19 março 2013

Duas últimas

Hoje, mas há doze anos, dia do Pai, eu começava o ano zero da minha existência, dava início a uma viagem que não teria retorno. De lá para cá, porque não sou mais nem menos do que a generalidade do mundo, a vida foi tudo: foi-me grata e foi madrasta, foi pacífica e turbulenta, mostrou-me o que devia ser-se e aquilo de que deveria fugir. Acima de tudo, a vida ensinou-me muito, talvez porque eu também quisesse aprender. Tudo  - ou quase tudo - começou, como disse, no dia do Pai, hoje mas há doze anos.

Todos os meus Amigos são filhos, isto é, têm um Pai. Todos os meus grandes Amigos são Pais, e um ou outro estendeu a paternidade para além do círculo restrito da biologia, confirmando o lugar comum que nos diz que a família não é só o sangue. Com todos eles aprendo, com um ou outro mais próximo falo deste dever que é educar quem herda (também) os nossos genes e o nosso nome e nos perpetua nos filhos que terá, e que nos chamarão avô. Com todos medito na minha própria condição de Pai, no que falhei e no que acertei, no que devia ter feito e não fiz por incapacidade, desvalorização de importância, esquecimento, noção errada das prioridades. 

Deixo-vos com três músicas relacionadas com o dia de hoje: um fado que realça o amor de pai de uma forma particularmente curiosa (é preciso tomar atenção à letra e não desvalorizar aos primeiros acordes da voz...); Cat Stevens, numa música do meu tempo de jovem e que continua a ouvir-se com gosto; e uma faixa de um filme da Disney, que ponho porque foi sugerido por quem me constitui também como Pai, e que tem feito de mim muito do que sou.

Bom dia do Pai.

JdB





Feliz dia do pai!


Dia do Pai


Hoje celebramos o dia do Pai.
É dia de rezarmos pelo nosso Pai, desaparecido ou presente, agradecendo tudo o que nos deu, perdoando-lhe todas as ausências.
É dia de rezarmos por todos os homens que foram Pais no amor, por não o conseguirem  ser no sangue.
É dia de rezarmos por todos os Pais a quem o destino ou a vontade afastou dos filhos, para que sintam o apelo do reencontro.
É dia de rezarmos pelos filhos que se afastaram do seu próprio Pai, para que sintam, também eles, o apelo do reencontro.
É dia de todos nós, Pais, olharmos para dentro de nós próprios e agradecermos o dom da vida que são os nossos filhos.
Mas dia 19 de Março, 3ª feira, também celebramos o dia de S. José, Esposo da Virgem Santa Maria, o Pai da Sagrada Família, nosso modelo. Olhemos para ele, para a sua dúvida e para a sua decisão e fixemos a última frase do Evangelho do dia.
Quando despertou do sono,  José fez como lhe ordenara o Anjo do Senhor.

(Texto publicado no boletim da Paróquia de Santo António do Estoril)

18 março 2013

Fórmula para o caos


A esquerda ateia e o Papa nos últimos 30 anos:

João Paulo II. Um terrível anti-comunista que serviu como pilar para derrubar o Bloco de Leste.

Bento XVI. Um alemão que pertenceu à Juventude Hitleriana.

Francisco I. Um Cardeal que demonstrou ter fortes relações com a ditadura militar argentina.

Conclusão. O Chefe da Igreja Católica deverá ser ateu, marxista e anti-Vaticano.


Pedro Castelo Branco

17 março 2013

Domingo …… Se Fores à Missa!


É tão facil condenar os outros!  Apontar o dedo, fazer julgamentos, acusar.  Já repararam como o ser humano, por natureza, é tão ágil a julgar o próximo e tão cego quanto às suas próprias fraquezas?

A atitude de Jesus, neste episódio do Evangelho de hoje, está cheia de inteligência e sabedoria.  Perante o julgamento fácil dos doutores da Lei e dos fariseus, relativamente à mulher adúltera, Jesus, simplesmente os instiga a olharem a sua própria consciência e procurarem nela ausência de pecado. Ele poderia ter respondido: “Sim, mas vocês também pecam!” Ou : “Quem são vocês para julgar esta pobre mulher?”

