11 março 2013

Vai um gin do Peter’s?


Nada como uma tarde invernosa e de chuva para apetecer aqueles lanches clássicos, com chocolate quente grosso, ou um bom chá, a acompanhar os scones ou a torrada ou um bolo acabado de sair do forno. Apesar de o forte da culinária portuguesa se evidenciar mais nos almoços abundantes, há doces que vêm a propósito em qualquer refeição, a qualquer hora do dia, como os pastéis de nata.  

Quando em 2011 foram votadas as 7 Maravilhas da Gastronomia Portuguesa, claro que ficaram no grupo dos eleitos. Ainda por cima são recomendados pelos nutricionistas, por serem uma alternativa bastante light na pastelaria lusa.

Além de ser das especialidades mais originais do nosso património culinário, tem obtido imenso sucesso nas quatro partidas do mundo, onde são replicados por empresários que sabem antecipar as oportunidades. Por exemplo, em Macau e Hong Kong, a iniciativa coube a um inglês, que percebeu logo o filão deste bolo tão decorativo. O mesmo aconteceu na Malásia, onde integram a ementa do Restoran de Lisbon. O rol de cidades cosmopolitas que os vendem, nos melhores cafés, parece interminável. Assim acontece em: Paris no Comme à Lisbonne (bairro do Marais), Nova Iorque na Bread Talk (Chinatown), Montreal no Ferreira Café, Buenos Aires na Padaria Florêncio, Xangai na Lilian Cake Shop, Pequim na Honey Bear, Singapura noo Tong Heng, etc. E isto sem falar da África lusófona e do Brasil.

Os deliciosos pastéis, com o inconfundível pacote da Fábrica de Belém    

À semelhança de quase toda a doçaria nacional, teve origem conventual. O início remonta a 1834, quando os monges dos Jerónimos foram obrigados a abandonar o Mosteiro, em consequência da política de expulsão das Ordens religiosas que se seguiu à Revolução Liberal de 1820. Alguém do mosteiro terá aproveitado a loja de cana-de-açúcar e refinaria contígua ao monumento, para aí vender uns pastéis conventuais. Em 1837, o confeiteiro português recém-chegado do Brasil – Domingos Rafael terá fundado (segundo algumas teses) a Fábrica dos Pastéis de Belém(1).

Naquela altura, toda a zona em redor da Torre de Belém era rio, chegando-se por barco, desde Lisboa. Os visitantes que viajavam até à ponta mais ocidental da cidade, para admirar a beleza dos dois monumentos de estilo manuelino, ficavam também encantados com os saborosos doces.



Cientes do seu sucesso gastronómico, os mestres pasteleiros que tinham apanhado a receita do convento, deram continuidade à confecção que, desde o segundo quartel do século XIX, se especializara naquela guloseima, respeitando os métodos artesanais de outrora. Ali é prestado juramento para a receita nunca transpirar as paredes da Oficina Secreta, como é conhecida a afortunada cozinha. Aliás, quer a receita, quer a designação já estão patenteadas.

Numa sequência de salas labiríntica, revestidas a lambrins de azulejo azul e branco, a velha Fábrica tem cruzado os tempos imune aos conturbados períodos da história nacional, desde as Guerras Liberais às fases revolucionárias que infernizaram a vida dos lisboetas. Quase bi-centenária, produz cerca de vinte mil pastéis por dia. Nas montras e demais vitrinas exibe os utensílios de origem, certificando a sua antiguidade.  





Aos poucos, outros pasteleiros foram-se aventurando em bolos que lembravam os dos monges dos Jerónimos, mudando-lhe a designação para pastéis de nata, como foram cunhados no Brasil. Reconheciam, assim, à confeitaria herdeira do segredo conventual, o uso do nome de origem.

Será este o segredo?... Ganha-se em saltar o anúncio com que abre o link: 




UMA PEQUENA-GRANDE HISTÓRIA EM E-BOOK

Para quem queira percorrer os quase oito anos de pontificado de Bento XVI, o Vaticano lançou um livro digital, com mensagens breves de um dos Papas mais lúcidos e sábios que o mundo alguma vez conheceu, ilustradas por imagens.

