As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
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09 maio 2022
25 janeiro 2019
Duas Últimas
Verdes Anos
Era o amor
que chegava e partia:
estarmos os dois
era um calor
que arrefecia
sem antes nem depois…
Era um segredo
sem ninguém para ouvir:
eram enganos
e era um medo,
a morte a rir
nos nossos verdes anos...
Teus olhos não eram paz,
não eram consolação.
O amor que o tempo traz
o tempo o leva na mão.
Foi o tempo que secou
a flor que ainda não era.
Como o Outono chegou
no lugar da Primavera!
No nosso sangue corria
um vento de sermos sós.
Nascia a noite e era dia,
e o dia acabava em nós…
O que em nós mal começava
não teve nome de vida:
era um beijo que se dava
numa boca já perdida.
Pedro Tamen (in Retábulo das Matérias (1956-2001))
19 março 2018
Duas Últimas
Ontem fui aos 40 anos de casados de amigos recentes, mas cuja amizade prezo. Embora sejam pessoas mais velhas do que eu, e tenham casado relativamente cedo, são gente da minha geração. Mandaram celebrar missa no mesmo sítio onde casaram, rezada pelo mesmo padre que os casou - agora com 86 anos. Nestas bodas de esmeralda (aprendo ontem) estava gente que não estava há 40 anos, gente que repetiu as cerimónias, faltavam pessoas - porque morreram - que estiveram ali ontem, mas há 4o anos. Nada de muito surpreendente na dinâmica da vida.
40 anos é mais do que uma vida. Daquele casamento nasceram filhas e netos. Daquele casamento, como de outros que vou conhecendo mais ou menos com a mesma idade, nasceram ideias de casamentos perfeitos - não porque isentos de discussões e zangas, mas porque isentos de desistência. Tal como um santo é um pecador que não desiste, um casamento perfeito é aquele do qual não se desiste, em busca de uma felicidade que é um caminho, não um destino.
A longevidade destes casamentos representa tudo - uma dimensão de sorte, de esforço, de cedência mútua, de negociação, talvez até de vontade de mandar tudo às malvas. Mas significa, acima de tudo, a ideia de exequibilidade, de possibilidade. Sim, é possível nos dias de hoje festejarem-se 40 anos de casados, contra todas as ideias que vão em sentido contrário. Não significa isto que o fim de alguns casamentos não tenha sido um inevitabilidade. Sim, alguns acabaram porque tinham de acabar, assim como outros acabaram sem que isso fosse uma inevitabilidade.
40 anos é uma vida. E pode ser uma vida cheia, assim as pessoas queiram e o destino ajude.
Deixo-vos com uma dupla que já por aqui passou, talvez mesmo com este belíssimo poema de Pedro Homem de Mello. "Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu."
JdB
29 agosto 2017
Duas Últimas
Se a chuva ocasional de ontem, forte e intensa, foi para uns momento de neurastenia, a mim-me deixou prenúncios benfazejos, ainda que prematuros, de Outono. De janela aberta, a meio da manhã, cheirei o cheiro da terra molhada e imaginei, ingenuamente, o mercúrio do termómetro a descer, os dias a encurtar, a necessidade de resguardo. Sei que será chuva de pouca dura, que Setembro pode ser um bom mês para quem ainda ambiciona praia e dias ao sol.
Ontem, numa conversa breve, uma amiga dizia-me que gostava do Outono porque os dias curtos demoravam menos tempo a passar. São motivos diferentes os que me levam a apreciar esta época do ano: o Outono, tal como a música mais triste (e já aqui falei sobre isto) é centrípeto, convida ao recolhimento, à interiorização das ideias, à descoberta do sentido das coisas, à protecção que se encontra em locais familiares. Talvez, num certo sentido, seja uma estação do ano mais segura (importante?), porque mais propícia a decisões sérias. Para quem faz do regresso a casa um tema fulcral nas suas deambulações metafísicas, o Outono tem de ser uma presença - talvez mesmo uma dominância.
Deixo-vos com um conjunto bonito de aspectos estéticos: Monserrate, a viola de Pedro Jóia, a voz de Ricardo Ribeiro e, não menos importante, uns belíssimos versos de Pedro Homem de Mello.
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu.
JdB
Entrega
Descalço venho dos confins da infância
Que a minha infância ainda não morreu.
Atrás de mim em face ainda há distância
Menino Deus, Jesus da minha infância,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu
Venho da estranha noite dos poetas,
Noite em que o mundo nunca me entendeu
Vê trago as mãos vazias dos poetas.
Menino Deus, amigo dos poetas,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu
Feriu-me um dardo, ensanguentei as ruas
Onde o demónio em vão me apareceu.
Porque as estrelas todas eram suas
Menino irmão dos que erram pelas ruas
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu
Quem te ignorar ignora os que são tristes
Ó meu irmão Jesus, triste como eu
Ó meu irmão, menino de olhos tristes,
Nada mais tenho além dos olhos tristes
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu!
Pedro Homem de Mello
18 agosto 2015
Duas Últimas
Atrapalhado com a feitura do primeiro draft da tese de mestrado - o tempo é curto e a sabedoria pouca... - falta-me a inspiração para escritas bloguistas.
Deixo-vos com Pedro Jóia - numa parceria com Ricardo Ribeiro e num solo.
JdB
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