As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
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11 junho 2026
02 fevereiro 2026
10 fevereiro 2017
Da dança
Gosto desta ideia construída em proporções incertas de arrojo e banalidade: a dança precede a música. Isto quer dizer, para quem tem mais dificuldade em perceber os meandros obscuros do meu pensamento, que antes de se ter inventado a música (e não sei bem quando se inventou) já se dançava. Melhor, já se abanava o corpo, movimento primitivo - sem acompanhamento musical - que deu origem, mais tarde, ao tango, ao bolero, ao rock, à valsa vienense ou inglesa, ao sapateado e à chula do Minho. A música, na sua ligação com a dança, eliminou o ridículo de uma agitação frenética e sem sequência lógica e conferiu a essa agitação um carácter sensual que os tempo modernos eliminaram de vez, como num tempo qualquer se fez com a varíola. Se a doença já só existe em frascos, a dança amorosa só existe em sítios obscuros, com tendência para a eliminação por via do ridículo e da idade avançada dos seus defensores.
A agitação do corpo é incivilizada e crente, desprovida de sentimentos nobres a não ser o temor, agradecimento ou pedido a uma transcendência que não se sabe o que é ou quem é, que forma tem, ou o que fez mais para além da suave rotina das estações do ano. Agita o corpo quem é religioso, isto é, aquele que quer religar-se a algo que o transcende. A agitação evoca o divino. A invenção da música, sobretudo aquela que suscita o pensamento pecaminoso decorrente de dois corpos que se tocam (e o slow dos anos 70 é o minuete do séc. XVII) veio eliminar essa religação, veio dar-lhe uma corporalidade que é a mãe de muitos vícios. Já não se dança (no sentido de agitação do corpo) por temor, devoção ou pedido. Dança-se por lascívia, luxúria, pecado da carne. A música que se dança, essa infâmia que se atravessa na civilização, é a culpa de muitos erros cuja gravidade foi escamoteada pelo surgimento do telemóvel, ipad, desaparecimento da casa de jantar, carreira da mulher, substituição do sexo por género e acesso generalizado aos aviões e às praias.
Dançar a dois está na iminência da proibição, com um fervor idêntico ao que proíbe o cigarro electrónico, o consumo de açúcar em excesso, os castigos corporais e a caça com arco e flecha. Curiosamente, por um duplo motivo - o ridículo e o imoral, uma parceria que não é vulgar, um pouco como se D. Juan ou o Sr. Casanova fossem estrábicos, ou tropeçassem sempre que desafiam uma senhora casada à tentação da infidelidade. Dançar em grupo é possível, desde que ninguém toque em ninguém, ninguém olhe para ninguém, ninguém deseje ninguém. A cegueira do grupo, a impessoalidade da turba ululante é o que separa a dança primitiva de uma orgia ao som da cítara.
Hoje deu-me para isto. Agitem-se sensualmente e freneticamente e pecaminosamente e ridiculamente com o vosso significant other ao som da música abaixo, cujo ritmo começa aos dois minutos. Não aceitem grupos, que é uma das pragas dos tempos modernos. Um com uma, que até o ridículo pode ser amoroso.
JdB
26 julho 2016
Duas Últimas
As entradas são sem dúvida importantes no todo a que pertencem, qualquer que ele seja.
Embora por vezes não sejam decisivas, como se viu no último campeonato europeu de futebol, em que Portugal entrou quase sempre mal, mas acabou campeão. É caso para dizer aqui, usando frase usada e abusada, que “isto não é como começa, mas como acaba”.
Em minha defesa, penso nas entradas das refeições, que normalmente atestam a maior ou menor qualidade do que se lhes segue. Acreditem que sei do que falo, pois considero-me sem modéstia quase um catedrático em matéria de sopas. E locais onde elas sejam bem confecionadas não me deixam por norma ficar mal.
Ou então nas entradas em férias, tão próximas para tantos, que se espera sejam a antecâmera de dias diferentes e bem passados.
Ou ainda nas entradas em conversas, reuniões, entrevistas, em que a primeira impressão é tantas vezes decisiva. Muitas vezes fruto de juízos apressados e injustos, mas…
Deixo-vos com três músicas que têm entradas de que gosto. A 2ª deve ser minimizada/atenuada nalguns aspectos, para mais em tempos de veraneio e de optimismo.
Óptimas férias e que sejam muitos os que as podem ter.
fq
24 maio 2016
Duas Últimas
Bruce Springsteen esteve de novo em Lisboa, mais uma vez
no “Rock in Rio”.
Estive lá, como não podia deixar de estar, salvo
imponderável de última hora. Desígnio cumprido com gosto e vontade, para
contrapor às obrigações com que me vou confrontando no dia-a-dia, sobretudo às
que têm hora e vida próprias…
Um concerto fantástico, na forma como BS interpreta e se
entrega inteiramente, agarrando a multidão ao primeiro acorde, ou no desempenho
instrumental da sua fantástica banda, com vários músicos que o acompanham há
uma imensidão de tempo e se conhecem de olhos fechados. Faltou o grande – em
todos os aspectos – Clarence Clemons, já
falecido, substituído no saxofone por um sobrinho igualmente talentoso mas com
menos folego.. .