Mas não.  Ao invés de os condenar ou acusar, tal como eles estavam a fazer com aquela mulher, Jesus faz com que eles se julguem a si próprios. Todos nós, sem excepção, temos defeitos, fraquezas, pesos na consciência, pecados; faz parte da nossa natureza humana. Ninguém é perfeito! 

Diz a sabedoria popular : Quem Tem Telhados de Vidro, Não Atire Pedras aos Vizinhos! Assim, também, nós não devemos assumir o papel de juiz, no que toca aos outros.  A caridade é isso mesmo. É não nos sentirmos superiores ao outro só porque ele pecou, não julgá-lo, não ostracizá-lo. Ao invés, é olharmos para a nossa própria consciência e ver onde é que podemos melhorar.  Difícil, hem ?  Pois, nunca ninguém nos disse que seguir Cristo seria tarefa fácil.

Domingo, Se Fores à Missa ……..   Faz um Exame de Consciência!

MAF

Evangelho segundo S. João 8,1-11.

Jesus foi para o Monte das Oliveiras.
De madrugada, voltou outra vez para o templo e todo o povo vinha ter com Ele. Jesus sentou-se e pôs-se a ensinar.
Então, os doutores da Lei e os fariseus trouxeram-lhe certa mulher apanhada em adultério, colocaram-na no meio
e disseram-lhe: «Mestre, esta mulher foi apanhada a pecar em flagrante adultério.
Moisés, na Lei, mandou-nos matar à pedrada tais mulheres. E Tu que dizes?»
Faziam-lhe esta pergunta para o fazerem cair numa armadilha e terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se para o chão, pôs-se a escrever com o dedo na terra.
Como insistissem em interrogá-lo, ergueu-se e disse-lhes: «Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!»
E, inclinando-se novamente para o chão, continuou a escrever na terra.
Ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher que estava no meio deles.
Então, Jesus ergueu-se e perguntou-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?»
Ela respondeu: «Ninguém, Senhor.» Disse-lhe Jesus: «Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar.»

16 março 2013

Pensamentos impensados


Cereais
Estava eu a conversar com a minha neta Teresa quando o Papa Francisco se preparava para abandonar a varanda onde tinha assomado, para se mostrar aos fieis.
Diz a minha neta: avô, o que é que o Papa irá fazer a seguir? 
Digo eu: sei lá, talvez jantar, perguntar ao secretário habemus papa?
Diz a minha neta: habemus papa cerelac.
 
Penugem
D. Fernando, marido de D. Maria II, mandou construir um palácio na serra de Sintra e deu-lhe um nome porque achou que valia a pena.
 
Canalizações
As lágrimas saem do cano desgosto.
 
Testes
Os políticos estão abaixo do algodão; o algodão não engana.
 
Montanhismo
Quem sobe os Himalaias é considerado alpinista.
Quem sobe a Serra da Estrela é lunático?

SdB (I)

15 março 2013

Fotografias dos dias que correm

Papas João Paulo II, Bento XVI e Francisco (fotografia enviada por mão amiga)

Crónicas de um universitário tardio - O Detalhe


L. entendia que um comboio era um conjunto mais ou menos harmonioso de sistemas composto por rodas, motores, tirantes, equipamentos pneumáticos, engrenagens, componentes hidráulicos, relés, bobinas, rolamentos e mancais, parafusos e porcas de diâmetro variado. Entendia ainda que se assemelhava ao corpo humano pelo facto da panóplia de órgãos em andamento ter uma existência não vazia, isto é, não desprovida de sentido. No homem é a locomoção, no comboio é a deslocação, ambas relacionadas com o movimento de gente. Conceptualmente não haveria, por isso, diferença entre um fémur e um solenóide, porque ambos servem o mesmo propósito - levar alguém do ponto A ao ponto B. Por outro lado, tanto no homem com no comboio há uma noção do excesso, que pode ser sensorial ou espacial. No homem há o vómito, que é o sintoma físico da intemperança. No comboio há uma porta por fechar devido ao excesso de corpos por metro quadrado. A porta que não se fecha equivale, em conceito, à boca que se abre, porque ambas são a manifestação do descomedimento.

