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17 junho 2019

Do desporto e outras patetices

Há uns anos foi-me diagnosticada uma rotura de ligamentos irreversível num pé. Na minha proverbial ignorância - e até esse momento inesquecível de esclarecimento tardio - achava que ligamento era uma palavra do foro desportivo, como médio-ala, florete, falso lento e bola medicinal. Hesitei, na elaboração do rol, na utilização de fato de treino. Na verdade, já fez e talvez venha a fazer parte do vocabulário desportivo; numa dada altura, e pelos piores motivos, passou a ser incorporado na classificação vestuário, tal como calças de fantasia, cuecas, meias de cano alto ou popelina. 

Regresso aos ligamentos. Surpreendeu-me o facto de também ter ligamentos, eu que tenho pelo exercício desportivo o mesmo sentimento que a natureza tem ao vácuo: uma espécie de horror. Se o facto de ter ligamentos me irmanava, ainda que numa pequeníssima fracção, aos grandes atletas, a ideia de ter uma rotura de ligamentos  - e disso poder falar com um certo orgulho parcimonioso e enganador - dava-me uma determinada aura, como algo que se adquire novo mas já dotado de uma patine surpreendente e valiosa. 

A honestidade não me chega por via da virtude, mas da consistência do discurso; ou seja, não minto, não porque tenha uma espécie de nojo ético à falsidade, mas porque sou fraco mentiroso. Como naquele jogo em que ganha a pessoa que estiver mais tempo sem dizer sim ou não, toda a mentira é, em mim, um esforço que denuncio sem arte nem persistência. É por isso que tenho de referir que a rotura de ligamentos não me atingiu por via do desporto, mas de um descuido: coloquei mal o pé na escada de um apartamento onde fui moderadamente infeliz; o destino puniu-me já eu me despedia da casa e, entre o pé mal colocado e a entrega da chave à senhoria, não passou mais de 1 hora. Morri na praia - de contas acertadas e um artelho torcido.

Vem tudo isto a propósito do que oiço constantemente: fulano partiu uma omoplata a fazer ciclismo de corta-mato, beltrano rachou um osso a jogar futebol, sicrano abriu a cabeça na prática violenta do ski. Ora, não me parece que alguma vez tenha ouvido que fulano partiu uma omoplata a redigir uma tese de doutoramento, beltrano rachou um osso na contemplação da suave rotina das marés, sicrano abriu a cabeça na escuta atenta de um Requiem, sobretudo se for o de Mozart. O desporto, e penso que o pensamento é cimeiro na lista dos lugares-comuns, é de uma perigosidade extrema, e o Estado deveria sobrecarregar fiscalmente os desportistas, deixando os obesos em paz na sua gordura imóvel e inócua.

Daqui por 50 anos os meus bisnetos falarão de mim com a ternura falsa que devotamos aos que não conhecemos, mas de quem nos falam com desvelo. Citarão histórias a meus respeito, repetirão com orgulho os elogios que me fizeram, e que me assentam menos por via das minhas virtudes humanas, e mais pelas minhas qualidades de vendedor de feira, perito na arte do logro. E rematarão: coitado, parece que comia carne. Perante a necessidade de pedir desculpa aos animais de terra, do ar e do mar que aquele seu antepassado deglutia com laivos de pecado, sobra-lhes o conforto de poder dizer: ao menos não fazia desporto

Alguém inventou, como benéfica, a dieta do paleolítico. Alguém inventou, como benéfica, a prática do desporto. Comer mamutes parece ser, para alguns iluminados, uma opção de vida inquestionavelmente saudável, ainda que difícil. Para outros, o esplendor da saúde seria perseguir os ditos animais a pé, antes mesmo de os cozinhar a fogo lento. As minhas convicções de homem moderadamente esclarecido duvidam dessa dieta, como duvidam da virtude de um desporto que imprima um ritmo que acelere o coração para além do que acontece quando nos apaixonamos pela primeira vez; parece-me, aliás, do mais elementar bom senso definir esse ritmo cardíaco como um limite superior. Um dia mais tarde, creio e espero eu, se provará os enormes malefícios do desporto a não ser com uma valência de entretenimento, como ouvir a Marisol ou ler banda desenhada; um dia seremos lembrados por termos comido carne e por nos termos agitado freneticamente sem razão. Seremos, em 2069, os esclavagistas do século XXI, olhados com desdém retrospectivo.

