21 novembro 2013

Crónicas de um mestrando tardio



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O enunciado do 4ª ensaio era este. A minha contribuição fica abaixo, para os que mantêm uma paciência estranha em seguir-me os escritos.

JdB

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1. Sobre Bouwsma
Para Bouwsma, os poemas estão para as asserções como as baleias estão para os peixes. Existem semelhanças mas, de facto, a baleia não é um peixe. Assim...
Para o filósofo, “um poema são palavras, palavras, palavras. Os poemas são lidos, não asseverados, não negados, não obedecidos, não concordados, não respondidos, não informam, não dizem nada.“
E diz ainda: “Afirmei anteriormente que uma palavra tem significado num jogo de linguagem. Mas o poema não é um jogo de linguagem. Poderia por isso concluir-se que a palavra, num poema, não tem sentido. E no entanto, a palavra num poema só tem vida na medida em que é parasitária em relação a uma palavra hospedeira usada no movimento normal da vida.”
A linguagem da poesia é, para Bouwsma, uma linguagem num dia isento de trabalho. Está de férias e nada de prático se faz com ela – não se aspira uma carpete, não dá azo a uma queixa sobre a meteorologia ou a uma descompostura por causa de lama nos sapatos. Nada.
De facto, Bouwsma entende que nenhum poema faz sentido. E revê-se na frase do finalista universitário que afirmava que “a poesia não mente, pois não afirma”.
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2. Sobre Isenberg
O seu ensaio (A Poem by Frost and Some Principles of Criticism) está dividido em duas partes, como o seu autor refere logo no primeiro parágrafo: na primeira parte, o filósofo tenta uma leitura crítica do poema A Star in a Stoneboat de David Frost. Na 2ª parte, ‘repensa’ a sua posição, revendo algum do conteúdo do seu criticismo.
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Isenberg refere-se ao poema como sendo “essencialmente um encadeado de imagens, todas iguais e paralelas, desenvolvendo a única ideia. O desenvolvimento não é progressivo mas iterativo; é como um conjunto de variações comparadas com a estrutura da sonata. Não é suposto chegar a lado algum; é suposto acrescentar, deliciar-nos com um fio de pensamentos semelhantes e diferentes.”
E termina a primeira parte do seu ensaio: “não posso fugir da convicção de que o poema está mergulhado num filme meditativo que colapsa quando tocado por um alfinete; e isto impede-me de assumir a sua inocência.” 
Durante as primeiras páginas, Isenberg percorre as várias estrofes do poema escalpelizando e identificando o sentido das palavras e a consonância das imagens à luz de uma linguagem comummente utilizada. Com esse chapéu na cabeça, é-lhe quase impossível não tropeçar em inúmeras incoerências, como, por exemplo, na frase the one thing palpable besides the soul, considerando que, convencionalmente a alma é, por definição, impalpável.
Chega a perguntar várias vezes ‘porquê?’, para se questionar – ou questionar ficticiamente o poeta – quanto à utilização de uma subjectividade que considera “incomodativa”: porquê poetas, porquê Pégaso, porquê o carro voador, porquê isto mais prático do que aquilo? O filósofo, como refere no início da segunda parte, exerce o seu criticismo assente em regras (standards, no original) da lógica e da ética.
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“Uma vez que os versos não são maus, e uma vez que a lógica diria que são maus (isto é, falsos,  não comprovados), o veredicto crítico não pode ser o lógico (...)”
Isenberg, na sequência, aliás, do que já tinha afirmado na abertura do ensaio, de alguma forma ‘repensa’ (poderia usar-se a expressão ‘inverter’?) o sentido do seu olhar sobre o poema – agora à luz de uma não-lógica, mais do que de uma ilógica, expressões utilizadas na sua referência à décima estrofe.  
Isenberg refere-se então especificamente à oitava estrofe, argumentando que, da sua análise anterior, poderia inferir-se que a figura de estilo utilizada seria contrafactual. Mas, uma vez que o filósofo considera utterly fantastic a ideia de dois dos versos desta estrofe (os melhores do poema, segundo ele), uma tal apreciação teria de estar errada.
Parte significativa do vocabulário utilizado nos poemas refere-se a coisas que existem. Têm um significado genericamente aceite por todos.
(...)
Pelas ruas e estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente!!
(...)
‘Ruas’, ‘estradas’, ‘gente’, nesta estrofe do poema Impressão Digital, de António Gedeão, remetem-nos para objectos reais. Uma rua é uma rua, uma estrada é uma estrada, que todos vemos e por onde passamos todos os dias. Ora, no penúltimo verso, o poeta fala em gnomos e fadas. Estes seres não existem,  mas fazem parte do nosso imaginário, remetem-nos para um mundo de fantasia. O significado, o sentido, na expressão de Isenberg, permanecem além da realidade, do facto. 
“Este sentido da palavra é transportado com ela, por meio de uma espécie de inércia, para as estruturas da frase, onde se combina com os sentidos de outras palavras para conferir um significado todo novo.  Este significado é a ideia ou a percepção do poeta;(...)”
É por isso que a leitura desta estrofe  de Gedeão – e, afinal, de todos os poemas - deve ser lida à luz de uma certa não-lógica, como se lêssemos com o coração, citando uma famosa raposa. E nesse sentido, não nos ocorre questionar se alguém pode ver gnomos e fadas em halos resplandecentes, ou o que vê Sancho e D. Quixote, porque são tudo seres e personagens irreais ou fictícios, saídos de imaginações férteis. Quando lemos esta estrofe podemos, como refere Isenberg, criticar a ideia, não devemos comparar o que quer que seja com a realidade, muito embora estas palavras que referem inexistências  - fadas, gnomos, D. Quixote – tenham conotações de valor, se não de facto.
Refiro, por último, as últimas quatro linhas do ensaio, que talvez dêm um contributo importante para a resposta ao enunciado: “a nossa resposta estética não é moralista; e no entanto, não é por ignorarmos valores morais que compreendemos e julgamos a poesia, pois estes valores desempenham um papel de significados experimentados, chamando-se para a frente e para trás, na textura do verso”.