L. entrou no comboio e sentiu a não conformidade. Estava demasiado próximo dela, uma desconhecida, e o comboio não tinha conseguido exercer o alívio da sufocação. A porta não se fechara para impedir a entrada, como por vezes a boca não se abria para permitir a saída. L. estava colado a ela, a desconhecida, e sofreu o desconforto inicial. Fixou-lhe tudo com um pormenor que poderia ser perturbador. Viu-lhe os olhos assimétricos, o olho direito ligeiramente inclinado para cima na direcção do exterior da face. Uma ligeiríssima diferença, só detectável com a contiguidade demasiado chegada das caras. 2 graus? 3 graus? Qual a inclinação relativamente à linha média horizontal que atravessava as duas órbitas oculares? Havia as sobrancelhas, castanhas, talvez um pantone 126, mas que também poderia ser um 1265. A sobrancelha esquerda tinha uma pequena falha, uma clareira – 1 mm? - onde não crescera nada. A testa era um paralelogramo estreito, talvez com 4 cm de altura por 8 de largura. E o nariz? Como era o nariz desta desconhecida, de quem ele estava tão próximo que quase a poderia tocar se a língua dele, de L., fosse ligeiramente mais comprida do que a média? Talvez 12 cm bastassem para que a ponta da sua língua e um dos seus 17 músculos lambessem a ponta do nariz dela. Um nariz que era equilibrado, bem implantado no meio da cara, sem qualquer vestígio de formação vesiculosa cutânea.

L. estava cada vez mais próximo, porque os corpos nunca estão totalmente estáticos, além de que não há um conhecimento absoluto de como funcionam as posições relativas de pessoas que estão imóveis. L. sempre sentira que, mesmo quieto, se aproximava de um qualquer vizinho, ainda que este também estivesse quieto, como se a distância vital entre os corpos fosse algo de incontrolável e desobediente à vontade das pessoas. E estava tão perto daquela desconhecida que sentiu nascer dentro de si a vontade de a beijar. Aquela visão do detalhe, aquela proximidade, aquela análise exaustiva das cores, dos ângulos, das pequenas falhas, dos equilíbrios, das assimetrias estava a criar-lhe um desejo de lhe tocar nos lábios, pequenos em termos de largura (4 cm?), pintados de um vermelho que seria um pantone 1788, embora não estivesse certo. Era uma desconhecida, mas isso era irrelevante. O que importava era a proximidade dos lábios, e um estudo pormenorizado de uma face que lhe provocava um sentimento de atracção. Como poderia ele dominar este achegamento forçado causado por um comboio demasiado povoado e que não rejeitara o excesso humano?

L. ainda teve tempo de analisar as orelhas, os brincos na forma de uma pérola encaixada numa flor que abre, os lobos excessivamente grandes (2 cm parecia-lhe muito). Mas os lábios, os lábios!, e o apelo daquele vermelho (pantone 1788 ou 1795?) daquela boca entreaberta, não sabia se em convite explícito se em dificuldade respiratória. Uma desconhecida... L. inclinou-se e cedeu ao impulso decorrente de uma análise demasiado próxima. Tocou-lhe nos lábios com os seus próprios lábios e fez pressão. Sentiu que os lábios da desconhecida cediam, amolecidos, húmidos, receptivos, e que se entreabriam para o receber. E ele ali ficou, durante alguns segundos (10, 15?) num beijo humano, a mordiscar-lhe as partes carnudas, a identificar-lhe os contornos com a ponta da língua.

Sabes porque pareço uma desconhecida para ti? Porque não te percebo, não entendo nada do que tu dizes! Comboios e vómitos? E olha lá, com tanta igualdade conceptual, preferes ter a mão num fémur, como tens agora no meu, ou num solenóide?

JdB 

14 março 2013

Bênção Apostólica "Urbi et Orbi"


