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03 setembro 2020

Das emoções

 

Lamentação sobre o Cristo Morto (Andrea Mantegna, 1431 - 1506)

A Descida da Cruz (Rogier van der Weyden, 1400 - 1464)

Entre o quadro de cima e o quadro de baixo há, talvez, 40 anos de diferença: 1475 e 1435. Entre as cenas haverá poucas horas: Cristo que jaz numa pedra ou Cristo que é descido da Cruz. Há, por fim, três personagens em comum: o próprio Cristo, Sua Mãe e S. João. E no entanto, entre a Nossa Senhora de um quadro e a do outro quadro poderia haver 40 anos de diferença: Mantegna pinta-a como uma velha; van der Weyden como uma jovem. Acredito que, muito provavelmente, a representação da mater dolorosa obedece a um figurino generalizado: a Virgem Maria tem sempre feições de jovem, como se fosse Filha, e não Mãe, do seu próprio Filho. Ou como se nunca envelhecesse, nunca sofresse aos nossos olhos humanos a erosão do tempo e da perda.

O mundo cristão e devoto apela a Nossa Senhora como fonte de consolo ou intercessão. Ora, a recorrência a Maria deriva, não da sua condição de Mãe de Jesus, mas da condição de protagonista de uma tristeza imensa; recorremos a Maria, não porque ela é detentora de poder, mas porque ela viveu o desgosto. Se ela não chorasse no quadro de Mantegna, ou não fraquejasse no quadro de van der Weyden, a nossa relação com ela seria diferente, porque Maria não perceberia as nossas lágrimas que correm ou as nossas pernas que cedem. 

Viver uma emoção é perceber essa emoção nos outros. Por isso, entre fugir da nossa própria tristeza e não compreender a tristeza do próximo há um nexo causal evidente. Não percebemos no outro o que não sentimos em nós, ainda que sejam diferentes as razões que provocam emoções iguais. Nesse sentido, o horror à tristeza e à melancolia, apanágio tão forte dos dias de hoje que se querem sempre alegres e ocupados, provoca uma deficiência de entendimento do próximo cuja nocividade é óbvia. A compaixão é uma realidade física entre duas pessoas que viveram uma experiência semelhante, não é o cálculo teórico de uma derivada dupla. A falha desta compaixão amputa-nos como ser humanos, pelo que a experiência de todas as emoções é uma vantagem humana e pedagógica. 

Com feições de nova ou de velha, Maria vive sempre aquela tristeza, depois da alegria de ser a Escolhida. E é por isso - quase diria por isso - que percebe todas as nossa fragilidades. Afinal, também chorou e também teve de ser amparada na sua fragilidade. E que mais precisamos nós para que nos percebam?

JdB

31 março 2016

Das emoções explicadas



Um estudo científico revela porque fechamos os olhos quando beijamos: um aumento do estímulo visual torna as pessoas menos sensíveis ao toque. Numa conferência sobre Shakespeare e Fernando Pessoa, um professor catedrático da Faculdade de Letras diz que o conforto de uma tarde à lareira é uma construção da literatura romântica. Talvez se venha a descobrir (se é que ainda não se descobriu) que as nossas más acções têm origem numa enzima a mais ou a menos.

O beijo na boca - e em particular o primeiro, ainda que desajeitado - é um episódio alto na vida do ser humano. Todos nós teremos memórias do nosso primeiro, por mais feia que fosse a namorada do momento. Por outro lado, em cinema a "atitude" dos olhos diz muito do que move os protagonistas. Olhos fechado é sinal de que está tudo bem, olhos abertos é indicador de traição ou, simplesmente, de boca num lugar mas coração noutro. E é ainda o beijo apaixonado que faz com que os actores se tratem, ao nível das legendas, por tu. Você antes do beijo, tu depois. É a intimidade a vencer uma aparente distância linguística que é incompatível com a troca de fluidos bocais.

O estudo científico nada revela de inesperado. Beijamos de olhos fechados pelos mesmos motivos com que dançamos de olhos fechados: para focar a nossa atenção, para congelar aqueles instantes de proximidade com quem nos arrebata o coração. Talvez até os olhos fechados sejam uma construção do romantismo, como uma tarde chuvosa de domingo à frente de uma lenha a crepitar. Talvez o que me desiluda, num fim de dia todo voltado para uma apresentação sobre Schiller que terei de fazer ainda hoje (o teatro como instituição moral) é o facto de nada aparentar ser arrebatador, inexplicado, intuitivo, animal, espontâneo. Tudo parece ter uma explicação científica, racional, comprovada por pessoas que, de bata branca e caneta oferecida por um laboratório, colocam cobaias humanas a beijarem-se de olhos abertos e fechados enquanto imagens passam num ecrã; num peito de curva suave ou músculo trabalhado não há uma mão ou uma boca - apenas sensores que grafam curvas crípticas em papéis contínuos.  

Continuarei a beijar, continuarei a dançar, continuarei a acender a lareira para me aquecer ou aquecer um ambiente. No limite, poderia fazer tudo isso em simultâneo. Gostava de acreditar que nem todas as emoções (e há emoções tão boas...) são - ou têm de ser  - explicadas à luz de uma teoria.

Desculpem qualquer coisinha. 

JdB 

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