Concordaria Isenberg com a afirmação de Bouwsma, segundo a qual there are no poems that mean?. Inclino-me a dizer que não, não concordaria.

20 novembro 2013

Diário de uma astróloga – [65] – 20 de Novembro de 2013

Os Globonautas

O Sol entra em Sagitário daqui a dois dias. Ainda bem, porque as últimas semanas têm sido pesadas com muitos planetas em Escorpião, eclipses e quadraturas várias. Se Escorpião é crise, Sagitário é a luz ao fundo do túnel. Se Plutão (regente de Escorpião) é intensidade e obsessão, Júpiter (regente de Sagitário) é optimismo, é acreditar nas próprias possibilidades e por isso representa a capacidade de ir mais longe. Mais longe pode ser visitando países longínquos, ultrapassando barreiras de energia física e/ou avançar intelectualmente. 

No ano passado, por esta altura, escrevi sobre Dervla Murphy, sagitária fortíssima, cuja primeira grande aventura consistiu em ir sozinha de bicicleta da Irlanda à India e nos anos 60. 

Hoje presto homenagem a dois portugueses, Joana Oliveira e Nuno Pedrosa, viajantes extraordinários que, ao atravessarem múltiplas fronteiras, desafiam os seus limites e satisfazem o seu desejo de liberdade e a sua curiosidade. Chamaram ao seu blog de viagem “Os globonautas”  http://globonautas.net/,  porque de facto navegam pelo globo dispensando o barco em favor da bicicleta. Mas não são “ciclonómadas” (palavra roubada à Joana) têm um destino, um objectivo. Regressar a casa em Leiria partindo do ponto mais distante: a Nova Zelândia!


Com calor ou frio Nuno e a Joana pedalam (fotos retiradas do blog)
O Nuno, experiente em fazer “coisas doidas” (palavras da Joana),  já tinha ido em bicicleta do Alasca à Terra do Fogo, atravessando 20 países em 960 dias de viagem pedalando 42.024 km. Foi durante essa viagem (2006-2009) que começaram a pedalar juntos.

Com curiosidade de astróloga contactei-os e, com a ajuda das suas mães, fiz os seus temas natais. Pertencem à geração de Neptuno (sonhos) em Sagitário (viagens). Mas o que distingue a Joana e o Nuno dos milhões nascidos entre 1970 e 1984 que também têm Neptuno em Sagitário?

