a minha mala à chegada e a forte probabilidade de acontecer o mesmo no regresso a casa (de reconhecer, no entanto, que o problema deverá estar no aeroporto de Joanesburgo).

Yes – P: Did you like it here? R: Yes! P: Would you like to come back? R: Yes. P: When? R: Yes.

27 setembro 2008

ABC da contagem decrescente - chego de hoje a uma semana

Pessoal da chancelaria: para além da Manuela Chaby, já referida, merecem um destaque especial as duas outras colaboradoras da chancelaria: a Bela e a Cristina. Foram sempre de uma extrema amabilidade comigo, resolvendo problemas de voos ou de viagens com um sorriso e uma disponibilidade que me apraz registar. Last, but no the least, uma palavra para o Carlos Antunes, nº 2 da embaixada e que larga o lugar no dia em que sai este post. O Carlos foi um excelente companheiro de noitadas - no karaoke, na boite congolesa, no night-club Monaco e é um manancial de informação sobre Harare by night.

Pessoal da residência: é da mais elementar justiça destacar também o Vice e o Joe, o cozinheiro João - responsável por tantas iguarias -, o motorista Moffat e o jardineiro David. Levo comigo a educação e a simpatia, para além de outras mordomias de que fui beneficiário.

Portugueses - encontrei aqui meia dúzia de portugueses que me fizeram o gosto de convidar para as suas casas, me levaram a fazer bons negócios, me honraram com a sua simpatia. É uma gente despretensiosa que nos recebe como se fossemos convidados antigos, que se nos dirige sem a formalidade do senhor. Fica a referência à Teresa Chaby (que me oferece favas exactamente hoje) e à sua filha, que abriu portas para a resolução do meu computador e com quem cantei um dueto de karaoke; ao Alberto Correia Mendes e à Ana, que nos brindaram com um almoço tipicamente português e assassino de dietas ajuizadas; ao Toni Simões e à Sílvia, donos do Coimbra, um dos mais afamados restaurantes da capital e onde quererei ir antes de partir. Foi também com o Toni que fiz um bom negócio de esculturas shona, que não mostro porque embarcam hoje mesmo no vapor da madrugada.

Potencialidades. Não sou um visionário, não tenho jeito para o negócio. Mas, estou certo disso, o Zimbabué é um país cheio de potencialidades. Uma terra fértil, com água, uma possibilidade de turismo fora de série, um povo afável, uma capital das mais bonitas de África, segurança que não se compara com outros países vizinhos, uma memória da antiga Rodésia que muitos não querem perder. Tudo está suspenso por questões políticas. Talvez a pacificação abra portas ao investimento, ao desenvolvimento, ao bem-estar da população, à actividade económica.

Quando. É uma boa palavra para tantas interrogações. Quando toma posse o novo governo? Quando começam as novas reformas? Quando é que Robert Mugabe desaparece do cenário político? Quando é que as pessoas começam a ver a luz ao fundo do túnel? Quando é que a inflação desce dos 3500% ao mês? Quando é que há bens de primeira necessidade nos supermercados? Muita gente faz estas perguntas entre conversas, copos de cerveja, jantares animados, refeições difíceis e escassas. A resposta é mais ou menos consensual...

Recepções – Fruto da minha estadia na embaixada, tenho sido convidado para algumas recepções ou jantares mais ou menos diplomáticos. O JdC tem sido criteriosamente perfeito naqueles em que acha que a minha presença faz sentido e naqueles em que acha que não. Algumas pessoas têm sido insistentes na minha presença, o que me honra. Hoje teremos uma festa de aniversário surpresa para a qual também fui invitado. O convite, na forma impressa em papel de qualidade, referia o senhor embaixador de Portugal e madame…

Regresso - Quando volta cá?, é uma pergunta que me fazem de quando em quando. A razão diz-me que deveria regressar dentro de três anos, a tempo de apanhar o actual embaixador e usufruir da hospitalidade, a tempo, também, de ver as eventuais mudanças que se produziram nesse país. África é um continente perfeitamente deslumbrante. Ainda na semana passada conheci uma rapariga brasileira que está cá de férias há mais de um ano, e que passou os últimos três meses a viajar sozinha por países vizinhos. Conto ter um texto dela em próximos posts. Hei-de regressar, se Deus quiser e as condições se ajeitarem.