Num curto espaço de tempo, o Papa que se assume sem forças físicas para continuar à frente dos destinos da Igreja, ainda escreveu 3 encíclicas, a trilogia sobre a vida de Cristo e um sem número de estudos, realizou 24 Viagens ao exterior, participou em 3 Jornadas Mundiais da Juventude (Colónia, Sidney, Madrid), acabou de convocar o Ano da Fé… mantendo um ritmo intensíssimo, marcado por uma confiança ilimitada em Deus. Não por acaso, termina assim o seu pontificado:

«Encontro-me diante do último trecho do percurso da minha vida e não sei o que me espera. Contudo, sei que a luz de Deus está presente, que Ele ressuscitou, que a sua luz é mais forte do que toda a obscuridade; que a bondade de Deus é maior do que todo o mal deste mundo. E isto ajuda-me a prosseguir com segurança

http://www.vatican.va/bxvi/omaggio/index_po.html


A concluir, o testemunho expressivo de um agnóstico da área da cultura, referindo a força e modernidade do último gesto de Bento XVI e de todo o seu legado:



«Nos seus últimos dias de papa, Bento XVI apresentou-se diante de audiências globais, como uma "estranheza", ou como um "mistério" que nos interpela. Desse ponto de vista, foi um sucesso "mediático" porque é único: um homem alquebrado, mas com um sorriso poderoso, falando várias línguas de um modo geral bastante bem, lendo textos simples mas densos, cheios de história, onde os dois mil anos da Igreja se reflectem num fio condutor que apela a muitas memórias da cultura ocidental e da religiosidade.
  
A resistência à "modernidade", e foi o próprio Ratzinger que o lembrou, é mais moderna e interpela mais a descrença, do que a contínua cedência ao "mundo" secular, aos seus hábitos e costumes. E foi também por isso que, ao associar o seu acto prosaico de renúncia ao papado a uma "peregrinação" mística e de intensa religiosidade, apelou aos incréus, seus pares na mesma tradição greco-latina da cultura ocidental que tanto prezava, e fez muito mais pela "propaganda da fé" do que alguns dos seus pares mais modernizadores reconhecem. Usou o "espectáculo" para sair dele para uma dimensão muito alheia ao nosso quotidiano vulgar 
(…)  
Ver alguém que acredita, como o Papa Bento XVI, agora Papa Emérito, de uma forma tão gentil, sem aí ser frágil e "sem forças", faz muito para restaurar um respeito pela espiritualidade, uma atenção ao "mistério" ao sentimento do outro, mesmo que não restaure a fé, que é um dom e não depende dele. 
(…) 
É por isso que este Papa fez muito mais pela Igreja do que muitos cristãos pensam que fez.



In artigo do PÚBLICO de 2 de Março, sob o título «Peregrino» e assinado por José Pacheco Pereira.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)


 (1) www.pasteisdebelem.pt. Morada: Rua Belém, nº 84,Lisboa. Tel.213 637 423

10 março 2013

4º Domingo da Quaresma

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de católico.

A Igreja passa tempos difíceis. Tempos de mudança, de espera de um novo Papa, mas tempos de ataques a membros importantes da estrutura local ou mundial. Fala-se de lobbies, do relatório Vatileaks que deveria ser divulgado pelos cardeais, de pedofilia, de homossexualidade, do que verdadeiramente levou o Papa a resignar, de interesses escondidos. Fala-se da necessidade de actualização da Igreja, da ordenação das mulheres, do celibato dos padres, dos recasamentos, da comunicação deficiente, da política sobre sexualidade. Fala-se de tudo, mesmo do que tem menos interesse. Quando o Papa for eleito falar-se-á dele, e os jornais esmiuçarão tudo, dos sapatos ao corte de cabelo, do exame em que copiou no liceu, do que fez e disse, do que não fez e não disse, que posição tomou nos casos mais mediáticos e nos temas considerados mais importantes. Saberemos tudo - o que é verdade e o seu contrário.

Jantava no outro dia com um casal na casa dos trintas. Dizia um dos interlocutores, educado catolicamente e que abandonou (pelo menos para já) a prática, que a geração dele pouco precisa da Igreja, que conseguem procurar o caminho da perfeição no dia a dia sem mediações, até porque se revoltam, de alguma forma, com a hipocrisia vigente, com uma certa intolerância do clero que não é coerente com modos de vida próprios. Falámos de comunicação, da salvação fora da Igreja, dos corações contritos dentro do templo e que destilam defeitos fora dele, e de outras coisas que agradarão menos a quem comigo conversava com discernimento e educação.

