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01 setembro 2015

Duas Últimas

Através de uma notícia do Observador fui a um site que revela a música que mais tocou na telefonia (a notícia diz "na rádio", mas eu não gostei...) no dia em que nasci. Fui movido pela curiosidade, que por vezes mais não é do que uma ocupação de tempos livres, ou uma disfarce para faltas de concentração. Do que me tocou em sorte gosto sobretudo da coreografia e da alegria da assistência (que me aprecem estudantes num anfiteatro)... 



Mas a notícia vai mais além, e dá-nos a enorme e feliz possibilidade de sabermos que música tocou mais no dia em que fomos concebidos. Não resisti e fui espreitar. Olhem... nem a coreografia se safa - um desinteresse total.


Divirtam-se, que eu não.

JdB

03 junho 2010

Deixa-me rir...

Sabes, disse-lhe Sofia olhando para o sol que caía lentamente por detrás de Santa Sofia, estou convencidíssima de que o problema do homem moderno é o seu afastamento da Beleza. Deixamo-nos enredar em problemas, correrias, stress e acabamos por nos centrar no lado negro da vida, esquecendo-nos que somos, em grande parte, o que pensamos. Que, por sua vez, alimentamos através do que vemos, ouvimos, lemos, pelas pessoas de quem nos rodeamos ….. Pensar é, até certo ponto, ainda que não totalmente, uma escolha. E o cultivar uma atitude de esperança não é uma mera abstracção filosófica ou teológica...
Sofia calou-se e António não disse nada. Sabia que Sofia precisava que lhe dessem tempo. As ideias vinham-lhe do fundo e ficava insegura quando ouvia vozes discordantes à sua volta. Passaram-se longos minutos. O céu tinha-se tornado azul escuro e o fumo adocicado dos narguilés e o ar quente do Verão de Istambul convidavam à conversa cheia de espaços. Reparaste - continuou Sofia -, reparaste na beleza dos mosaicos bizantinos que acabámos de ver? Deste conta da delicadeza e das tonalidades dos frescos de San Salvatore in Chora? Lembras-te do que o nosso guia disse, que para além do treino técnico, os artistas da Antiguidade passavam por um longo período de preparação espiritual antes de iniciarem o seu trabalho? E isso VÊ-SE!, exclamou empolgada. E reparaste como Istambul está cheia de pequenos terraços, privados e públicos, e de esplanadas com vistas de sonho que convidam ao descanso e à contemplação? Sofia virou-se para António e este viu os seus olhos brilharem por detrás de uma ténue cortina de fumo. A Beleza liberta, disse serenamente.
O empregado do café aproximou-se e mudou as brasas dos narguilés para que o cachimbo de água fumasse mais facilmente. Sofia enroscou-se ainda mais no sofá côr de camelo, inalou fortemente e deixou que uma enorme nuvem de fumo a envolvesse mais uma vez.
As palavras voltaram a ficar suspensas.
Andamos todos cegos, prosseguiu, continuando a olhar para o horizonte a encher-se de luzes. Bem dizem os místicos e aqueles que sabem pensar: o Homem anda cego. Ou então sofre duma cegueira congénita, primordial! Talvez seja mesmo por aí... Tem tudo à sua disposição, tem toda a beleza do mundo à sua disposição e não consegue deixar de se centrar nos problemas, na melancolia, na tristeza, na doença, na chuvinha irritante, na promoção que não teve. Não foi para isto que fomos criados, não faz sentido viver assim. Para mim, e não sou original no que digo, como bem sabes, o segredo da vida reside na simplicidade e na contemplação da beleza.
Li há pouco tempo um livro que me marcou bastante. O White Tiger, do Aravind Adiga. Conheces? É um retrato cru, uma sátira mordaz ao status quo da Índia actual. A Índia retratada é corrupta, suja, cheia de fraquezas e ânsias por dinheiro, presa numa eterna roda de serviço, no sentido menos nobre da palavra: todos servem alguém e ninguém se liberta dessa roda viciada. Os que nascem para varrer o chão continuam a varrer o chão; milhares de jovens aceitam ainda casamentos arranjados pelas respectivas famílias; a mentalidade feudalista no campo profundo mantém-se quase inalterável; o respeito pelos mais velhos e pelos patrões expressa-se ainda numa obediência incontestada, que dá origem a abusos desumanos. Concluindo: desta roda infernal - uma analogia ao círculo da reincarnação, o Samsara - só se salvam os que têm dinheiro ... que normalmente precisam de transgredir para o obter. É um livro brutal, ainda que temperado por um humor (aparentemente) simples mas muito sarcástico, escrito por um indiano cosmopolita e terrivelmente desapaixonado.
Mas há neste livro uma citação extraordinária de um místico muçulmano, Iqbal, a quem o protagonista, homem miserável e astuto, venera. E que resume o que te disse há pouco:
THEY REMAIN SLAVES BECAUSE THEY CAN'T SEE WHAT IS BEAUTIFUL IN THIS WORLD

Não achas esta frase um espanto, António?

(ao jp, com muita amizade e admiração)

PS: e para quem quiser conhecer o poeta, político, filósofo em questão:

http://en.wikipedia.org/wiki/Muhammad_Iqbal

Ah ía-me esquecendo, o Deixa-me Rir é, sobretudo, música ... tenho de escolher uma canção... Hoje optei por uma música ultra romântica e profundamente triste. Mas tão suave ...



pcp

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