Uma actuação sem tempos mortos de perto de 3 horas,
atestando a generosidade e profissionalismo de BS e companheiros (embora as
línguas perversas digam que nos concertos realizados em Espanha terá tocado
durante 4 h, mas sabemos que toda a comparação é odiosa!). Temi pelas minhas
pernas, até porque cheguei bastante antes, a tempo de ainda ouvir 10 ou 12
músicas dos Xutos, mas nessa matéria felizmente nada de novo aconteceu. De
realçar ainda que, embora em ambiente de casa cheia e vibrante, a (boa)
educação e respeito pelo m2 de cada um imperaram.
A música que aqui trago tem o inconfundível contributo
de C Clemons, daí a escolha.
Espero que a apreciem
fq
10 novembro 2015
Duas Últimas
Bruce Springsteen dispensa apresentações. Refiro apenas
que no meu top 10 de autores de música ligeira tem presença assegurada.
Como o dia já vai longo, a imaginação vai fenecendo e o
autor do estabelecimento quer com pleno direito saber com o que pode ou não
contar, deixo-vos com um texto curto compensado por duas longas interpretações bem
ao gosto musical e lírico de Springsteen.
Permito-me chamar a atenção para o saxofone dominador do
enorme e infelizmente saudoso Clarence Clemons, falecido em Junho de 2011.
Espero que me acompanhem na escolha.
fq
25 fevereiro 2014
Duas Últimas
Em 2006 Bruce Springsteen lançou um álbum que reuniu
músicas folk tradicionais popularizadas por Pete Seeger, uma forma (mais uma)
de manifestar a sua admiração e apreço por alguém que foi, sem duvida, por
altura dos anos sessenta do século passado, uma referência inspiradora para
toda uma geração de músicos americanos.
Foi também um activista por causas que estavam à época
muito em voga e que estão hoje mais ou menos consolidadas. Gosto mais das
músicas do que das causas (pelo menos de algumas), mas isso não vem agora ao
caso.
Pete Seeger deixou-nos no início deste ano, com perto de
95 anos de idade. Por isso aqui lhe presto também o meu singelo tributo.
Desse álbum, “We
Shall Overcome, the Seeger Sessions”, retirei esta música que aprecio
particularmente, esperando que me acompanhem nesta escolha.
fq
15 outubro 2013
Duas Últimas
Eu, JdB, me confesso: nunca fui grande apreciador de Bruce Springsteen. Conheço-lhe mal a discografia, identificarei meia dúzia de títulos, se tanto. Se me pedirem para citar dois, gaguejo, remetendo toda a beleza da música para o Requiem de Mozart, que esse sim, trauteio com gosto e desafinação em proporções iguais. Por isso dificilmente sugeriria, neste espaço que vou ocupando às 3ªs feiras, o cavalheiro em questão. Acontece que mão amiga enviou-me o youtube abaixo, sem qualquer nota explicativa que decifrasse o mistério, mistério que talvez só o fosse para mim. Abri-o no domingo com sossego, porque sei que daquele remetente só vêm coisas boas. Quedei-me surpreendido nos primeiros segundos, sem perceber porque mo tinha mandado. Bruce Springsteen? Para mim? E porquê?
De olhos postos no ecrã, numa tentativa embrutecida de desvendar a charada, vi os cinco minutos e um segundo. E não é que gostei? Não falo especificamente da música (uma letra simples e sincera, numa batida que se fixa), menos ainda da imaginação cinéfila do video, que não sei se pretendia ter. Mas gostei verdadeiramente daquele desfilar de pessoas de várias idades, a emoção nas caras diferentes: a alegria, a expulsão das tensões internas num corpo que se agita, o gozo de ouvir alguém que para eles é the boss, os risos, o embaciamento dos olhos, a chuva que cai perante a indiferença das pessoas, as multidões, os miúdos felizes a gozarem o ritmo, que o sentido das palavras ainda não o entendem. Talvez os cinco minutos não pretendam ser mais do que um desfilar humano de sensações e, em cada uma das pessoas que aparece, o desafio de imaginarmos uma vida única, irrepetível, cheia de encantos e desilusões, de choros e risos, de um dream baby dream repetido insistentemente.
Não sei porque é que o meu querido amigo JS me enviou o video. Prosaicamente, admito que se tenha enganado no destinatário, embora não me pareça. Admito ainda que tenha visto mais do que eu vi, porque há sagacidades e sensibilidades que bafejaram mais uns do que outros. Um dias destes almoçarei com ele e falaremos disto, como falaremos de livros, de futuro, de alma, de pessoas, de saudades e de projectos, da vida canalha feita de dinheiro e de horas. Aprenderei como sempre aprendo, verei melhor a vida e descortinarei coisas neste video - que lhe agradeço - e que não consegui ver, apesar de ter tentado três ou quatro vezes.
JdB
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