Pertencer-se à Igreja nem sempre é fácil, confesso. Nem sempre se convive bem com uma certa ideia de Frei Tomás, faz o que ele diz não faças o que ele faz... Nem sempre se convive bem com uma ideia que apanhei num filme: há gente que em nome da moral mata a virtude. Nem sempre se convive bem com os escândalos da pedofilia - praticada ou encoberta -, ou com a dureza com que são tratadas algumas realidades carnais, porque a Igreja sempre lidou mal com o tema da carne. Nem sempre se convive bem com a ideia crescente de que o Papa resignou por outros motivos que não o de saúde. Nem sempre é fácil, repito.

Como resolvo eu o tema interiormente? Nem sempre sei. Repetindo que amo a Igreja, e que não amamos só a perfeição. Repetindo que não quero saber se quem comunga o pode ou não fazer, porque isso está no domínio da consciência de cada um. Repetindo  que vamos à missa para ser santos, não porque o somos já. Repetindo que a mensagem de Cristo é maior do que todos nós e nos sobreviverá a todos. Repetindo que vou lá buscar o caminho da perfeição, não espiolhar vidas alheias. Repetindo que por cada padre mau há mil anónimos bons, e que por cada banqueiro incoerente há mil consagrados dedicados. Repetindo que há a fé na Igreja e na iluminação do Espírito Santo. E repetindo que há um tempo para tudo, mas que talvez seja cedo para perceber que tempo é este.

Bom Domingo para todos.

JdB

***         

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
os publicanos e os pecadores
aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem.
Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo:
«Este homem acolhe os pecadores e come com eles».
Jesus disse-lhes então a seguinte parábola:
«Um homem tinha dois filhos.
O mais novo disse ao pai:
‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’.
O pai repartiu os bens pelos filhos.
Alguns dias depois, o filho mais novo,
juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante
e por lá esbanjou quanto possuía,
numa vida dissoluta.
Tendo gasto tudo,
houve uma grande fome naquela região
e ele começou a passar privações.
Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra,
que o mandou para os seus campos guardar porcos.
Bem desejava ele matar a fome
com as alfarrobas que os porcos comiam,
mas ninguém lhas dava.
Então, caindo em si, disse:
‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância,
e eu aqui a morrer de fome!
Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe:
Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho,
mas trata-me como um dos teus trabalhadores’.
Pôs-se a caminho e foi ter com o pai.
Ainda ele estava longe, quando o pai o viu:
encheu-se de compaixão
e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos.
Disse-lhe o filho:
‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho’.
Mas o pai disse aos servos:
‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha.
Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés.
Trazei o vitelo gordo e matai-o.
Comamos e festejemos,
porque este meu filho estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’.
E começou a festa.
Ora o filho mais velho estava no campo.
Quando regressou,
ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças.
Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo.
O servo respondeu-lhe:
‘O teu irmão voltou
e teu pai mandou matar o vitelo gordo,
porque ele chegou são e salvo’.
Ele ficou ressentido e não queria entrar.
Então o pai veio cá fora instar com ele.
Mas ele respondeu ao pai:
‘Há tantos anos que eu te sirvo,
sem nunca transgredir uma ordem tua,
e nunca me deste um cabrito
para fazer uma festa com os meus amigos.
E agora, quando chegou esse teu filho,
que consumiu os teus bens com mulheres de má vida,
mataste-lhe o vitelo gordo’.
Disse-lhe o pai:
‘Filho, tu estás sempre comigo
e tudo o que é meu é teu.
Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos,
porque este teu irmão estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’».

09 março 2013

Pensamentos impensados


Estilos de vida
Estilitas eram uns excêntricos que viviam em cima dumas colunas.
Nunca percebi como é que dormiam e por que é que não caíam enquanto dormiam. A comida talvez viesse de alguma loja de conveniência.
Os estilitas foram os percursores dos homem-estátua.

NB-Não confundir os estilitas com a Fátima Lopes.
 
Culinária dos tempos que correm
Esta receita é económica, rápida e fácil de fazer:

Ingredientes:

2 kg de osso burro (também pode ser cavalo, que está na moda);
1 chávena de arroz carolina (de Mónaco, que deve estar em saldo);
4 colheres de azeite virgem (também pode ser adúltera);
2 folhas de louro (pode ser moreno);
Salsa, cebola e alho.

Faz-se um estrugido com a cebola bem picadinha e com os condimentos;quando a cebola estiver loira (neste caso não pode ser morena) deita-se uma pazada de água, os ossos e o arroz; quando o arroz estiver "al dente", está pronto a servir.
Este prato chama-se arroz d'osso.
 