Irmãos e irmãs, boa-noite!
Vós sabeis que o dever do Conclave era dar um Bispo a Roma. Parece que os meus irmãos Cardeais tenham ido buscá-lo quase ao fim do mundo… Eis-me aqui! Agradeço-vos o acolhimento: a comunidade diocesana de Roma tem o seu Bispo. Obrigado! E, antes de mais nada, quero fazer uma oração pelo nosso Bispo emérito Bento XVI. Rezemos todos juntos por ele, para que o Senhor o abençoe e Nossa Senhora o guarde.
[Recitação do Pai Nosso, Ave Maria e Glória ao Pai]
E agora iniciamos este caminho, Bispo e povo... este caminho da Igreja de Roma, que é aquela que preside a todas as Igrejas na caridade. Um caminho de fraternidade, de amor, de confiança entre nós. Rezemos sempre uns pelos outros. Rezemos por todo o mundo, para que haja uma grande fraternidade. Espero que este caminho de Igreja, que hoje começamos e no qual me ajudará o meu Cardeal Vigário, aqui presente, seja frutuoso para a evangelização desta cidade tão bela!
E agora quero dar a Bênção, mas antes… antes, peço-vos um favor: antes de o Bispo abençoar o povo, peço-vos que rezeis ao Senhor para que me abençoe a mim; é a oração do povo, pedindo a Bênção para o seu Bispo. Façamos em silêncio esta oração vossa por mim.
[…]
Agora dar-vos-ei a Bênção, a vós e a todo o mundo, a todos os homens e mulheres de boa vontade.
[Bênção]
Irmãos e irmãs, tenho de vos deixar. Muito obrigado pelo acolhimento! Rezai por mim e até breve! Ver-nos-emos em breve: amanhã quero ir rezar aos pés de Nossa Senhora, para que guarde Roma inteira. Boa noite e bom descanso!

Fotografias dos dias que correm


13 março 2013

Diário de uma astróloga – [47] –13 de Março de 2013


Sob a influência de Neptuno

Hoje, sobre que assunto escrever? Dada a quantidade de planetas em Peixes (ver post anterior), sobre Neptuno naturalmente. Possibilidades:

a) Comentar a maré de indignação de 2 de Março incluindo a foto do número de pessoas exagerado
b) Descrever a confusão da situação politica italiana
c) Informar sobre a “sequestration” (palavra de casa 12 /Peixes) em vigor nos EUA
d) Narrar a experiência da morte recente de uma amiga

Hesito – vou ligar a rádio para inspiração…  oh não…  o programa da minha estação favorita é sobre bactérias super resistentes (por se espalharem de forma incontrolável são regidas por Peixes).

Já que não consigo escolher, deixem-me que lhes conte umas histórias neptunianas, isto é, de mar, de entrega a forças superiores a nós e sem grande lógica. Não pretendendo uma comparação com Kipling, aqui ficam duas  “Just so stories”.

O Nevoeiro
Era uma vez uma miúda que durante os dias de Verão escapava de casa para ir passear de barco à vela na baía de Cascais. E lá andava ela toda contente a sentir a ondulação, a gozar o barulhinho do mar a bater no casco, a navegar para o Sul com o mar pela frente, a fingir-se navegadora solitária e depois a virar de bordo montes de vezes para voltar para casa. Nesse tempo não havia telemóveis e, por isso, ninguém lhe podia perguntar “onde estás?” ou dizer “volta imediatamente para casa, és uma inconsciente, sair sozinha para o mar”.

Normalmente os dias eram soalheiros e ventosos mas, uma bela tarde, a nortada caiu e um nevoeiro vindo do Atlântico invadiu a baía, engolindo a miúda e a sua embarcação. Também nesse tempo não existia GPS e o barquito não tinha bússola. A miúda, sem pontos de identificação visual, ficou perdida. Tentou fazer o que o manual de navegação manda e manter um rumo, mas, com a maré a encher e sem vento, rapidamente percebeu que não havia nada a fazer a não ser entregar-se ao seu destino. O seu passeio acabaria onde os elementos a levassem. Calculou probabilidades: na melhor das hipóteses encalhava suavemente na areia da praia de Carcavelos ou da Parede, na pior das hipóteses estatelava-se contra o Forte de S. Julião da Barra. Porém havia cenários francamente assustadores: ser arrastada para mar alto ou ser abalroada por um navio.  


Os longuíssimos minutos lá se foram passando, ela sempre à escuta de qualquer ruído que lhe pudesse dar uma pista. A não ser o angustiante farol de nevoeiro, nada. Enfim, estava metida num sarilho que podia acabar muito mal. Daí a um tempo que lhe pareceu interminável, deu-se um milagre: ouviu o barulho do motor de um carro, e depois de outro… a Marginal, estava safa! Safa não, porque prendeu o leme do seu barco numa amarração de umas embarcações pesqueiras fundeadas mesmo ao lado da Marginal em Paço de Arcos.


