04 maio 2015

Vai um gin do Peter’s?

Há momentos na vida dos povos que são pontos de viragem radical, em que nada fica como dantes. Compreensivelmente, as catástrofes costumam produzir esses sobressaltos no regular curso dos acontecimentos, como estamos a assistir com o tremor de terra no Nepal.

Assim aconteceu também em Lisboa, onde até a hora de começo de uma calamidade natural entrou para a História: às 9h30 da manhã de 1 de Novembro de 1755, a capital do Império – conhecida na Europa como a cidade do ouro, tal a sua magnificência – estremecia com a violência de um terramoto com uma magnitude próxima dos máximos – 8,50 na escala de Richter. Era, depois, submergida por um tsunami e ainda devorada por um incêndio que a consumiu durante dias. Uma sequência de desastres sem precedentes, que um canal norte-americano simulou numa curta-metragem com link postado adiante.

Localização provável do epicentro do terramoto e maremoto de 1755,
que atingiu sobretudo o Algarve, Setúbal, Lisboa, o sul de Espanha e Marrocos,
embora os efeitos tenham chegado, pelo Atlântico, à Madeira e aos Açores,
ao norte da Europa e a locais longínquos, como Antígua, Martinica e Barbados. 

Toda a Europa bem pensante ficou chocada com o desmoronamento quase instantâneo de uma construção humana magnífica, como era Lisboa, no more a city of gold. A impotência humana ficou a nu, ensombrando o optimismo do Século das Luzes. Os principais filósofos iluministas reconhecer limites que até ali tinham desvalorizado, confortavelmente. Kant dedica páginas a este fenómeno perturbador desenvolvendo, a partir da hecatombe, o conceito de sublime, além de várias teorizações geográficas. Para Voltaire este foi um momento de verdade. Em Dezembro de 1755 discorre sobre o tema, refutando as certezas de Leibniz e de Alexander Pope, e colocando a personagem Candice a passear nos escombros de Lisboa e a rever a sua premissa de vida sobre o melhor dos mundos. Num dos versos do seu «Poème sur le desastre de Lisbonne», declara: «Je suis comme un docteur ; hélas ! je ne sais rien.». Filósofos contemporâneos consideram, inclusive, que a certeza fundadora do ideário de Descartes conheceu, aqui, as primeiras brechas. 

O Núncio acreditado em Lisboa – D. Filippo Acciaiuoli – verbaliza de forma muito expressiva o alcance da tragédia, nas cartas semanais que dirige ao Papa, a partir de 4 de Novembro: «o terrível terramoto da cidade que foi Lisboa» (1).


Por calhar num feriado, a família real teve a sorte de ser poupada, encontrando-se fora da cidade, nos seus domínios de Belém, enquanto a sua luxuosa residência no Palácio da Ribeira, situada no Terreiro do Paço e decorada com telas de Rubens, Ticiano e Correggio, era desfeita pelas vagas gigantescas e, mais tarde, pelo fogo. Só a biblioteca real contava 70 mil volumes, o que era um assinalável para a época, possuindo incunábulos inéditos. As lareiras nas casas e a imensidão de velas que resplandeciam nas Igrejas, para festejar o Dia de Todos-os-Santos, propagaram acidentalmente as chamas. O grande hospital de Lisboa, chamado de Todos-Os-Santos, como o próprio dia, ardeu como uma tocha.


Curiosamente, logo a 2 de Novembro, no dia de Fiéis Defuntos, nascia no próspero palácio imperial de Viena, a filha mais nova da poderosa Imperatriz Maria Teresa de Áustria – Maria Antonieta, futura rainha de França, marcada por inúmeras adversidades ao longo da vida, até acabar na guilhotina, no auge da Revolução Francesa. Segunda curiosidade, que associa de modo directo Maria Antonieta à Casa Real portuguesa: os seus padrinhos de baptismo eram os tios D.José I (Habsburgo pelo lado materno) e D.Mariana Vitória, que tiveram de se fazer representar na cerimónia.

As perdas foram imensas: em vidas contabilizam-se cerca de 90.000, só em Lisboa; a nível material, cerca de 85% da construção lisboeta ruiu, entre estabelecimentos, quartéis, hospitais, monumentos, património artístico riquíssimo, a recém inaugurada Casa da Ópera, o valioso Arquivo Real que guardava documentos náuticos únicos e outras preciosidades. Até o túmulo de uma das figuras maiores da portugalidade desapareceu: o Santo Condestável, depositado no Carmo. Apenas subsistiram o pórtico manuelino e o travejamento das naves do Convento, conferindo-lhe um aspecto misterioso e romântico, que fascina os turistas. À imagem do Carmo, Lisboa ficou reduzida à expressão mais simples, o que significou uma dor indizível, na altura.