Muitos anos de vida
Se um dia me perguntarem a que devo a minha longevidade respondo: ao facto de ainda não ter morrido.
 
Cabeçadas
A mulher diz-se adúltera quando a cabeça do marido aparece adulterada.
 
O aborto volta atacar
Vi escrito infetado.
Não se percebe porque tenho de abrir o E quando não o faço em inferior, infeliz, interior, etc.

SdB (I)

08 março 2013

Deixa-me rir...


"Caros Audiophiles, I was introduced a few years ago to Keith Jarrett's famous The Köln Concert 1975 recording, still the best-selling solo album in jazz and the best-selling piano album in any genre. And last week I had the rare opportunity to see him live solo in concert.

Jarrett is celebrated in both the classical and jazz genres. But he is most especially famous for his improvisation in his concerts, walking onto the stage and creating spontaneous musical pieces. As someone once described: it is as if he has been blindfolded and kidnapped, and then released in a far away forest. Not knowing where to go but knowing how to get there. 

On this night, he was suffering from a heavy cold and unspecified illness. Once or twice he stopped playing in order to leave the stage. He complained about audience noise and flash photography. Apparently he insists always on 'no photographs' because it is distracting. I empathise, especially about audience whispering during performance. But before one final encore when one person apparently ignored him (I did not see a flash), he was quite rude in his repeated insistence and claimed that his 60-year piano career deserved total respect. A little bit of a male diva. A little less empathy.

Ironically, he himself during his playing makes body and face contorsions, and moans and grunts and strange squeaky noises. Sometimes this feels like he is 'in the moment', but sometimes, in the quieter more romantic pieces, this is as annoying as hearing Maria Sharapova hitting a tennis ball. And yet, he is mesmerising.

I cannot possibly do justice to Keith Jarrett's place in jazz history, and so I have plagiarised some review extracts from The Guardian and AllMusic articles, which express much better than I am able the musical genius and popular appeal of Keith Jarrett:

Thirty-eight years ago Keith Jarrett, the now 67-year-old pianist and composer from Allentown, Pennsylvania, crossed a gulf usually unbridgeable for either jazz or classical performers – and this virtuoso happens to be both.

Jarrett's message from the keyboard began with the small community of an informed and dedicated minority jazz audience, and reached the huge worldwide constituency of listeners. His albums appeared in the collections of people who would normally cross the street to avoid buying a jazz record. Every pot-smoking dazed and confused university kid owned this - "because the chicks dig it" - as one of the truly classic jazz records, along with Miles Davis' Bitches Brew and Kind of Blue, Dave Brubeck's Take Five, John Coltrane's A Love Supreme, and 'something by Grover Washington Jr'.

From the mid-1970s onward, his concerts began to resemble religious rituals, attended by flocks of devotees for whom his music had a meditative, spiritual and transformative power. All this stemmed from the recording of a single album – conceived as a live concert by a sleep-deprived Jarrett on a faulty grand piano – made in Köln, Germany, on 24 January 1975. 

From The Köln Concert's glistening, patiently developed opening melody, through sustained passages of roaring riffs and folk country-song exuberance, meditating on harmonic invention and melodic construction, the pianist is utterly 'inside' his ongoing vision of the performance's developing shape – a fusion of the freshness of an improvisation with the symmetries of a composition that is central to the album's communicative power. Harmonically and melodically, it wasn't a particularly "jazzy" record by the piano-jazz standards of that time, which no doubt helped it to cross over the sectarian divides of jazz, pop and classical tastes. 

Inspired by the great pianist Bill Evans, one of the young Jarrett's jazz heroes who in 1959 had recorded the meditative solo improvisation Peace Piece - built around a simple repeated two-chord rhythm in which the harmonies stretched increasingly abstractly as the performance progressed - Jarrett's playing on The Köln Concert in a similar way developed around repeating hook-like motifs, instead of unfolding over song-structure chord sequences as most bop-based jazz solos did at that time.

Jarrett's improvisation is hypnotically rhythmic, almost like mantra. He is not afraid to find a compelling idea and stay with it, building intensity on a single rhythmic idea in a manner that still sounds contemporary. A pop-like use of repetition, and a reassuringly anchored sense of tonal consistency contributes to the music's astonishingly organic feel. 