Um planeta torna-se mais forte quando está conjunto aos ângulos (Ascendente, Descendente, Meio do Céu e Fundo do Céu) e verdadeiramente pessoal quando conjunto aos dois primeiros. “Para nós o sonho é viajar, andarilhar o mundo para sentir na primeira pessoa o que ainda aqui existe de tão fantástico e único”. Joana tem Neptuno conjunto ao Ascendente e o do Nuno está conjunto ao Descendente.  

Ambos têm uma boa dose de energia Peixes (signo regido por Neptuno): Joana a Lua e Nuno o Sol.

Os aspectos angulares entre Lua e Úrano significam necessidade de liberdade, de espaço quer emocional quer físico, incluindo desprender-se da família. Ambos têm este aspecto, mas o Nuno tem uma quadratura em signos cardinais sentida de forma muito dinâmica que o levou aos “15 anos a fugir de casa com ideias de ir para a Madeira”. A Joana tem um trígono entre Lua e Úrano, aspecto mais harmonioso, não precisou de fugir, saiu naturalmente.

Ambos têm quadraturas em signos cardinais entre Júpiter (regente de Sagitário) e Plutão (regente de Escorpião). Ambiciosos (no bom sentido) porque acreditam (Júpiter) no seu poder (Plutão), porque vão apaixonadamente (Plutão) mais longe (Júpiter).

Têm diferenças, claro! O Nuno com a Lua em Capricórnio dispositada por Saturno em Gémeos tem uma excelente capacidade prática e logística e talvez por isso considera a Joana “uma cicloturista muito pouco convencional porque gosta de pedalar de saia…e a sua peça de equipamento indispensável? Uma botija de água quente.” Vejo aqui a ligação ao conforto do lar tão necessário a uma pessoa com o Sol em Caranguejo. A Joana com o Mercúrio (comunicação) em Leão (criatividade) relata no blog “Os globonautas” as aventuras do casal com humor, alegria e sensibilidade cultural e humana. Um verdadeiro prazer lê-la e ver fotos como esta que nos transportam a lugares onde a maior parte de nós nunca irá.


Descrevi as suas características comuns. E a astrologia do casal?




As características comuns aqui mencionadas ainda ficam mais fortes, mais completas e mais harmoniosas na carta combinada.
·   Assinalado a azul Neptuno está agora no Meio do Céu (os seu sonhos de viagem são realidade, tem um lugar no mundo) sem perder nada de pessoal pois rege o Ascendente. 
·   Júpiter e Plutão assinalados a castanho estão agora em conjunção. Um clássico de astrologia “The Astrologers Handbook“ de Frances Sakoian e Louis Acker descreve esta combinação como a capacidade de mover montanhas. A Joana e o Nuno movem montanhas metafóricas ao transformar os sonhos em realidade mas sobem-nas á custa dos seus músculos.
·    Assinalada a amarelo a Lua deste casal fica em Aquário signo regido por Úrano e na casa 11 naturalmente regida por Úrano. Além de lhes dar uma boa dose de altruísmo, dá-lhes empatia pelos ideais e aspirações da humanidade (que eles estão a conhecer de perto). Também lhes permite fazer declarações como esta “Deixar que cada dia seja diferente e imprevisível, não por acaso, mas porque conscientemente querem expor-nos a essa imprevisibilidade, à surpresa que é a vida.” (Região de Leiria, 15 de Fevereiro de 2013)

Boa viagem Joana e Nuno, no Turquemenistão, na Pérsia, na Europa, na Vida!

Luiza Azancot

19 novembro 2013

Duas últimas

O aforismo romano mens sana in corpore sano revela um desejo de consonância entre o corpo e a mente. Neste desejo está subjacente um equilíbrio entre aquilo que em nós é palpável e o que não é. Talvez possamos, por isso, ler esta frase como algo de intrinsecamente egoísta: o meu corpo está são se a minha mente estiver sã; ou, inversamente, a minha mente está sã se o meu corpo o estiver também.   