Apesar do susto, o seu amor pelo mar não diminui e, muitos anos e aventuras náuticas depois, já a miúda era avó foi realizar um sonho e foi…

Nadar com golfinhos
E mais uma vez teve a sensação de se entregar completamente à Natureza, agora através de um contacto com os “Stenella frontalis”. São animais inteligentes, simpáticos, mas fortes e compactos – uma pancada ou uma sacudidela da cauda pode matar.
Foi assim que aconteceu: estando várias pessoas dentro de água, 3 golfinhos aproximaram-se. São eles que escolhem o parceiro humano. Quando fixam o olhar numa pessoa não há duvida de que estão a perguntar “queres vir nadar comigo, queres vir brincar?” É um momento de comunicação instintiva, perfeita. Somos da mesma espécie, entendemo-nos sem precisar de palavras. Tudo está dito.


A avó aceitou o convite e iniciou uma experiência maravilhosa de familiaridade com uma criatura possivelmente mais inteligente do que ela. Os golfinhos têm total controlo da situação. Percebem a que velocidade o parceiro humano nada, e a que profundidade consegue mergulhar e, lado a lado ou com um simples apoio de mão sobre o seu dorso, brincam juntos até o golfinho se fartar. Nessa altura acelera a uma velocidade que uma pessoa não consegue acompanhar e vai-se embora. No caso desta avó o golfinho deve ter achado graça à brincadeira e voltou, proporcionando-lhe mais um inesquecível passeio debaixo de água e uma experiência espiritual cuja recordação, seis anos passados, a deixa ainda com um sorriso de beatitude.


Luiza Azancot

12 março 2013

Duas últimas

Pixinguinha é, neste blogue, uma sensação de déjá écouté.

Ontem, ao fim da noite, debatia-me com uma falta de inspiração tremenda para o post de hoje, tentando não desmerecer da qualidade de escrita e escolha do meu querido amigo fq. Pedi sugestões ao meu filho porque, ao contrário do que poderá acontecer com outras pessoas, a dificuldade que sinto é a da escolha musical, porque a redacção do texto é (quase) sempre fácil.

A resposta do jovem foi rápida, e apresentou-me ao Yamandú Costa, a cantar o Carinhoso. Melhor, a tocar o Carinhoso à viola (oito cordas), enquanto o público do teatro canta primorosamente uma toada lindíssima. Estamos habituados ao público português que se pela por bater palmas a compasso, mesmo que se toque o Requiem de Mozart. Não sei se o homem do violão canta ou não. Aqui, neste youtube, não o faz, e o resultado é fantástico.

Depois, não contente com a sugestão feita, o rapaz arrimou-se e mandou-me o link para a mesma música, mas cantada deliciosamente pela Marisa Monte, acompanhada por Paulinho da Viola. No fundo, no fundo, isto é como uma esplanada num verão muito quente - há que beber sempre duas imperiais. A primeira, deliciosa, para limpar a goela de securas. A segunda, deliciosa, para apreciar lentamente, enquanto o sol se põe ao longe no mar, ou numa qualquer estrada monumental. Qual é a mais deliciosa das duas? Pois não sei...

Apreciem o Carinhoso - a música, a letra, a interpretação. São duas imperiais fantásticas. E agradeçam ao meu filho, que eu pouco fiz.

JdB   



11 março 2013

Vai um gin do Peter’s?


Nada como uma tarde invernosa e de chuva para apetecer aqueles lanches clássicos, com chocolate quente grosso, ou um bom chá, a acompanhar os scones ou a torrada ou um bolo acabado de sair do forno. Apesar de o forte da culinária portuguesa se evidenciar mais nos almoços abundantes, há doces que vêm a propósito em qualquer refeição, a qualquer hora do dia, como os pastéis de nata.  

Quando em 2011 foram votadas as 7 Maravilhas da Gastronomia Portuguesa, claro que ficaram no grupo dos eleitos. Ainda por cima são recomendados pelos nutricionistas, por serem uma alternativa bastante light na pastelaria lusa.