25 setembro 2008

ABC da contagem decrescente - faltam 10 dias

Libertação – Há, no exercício da humildade, na eliminação de toxinas nocivas ao nosso relacionamento equilibrado com os outros e na paz de espírito que estabelecemos com o nosso mundo uma dimensão de enorme libertação. Cada um terá o seu método e nenhum é melhor do que o outro – todos são bons desde que conduzam ao fim esperado e não pisem ninguém. Atingir este estado de sossego, de um enfrentar calmo das quezílias que permite desvalorizar algumas coisas também é, para os crentes como eu, dar os primeiros passos na estada que nos levará ao Céu. Depois ainda falta tudo…

Longe – os africanistas já o sabem: aqui parece não haver longe nem distância. Sete horas de carro para ir à Beira – e sete horas que não são de auto-estrada – não parecem ser muito, faz-se num instante. Fazer 1200 km para ir a outro lugar pode ser mais complicado, mas não é nada em que não se possa pensar.

Luz – Desaparece quando menos se espera, quando se está a trabalhar ou a usar a internet, quando se assiste a notícias fascinantes e aditivas da realidade que se vive em Portugal. Aqueles três segundos entre o desaparecimento da rede e o surgimento do gerador são terríveis, obrigam a reiniciar o computador, a televisão. Nada de dramático, mas não estamos habituados a isto na Europa rica e obesa…

Manuela Chaby – um nome recorrente neste blogue, mas não podia ser de outra forma. Profissionalmente haverá quem lhe reconheça a competência. Eu agradeço a disponibilidade permanente, a boa vontade enfeitada com um sorriso, o conhecimento de Harare posto à disposição do que eu precisava, desde o computador à camisola, passando pelos câmbios, pela marcação do corte de cabelo, pela busca de souvenirs, pela excelente companhia em almoços ou jantares de confraternização. Parece haver uma fonte inesgotável de amabilidade e prontidão de resposta.

Mar – estarei dois meses sem ver o mar que me é familiar. Estive no lago Kariba que pela sua dimensão (80 por 120 km) dá a sensação de ser oceano, e tomei banho na Beira, no Índico. Mas não chega – falta-me a visão da Baía de Cascais, o paredão com as caras habituais, a ronca do nevoeiro, o cheiro a maresia, a rotina das marés. Respiro, em Harare, um ar que será bom, até porque a ausência de actividade económica não polui o ambiente. Mas dava-me jeito ver o Atlântico… Talvez dia 6 de Outubro, bem de madrugada.

Mugabe – Camarada Robert Mugabe, o líder deste país à beira da falência. Provavelmente já falido (não ele, o país).

Nada – o produto mais disponível em Harare, no Zimbabué inteiro. Podemos ir a inúmeras lojas, estabelecimentos comerciais de vários tipos. Se perguntarmos o que existe, somos confrontados com a resposta: nada! Perguntar-me-ão como vivem as pessoas com ordenados de 1 dólar americano, com preços elevados, com regras absurdas de limites de levantamento de dinheiro. Os zimbabueanos desenvolveram a técnica do expediente (já o Camões falava na necessidade que aguça o engenho). Têm um expediente para subsistir à falta de comida, de dinheiro, de matéria-prima para alimentar os restaurantes. Tudo se vai conseguindo de uma forma pacífica – e expedita.

Ngomakurira – a montanha sagrada nos arrabaldes de Harare. A visão do pôr-do-sol que aqui retratei (não, não é uma nódoa na imagem…) perdurará no meu pensamento durante muito tempo. Foi um dia cheio de sortilégios: a paz interior que me invadiu ao ser confrontado com toda aquela imensidão, o encanto de uma actividade física estimulante (eu que sou pouco dado a ginásticas), o cruzar-me com uma pessoa que me abriu a porta da ala das crianças com cancro, a descida numa noite escura de lua nova tendo como companhia os meus próprios pensamentos.

Once you taste chocolate you won’t have vanilla anymore.
Once you go black you never come back.