Contrary to the trend at that time for jazz-rock fusion and avant-garde, Keith Jarrett brought quiet and lyricism to his improvisation. 

His concert performance was not pre-meditated before he sat down to play. All of the gestures, intricate droning harmonies, skittering and shimmering melodic lines, and whoops and sighs from the man himself are spontaneous. 

With this album, Jarrett put himself in his own league, and you can feel the inspiration coming off him in waves. It speaks volumes about a musician and a music that opened up the world of jazz to so many who had been excluded. This is a true and lasting masterpiece of melodic, spontaneous composition and improvisation that set the standard. 

But The Köln Concert isn't universally admired by jazz afficionados. Some find it too close to 'easy listening' in its repetition of catchy melody, and too far from the jazz tradition in its avoidance of many of the jazz genre's familiar components. But Jarrett's remarkably varied output since that time - his interpretations of classical works, his re-invention of the Bill Evans-inspired conversational trio with drums and double bass, his engagement with everything from symphony orchestras to cathedral organs - and an enduring popularity that sells out the world's great concert halls months in advance, testify to his creativity and eloquence. 

Only 29 years old at the time of the Köln Concert, Köln was Jarrett's moment. Experiencing the feeling of total trust in his imagination, he said later: "My glasses were falling off, my pants were twisted up, I was sweating, crouching, standing up, sitting down, and I was thinking 'nothing can stop me now'.

The Koln Concert is too long to post complete. However, here are two extracts - Part 2a and 2c - which I hope will encourage you to check out the whole concert:





And finally here is a video of the man himself performing an encore at his Tokyo '84 concert, complete with his tendency for foot-tapping, jumping and grunting noises:




A proxima.
PO

07 março 2013

Fotografias dos dias que correm


...


um dia o poeta acorda
e apaga todos os escritos

forma de dizer

que o poeta abre a porta
por onde sairão todos os gritos

forma de dizer

que brilham já na solar corda
corações outrora aflitos

forma de dizer

que novo poema já cá mora
reescrevendo o poeta e os seus ritos.

um dia o poeta acorda e canta



gi.

06 março 2013

Crónicas de um universitário tardio - A Morte

Um aprendiz só perde verdadeiramente o medo ao touro quando o enfrenta pela primeira vez, quando sente fixarem-se sobre si os olhos do animal e se apercebe da sua investida. É nesse momento decisivo, quando nada mais existe no mundo para além do homem e da besta, que o temor desaparece. Por semelhança de raciocínio, talvez seja preciso ver-se a morte para se perder o medo à morte.

Eu vi a morte, não num animal feroz, não num acidente iminente, nem sequer na forma de uma doença que nos habita e que a ciência não sabe curar. Vi-a numa mão pequena, numa vida pequena. Vi-a nuns dedos infantis que agarravam outra vida quando ainda não tinham largado esta. No meio estava a morte, naquela breve passagem de uma realidade que nem sempre dominamos para outra realidade em que nem sempre acreditamos. Via-se na dimensão física de um rosto sereno, na impessoalidade de uma parafernália tecnológica que nos revela números que decrescem até ao zero absoluto. Via-a no vazio árido cujo ar respirei, num deserto onde nada pode existir mas de onde tudo pode nascer.

Ver a morte, essa águia cujo grito ninguém descreve, é viver com ela na persistência da memória até ao fim do tempo, até ao momento em que alguém passa a ser o espectador da nossa própria morte. Só então a imagem se desvanece para dar lugar ao último abraço. É nessa altura que a morte se materializa no nosso próprio corpo, e não no corpo dos outros. O aprendiz, sonhador de tardes de fama, não mais esquecerá o dia em que enfrentou o animal que lhe coube em sorte, porque nunca se esquece o horror que vence a sensação de horror. Por isso, jamais se esquece a morte que vence o medo da morte. Por isso, jamais esqueci o momento em que vi a besta à frente.  
   
Olhar para a morte não é olhar só para a curva da estrada, lembrar o corpo desaparecido que dá lugar à saudade, conjugar de forma tão dolorosamente adulta a expressão nunca mais. Olhar para a morte, vê-la chegar, senti-la nuns dedos que perdem força, perceber que ela se instalou à espera de vencer e de ser vencida numa fracção de instante não constitui uma fatalidade, mas abre uma possibilidade. A morte para quem quase lhe toca pode ser só dor, mas pode ser muito mais. Pode ser um farol num nevoeiro persistente, pode ser uma oportunidade de redenção, pode ser a chave certa para a criação da beleza. Mas pode ser uma solidão dolorosa, a ausência de ouvidos que escutem, a saudade que se crava como um espinho persistente.