Além de ser das especialidades mais originais do nosso património culinário, tem obtido imenso sucesso nas quatro partidas do mundo, onde são replicados por empresários que sabem antecipar as oportunidades. Por exemplo, em Macau e Hong Kong, a iniciativa coube a um inglês, que percebeu logo o filão deste bolo tão decorativo. O mesmo aconteceu na Malásia, onde integram a ementa do Restoran de Lisbon. O rol de cidades cosmopolitas que os vendem, nos melhores cafés, parece interminável. Assim acontece em: Paris no Comme à Lisbonne (bairro do Marais), Nova Iorque na Bread Talk (Chinatown), Montreal no Ferreira Café, Buenos Aires na Padaria Florêncio, Xangai na Lilian Cake Shop, Pequim na Honey Bear, Singapura noo Tong Heng, etc. E isto sem falar da África lusófona e do Brasil.

Os deliciosos pastéis, com o inconfundível pacote da Fábrica de Belém    

À semelhança de quase toda a doçaria nacional, teve origem conventual. O início remonta a 1834, quando os monges dos Jerónimos foram obrigados a abandonar o Mosteiro, em consequência da política de expulsão das Ordens religiosas que se seguiu à Revolução Liberal de 1820. Alguém do mosteiro terá aproveitado a loja de cana-de-açúcar e refinaria contígua ao monumento, para aí vender uns pastéis conventuais. Em 1837, o confeiteiro português recém-chegado do Brasil – Domingos Rafael terá fundado (segundo algumas teses) a Fábrica dos Pastéis de Belém(1).

Naquela altura, toda a zona em redor da Torre de Belém era rio, chegando-se por barco, desde Lisboa. Os visitantes que viajavam até à ponta mais ocidental da cidade, para admirar a beleza dos dois monumentos de estilo manuelino, ficavam também encantados com os saborosos doces.



Cientes do seu sucesso gastronómico, os mestres pasteleiros que tinham apanhado a receita do convento, deram continuidade à confecção que, desde o segundo quartel do século XIX, se especializara naquela guloseima, respeitando os métodos artesanais de outrora. Ali é prestado juramento para a receita nunca transpirar as paredes da Oficina Secreta, como é conhecida a afortunada cozinha. Aliás, quer a receita, quer a designação já estão patenteadas.

Numa sequência de salas labiríntica, revestidas a lambrins de azulejo azul e branco, a velha Fábrica tem cruzado os tempos imune aos conturbados períodos da história nacional, desde as Guerras Liberais às fases revolucionárias que infernizaram a vida dos lisboetas. Quase bi-centenária, produz cerca de vinte mil pastéis por dia. Nas montras e demais vitrinas exibe os utensílios de origem, certificando a sua antiguidade.  





Aos poucos, outros pasteleiros foram-se aventurando em bolos que lembravam os dos monges dos Jerónimos, mudando-lhe a designação para pastéis de nata, como foram cunhados no Brasil. Reconheciam, assim, à confeitaria herdeira do segredo conventual, o uso do nome de origem.

Será este o segredo?... Ganha-se em saltar o anúncio com que abre o link: 




UMA PEQUENA-GRANDE HISTÓRIA EM E-BOOK

Para quem queira percorrer os quase oito anos de pontificado de Bento XVI, o Vaticano lançou um livro digital, com mensagens breves de um dos Papas mais lúcidos e sábios que o mundo alguma vez conheceu, ilustradas por imagens.

Num curto espaço de tempo, o Papa que se assume sem forças físicas para continuar à frente dos destinos da Igreja, ainda escreveu 3 encíclicas, a trilogia sobre a vida de Cristo e um sem número de estudos, realizou 24 Viagens ao exterior, participou em 3 Jornadas Mundiais da Juventude (Colónia, Sidney, Madrid), acabou de convocar o Ano da Fé… mantendo um ritmo intensíssimo, marcado por uma confiança ilimitada em Deus. Não por acaso, termina assim o seu pontificado:

«Encontro-me diante do último trecho do percurso da minha vida e não sei o que me espera. Contudo, sei que a luz de Deus está presente, que Ele ressuscitou, que a sua luz é mais forte do que toda a obscuridade; que a bondade de Deus é maior do que todo o mal deste mundo. E isto ajuda-me a prosseguir com segurança

http://www.vatican.va/bxvi/omaggio/index_po.html


A concluir, o testemunho expressivo de um agnóstico da área da cultura, referindo a força e modernidade do último gesto de Bento XVI e de todo o seu legado:



«Nos seus últimos dias de papa, Bento XVI apresentou-se diante de audiências globais, como uma "estranheza", ou como um "mistério" que nos interpela. Desse ponto de vista, foi um sucesso "mediático" porque é único: um homem alquebrado, mas com um sorriso poderoso, falando várias línguas de um modo geral bastante bem, lendo textos simples mas densos, cheios de história, onde os dois mil anos da Igreja se reflectem num fio condutor que apela a muitas memórias da cultura ocidental e da religiosidade.
  
