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20 junho 2025

Duas Últimas

 

Eglise Saint-Gervais-Saint-Protais (Paris)

Ontem postei esta fotografia num grupo de família com a seguinte pergunta: quem adivinha a musica para esta fotografia? As respostas foram diferentes:

The bells of notre dame
Knocking on heavens door
Stairway to Heaven
Highway to Hell

A resposta está abaixo, curiosamente uma música de um grupo de que nunca gostei muito: 


Fui à procura de uma explicação para a letra / música. Encontrei um site em que alguém perguntava isso mesmo e gostei de uma resposta: Estamos falando do Led Zep aqui. Ou é sobre sexo ou sobre O Senhor dos Anéis.

JdB

03 fevereiro 2020

Crónica de uma viagem a Paris

Viajo de Lisboa para Paris com um casal algo idoso ao meu lado. Quando vem a refeição (enfim, uma expressão eufemística para um pastel de nata incomível) a senhora informa a assistente de bordo: fazemos hoje 60 anos de casados... Há um vislumbre de alegria que se abre no rosto da funcionária: já volto, diz ela com um ar misterioso, acrescentando para mim: mas não pode dizer nada a ninguém. Imaginei tudo: palhaços, um bolo com um pau a arder, uma garrafa de champanhe que se abre e que derrama espuma para gáudio dos passageiros. Equivoquei-me: o casal foi brindado com dois copos de vinho branco (um gentil oferta, pois já tinham bebido o sumo a que tinham direito) e dois pacotes de amendoins...

Converso com o aniversariante, que está ao meu lado. Foi militar, tenente-coronel da Força Aérea, saneado após o 25 de Abril. Endireito-me na cadeira, imaginando uma conversa monotemática de ataque ao MFA. Afinal foi saneado por ser demasiadamente esquerdista, parece. E passou com alegria - que terminou em desalento - pelo PRP, onde conheceu o Carlos Antunes e a Isabel do Carmo. A esposa ainda me perguntou, com um ar de quem tem intimidade mas não domina a realidade: a mulher do Major Tomé ainda é viva? 

Amendoins pareceu-me bem. Talvez excessivo, quiçá...

***

Estou numa reunião com colegas e parceiros de projecto. Às tantas, um dos anfitriões pergunta se as pessoas querem uma coca-cola. Voltando-se para mim, indaga: Joao, coke? É um rapaz afável, com quem tenho algum à-vontade. Não me inibo e pergunto alto: Thomas, do you mean a line of coke? e acompanho com o gesto de snifar uma linha. Há gente que ri, que se surpreende. Há quem se choque, porque o sentido de humor lhes é insultuoso ou se assemelha a física quântica. O Thomas manteve o nível e respondeu: after the meeting in my office.

***

Há inúmeras vantagens nestas reuniões internacionais: são gente dos EUA, da Rússia, da China, da Alemanha, de França, das Filipinas, da Nova Zelândia, de Espanha. Há gente que se beija (o Thomas beija-me nas duas faces...) que estende a mão ou, no caso de uma pessoa específica, que nem quer fazer nada, tal o incómodo. Ver latinos a beijarem anglo-saxónicas é curioso. Nalguns casos há um espanto, um incómodo ou mesmo um esgar de quase repulsa. Em alturas de corona vírus, há pessoas para quem serem beijadas se assemelha a uma violação pública num bar demasiado cheio.

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O projecto que me leva a Paris é uma parceria, para alguns países específicos, entre uma fundação da L'Oreal e a Childhood Cancer International. O projecto tem três vertentes principais: uma página da internet em cada país, a definição de uma escala de emoções para crianças com cancro e a aplicação de um conjunto de massagens estudadas que têm por objectivo (re)construir a ligação entre Pais e criança doente. Contam-me duas histórias: a de uma criança que "proibiu" os pais de lhe darem banho, só os irmãos o podiam fazer. Muito provavelmente associava a presença dos pais a todos os procedimentos médicos que lhe provocavam dor, tendo desenvolvido uma reacção quase pavloviana: quando os meus pais me abraçam é sinal que vem dor...

A outra história é a de um pai (homem) que deixou de tocar no filho bebé quando este foi diagnosticado com cancro. Não havia repulsa, apenas um temor imenso de tocar e, com isso, poder provocar dor. Aprendeu o esquema de massagens que referi acima; a primeira vez que o pôs em prática chorou convulsivamente.

É isto, no fundo.

JdB

14 fevereiro 2019

De uma ida a Paris

Estive em Paris três vezes: por volta de 1982 em prazer, por volta de 2000 em trabalho, em 2019 por motivos de voluntariado. Digamos que há uma (quase) progressão aritmética. Mais ou menos de 18 em 18 anos vou a Paris, cidade para onde olho, percebo agora, com olhos sempre diferentes: os olhos de um jovem de 24 anos, os olhos de um adulto preocupado com a carreira, os olhos tranquilos de um homem cujas ambições são moderadas. Paris é a mesma, mais ou menos (indiscutivelmente uma cidade muito bonita) mas eu não sou, e olho para tudo com um olhar diferente, talvez mais sossegado e sem preconceitos por ser capital de franceses. 