O que aconteceria se levássemos este aforismo a uma certa descentralização de nós próprios e o recitássemos de outra forma: o meu corpo está são se a tua mente estiver; ou, de uma forma talvez mais correcta, a minha mente está sã se o teu corpo estiver. A mudança de pronome possessivo - ou a conjugação de dois pronomes possessivos, meu/minha, teu/tua - abre uma perspectiva diferente, estende o próprio corpo para além dos nosso limites físicos. A nossa saúde mental ou física já não depende exclusivamente do nosso corpo/mente, mas do corpo/mente de outros. A um ideal individualista conseguiremos opor, com este novo fraseado, um ideal mais gregário?

Sejamos mais audazes e alarguemos este conceito a um universo (quase) ilimitado. Se entendermos que a condição de saúde do nosso corpo/mente está dependente da existência (aparentemente saudável) de algo que nos é extrínseco, conseguiremos então deduzir que nem tudo depende do que está dentro de nós. Logo, construímos relações de inseparabilidade óbvias que derivam de uma semântica livre: não consigo viver sem oxigénio; talvez mesmo não consigo viver sem ti. Ou ainda, não conseguiria viver sem os meus filhos, mas, também, ser-me-ia impossível viver sem os meus cachimbos ou sem a proximidade do mar. Esta condição de inseparabilidade estende-se em possibilidades imensas e permite que estabeleçamos famílias artificiais construídas por pessoas, famílias, lugares, coisas. De que não conseguiríamos abdicar? O que nos é imprescindível para viver? Que famílias artificias são as nossas?

***

Deixo-vos com dois fados, em cujas letras é forçoso atentar-se. Não chega ouvir, apreciar a voz ou a música. É preciso entender as palavras que são colocadas umas atrás das outras, como se a sequência certa fosse aquela, muito embora as combinações fossem quase infinitas.

JdB



18 novembro 2013

Pensamentos impensados

Benção do Espírito Santo?
Pazes inter primus.

SdB (I) 

Fórmula para o caos

Na semana em que se assinalam os 50 anos do assassinato de John Kennedy, deixo-vos um dos seus discursos mais emblemáticos. Não tendo sido as suas medidas domésticas consensuais entre os americanos, nada poderá ser apontado à política externa. JFK foi um audaz combatente de todo o tipo de totalitarismo.

Pedro Castelo Branco


17 novembro 2013

Documentos dos dias que correm

III Assembleia-geral extraordinária do Sínodo dos Bispos
Desafios pastorais da família no contexto da evangelização

Documento preparatório - Vaticano 2013

(Documento completo aqui)

III – QUESTIONÁRIO
As seguintes perguntas permitem às Igrejas particulares participar ativamente na preparação do Sínodo Extraordinário que tem a finalidade de anunciar o Evangelho nos atuais desafios pastorais a respeito da família.

1. Sobre a difusão da Sagrada Escritura e do Magistério da Igreja a propósito da família
a)    Qual é o conhecimento real dos ensinamentos da Bíblia, da “Gaudium et spes”, da “Familiaris consortio” e de outros documentos do Magistério pós-conciliar sobre o valor da família segundo a Igreja católica? Como os nossos fieis são formados para a vida familiar, em conformidade com o ensinamento da Igreja?
b)   Onde é conhecido, o ensinamento da Igreja é aceite integralmente. Verificam-se dificuldades na hora de o pôr em prática? Se sim, quais?
c)    Como o ensinamento da Igreja é difundido no contexto dos programas pastorais nos planos nacional, diocesano e paroquial? Que tipo de catequese sobre a família é promovida?
d)   Em que medida – e em particular sob que aspetos – este ensinamento é realmente conhecido, aceite, rejeitado e/ou criticado nos ambientes extraeclesiais? Quais são os fatores culturais que impedem a plena aceitação do ensinamento da Igreja sobre a família?

2. Sobre o matrimónio segundo a lei natural
a)    Que lugar ocupa o conceito de lei natural na cultura civil, quer nos planos institucional, educativo e académico, quer a nível popular? Que visões da antropologia estão subjacentes a este debate sobre o fundamento natural da família?
b)   O conceito de lei natural em relação à união entre o homem e a mulher é geralmente aceite, enquanto tal, por parte dos batizados?
c)    Como é contestada, na prática e na teoria, a lei natural sobre a união entre o homem e a mulher, em vista da formação de uma família? Como é proposta e aprofundada nos organismos civis e eclesiais?
d)   Quando a celebração do matrimónio é pedida por batizados não praticantes, ou que se declaram não-crentes, como enfrentar os desafios pastorais que daí derivam?