18 setembro 2008

ABC da contagem decrescente - faltam 17 dias

Gente. As pessoas do Zimbabué são afáveis, simpáticas, educadas, cordatas, pacíficas, com um nível de escolaridade elevada. Independentemente de todos os erros cometidos, ninguém merece viver nesta miséria extrema, neste pouco mais do que sobrevivência. Encontrei estas características basicamente em todas as pessoas que encontrei – brancos e pretos. Fui apresentado a rodesianos que me trataram imediatamente pelo nome próprio, conversaram comigo, interessaram-se pelo que eu fazia, quanto tempo estaria, manifestaram vontade de me rever.

Gestão. Não falo de finanças nem de recursos humanos. Falo da gestão das expectativas, da gestão das frustrações, da forma como lidamos com os insucessos e os fracassos, mas também da maneira como vivemos as vitórias, tudo aquilo que de bom nos acontece. É preciso dar um sentido às coisas, não deixar que os ups and downs se passeiem pela nossa existência sem que lhes demos a atenção devida.

Harare. A minha primeira cidade conscientemente africana. Estranhou-se, entranhou-se. Uma cidade de que vou ter saudades: pela segurança de que ainda goza, pelo encanto que se vai descobrindo, pelas ruas debruadas a jacarandás (que florescem agora) e a acácias, pelo cheiro permanente e suave a terra queimada Não vou ser ridículo ao ponto de me dizer que me afligirá a pequenez das nossas ruas, mas terei saudades desta largueza, deste desafogo.

História. Como convivemos com a história da nossa vida? Onde arrumamos os personagens que participaram na peça de teatro que representa o que vivemos até agora? Em que local da sala de espectáculos que todos nós temos colocamos os que desempenharam um papel importante no nosso caminho? Como convivemos com as memórias, as saudades, a necessidade de substituir gente por outra gente, para não pararmos, não cristalizarmos num passado imobilista e imobilizante? Como resolvemos o dilema de alguém que tem de passar à história mas que faz parte da nossa história?

Incapaz. De perceber o que vem abaixo…

Inflação. Galopante como se fosse um cavalo de corrida, desenfreada como se cheirasse a estábulo, incontrolável, ao que parece. Não sei o que são 3500%, mas consigo perceber porque não aceitam cheques – num dia o cheque vale o número que lá está, quando se credita na conta vale o seu peso em papel…

Irritação. Tive-a quando cheguei ao ver a minha mala desaparecida e surgida de um túnel 24 horas depois, esventrada como se fosse um queijo da serra na mão de famintos. Nunca mais me irritei com nada. Ou poucas vezes o fiz… Será da altitude?

JdC. Merecerá, repito, post futuro e exclusivo.

Karaoke. O que dizer desta invenção do século? Já escrevi, já partilhei, resta-me gozar as suas memórias. Onde há Karaoke no Monte Estoril? Alguém tem a caridade de me dzer?

Kidzcan. A associação local que lida com o drama das crianças com cancro. Ainda que contornos diferentes da nossa Acreditar – devido a circunstâncias próprias – a missão é a mesma, as tristezas e alegrias serão vividas, seguramente, de forma semelhante. A sua existência é uma prova viva do esforço, da dedicação, do espírito de missão num país com tantas dificuldades. Comigo vão memórias que perdurarão com a minha consciência das coisas: o ordenado dos pediatras, o abraço da responsável da associação, os olhos da criança de quatro anos cujo futuro é improvável.

11 setembro 2008

ABC da contagem decrescente - faltam 23 dias

A
Au dip iz ior lâve. Quis começar com música por respeito àqueles que não tendo tido, felizmente, outras carências, afirmam não saber viver sem sons harmoniosos. Na generalidade, a maioria das chamadas músicas pop tem, na minha mente, uma época, uma pessoa, um determinado acontecimento de referência. Esta não foge à regra. Mesmo que já ninguém a oiça, tem uma importância especial para mim, porque há coisas que são imorredouras, mesmo que sejam declaradas finadas.
África. Este mês que passou e o que há-de vir serão o meu verdadeiro baptismo do continente negro, ainda que já tenha passado por cá. Pelas características próprias da viagem, foram tempos marcantes, cheios de experiências novas, de contactos com gente radicalmente diferente, de confrontação com uma paisagem deslumbrante. Em boa hora vim.