***

Passamos um dia inteiro em reunião com a equipa da L'Oreal (mais precisamente da Fundação La Roche-Posay) que promoverá uma campanha que beneficiará (não financeiramente) as crianças com cancro. Falamos de tudo: de taxas de sobrevivência (80% no mundo ocidental, 20% nos países menos desenvolvidos ou pobres), de casos pessoais, de perspectivas de futuro, do estigma social da doença, da importância do contacto físico com as crianças doentes (um dos grandes objectivos da campanha). Retenho duas frases que foram projectadas num ecrã:

- a maior perda é nunca vir a saber-se como é não ser doente de cancro ou sobrevivente (de uma sobrevivente).
- Do not go where the path may lead, go instead where there is no path and leave a trail (de Ralph Waldo Emerson) [Tradução livre: não vás por onde o caminho te leva; vai antes por onde não há caminho e deixa um trilho].

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O dia de ontem é dedicado ao lançamento do projecto: uma médica, um psico-oncologista, o testemunho de dois pais, a presidente do CCI (Childhood Cancer International), pessoas da Fundação,  uma especialista em massagens, jornalistas. A ideia é explicar as virtudes das massagens a uma criança doente com cancro, não só o bem físico, mas, acima de tudo, a possibilidade de restabelecimento do contacto físico entre pais e filho doente. Explicam-nos que todos os movimentos devem ser feitos três vezes: à primeira o corpo estranha, à segunda aprende, à terceira aprecia. Bom era que tudo na nossa vida fosse isso - e por essa ordem: estranheza, a aprendizagem, gosto.

Segue-se um momento de aplicação prática entre adultos. Escolhem-se parceiros, com algum constrangimento, porque os homens não quererão ser massajados por homens e têm algum pudor em aproximar-se de uma rapariga / senhora que não conhecem. Quando dou por mim estou a apertar suavemente o braço do Anton, um russo esguio, alto, simpático e competente que estava sentado ao meu lado. Mas Anton, não obstante... Acabo a massajar e ser massajado (na base do máximo respeito) pela directora-geral da Fundação, uma quase jovem francesa, simpática e com sentido de humor.

***   
3ª feira é dia de jantar de confraternização e vem-me à memória os jantares das minhas reuniões internacionais: excesso de vinho para algumas pessoas, comida mais cuidada, animação, boa disposição, informações sobre as vidas pessoais, sentimento de pertença a algo comum, promessas de contactos futuros. Curiosamente, nessa noite sonhei dolorosamente com os meus últimos tempos de multinacional: ambiente tenso, secretismo, desconhecimento do futuro profissional, dependências hierárquicas inesperadas. Talvez fosse o destino a punir-me ou, quem sabe, o fraco rosé do jantar...

Ao meu lado senta-se uma jovem parisiense de 27 anos: bonita, bem arranjada, simpática, típica colaboradora recente de uma empresa do ramo da beleza pessoal. Falamos de trivialidades: de viagens, de Portugal, da (não) simpatia dos parisienses, de comida local, de onde estivemos ambos no país do outro. Digo-lhe que gosto muito de música francesa, falo-lhe do muito que eu ouvia numa determinada época. Ela sorri, orgulhosa da sua nacionalidade, e responde: gosta de música francesa? De quem, por exemplo? Mozart? Jacques Brel? Podia explicar-lhe que Mozart era austríaco e que Brel era belga, mas opto pelos petits riens. Noutra ponta da mesa, um rapaz brasileiro grande, nada apreciador de futebol e com os braços muito acima da cintura, fala alto para um telefone que não está colado à orelha. Diz-me, com os braços sempre acima da cintura, que a etiqueta manda que se coma peixe com a faca na mão esquerda. Explico-lhe que não, que não é possível. Duvida, manda-se vir uma faca de peixe. Reconhece, alegre, sempre com os braços acima da cintura.

Mozart, Brel, facas de peixe. Sou um velho.  

JdB

21 janeiro 2019

Das viagens

“Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. ” (Marcel Proust)

***

A frase acima suscita-me lembranças de uma ideia que já aqui aflorei, não sei quando, nem a que propósito, nem com que interesse: a da forma como olhamos para uma cidade em função do estado de espírito que vivemos no momento. Nesse sentido, num período particularmente feliz, Badajoz pode ter uma beleza inesperada, enquanto no extremo oposto desse contínuo Roma pode ser apenas barulhenta e enganadora. Ora, a frase acima não se limita às viagens de turismo, esse sucedâneo do grand tour que, num dada fase da história da Europa, estava vedada aos pobres e que servia para enriquecimento da pessoa, mais do que para exibição da selfie. A viagem de descoberta de que fala Proust aplica-se aos países, aos livros, aos museus - e às pessoas. Um olhar diferente - um olhar novo - permite descobrir coisas novas num poema, na luz de uma aldeia de província, na beleza triste de um stabat mater, no olhar aparentemente feliz de uma rapariga de olhos verdes.    

No entanto, e de certa forma, a frase de Proust colide com o diálogo que Ilsa mantém com Rick em Casablanca, o filme de todos os filmes:

- what about us?
- we'll always have Paris. 

O Paris que eles sempre terão não está aberto a novas descobertas, não é visível desta ou daquela forma em função dos olhos que cada um tem na altura. Dez anos depois, se pudéssemos supor dez anos depois para o casal que se juntou em nome do romance e se separou em nome da liberdade, os olhos de Ilsa são diferentes e os olhos de Rick são diferentes. A guerra acabou, ganharam os bons, algumas lutas não param porque isso significa o desemprego dos heróis. Regressarão ambos a Paris, ao café onde estiveram juntos, à estação de caminho de ferro onde nunca mais se viram, à imagem da cidade luz povoada de tanques pelos nazis. Paris não mudou. Melhor dizendo, mudou para todos, menos para eles. Há viagens que se devem fazer com os olhos de sempre.

JdB 

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