O ciclo de provação e luto, iniciado naquela manhã fatídica, não se ficou pela devastação de 1 de Novembro. Somaram-se, depois, as réplicas nos meses seguintes, as doenças, as pilhagens e uma política especialmente autoritária e persecutória com julgamentos sumários cheios de irregularidades, a culminar em pena capital. Os casos mais emblemáticos foram o Processo dos Távoras (após um nebuloso atentado contra o rei pelo Duque de Aveiro em que tudo indica pretender atingir-se o Marquês, e não o monarca, forçando-se depois o envolvimento do poderoso clã Távora, que se opunha ao primeiro-ministro), a 13 de Janeiro de 1759, e o enforcamento do padre jesuíta italiano Malagrida, a 21 de Setembro de 1761. Isto já para não nos determos nas consequências da nova estratégia educativa de cariz elitista, introduzida pelo Marquês, aplicando as teorias pedagógicas do médico e cientista Ribeiro Sanches (1699-1783), que recomendava que a educação fosse um privilégio exclusivo de uma minoria aristocrata, para garantir a centralidade do poder. Por azar, os estudantes do recém-criado Colégio dos Nobres não estavam dispostos a estudar, manietando os professores e entretendo-se em batalhas campais nas salas de aula que, não poucas vezes, tiveram de ser encerradas. Os inúmeros instrumentos científicos que o marquês encomendou para o colégio, só 200 anos depois saíram das embalagens! Assim, a nova política restritiva redundou num fracasso completo, que o primeiro-ministro não pudera prever. Com esta política, Portugal tomava um rumo em contra-corrente com o resto da Europa, que se empenhava na ampla alfabetização das populações, exceptuando a Rússia de Catarina II, de quem Ribeiro Sanches fora Conselheiro de Estado. É da Czarina a expressão: a Rússia é demasiado grande para ser governada por mais de uma pessoa.

É na prossecução da estratégia elitista e de concentração máxima do poder régio que vem a expulsão dos jesuítas, pondo-se cobro a 170 anos de um ensino que fora ampliado à classe média, no Colégio de Santo Antão. Mas o principal ainda era afastar a Companhia de Jesus do império ultramarino, onde tinham uma influência proeminente e uma presença capilar por todo o território da coroa portuguesa. Na sua cruzada anti-jesuítica, o marquês conseguiu internacionalizá-la e pressionar o Papa a extinguir a Companhia, em 1773. Novamente, a pragmática Czarina foi excepção, pelo que na Rússia ortodoxa os padres da Companhia continuaram a ser protegidos e acarinhados, mantendo o seu contributo prestimoso na área do ensino.   

Voltando a 1755: das ruínas do terramoto-maremoto, Lisboa renasceu das cinzas por mérito do plano de reedificação levado a cabo sob a vontade férrea de Sebastião de Carvalho e Melo. A Baixa sujeitava-se, assim, a um traçado urbanístico harmonioso e simétrico, que nunca mais conheceu. Os novos edifícios adoptaram uma estrutura anti-sísmica que se tem provado resistente, apesar de ainda não ter havido novo sismo de magnitude semelhante. A reconstrução foi também favorecida pela experiência adquirida durante o reinado anterior, de D.João V, com Mafra e outros monumentos, que resultaram numa espantosa escola de engenharia civil.

Cria-se a estrutura flexível alcunhada de «gaiola pombalina»

Ainda outro mérito do marquês correspondeu ao levantamento de dados junto da população, através de um inquérito encomendado às paróquias de todo o país, para se apurar o sucedido e as consequências imediatas, num trabalho notável que é considerado precursor da ciência sísmica. O questionário incluía 5 questões: Quanto tempo (considera que) durou o sismo? Quantas réplicas se sentiram? Que tipo de danos causou o sismo?  Os animais tiveram comportamento estranho?  Que aconteceu nos poços? A partir das respostas, religiosamente arquivadas na Torre do Tombo, os cientistas têm podido reconstituir o fenómeno, sendo a primeira iniciativa de descrição objectiva e em larga escala, que se conhece, no campo da sismologia.

Em Novembro, o Smithsoninan Channel postou na net uma curta-metragem com a simulação computorizada do horror vivido naquela manhã de 1755, integrada numa série de episódios a que designou por «Tempestade Perfeita: A Ira da Deus». Começa pela razia produzida pelo sismo, seguindo-se o flagelo da onda colossal e logo as chamas mortíferas. As ruas da capital convertem-se num cenário apocalíptico, com o desabamento de muitos  edifícios, nomeadamente igrejas, onde multidões de fiéis participavam nas cerimónias litúrgicas do feriado:



E hoje: que impacto positivo poderá vir da catástrofe no Nepal?  Se a resposta solidária internacional ajudar o país a renascer das cinzas, nem tudo foi perdido.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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 (1) Expressão adoptada também no título do livro editado pela Aletheia com a correspondência guardada nos arquivos secretos do Vaticano.


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