3. A pastoral da família no contexto da evangelização
a)    Quais foram as experiências que surgiram nas últimas décadas em ordem à preparação para o matrimónio? Como se procurou estimular a tarefa de evangelização dos esposos e da família? De que modo promover a consciência da família como “Igreja doméstica”?
b)   Conseguiu-se propor estilos de oração em família, capazes de resistir à complexidade da vida e da cultural contemporânea?
c)    Na atual situação de crise entre as gerações, como as famílias cristãs souberam realizar a própria vocação de transmissão da fé?
d)   De que modo as Igrejas locais e os movimentos de espiritualidade familiar souberam criar percursos exemplares?
e)    Qual é a contribuição específica que casais e famílias conseguiram oferecer, em ordem à difusão de uma visão integral do casal e da família cristã, hoje credível?
f)     Que atenção pastoral a Igreja mostrou para sustentar o caminho dos casais em formação e dos casais em crise?

4. Sobre a pastoral para enfrentar algumas situações matrimoniais difíceis
a)    A convivência ad experimentum é uma realidade pastoral relevante na Igreja particular? Em que percentagem se poderia calculá-la numericamente?
b)   Existem uniões livres de facto, sem o reconhecimento religioso nem civil? Dispõem-se de dados estatísticos confiáveis?
c)    Os separados e os divorciados recasados constituem uma realidade pastoral relevante na Igreja particular? Em que percentagem se poderia calculá-los numericamente? Como se enfrenta esta realidade, através de programas pastorais adequados?
d)   Em todos estes casos: como vivem os batizados a sua irregularidade? Estão conscientes da mesma? Simplesmente manifestam indiferença? Sentem-se marginalizados e vivem com sofrimento a impossibilidade de receber os sacramentos?
e)    Quais são os pedidos que as pessoas separadas e divorciadas dirigem à Igreja, a propósito dos sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação? Entre as pessoas que se encontram em tais situações, quantas pedem estes sacramentos?
f)     A simplificação da práxis canónica em ordem ao reconhecimento da declaração de nulidade do vínculo matrimonial poderia oferecer uma contribuição positiva real para a solução das problemáticas das pessoas interessadas? Se sim, de que forma?
g)    Existe uma pastoral para ir ao encontro destes casos? Como se realiza esta atividade pastoral? Existem programas a este propósito, nos planos nacional e diocesano? Como a misericórdia de Deus é anunciada a separados e divorciados recasados e como se põe em prática a ajuda da Igreja para o seu caminho de fé?

5. Sobre as uniões de pessoas do mesmo sexo
a)    Existe no vosso país uma lei civil de reconhecimento das uniões de pessoas do mesmo sexo, equiparadas de alguma forma ao matrimónio?
b)   Qual é a atitude das Igrejas particulares e locais, quer diante do Estado civil promotor de uniões civis entre pessoas do mesmo sexo, quer perante as pessoas envolvidas neste tipo de união?
c)    Que atenção pastoral é possível prestar às pessoas que escolheram viver em conformidade com este tipo de união?
d)   No caso de uniões de pessoas do mesmo sexo que adotaram crianças, como é necessário comportar-se pastoralmente, em vista da transmissão da fé?

6. Sobre a educação dos filhos no contexto das situações de matrimónios irregulares
a)    Qual é nestes casos a proporção aproximativa de crianças e adolescentes, em relação às crianças nascidas e educadas em famílias regularmente constituídas?
b)   Com que atitude os pais se dirigem à Igreja? O que pedem? Somente os sacramentos, ou inclusive a catequese e o ensino da religião em geral?
c)    Como as Igrejas particulares vão ao encontro da necessidade dos pais destas crianças, de oferecer uma educação cristã aos próprios filhos?
d)   Como se realiza a prática sacramental em tais casos: a preparação, a administração do sacramento e o acompanhamento?