***

Em Gran Torino, o personagem representado por Clint Eastwood deixa-se matar, perante testemunhas, redimindo-se de uma relação agreste com o mundo e revelando, com este acto, um último grande gesto de amizade. Não há maior amor do que dar a vida pelo próximo, e há quem o faça tomando a frase bíblica à letra. 




***

Cristóvão palmilha montes e vales com o menino às costas. Vai exausto, mas sabe que a casa para onde leva a criança é já ali. Sabe que vai morrer, mas o menino é mais importante. O esforço do santo para levar o menino até casa do Pai é recompensado pela dimensão da fé. Que melhor morte podemos desejar do que aquela que nos permite ver, no instante anterior à despedida deste mundo, aquilo em que sempre acreditámos, mas para o qual tivemos olhos forçosamente incapazes? 

Então o bom gigante fez um prodigiosos esforço, e a cada passo, meio desfalecido, os olhos turvos, a cada instante lançando a mão para se arrimar, tropeçando, com grossas gotas de suor que se misturavam a grossa gotas de sangue, rompeu a caminhar, sempre para cima, sempre para cima. Os seus pés iam ao acaso, no desfalecimento que o tomava. Uma grande frialdade invadia todos os seus membros. Já se sentia tão fraco como a criança que levava aos ombros. E parou, sem poder, no topo do monte. Era o fim: um grande Sol nascia, banhava toda a Terra em luz. Cristóvão pousou o menino no chão, e caiu ao lado, estendendo as mãos. Ia morrer. Mas sentiu as suas grossas mãos presas nas do menino — e a terra faltou-lhe debaixo dos pés. Então entreabriu os olhos, e no esplendor incomparável reconheceu Jesus, Nosso Senhor, pequenino, como quando nasceu no curral, que docemente, através da manhã clara, o ia levando para o Céu.(1)

***

Não se vê a morte impunemente. Ver algo que é comum à humanidade e ficar igual é uma impossibilidade, uma indeterminação humana. Ver a morte é ver aquilo que nos une a todos, qualquer que seja o ponto no globo onde vivemos, qualquer que seja o deus a quem pedimos e agradecemos. Ver a morte é querer falar da morte. Ver a morte é ver o fim último, mesmo que esse fim seja mais prematuro do que todas as mortes prematuras que acontecem ao nosso lado. Iona, o cocheiro, não tem ninguém a quem contar que viu a morte e ele sabe que precisa de falar disso, para que a morte não o mate a ele também. Iona não encontra ninguém, porque a obsessão da ligeireza da vida devora os ouvidos que deviam estar atentos, anula a certeza de que falar do sofrimento é, também, alumiar o sofrimento. E o sofrimento tem horror à luz, como a natureza o tem ao vácuo. 

... Precisa contar como o filho adoeceu, como padeceu, o que disse antes de morrer e como morreu... Precisa descrever o enterro e a ida ao hospital, para buscar a roupa do defunto. Na aldeia, ficou a filha Aníssia... Precisa falar sobre ela também...
... O cavalo foi mastigando, enquanto parecia escutar, pois soprava na mão do seu dono... Então Iona, o cocheiro, animou-se e contou-lhe tudo...(2)


***

Nada há de mais bonito do que a música triste. Nada há de mais esplêndido do que a música que se compõe para lembrar quem morreu. É na lentidão das frases, na distância sublime entre dois pontos de música, na melancolia dos instrumentos, que a cada um de nós é dada a possibilidade de lançar os olhos para o infinito e, na morte que se recorda, sentir o efémero de tudo, a pequenez de tudo, a beleza de tudo. Compor um requiem é entrar em contacto com o divino. Imaginar um requiem quando se está frente a frente com a morte próxima é ganhar a certeza de que nada no mundo é inalcançável.



***

Como morremos? Como olhamos para a nossa morte, para a morte dos que nos estão próximos ou dos que não conhecemos e que são um número numa estatística? Como morreremos? Lúcidos? Angustiados? Em paz com a vida? Certos de que mataremos as saudades num encontro já além? A morte é o nosso último grande desafio. Pensar nela e cantar a morte que me namora/já me pode vir buscar não é o desejo da partida, mas a certeza do sossego. Morreremos como vivemos. Ou como tentámos viver, porque tentar é já em si bastante.

