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09 dezembro 2024

Do que dizem os olhos de cada um

Num romance, ou filme, de cujo nome não me recordo, alguém termina uma relação com alguém dizendo-lhe: não gosto da minha imagem que vejo reflectida nos teus olhos. Essa imagem não sou eu. 

No conto O Príncipe Feliz (citado por Irene Vallejo em O Futuro Recordado, Bertrand Editora, 2024), Oscar Wilde coloca na boca do rio a seguinte frase: porque quando se inclinava, eu conseguia ver a beleza das minhas águas nos seus olhos. 

Num dos seus poemas de que mais gosto - Impressão Digital - e que já citei abundantemente neste estabelecimento, diz António Gedeão:

Os meus olhos são uns olhos,
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns. 

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem lutos e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente. 

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

Tanto tem razão o personagem que põe fim à relação como tem razão o rio que vê a beleza das saus águas reflectidas no Príncipe Feliz. Quem tem mais razão ainda é o Gedeão, que alguns conheceram como Rómulo de Carvalho. Afinal, cada um vê o que quer nos olhos do outro. Talvez a pergunta, que tanto tem comovido entrevistados, o que dizem os teus olhos?, não tenha uma resposta verdadeira ou não tenha uma resposta falsa e, por isso, seja uma pergunta que pode devolver-se ao entrevistador: e tu, o que vês nos meus olhos? 

Conhecemo-nos através dos outros, através do que nos dizem, do que nos respondem, da forma como reagem às nossas palavras ou aos nossos actos, como comentam as nossas decisões ou dão opiniões sobre os nossos gestos. Está no domínio do sonho (que se transformará em pesadelo) achar que temos direito ou só queremos ver a luz nos olhos do nosso próximo. Provavelmente vemos tudo - o sol e a sombra, o que temos de melhor ou o que temos de pior, a luz e a escuridão. Por vezes vemos o que somos e não queremos ver, por vezes vemos uma imagem injusta, por vezes vemos o amor mas preferimos ver outra coisa, porque o reflexo nos parece desagradável. E quem disse que o exercício do amor era sempre agradável?

Vemos o que quisermos ver: vemos moinhos? São moinhos. Vemos gigantes? São gigantes. Acima de tudo, precisamos de escolher bem o que vemos nos olhos do outro.

JdB

08 outubro 2020

De dois aforismos

Há um aforismo antigo que afirma que os olhos são o espelho da alma. Um aforismo porventura menos antigo, e de Wittgenstein, afirma que o corpo humano é a melhor imagem da alma humana. Se não nos ativermos à diferença estrita entre espelho e imagem, podemos deduzir que ambos - o corpo e os olhos - reflectem a alma de cada um de nós. Ora, em acreditando que só o ser humano é detentor de alma, devemos então inferir, de ambos os aforismos, que os olhos ou o corpo são aquilo que nos distingue dos animais. 

No entanto, é curioso pensar que esta distinção assenta num elemento - a alma. Não é o cabelo, a forma dos pés, a colocação das orelhas num crânio, o formato das unhas. Esse elemento chama-se alma, algo que nunca ninguém viu, e de cuja existência muita gente duvida. Por outro lado, se entendermos que os olhos são o reflexo da alma e que o corpo é o espelho da alma, uns olhos que sejam muito humanos, ou um corpo muito semelhante ao humano, poderão significar uma alma muito parecida com a humana - o que quer que isso seja. Alguns símio têm um corpo quase humano; podemos deduzir que também podem ter uma alma quase humana? 

Uns olhos estrábicos reflectem o quê? Uns olhos zargos indicam o quê? Uma deficiência física de nascença revela o quê? A que tipo de corpo ou a que tipo de olhos devemos - ou podemos - associar uma alma perfeita? Podemos construir um corpo que seja o lugar geométrico do corpo de todos os santos de todas as épocas e, com base nessa fusão, determinar o que é um corpo bom (diferente de um bom corpo) que reflecte o que é uma boa alma?

A utilização obrigatória da máscara em sítios públicos trouxe o(s) aforismo(s) para a actualidade. Numa repartição pública, numa igreja, num autocarro ou numa livraria, aquilo que deixamos ver são os olhos. A ninguém se exige um sorriso, a ninguém podemos criticar uma boca de desdém, porque nem o sorriso nem o desdém se veem. 

Por outro lado, esta época de grande apreço pela condição física (tal como já aqui disse, os obesos são os alvos a abater nos dias de hoje) é concomitante com um grande e desconhecido e involuntário apreço pelas qualidades humanas. De facto, a elegância do corpo é o espelho da elegância da alma. O excesso ponderal faz suspeitar uma alma gorda, na linha do fígado gordo ou do baço gordo.

Os aforismos são interessantes; levados à letra poderão ser perigosos.

