29 novembro 2023

Poemas dos dias que correm

 Mãos 

Foi algures sobre a costa nordeste do Brasil,
sobre Fortaleza, uma cidade de qual nada sei, 
exceto que está cheio de gente — 
cada vida é um mistério maior do que a Amazónia — 
foi ali, enquanto o avião de brincar no monitor de voo 
se encostava ao equador 
virando para o oeste em direção a Marraquexe, 
que comecei de novo a pensar em mãos, 
qual estranho as nossas vidas — 
a vida da rapariga francesa ruiva à minha esquerda, 
a vida do rapaz argentino à minha direita, 
a minha vida e as vidas dos passageiros que dormitam, 
levados velozmente pela escuridão 
sobre o Atlântico enegrecido — 
todas essas vidas são agora seguradas pelas mãos do piloto, 
e penso noutras mãos que podem segurar as nossas vidas, 
as mãos do cirurgião 
que vou encontrar de novo quando voltar a casa, 
as mãos da enfermeira inteligente de cabelo preto 
que desenrolou o cordão umbilical do meu pescoço, 
as mãos macias da minha mãe, 
as mãos daqueles outros que me amaram, 
até parecer quase que a vida humana é isto mesmo: 
ser passado de mão em mão, 
ser transportado, incertamente, sobre um oceano.

Moya Cannon 

Tradução de Diana V. Almeida, in Contar (com) a Medicina (Caleidoscópio, 2018) 



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