Onde está Ivan Ilitch? Onde está a agonia, como a escreveu Lev Tolstói? Onde estão os homens olhando para trás, para o momento em que se fizeram homens? Onde está o arrependimento e o perdão? E a satisfação, se a houve, dos anos felizes? Os doentes sofrem e parecem não ter forças para pensar, colocar-se questões morais – e  já nem sequer parecem preocupados (é isto específico do nosso tempo?) com o paraíso, o inferno, o juízo final. Querem apenas um pouco mais de vida, querem um pouco mais de tempo para acreditar que o corpo vence; todos querem, com uma força desproporcionada, talvez delirante, continuar de olhos abertos.(3)

***

(1) A Morte de Cristóvão (Eça de Queiroz)
(2) Tristeza (Anton Tchecov)
(3) Agora e na Hora da Nossa Morte (Susana Moreira Marques)

05 março 2013

Duas Últimas


Apesar de as minhas ligações ao Alentejo serem escassas, trata-se de uma região do país de que gosto e que visito sempre com vontade renovada. Ainda há relativamente pouco tempo estive uns dias na zona de Évora, e dei por bem empregue o tempo aí passado.

Gosto das paisagens, da beleza das cidades e dos seus monumentos, da limpeza das aldeias, da gastronomia, das falas e cantares alentejanos, dos vagares das gentes, da cor da terra. Penso que foi Miguel Torga que afirmou que em Portugal há duas regiões com dimensão e grandeza: Trás-os-Montes e Alentejo. Concordo com ele, embora ache que o estuário do Tejo também merece essa distinção quase exclusiva.

A minha escolha musical de hoje vai pois para o Alentejo e para a viola campaniça, ou viola de Beja, instrumento típico do Baixo Alentejo que esteve quase desaparecido, substituído que foi nas festas, bailes, bailaricos e afins por modernices mais barulhentas.

O meu préstimo, por isso, a homens como o incontornável Pedro Mestre, natural da terra mineira de Castro Verde, que muito fizeram ao longo da última década, mais ano menos ano, para preservar, recuperar e divulgar, com êxito, esta magnifica viola de curvas bem pronunciadas e ousadas.

Espero que gostem!


fq




04 março 2013

Anúncios dos dias que correm


Fórmula para o caos


Num país democrático, multi-partidário, onde vigore o Rule of Law, é perfeitamente natural e aceitável que para o mesmo acontecimento se possam escutar diversas opiniões. Em liberdade, essa é uma das mais importantes regras do jogo democrático. Em jeito de exemplo podemos afirmar que a direita tende a valorizar o controle dos gastos públicos e a secundarizar o desemprego, enquanto a esquerda pensa o contrário. O que não quer dizer que Direita e Esquerda apresentem diferentes números para o níveis de despesa pública e desemprego. São meras opções ideológicas. No que toca a factos, não há ideologia ou dogma que possa alterá-los.

Vejamos: há quase 3 anos atrás, o Papa Bento XVI visitou Portugal. Entre vários eventos, o Sumo Pontífice celebrou uma missa na Praça do Comércio a que tive a possibilidade de assistir. O espaço estava a rebentar pelas costuras. Na altura, estimou-se que a Praça do Comércio teria capacidade para acolher cerca de 80.000 pessoas e esse seria, mais cabeça menos cabeça, o número de seres humanos que lá estiveram. No passado Sábado, teve lugar a manifestação do movimento Que se Lixe a Troika! na mesma Praça do Comércio que, registe-se, não encheu. A Comunicação Social (sedenta de acontecimentos fraturantes) divulga que compareceram 500.000 manifestantes.

Vejam a imagem abaixo.



Pedro Castelo Branco

03 março 2013

Domingo …….. Se Fores à Missa !


Ser Pai nos dias de hoje. Antigamente, o pai tinha o papel de provedor, era quem dava o sustento ao lar, ocupando o papel de autoridade. Ser duro, distante, forte e não expressar afeto eram características esperadas pelos Pais.

Com a mudança de papel da mulher na nossa sociedade, deixando de ser “dona de casa” e assumindo também a função de provedora, o papel do homem também está a mudar.

Surge o pai presente, afetuoso, amigo e companheiro. O pai que banha, dá de mamar, troca fraldas, levanta de madrugada, vai ao pediatra, leva à escola, acaricia e abraça. O antigo pai autoritário e distante afetivamente dá lugar a um pai presente e afetivo. 

