20 maio 2015

Do simbolismo das coisas



Oiço a frase atribuída a Teixeira de Pascoaes e fixo-a: o símbolo é o mérito das coisas. Só então lhe junto a fotografia que encima este texto, como se houvesse necessidade de uma imagem para uma legenda e não a inversa, que é mais natural. 

Na fotografia está uma máquina de escrever (semelhante a uma que usei, antes do azerty - e antes ainda do qwerty - vencer o lusitano hcesar) e uma guitarra portuguesa, aparentemente de Lisboa. Na fotografia poderiam estar um voucher para Buenos Aires, um ingresso para um concerto de Bach, ou um prato de encharcada acompanhado de um parecer médico a atestar a sua inocuidade calórica. Às três hipóteses eu diria sim, muito, com alegria e gosto. E no entanto, num certo sentido, o casamento dessa imagem hipoteticamente tripla com a frase do Pascoaes não seria possível. O voucher, o ingresso e a doçaria seriam apenas coisas, despidas, sob certas circunstâncias, de mérito simbólico. O raciocínio aplicar-se-ia igualmente a um ovo Fabergé ou a um cadillac (uma alusão muito vintage...). Hesitei sobre a inclusão de um jantar com a Uma Thurman.

O símbolo é o mérito das coisas. Esta guitarra pode ser apenas uma miniatura de uma guitarra portuguesa, semelhante a uma caneta bic, a um clip desdobrado numa espargata metálica para desencravar algo, ou a um agrafador de marca bambi. Mas pode ser um símbolo, que não da canção nacional, porque esse seria um demasiadamente universal e, portanto, impessoal. Quem lhe atribui esse simbolismo? Estou em crer que é sempre quem recebe, não quem o dá - no caso de ser uma oferta. É o recipiente da coisa que o define, pelo que um ovo Fabergé dado por amor poderá não ser mais do que um artigo caro, valioso - sem simbolismo, portanto. Ou, matematicamente, uma espécie de simbolismo elevado a menos um. 

Assim sendo, e num pensamento totalmente peregrino que nada tem a ver com os artigos expostos, apenas com o raciocínio sobre o poder de determinação do simbolismo, ocorreu-me que a fórmula matrimonial do recebe esta aliança em sinal do meu amor... deveria ser alterada para recebo esta aliança em sinal do meu amor... Séculos de tradição abalados por uma conjugação verbal. Patetices, no fundo.

Sou receptor e, por isso, sou eu que estabeleço o simbolismo. Não obstante agradeço os objectos, que já vêm carregados de algo. O texto acima não é mais do que um devaneio intelectual de um homem beneficiado generosamente com uma máquina de escrever e uma guitarra portuguesa.

JdB


1 comentário:

Anónimo disse...

Recebo este texto em sinal da minha admiração e agradecimento pela literatura que o JdB vai criando e partilhando e que é o mérito da coisa

Recebo esta fotografia em sinal da minha devotada amizade.

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