7. Sobre a abertura dos esposos à vida
a)    Qual é o conhecimento real que os cristãos têm da doutrina da Humanae vitae a respeito da paternidade responsável? Que consciência têm da avaliação moral dos diferentes métodos de regulação dos nascimentos? Que aprofundamentos poderiam ser sugeridos a respeito desta matéria, sob o ponto de vista pastoral?
b)   Esta doutrina moral é aceite? Quais são os aspetos mais problemáticos que tornam difícil a sua aceitação para a grande maioria dos casais?
c)    Que métodos naturais são promovidos por parte das Igrejas particulares, para ajudar os cônjuges a pôr em prática a doutrina da Humanae vitae?
d)   Qual é a experiência relativa a este tema na prática do sacramento da penitência e na participação na Eucaristia?
e)    Quais são, a este propósito, os contrastes que se salientam entre a doutrina da Igreja e a educação civil?
f)     Como promover uma mentalidade mais aberta à natalidade? Como favorecer o aumento dos nascimentos?

8. Sobre a relação entre a família e a pessoa
a)    Jesus Cristo revela o mistério e a vocação do homem: a família é um lugar privilegiado para que isto aconteça?
b)   Que situações críticas da família no mundo contemporâneo podem tornar-se um obstáculo para o encontro da pessoa com Cristo?
c)    Em que medida as crises de fé, pelas quais as pessoas podem atravessar, incidem sobre a vida familiar?

9. Outros desafios e propostas

Existem outros desafios e propostas a respeito dos temas abordados neste questionário, sentidos como urgentes ou úteis por parte dos destinatários?

33º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 21,5-19
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
comentavam alguns que o templo estava ornado
com belas pedras e piedosas ofertas.
Jesus disse-lhes:
«Dias virão em que, de tudo o que estais a ver,
não ficará pedra sobre pedra:
tudo será destruído».
Eles perguntaram-lhe:
«Mestre, quando sucederá isso?
Que sinal haverá de que está para acontecer?»
Jesus respondeu:
«Tende cuidado; não vos deixeis enganar,
pois muitos virão em meu nome
e dirão: “sou eu”; e ainda: “O tempo está próximo”.
Não os sigais.
Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas,
não vos alarmeis:
é preciso que estas coisas aconteçam primeiro,
mas não será logo o fim».
Disse-lhes ainda:
«Há-de erguer-se povo e reino contra reino.
Haverá grandes terramotos
e, em diversos lugares, fomes e epidemias.
Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu.
Mas antes de tudo isto,
deitar-vos-ão as mãos e hão-de perseguir-vos,
entregando-vos às sinagogas e às prisões,
conduzindo-vos à presença de reis e governadores,
por causa do meu nome.
Assim tereis ocasião de dar testemunho.
Tende presente em vossos corações
que não deveis preparar a vossa defesa.
Eu vos darei língua e sabedoria
a que nenhum dos vossos adversários
poderá resistir ou contradizer.
Sereis entregues até pelos vossos pais,
irmãos, parentes e amigos.
Causarão a morte a alguns de vós
e todos vos odiarão por causa do meu nome;
mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá.
Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas.

16 novembro 2013

Pensamentos impensados

Coloridos
O xixi do Manneken Pis, devido ao verdete, está naturalmente esverdeado.
É o que se chama Green Piss.
 
Gramática
Substantivo comum de dois: é a mulher que engana o marido.
 
Anexim
Quem o feio ama, bonito lhe apetece.
 
Bulas
Vi escrito analgésico; não sei o que é gésico.
 
Distorções
Era mulher mas tinha "voice male".
 
Testes
Há prova de vinhos.
Há prova de bala?
 
Limpezas
Madrid está uma lixeira; sugere-se branqueamento de capital.

SdB (I)

15 novembro 2013

brincando aos clássicos


há, poderia jurar, uma subtil oscilação nos céus
ou então é o álcool outra vez a fazer das suas

má fortuna, amores errantes, erros oh tão meus,
valem-me ainda as estrelas que se veem das ruas

e o canto em prosa e a poesia e os leitores incréus
de baladas tristes movidas a sonhos, ferrugem e luas

mesmo em perda, não desisto desses olhos teus, 
nem dessas coisas que os deuses quiseram tuas.

gi.