JdB

13 março 2017

Dos olhos e do Lindoso

- Você sabe, aquela ideia dos jornais taparem os olhos das pessoas para que elas não sejam reconhecidas é ridícula. Acha que o Cavaco Silva só reconhecido pelos olhos, e não pela boca? Ou o António Costa com aquela cor indiana? Ou o Tolstoy e aquela barba? Além disso, não sei se você sabe que, no que se refere ao contacto com os outros, a visão é um sentido difícil de interpretar. Ou seja, quando alguém olha para nós nunca sabemos exactamente que olhar é aquele.... Você está a ouvir alguma coisa do que eu estou a dizer, António Bernardo?

António Bernardo sobressaltou-se, mas não tirou as mãos do livro que folheava naquele momento. Há muito que perseguia aquela Resenha Histórica das Famílias Nobres do Alto Lindoso, com profusas ilustrações do autor, que encontrara numa oportunidade fantástica num alfarrabista em mudança de colecção. 

- Estou a ouvir tudo, Matilde. Os olhos, o Cavaco, o Costa e o russo. 

- Há essa coisa da iridologia, uma técnica que permite ver doenças nas pessoas só de olhar para a íris. Mas eu falo de um nível diferente. No fundo, olhar para alguém e perceber o que traduz aquele olhar: raiva, desejo, simplicidade, compaixão. Não lhe descortinar o fígado, mas adivinhar-lhe o momento. Eu acho que sou muito sensível aos olhos de uma pessoa, estou sempre a detectar sinais.

- Acho isso fantástico, Matilde. Eu lembro-me de falarmos nisso quando casámos e você achou que o sacristão tinha olhos de desdém. Eu só via olhos castanhos, mas você via-lhes desdém. 

- Tem de andar mais para trás, António Bernardo. Foram os seus olhos que me perderam naquele cocktail da tia Mariazinha, quando nos conhecemos. Vi-o no jardim e percebi que estava agarrada como uma drogada; os seus olhos revelavam muito do que vim a conhecer e que tanto me atraiu... Riram para mim, percebe?

António Bernardo afagou de novo o livro, mirando-o por todos os lados: estava encadernado com rigor, perícia, gosto, cabedal e ouro. Olhou pela janela aberta da sala e tentou o impossível: sentar virtualmente na sua sala as famílias nobres do Alto Lindoso, como se uma aristocracia de antanho pudesse estar ali com ele, a falar dos sucessos e das conquistas, da fé e das caçadas, da voragem expansionista que estimula e atemoriza; uma conversa aprazível, pares entre pares, sem que a presença de uma televisão, de um aquecedor a óleo ou de um cachimbo estilizado lhes tolhesse o discurso por se perceberem uma nota dissonante. 

Não conseguiu ver ninguém, a não ser a Clara, sua colega no escritório: uma rapariga bonita, da sua idade, jovem advogada que se formara com uma nota fantástica num faculdade desafiante. António Bernardo escondera-lhe o seu casamento que atravessava um ligeiríssimo momento rotineiro, apesar do amor existente. Clara era alta, magra, de feições correctas, vinda de Germil (Ponte da Barca, Lindoso). Acima de tudo adivinhava-lhe os pensamentos olhando-o profundamente nos olhos:

-  Gostavas de beijar-me, António Bernardo? Ou de mais alguma coisa, já agora? Porque é isso que dizem os teus olhos... 

E António Bernardo sorria e beijava-a de olhos muito abertos, para que a Clara, nascida no Lindoso, lhe visse a alma, o desejo ou talvez, quem sabe, o remorso pela traição à Matilde, a mulher de quem ele gostava e para quem os olhos não tinham supostamente segredo.

- Estás triste, António Bernardo? Os teus olhos não enganam...

António Bernardo pousou o livro, deitando um último olhar a uma das profusas ilustrações do livro, fixando o olhar num senhor antigo, afagando um podengo à lareira. Olhou para a Matilde e quis esquecer a Clara, a elegância da Clara, a clarividência da Clara (uma associação onde encontrava um presságio curiosos...). Fixou os olhos em Matilde que, sorridente, lhe devolveu o olhar:

- Não me faça esses olhos doces, António Bernardo, de cão triste que quer um afago e cinco minutos de atenção. Já o conheço tão bem... Esses olhos nunca me enganaram. Quer ir beber um chá para se animar?

António Bernardo levantou-se e agarrou Matilde pela cintura. Levantou-a e sentou-a nas costas de um sofá. Depois, olhando muito para ela, beijou-a ardentemente, sensualmente, com uma voracidade inaudita. Afagou-a como se afaga uma fato novo ou um livro raro - com sensibilidade e paixão. Desejou-a mais do que nunca e disse-lho. Um desejo carnal, quase animal, carregado também de um amor que ele conseguia dividir com a Clara (Germil, Lindoso). No fim, deitados os dois no sofá, semi-vestidos e ofegantes, sorriram um para o outro.

- O que lhe dizem os meus olhos agora, Matilde?

JdB     

         

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