A resistência à "modernidade", e foi o próprio Ratzinger que o lembrou, é mais moderna e interpela mais a descrença, do que a contínua cedência ao "mundo" secular, aos seus hábitos e costumes. E foi também por isso que, ao associar o seu acto prosaico de renúncia ao papado a uma "peregrinação" mística e de intensa religiosidade, apelou aos incréus, seus pares na mesma tradição greco-latina da cultura ocidental que tanto prezava, e fez muito mais pela "propaganda da fé" do que alguns dos seus pares mais modernizadores reconhecem. Usou o "espectáculo" para sair dele para uma dimensão muito alheia ao nosso quotidiano vulgar 
(…)  
Ver alguém que acredita, como o Papa Bento XVI, agora Papa Emérito, de uma forma tão gentil, sem aí ser frágil e "sem forças", faz muito para restaurar um respeito pela espiritualidade, uma atenção ao "mistério" ao sentimento do outro, mesmo que não restaure a fé, que é um dom e não depende dele. 
(…) 
É por isso que este Papa fez muito mais pela Igreja do que muitos cristãos pensam que fez.



In artigo do PÚBLICO de 2 de Março, sob o título «Peregrino» e assinado por José Pacheco Pereira.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)


 (1) www.pasteisdebelem.pt. Morada: Rua Belém, nº 84,Lisboa. Tel.213 637 423

10 março 2013

4º Domingo da Quaresma

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de católico.

A Igreja passa tempos difíceis. Tempos de mudança, de espera de um novo Papa, mas tempos de ataques a membros importantes da estrutura local ou mundial. Fala-se de lobbies, do relatório Vatileaks que deveria ser divulgado pelos cardeais, de pedofilia, de homossexualidade, do que verdadeiramente levou o Papa a resignar, de interesses escondidos. Fala-se da necessidade de actualização da Igreja, da ordenação das mulheres, do celibato dos padres, dos recasamentos, da comunicação deficiente, da política sobre sexualidade. Fala-se de tudo, mesmo do que tem menos interesse. Quando o Papa for eleito falar-se-á dele, e os jornais esmiuçarão tudo, dos sapatos ao corte de cabelo, do exame em que copiou no liceu, do que fez e disse, do que não fez e não disse, que posição tomou nos casos mais mediáticos e nos temas considerados mais importantes. Saberemos tudo - o que é verdade e o seu contrário.

Jantava no outro dia com um casal na casa dos trintas. Dizia um dos interlocutores, educado catolicamente e que abandonou (pelo menos para já) a prática, que a geração dele pouco precisa da Igreja, que conseguem procurar o caminho da perfeição no dia a dia sem mediações, até porque se revoltam, de alguma forma, com a hipocrisia vigente, com uma certa intolerância do clero que não é coerente com modos de vida próprios. Falámos de comunicação, da salvação fora da Igreja, dos corações contritos dentro do templo e que destilam defeitos fora dele, e de outras coisas que agradarão menos a quem comigo conversava com discernimento e educação.

Pertencer-se à Igreja nem sempre é fácil, confesso. Nem sempre se convive bem com uma certa ideia de Frei Tomás, faz o que ele diz não faças o que ele faz... Nem sempre se convive bem com uma ideia que apanhei num filme: há gente que em nome da moral mata a virtude. Nem sempre se convive bem com os escândalos da pedofilia - praticada ou encoberta -, ou com a dureza com que são tratadas algumas realidades carnais, porque a Igreja sempre lidou mal com o tema da carne. Nem sempre se convive bem com a ideia crescente de que o Papa resignou por outros motivos que não o de saúde. Nem sempre é fácil, repito.