Tudo isso é uma conquista familiar: para as mães, que não estão mais solitárias nesta tarefa; para os filhos, que crescem num ambiente onde as diferenças se somam; e para os homens, que agora podem estar mais próximos, presenciando de forma afetiva e presente o crescimento de seus filhos.

Porém, observa-se que esta mudança de papéis na família ainda gera incertezas. Neste intercâmbio entre pai e mãe cuidando dos filhos, muitas vezes, acontece  que nenhum dos dois exerce a função de impôr limites. Exercer autoridade significa ensinar os limites da vida, as regras sociais, enfim, mostrar ao filho o mundo como ele é, além da relação dual que ele estabeleceu com a mãe nos primeiros anos de vida, onde muitas coisas aconteciam de acordo com o desejo da criança. Ser pai é impedir que a criança permaneça num mundo de fantasias, onde todos seus desejos são possíveis. É lançá-lo no mundo da realidade, onde valem os seus direitos e desejos, mas também os direitos e desejos de todas as outras pessoas.

Mas o que acontece é que alguns homens não sabem muito bem quais os seus limites. Invertem o papel de pai com o de filho e tudo acaba numa grande confusão. Vestem-se como eles, querem acompanhá-los à discoteca e até partilhar amigos. Quando questionados sobre o seu papel, em regra afirmam que são os melhores amigos dos filhos, desconhecendo que este não é o desejável. Aliás, os filhos já têm o seu grupo de amigos, portanto necessitam é de um pai, não de mais um amigo! Um pai-amigo é alguém que se demite do seu papel principal.

Em resultado disso, vemos que muitas crianças crescem sem saber qual o seu papel no seio da família, já que tudo roda em torno delas. Não se fala à mesa porque a menina quer ver a telenovela, não se utiliza o telefone a determinadas horas porque o menino está ligado à Net ... chega-se ao ponto de permitir que crianças de idade pré-escolar não tomem a medicação receitada pelo médico porque, nas palavras dos pais, “ele não quer tomá-la, por isso não tomou”.  Urge repensar o papel do pai educador.

Sem abdicar da proximidade que os pais de hoje têm relativamente aos filhos, é importante preservar a sua função de figura de autoridade, como ponto de equilíbrio na vida de qualquer criança ou jovem.

MAF

Evangelho segundo S. Lucas 13,1-9.


Naquele tempo, apareceram alguns a contar a Jesus, dos galileus, cujo sangue  Pilatos tinha misturado com o dos sacrifícios que eles ofereciam.
Respondeu-lhes: «Julgais que esses galileus eram mais pecadores que todos os outros galileus, por terem assim sofrido?
Não, Eu vo-lo digo; mas, se não vos converterdes, perecereis todos igualmente.
E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé, matando-os, eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém?
Não, Eu vo-lo digo; mas, se não vos converterdes, perecereis todos da mesma forma.»
Disse-lhes, também, a seguinte parábola: «Um homem tinha uma figueira plantada na sua vinha e foi lá procurar frutos, mas não os encontrou.
Disse ao encarregado da vinha: 'Há três anos que venho procurar fruto nesta figueira e não o encontro. Corta-a; para que está ela a ocupar a terra?'
Mas ele respondeu: 'Senhor, deixa-a mais este ano, para que eu possa escavar a terra em volta e deitar-lhe estrume.
Se der frutos na próxima estação, ficará; senão, poderás cortá-la.'»

02 março 2013

Pensamentos impensados


Amor
Tenho muita auto-estima; o meu automóvel não pode estar mais estimado.
 
Manifs
Os protestos de rua, hoje em dia, têm duas vertentes: em Portugal canta-se a Vila Morena, lá fora seios ao léu.
Devemos trocar?
 
Bicadas
O cisne deu-me uma bicada e rasgou-me as calças. Ficaram calças à boca de cisne.
 
Omnipresença
Já não há pachorra para tanto António José Seguro; houve uma pausa com a renúncia do Papa, mas já voltou à carga. Tenham paciência, porque o seguro morreu de velho e Matusalém viveu 969 anos.
 
Desporto
Não tenho ideia de que algum esquimó se tenha notabilizado em qualquer desporto, nem sequer desportos de neve. É certo que em casa de ferreiro, espeto de pau.

SdB (I)

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