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05 agosto 2026

Poemas dos dias que correm

Sítio do costume, hora do costume

Pecados capitais

Cada vez que tive vontade e pude
entreguei-me à gula e à luxúria.
Com a preguiça vivo amancebada.
Só fui seduzida pela avareza
como meio para outros desvios.
Sempre me mostrei irada e soberba,
orgulhosa, arbitrária e teimosa.
Talvez por isso não sentisse inveja.
Tão segura de mim, tão inflexível,
não podia invejar nada nem ninguém.
Hoje, contudo, derrotada e só,
sem esperança e vencida, tão inútil,
sinto inveja de mim quando me amavas. 

amalia bautista
estou ausente
tradução de inês dias
averno
2013

08 maio 2026

Poemas dos dias que correm

As regras do jogo 

Devias superar algumas provas,
e não era difícil ires ganhando
as batalhas de engenho, habilidade,
reflexos, determinação ou força
que a minha vaidade te ia impondo.
Acompanhavas bem o jogo, parecia
quase um conto de príncipes e fadas.
Mas estragaste tudo. Preferiste
a primeira e sedutora bruxa
que te mostrou um atalho para o tesouro.  
 
amalia bautista
trevo
tradução de inês dias
averno
2021

05 março 2026

Poemas dos dias que correm

Pecados capitais

Cada vez que tive vontade e pude
entreguei-me à gula e à luxúria.
Com a preguiça vivo amancebada.
Só fui seduzida pela avareza
como meio para outros desvios.
Sempre me mostrei irada e soberba,
orgulhosa, arbitrária e teimosa.
Talvez por isso não sentisse inveja.
Tão segura de mim, tão inflexível,
não podia invejar nada nem ninguém.
Hoje, contudo, derrotada e só,
sem esperança e vencida, tão inútil,
sinto inveja de mim quando me amavas. 

amalia bautista
estou ausente
tradução de inês dias
averno
2013


***

a foto

Tira-me uma dessas fotos que tiras,
embacia a objectiva, desfoca
um pouco e mede mal a luz. Agora
que termina o dia não é difícil
eu sair favorecida. Que os traços
se suavizem, que todas as rugas
da alma e do contorno dos olhos
desapareçam e que quem me veja
pense que posso merecer a pena.
E sobretudo, que o que impressione
nessa foto não seja eu, que estou
ali, mas os teus olhos que a tiraram. 

amália bautista
estou ausente
tradução de inês dias
averno
2013

03 setembro 2024

Poemas dos dias que correm

 Pecados capitais 

Cada vez que tive vontade e pude
entreguei-me à gula e à luxúria.
Com a preguiça vivo amancebada.
Só fui seduzida pela avareza
como meio para outros desvios.
Sempre me mostrei irada e soberba,
orgulhosa, arbitrária e teimosa.
Talvez por isso não sentisse inveja.
Tão segura de mim, tão inflexível,
não podia invejar nada nem ninguém.
Hoje, contudo, derrotada e só,
sem esperança e vencida, tão inútil,
sinto inveja de mim quando me amavas. 

amalia bautista
estou ausente
tradução de inês dias
averno
2013

06 junho 2023

Poemas dos dias que correm *

Uma das torres Petronas (em tempos o edifício mais alto do mundo)
vista de outra das torres Petronas (Kuala Lumpur, Malásia) 

A vida responsável

Conduzir mas sem ter um acidente,
comprar massas e desodorizantes
e cortar as unhas às minhas filhas.
Madrugar outra vez e ter cuidado
em não dizer inconveniências,
esmerar-me na prosa de umas folhas
e estou-me nas tintas para elas,
retocar de vermelho cada face.
Lembrar-me da consulta ao pediatra,
responder ao correio, estender roupa,
declarar rendimentos, ler uns livros,
fazer umas chamadas telefónicas.
Bem gostaria de me dar ao luxo
de ter o tempo todo que quisesse
para fazer só coisas esquisitas,
coisas desnecessárias, prescindíveis
e, sobretudo, inúteis e patetas.
Por exemplo, amar-te com loucura. 

Amalia Bautista

* tirado daqui

25 novembro 2022

Poemas dos dias que correm *

A PESAGEM DO CORAÇÃO

Que ninguém por tua culpa tenha passado fome,
tenha sentido medo ou frio.
Que ninguém tenha deixado de viver por tua culpa,
nem temido a morte, nem desejado morrer.
Que nenhuma pessoa tenha dito o teu nome com pavor
ou olhado o teu rosto com desprezo.
Que os outros te chorem quando partires.
Assim o teu coração não terá guardado o chumbo
que pesa nas mudanças.
Assim o teu coração será mais leve
que a mais leve pluma.