Não serei vegetariano e não farei desporto. Sobre mim ficam memórias de carnívoro e de sedentarismo persistente. Aos meus bisnetos cabe-lhes 50% de alegria, o que já não é de deitar fora.

JdB      

18 março 2019

Do vegetarianismo como fonte de tristeza



Declaração prévia: a fotografia acima, que ilustra o texto abaixo, não é mais do que um exercício de tentativa de humor. Não pretende apoucar ninguém que tenha sido afectado pela anorexia, nem pretende diminuir as pessoas que fazem opções alimentares com base em juízos ponderados.

***

As teorias mais falíveis e, por isso, as que menos se prestam a discussões, são as elaboradas de forma impulsiva, baseadas em percepções, embirrações ou fetiches. Estas teorias não se combatem porque não se sabe onde está a argumentação que as sustenta.  O pensamento que desenvolverei abaixo podia, por isso, assentar numa patetice apenas, numa ideia vestida de embirração. Pelo contrário, tem por trás um raciocínio que, embora não infalível, tem o seu quê (ainda que pouco) de lógico e pensado, o que abre uma brecha na muralha... Eu explico:

Ontem ao pequeno almoço, lamentando não poder deglutir duas torradas de pão saloio barradas de generosa manteiga, dei por mim com uma certeza partilhada em voz alta: não conheço vegetarianos (menos ainda adeptos do veganismo) que aparentem um ar verdadeiramente feliz. Aliás, acho que revelam todos um semblante triste, talvez flácido, pouco enérgico, nada vivaz. 

O vegetariano (e incluirei aqui os adeptos do veganismo, por facilidade de exposição) assentam a sua conduta alimentar na recusa. Tudo neles está pendurado numa palavra: não. Poderão eles alegar que comem vegetais e frutas, e que isso é dizer sim - pelo menos aos vegetais e frutas. Acontece que estes dois alimentos, embora abundantes e propiciando uma abundância de receitas (falam-me no alho francês à Braz e no bife de tofu) são uma minoria de entre a variedade de géneros que podem comer-se. Significa isto que à maioria das coisas que existem na natureza, o vegetariano diz não. Diz não ao bife, diz não ao entrecosto ou às lulas, diz não à pescada cozida ou ao salmão grelhado, à chanfana ou ao franguinho da Guia. O vegetariano diz não, e não e não. Recusa quase tudo.  

Entre o vegetariano e a velha solteirona há semelhanças assinaláveis - a recusa feita quase religião. O vegetariano diz não às favas com chouriço como a velha solteirona diz não ao beijo carregado de paixão e demora. Ambos, acantonados cada um na sua trincheira, dizem não ao prazer saudável, ao pequenino excesso, àquilo que, num caso, une mais as pessoas - uma mesa onde se almoçou ou jantou. Ambos fazem da recusa, do não proferido com um ar de horror, um hábito de vida. São os animais que morrem para dar comida, são os corpos enleados para gerar prazer. A tudo isto se diz que não, em nome de uma ética forte ou de um combate da devassidão. Este combate, feito em nome de valores muito próprios, é um combate árido, que esmaece as feições porque o corpo e a alma, para se habituarem à recusa, hibernam em permanência, fogem do sol e refugiam-se numa aparente seriedade onde não entra a sensualidade, porque é pecado, ou o pargo legítimo, porque foi pescado ainda vivo.

Gostaria que me apresentassem um comediante vegetariano para, num exercício de humildade saudável, eu reconhecer a inutilidade da minha certeza. Até lá, até ser esmagado pelo peso da evidência, ergo bem alto a bandeira da minha convicção: ser vegetariano (como ser puritano) torna as pessoas tristes. 

JdB

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