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14 janeiro 2025

D' A Banda como metáfora

A Banda

***

A letra desta música de Chico Buarque (letra que também é dele), tem, como provavelmente muitas músicas, uma dupla leitura. A primeira - mais óbvia e imediata - é a de uma banda que passa por uma povoação, trazendo alegria, transformação e esperança; tudo volta à primeira forma quando a banda se vai embora. A segunda leitura, também óbvia para quem gosta de ver além do desfocado, ou quem gosta, simplesmente, de ser criativo, é que a letra é uma metáfora; e sendo uma metáfora o horizonte que se abre é vasto, quase infinito. Divaguemos:

A letra de A Banda pode ser uma metáfora para o 25 de Abril de 1974, um momento de alegria, esperança e transformação para Portugal que redunda em tristeza, desesperança e imobilismo. 

Parte da letra de A Banda pode ser uma metáfora para o Carnaval, tão bem retratada na Marcha da 4ªfeira de Cinzas, 

Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou  

ou também uma metáfora para o fim de uma feira, tão bem retratada no fado Arraial, da autoria de João Ferreira Rosa

Acabou o arraial
Folhas e bandeiras já sem cor
Tal qual aquele dia em que chegaste
Tal qual aquele dia, meu amor 

A letra de A Banda pode ser, numa última entrada desta possível lista de sugestões, uma metáfora para uma noite de amor carnal: o anúncio (uma promessa de beijo / dois braços à minha espera), a exaltação, a transformação, o êxtase e, por fim, o retomar da rotina rotineira.

Acima de tudo, a letra de A Banda é uma metáfora para o dia seguinte - o day after - e não para o dia anterior, nem para o dia durante. Apesar da toada alegre, sambista (que eu tive oportunidade de dançar numa passagem de ano longínqua e brasileira de 1975, talvez) esta letra é sobre a desilusão das coisas que acabam, que morrem, que desaparecem. Nesse sentido - e só nesse sentido - afasta-se da Marcha da 4ªfeira de Cinzas que, apesar de tudo, tem um final esperançoso

E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz    

para se aproximar do Arraial, que acaba com uma nota de tristeza:

Abro as janelas, ainda cheira a rosmaninho
Vejo-me ao espelho, ainda vejo luto

É disto que fala Chico Buarque, arrisco eu.

 JdB

03 janeiro 2019

Das metáforas numa Missa do Galo

Sou pessoa muito dada a metáforas: uso-as em conversas ou em discussões, amiúde para desespero velado ou acintoso de quem me ouve. Houve filósofos contemporâneos que escreveram abundantemente sobre o tema, mas estou demasiado preguiçoso para ir ver quem, quando e o quê. Por outro lado, sei que as festas, no seu sentido mais restrito, já terminaram. Não obstante, é da missa da noite de Natal que vou falar. 

Por motivos que não vêm ao caso, este ano não fui à Missa do Galo com as pessoas que me acompanham desde há muito, mas com alguém que, embora próximo, talvez nunca tenha ido a essa missa, ou tenha ido muito pouco. Talvez por isso, ou apenas porque sim, dei por mim a pensar noutras coisas, ou a fazer metáforas daquilo que, noutras circunstâncias, seria apenas acontecimentos vulgares. 

Cheguei à Igreja da Boa Novas, no Estoril, por volta das 23.45h, mais tarde do que é meu costume. Talvez por isso tenha visto tanta gente a aproximar-se de vários ângulos. Sentado no meu banco, e enquanto não começava a missa, fui vendo pessoas a chegar e a sentar-se; talvez tenha mesmo voltado a cabeça para trás para ver quem estava fora do meu ângulo normal de visão. Durante a missa olhei para o coro, que anima aquela missa, as dominicais e da Páscoa, há 40 anos talvez. 

Vi algo diferente? Não, não vi. As pessoas chegam, sentam-se, o coro canta. Ano após ano é isto. Só que, pela primeira vez, criei metáforas que só me encanta a mim, seguramente: se imaginarmos a Igreja da Boa Nova como o lugar geométrico de todas as igrejas do mundo, as pessoas que chegam de vários ângulos podem ser representativas das pessoas que se aproximam da Igreja Católica vinda de vários enquadramentos geográficos, sociais, económicos; gente que caminha na mesma direcção - naquele dia específico, da manjedoura onde estava o Menino Jesus. 

Olhar para as pessoas que entram na Igreja não é um exercício de mexeriquice social, não é uma curiosidade banal. Ver as pessoas  - ver aquelas pessoas - é tomar contacto com a comunidade, é cruzar-me com gente que vejo uma vez por ano, ou uma vez por semana, que faz parte da mesma paróquia do que eu, ou que eu cumprimento na rua porque os vejo nas celebrações pascais ou de Natal. Aquelas pessoas são a comunidade que, no mundo inteiro, se junta ao redor daquilo em que acredita.

Por último, ver o coro não é só ver o coro. A ideia de ver, nalguns casos, a terceira geração a cantar, não é apenas uma curiosidade familiar ou estatística. Dá-me uma noção de continuidade, de perenidade e renovação. Naquele coro já morreu gente, já nasceu gente, já saiu gente e já entrou gente. Muitos são membros da mesma família - da minha família, também. No seu conjunto, o coro não é mais do que uma fotografia da igreja de sempre: a continuidade no essencial, apesar de outras caras, outras vozes, outros timbres, outros estilos.

JdB

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