Amalia Bautista
(1962 - )
In "Telhados de Vidro nº 20 de Setembro de 2015"
(Tradução de Inês Dias)

20 setembro 2022

Poemas dos dias que correm

No fundo

No fundo, são muito poucas as palavras
que nos doem de verdade, e muito poucas
as que conseguem alegrar a alma.
E são também muito poucas as pessoas
que nos comovem o coração, e menos
ainda as que o comovem muito tempo.
No fundo, são pouquíssimas as coisas
que importam de verdade na vida:
poder amar alguém e que nos amem,
nunca morrer depois dos nossos filhos.


amalia bautista
conta-mo outra vez
tradução de inês dias
averno
2020

15 abril 2019

Poema e análise dos dias que correm

Vamos a hacer limpieza general

Vamos a hacer limpieza general
y vamos a tirar todas las cosas
que no nos sirven para nada, esas
cosas que ya no utilizamos, esas
otras que no hacen más que coger polvo,
las que evitamos encontrarnos porque
nos traen los recuerdos más amargos,
las que nos hacen daño, ocupan sitio
o no quisimos nunca tener cerca.
Vamos a hacer limpieza general
o, mejor todavía, una mudanza
que nos permita abandonar las cosas
sin tocarlas siquiera, sin mancharnos,
dejándolas donde han estado siempre;
vamos a irnos nosotros, vida mía,
para empezar a acumular de nuevo.
O vamos a prenderle fuego a todo
y a quedarnos en paz, con esa imagen
de las brasas del mundo ante los ojos
y con el corazón deshabitado.

Amalia Bautista in Cuéntamelo otra vez


***


Talvez haja poemas que se constroem como se fossem um artigo de jornal: uma primeira frase forte para prender a leitura, deixando que os pormenores se desdobrem em pirâmide. Amalia Bautista fez, no olhar de uma certa leitura, exactamente o contrário: deixou a força para o fim, como se quisesse que as duas últimas palavras ficassem a ressoar dentro de cada um de nós, numa reverberação permanente à qual nem o atrito faz frente.

A poeta espanhola usa uma expressão feliz - coração desabitado – e a felicidade da frase é imensa, porque se constitui, simultaneamente, numa consequência e numa causa de tudo aquilo que é dito nas linhas anteriores: desabitamos o coração porque limpámos tudo, limpamos tudo porque desabitámos o coração.

De um coração desabitado – e a expressão é uma espécie de punctum de que falava Roland Barthes – só de forma ingénua (ou pessimista, que é uma forma de ingenuidade) se poderá dizer que é um coração abandonado, como se fosse uma casa deixada à sua sorte, à infiltração do tempo e da chuva que tudo destrói. Muito pelo contrário, um coração desabitado é um coração aberto, disponível, como se fosse uma criança a passear pelo mundo com um saco vazio onde por tudo – o sabor do pão, a cor das ravinas, o aroma do eucalipto molhado, mas também o olhar das pessoas, o perfil dos rostos, os gestos das mãos e, com isso, formasse uma ideia aprazível do mundo.

Não limpamos porque temos a mais, limpamos para poder ter mais. Não deitamos nada fora, apenas nos afastamos das coisas, porque o coração habitado é, tantas vezes, o reflexo de um sítio e de um tempo, e se nos afastarmos disso estamos a distanciar-nos de tudo aquilo que em nós se perturbou e escureceu: os copos a mais, as roupas acumuladas, as mobílias, as amarguras, o olhar desviado do homem estendido na rua, a mão que se recolhe perante a mão desconhecida, um telefone que, no silêncio, nos dá a ilusão de um mundo sossegado. Mas também as tristezas que se agarram a nós e formam uma outra pele, as saudades das partidas antecipadas, as agruras que foram chão por onde caminhámos. 

Deixamos tudo, deitamos tudo fora, fazemos um fogueira com tudo. Amalia Bautista dá-nos liberdade total. Só nos impõe uma coisa: o coração desabitado, para com ele acolhermos o Outro. 

JdB

14 junho 2018

Poemas dos dias que correm *

Vamos a hacer limpieza general

Vamos a hacer limpieza general
y vamos a tirar todas las cosas
que no nos sirven para nada, esas
cosas que ya no utilizamos, esas
otras que no hacen más que coger polvo,
las que evitamos encontrarnos porque
nos traen los recuerdos más amargos,
las que nos hacen daño, ocupan sitio
o no quisimos nunca tener cerca.
Vamos a hacer limpieza general
o, mejor todavía, una mudanza
que nos permita abandonar las cosas
sin tocarlas siquiera, sin mancharnos,
dejándolas donde han estado siempre;
vamos a irnos nosotros, vida mía,
para empezar a acumular de nuevo.
O vamos a prenderle fuego a todo
y a quedarnos en paz, con esa imagen
de las brasas del mundo ante los ojos
y con el corazón deshabitado.

Amalia Bautista (Madrid, 1962)

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* enviado por mão amiga

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