B
Banda Larga. Há um mês que não sei o que é, dado ser um produto luxuoso e raro neste país. Mesmo assim, com mais ou menos dificuldade, escrevi e respondi a mails, trabalhei, alimentei o meu blogue, falei no MSN e no Skype. Antevejo uma baixa de tensão e uma vertigem quando chegar a Portugal e me defrontar com a rapidez internética comparativa da nossa rede.
Blogue. Iniciei-me nestas artes, sem saber ler nem escrever. Contaminado, sobretudo, pela Porta do Vento e pelo Pronome Possessivo, e graças à ajuda inestimável da Ana V., aqui estou, nas mais de 2.300 visitas. Para mim é obra, para outros serão trocos. Agradeço a todos os que sei que me visitaram, aos que imagino terem feito, aos que não puderam com a frequência desejada. O que farei dele quando regressar? Alguém quer ajudar no destino que terá?

C
Cor. Já não sei o que dizer mais desta cor africana: verdes, castanhos, cores secas, surpreendidas aqui e ali por um pintalgado vermelho. Uma delícia para os olhos, um desafio para quem se dedica à descrição das coisas, uma angústia para quem não sabe fazê-lo.
Cruzeiro. Não dirá nada a muitos, mas é uma referência saudosa no imaginário de todo o monte estorilense que se preza. Menciona-se o Cruzeiro para explicar um endereço, fala-se com sossego da competência da Farmácia Cruzeiro, é o edifício a que se dá as costas quando nos dirigimos ao mar. Hoje é uma estrutura decadente, mas já albergou a boite Zig Zag, local de algum encontro de jovens inocentes, desejosos de conviver – dançar, dar a mão, confidenciar, beber uma limonada, preparar em beijo, uma carícia, sei lá eu...

D
Distância. Quando pergunto a quantos quilómetros fica um determinado lugar, dizem-me com um sorriso genuíno: é perto, são cerca de 700. Os africanistas que me lêem sabem do que falo. Mas também distância geográfica a perder de vista: a savana, o mato, a planície, o pôr-do-sol, o infinito do mundo inteiro que se estende e nos esmaga.
Doris Day. A cantora que habita o meu pequenino corpo há tantos anos, e de cuja existência intestina só me apercebi aquando da noite do Karaoke, em que eu não era o João que muitos de vós conhecem, mas a menina do exorcista que fala línguas que desconhece, jorra matéria estranha pela cavidade bocal, tem comportamentos inauditos.

E
Embaixada
. Uma casa privilegiada, onde me fizeram sentir como se estivesse na minha própria. 1 hectare de terreno bonito, árvores altas e espaçadas, relva numa rega permanente, verdes de tons diferentes e descansativos. Um local paradisíaco para se trabalhar e descansar.
Embaixador. Terá direito a crónica futura e exclusiva.
Esplanadas. Fazem-me falta e em Harare não há. Desconheço, ainda, se existem noutras paragens da África subsariana. Tenho saudades de estar a uma mesa no meio de uma praça, beber uma cerveja ou um refresco, ver gente a passar, sentir o bulício e o sol a iluminar um canto qualquer, imaginar histórias no par que está ao meu lado, no executivo que gesticula ao telemóvel, na rapariga de olhar nostálgico.
Espaço. Ver distância e encher os pulmões de ar e paisagem.

F
Felicidade
. Não a encontrei aqui, porque também não vinha atrás dela. Ouvi a palavra em Harare (em história que contarei oportunamente à minha madrinha) com a banalidade com que se pronuncia em qualquer parte do mundo. A felicidade não é hoje um percurso, mas um destino para muitos que a querem encontrar, no matter what. Que os meus amigos me impeçam de invocar a palavra em vão.
Finalmente. Conjuga-se a palavra de forma variada: finalmente vou-me embora; finalmente vem-se embora; finalmente vai-se embora.
Finanças. O Zimbabué tem um conceito próprio desta expressão que governa os povos e as nações, as famílias e as empresas. Sobreviver aqui com o estado das finanças é obra dolorosa. Quem não tiver dólares americanos vive numa penúria absoluta. Os dez e doze zeros estão a regressar, com aquela voz melíflua com que sempre se apresentam os traidores: eu não vos disse que voltaria?

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