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11 novembro 2024

Da curiosidade e do conhecimento

 Sou uma pessoa muito curiosa...

Esta frase, que todos já ouvimos muitas vezes, leva-me sempre a fazer uma pergunta a mim próprio: para que serve a curiosidade? Durante muito tempo alimentei uma convicção de que não pretendo abdicar, nem mesmo tendo ouvido gente culta a tentar-me convencer do contrário. Em bom rigor a tese não é minha, não me atiro tanto para fora de pé... A tese é a de que o conhecimento faz  - ou pode fazer - de nós pessoas melhores. Isto é, há uma certa relação directa entre o que sabemos e a tolerância. 

Há muitas formas de sermos boas pessoas: sendo bons chefes, bons vizinhos, bons Pais, bons cônjuges, bons amigos. O exercício das virtudes junto dos nossos mais próximos é uma condição necessária, ainda que não suficiente, para sermos melhores pessoas. Ora, a nossa humanidade pode provir de inúmeras fontes: da Igreja para quem for crente, da educação recebida em casa, do ambiente em que se cresce, da escola ou da rede social / familiar. Há, no entanto, uma fonte que muito contribui para a tolerância.

A Enciclopédia Católica Popular ensina-nos o que também pode ser a tolerância: [o] respeito pela liberdade e dignidade do próximo, procurando com­preender o que há de verdade nas suas diferentes formas de pensar e de agir, nomeadamente através do diálogo. Este respeito, esta procura da compreensão da verdade do outro, não se constrói apenas em cima do conhecimento, mas assenta - e muito no conhecimento. Não falo apenas do conhecimento académico, mas do conhecimento adquirido através do contacto com os outros, com a diferença de culturas, de geografias, de modos de vida. 

O conhecimento pode não ser mais do que um número de circo, a exibição de uma característica, como escrever-se com as duas mãos em simultâneo ou saber dizer as palavras ao contrário numa fracção de segundos. Na sua vertente mais fútil, o conhecimento é apenas o exercício de uma memória: sei muito porque me lembro de muito; e lembro-me de muito porque tenho uma memória muito boa. 

Ser-se uma pessoa muito curiosa pode não ser mais do que ser-se uma pessoa muito curiosa. O importante perguntar é o que se faz com essa curiosidade. Um dia expliquei a uma amiga chilena quem era Sto. Ireneu - e esse personagem tornou-se uma private joke nossa. Perguntava-me ela muitas vezes: para que me interessa saber quem era Sto. Ireneu? E eu respondia-lhe: imagina que estás um dia com uma pessoa chamada Ireneu. Num instante podes falar-lhe de quem era o bispo e doutor da Igreja Católica. E assim se quebra um gelo...

Identificar Sto. Ireneu encaixa-se na ideia da curiosidade. Sabe-se quem ele era porque se fixou quem ele era. No minuto em que se faz alguma coisa com a ideia - nem que seja, na sua versão mais infantil, pôr uma pessoa a rir - essa curiosidade tornou-se conhecimento. O conhecimento é a curiosidade em movimento, é o estabelecimento de um qualquer comércio humano. Ser-se curioso para consumo próprio é a gula sem o prazer sensorial - serve para quê?

JdB      

22 fevereiro 2018

Da curiosidade


Em 1933, Patrick Leigh Fermor encetou uma viagem a pé que o levaria de Roterdão a Constantinopla. Definira regras específicas para a viagem, uma das quais passava por nunca fazer de comboio, autocarro ou carro, uma distância superior àquela que faria a pé. Ir a pé é ir a pé e, embora haja motivos que possam levar à necessidade de apanhar uma boleia, esses motivos não devem falsear a intenção primária da viagem. Leigh Fermor tinha um casaco, umas botas resistentes, uma mochila (com peças de roupa, caderno e lápis e, extraordinário! um ou outro livro de poesia) e um bordão de peregrino. E fez-se à estrada até Constantinopla.

Este parágrafo é meu, pelo que me cito a mim próprio, o que não sei se é bom. Mas entusiasmo-me e mantenho-me na auto-citação: Leigh Fermor começou culto - citava Horácio em Latim, sabia tudo sobre Berlim sem nunca ter estado em Berlim, discorria sobre obras de arte ou História - mas acabou curioso, pelo que a curiosidade foi o ponto de chegada, não o ponto de partida. Leigh Fermor cresceu enquanto andava, cresceu com os pés.

Há uma ideia luminosa por trás desta frase: a ideia de se começar culto e acabar curioso. E como há luminosidade, há avanço, não o inverso: ser-se culto é, portanto, ser-se menos que curioso, ainda que ser-se culto seja bom. Mas é melhor ser-se curioso. Ser-se coronel é bom, mas ser-se general é melhor, assumindo isto que ser-se militar, hoje, tem uma valência de dignidade que é superior à dignidade intrínseca ao corpo por baixo da farda. 

Divago. 

Ser-se culto é saber-se muito, mas pode ser, como é muito o meu caso, um exercício circense, igual ao daquelas pessoas que dizem palavras ao contrário ou fazem contas de multiplicar muito rapidamente. Sim, o ser-se culto implica interesse; mas o ser-se culto é favorecido pela memória. Retenho informação inútil - frases do Eça, letras de fados, pormenores de tempos passados. Ser-se culto é ouvir (e ler é ouvir) e fixar. Quando se é mais velho e se viu já uma parte do mundo (o que está na figura, pontilhado a encarnado, e o outro, que não se vê com os olhos), a cultura permite-nos juntar um verbo: relacionar. Ouvimos, fixamos, relacionamos. Percebemos que tudo - ou quase tudo - se pode ligar, comparar, unir.

Porém, ser-se curioso é mais; é estar aberto à novidade, é arriscar no fracasso de numa noite preenchida com um concerto maçador, é encontrar o encanto dos espaços desconhecidos, não dos familiares. É procurá-los, não porque sejam bonitos ou interessantes, mas porque são desconhecidos; ser-se curioso é dar aos olhos a possibilidade de se abrirem de espanto, quando os olhos dos outros (até os dos cultos...) se abrem num alarde de certeza. Ser curioso é usar o ponto de interrogação até que a tinta se esgote ou a voz nos doa; ser-se curioso é reconhecer na ignorância um ponto de partida, não uma dimensão de vergonha. 

A peruana Yma Sumac fez do exotismo a sua marca. Autodidacta, desenvolveu uma voz capaz de chegar às quatro oitavas, quando a maioria dos cantores apenas atinge as duas. Ela sou eu a lembrar dispersamente os versos do Carlos Conde, o prefácio de Eurico, o Presbítero que li depois do tempo em que o devia ter feito, a rir-me com amigos sobre a relíquia que o Raposão trouxe da terra santa, e que tinha odor a sensualidade e não a martírio, ou a cantar tangos com se fosse do mundo onde os cantam. 

A cultura é circo; a curiosidade é arrojo. Que eu, e os que me rodeiam, seja menos aquele, para ser mais este.

JdB 

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