Como resolvo eu o tema interiormente? Nem sempre sei. Repetindo que amo a Igreja, e que não amamos só a perfeição. Repetindo que não quero saber se quem comunga o pode ou não fazer, porque isso está no domínio da consciência de cada um. Repetindo  que vamos à missa para ser santos, não porque o somos já. Repetindo que a mensagem de Cristo é maior do que todos nós e nos sobreviverá a todos. Repetindo que vou lá buscar o caminho da perfeição, não espiolhar vidas alheias. Repetindo que por cada padre mau há mil anónimos bons, e que por cada banqueiro incoerente há mil consagrados dedicados. Repetindo que há a fé na Igreja e na iluminação do Espírito Santo. E repetindo que há um tempo para tudo, mas que talvez seja cedo para perceber que tempo é este.

Bom Domingo para todos.

JdB

***         

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
os publicanos e os pecadores
aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem.
Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo:
«Este homem acolhe os pecadores e come com eles».
Jesus disse-lhes então a seguinte parábola:
«Um homem tinha dois filhos.
O mais novo disse ao pai:
‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’.
O pai repartiu os bens pelos filhos.
Alguns dias depois, o filho mais novo,
juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante
e por lá esbanjou quanto possuía,
numa vida dissoluta.
Tendo gasto tudo,
houve uma grande fome naquela região
e ele começou a passar privações.
Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra,
que o mandou para os seus campos guardar porcos.
Bem desejava ele matar a fome
com as alfarrobas que os porcos comiam,
mas ninguém lhas dava.
Então, caindo em si, disse:
‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância,
e eu aqui a morrer de fome!
Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe:
Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho,
mas trata-me como um dos teus trabalhadores’.
Pôs-se a caminho e foi ter com o pai.
Ainda ele estava longe, quando o pai o viu:
encheu-se de compaixão
e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos.
Disse-lhe o filho:
‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho’.
Mas o pai disse aos servos:
‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha.
Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés.
Trazei o vitelo gordo e matai-o.
Comamos e festejemos,
porque este meu filho estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’.
E começou a festa.
Ora o filho mais velho estava no campo.
Quando regressou,
ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças.
Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo.
O servo respondeu-lhe:
‘O teu irmão voltou
e teu pai mandou matar o vitelo gordo,
porque ele chegou são e salvo’.
Ele ficou ressentido e não queria entrar.
Então o pai veio cá fora instar com ele.
Mas ele respondeu ao pai:
‘Há tantos anos que eu te sirvo,
sem nunca transgredir uma ordem tua,
e nunca me deste um cabrito
para fazer uma festa com os meus amigos.
E agora, quando chegou esse teu filho,
que consumiu os teus bens com mulheres de má vida,
mataste-lhe o vitelo gordo’.
Disse-lhe o pai:
‘Filho, tu estás sempre comigo
e tudo o que é meu é teu.
Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos,
porque este teu irmão estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’».

09 março 2013

Pensamentos impensados


Estilos de vida
Estilitas eram uns excêntricos que viviam em cima dumas colunas.
Nunca percebi como é que dormiam e por que é que não caíam enquanto dormiam. A comida talvez viesse de alguma loja de conveniência.
Os estilitas foram os percursores dos homem-estátua.

NB-Não confundir os estilitas com a Fátima Lopes.
 
Culinária dos tempos que correm
Esta receita é económica, rápida e fácil de fazer:

Ingredientes:

2 kg de osso burro (também pode ser cavalo, que está na moda);
1 chávena de arroz carolina (de Mónaco, que deve estar em saldo);
4 colheres de azeite virgem (também pode ser adúltera);
2 folhas de louro (pode ser moreno);
Salsa, cebola e alho.

Faz-se um estrugido com a cebola bem picadinha e com os condimentos;quando a cebola estiver loira (neste caso não pode ser morena) deita-se uma pazada de água, os ossos e o arroz; quando o arroz estiver "al dente", está pronto a servir.
Este prato chama-se arroz d'osso.
 
Muitos anos de vida
Se um dia me perguntarem a que devo a minha longevidade respondo: ao facto de ainda não ter morrido.
 
Cabeçadas
A mulher diz-se adúltera quando a cabeça do marido aparece adulterada.
 
O aborto volta atacar
Vi escrito infetado.
Não se percebe porque tenho de abrir o E quando não o faço em inferior, infeliz, interior, etc.

SdB (I)

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