14 novembro 2013

Do exercício da inteligência

Red & Murta (Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão)

Acordo sábado de manhã muito cedo, a meio de um fim de semana em casa de amigos. É campo, e o silêncio é quase total. Não se ouve ainda o cão que ladra ao transeunte, o roncar velho de uma motoreta desafinada, o comboio cujo silvo longínquo já rareia. Num daqueles pensamentos peregrinos que nos assaltam sem como nem porquê, lembro-me de alguém referir, num ano destes, o fascínio de ver o exercício da inteligência nos outros. Penso no tema, não só genericamente, como também na forma como ele se aplica aos meus parceiros de fim de semana: os diálogos, as interacções, as perguntas e as respostas, os fascínios, as (in)coerências de comportamentos, os raciocínios, etc.

Estou certo de que cresci, como muitos outros da minha geração, com uma ideia mais ou menos definida de inteligência, muito antes de se falar da emocional: rapidez de raciocínio, cultura geral, capacidade para discutir sobre vários temas. Havia ainda o humor, preconceito fortíssimo por onde cresci: um maçador poderia ser inteligente? Não quereríamos que fosse, para justificar juízos prévios; só mais tarde realizei que deveria falar-se de sentido de humor, mais do que de divertimento.  Pode ser-se inteligente não se achando graça a nada?

No domínio do lugar-comum, estou certo da minha contribuição para o stock mundial: a inteligência é uma característica, não é uma virtude. Verdadeiramente, só o exercício para o bem dessa particularidade com que nascemos é que interessa. Se dermos as costas ao próximo e não encontrarmos formas de deixar o mundo um pouco melhor, a inteligência pouco mais é do que uma altura acima da média, uns olhos azuis bonitos ou um cabelo que cresce com vigor: so what? Onde está o mérito?

Rodeio-me, como todos nós, afinal, de gente inteligente -  uns mais do que outros, cada um com as suas facetas, que cada vez acredito menos em gente que não tem inteligência alguma. Todos temos um campo na vida onde nos evidenciamos. Já conheci pessoas de quem se afirmava serem medianamente inteligente, mas que souberam gerar à sua volta um equilíbrio e um bem-estar que seriam proeza de sobredotados. O difícil, por vezes, é encontrar essas facetas, seja em nós próprios seja nos outros, porque o mundo mais próximo tende para uma certa formatação que nem sempre ajuda.

Retomo o tema, que me habita com uma consistência de coisa certa que não encontra palavras. É interessante, de facto, ver como um outro exerce a sua inteligência: quais são os temas que o estimulam e que aborda com facilidade e motivação; quais são os que lhe provocam incómodos (por sensibilidade ou desconhecimento) e dos quais foge, esfarrapando desculpas; como argumenta, como aceita o contraditório, como encara e encerra a discussão - é um jogo para ganhar ou um jogo para praticar? Ver também como olha para o outro, como o enquadra, como lhe dá espaço, como abarca o mundo naquele momento com os olhos ou, pelo contrário, se se ausenta de tudo o resto, rodeado da sua própria voz. Ver ainda como gere as várias áreas da sua vida, como ultrapassa as dificuldades, como trata vitórias e derrotas. Como escuta, como pergunta, como acolhe, como ajuda, como se interessa. Ver, por fim, como estimula a inteligência no seu mais próximo.

Não será este texto apenas uma dissertação sobre feitios? Não gostaria que se reduzisse a isso, porque a inteligência  - e roubo o conceito - é uma faca de dois gumes: tudo depende por onde a agarramos. Se lhe pegarmos pelo sítio certo temos a capacidade de gerir as tendências que sempre existem dentro de nós. 

Conhecer os outros - e as suas várias inteligências -, para além do desfocado do dia-a-dia, não é uma experiência sociológica materializada em estatísticas ou tendências. Tolstoi diria (o francês é um petit rien para quem me lê) que tout comprendre c'est tout pardonner. Não se trata aqui de perdoar o que quer que seja, embora tudo compreender seja o primeiro passo para muito aceitar. Observar o exercício da inteligência alheia é uma actividade munida de espelho. Olhar para os outros é encontrarmo-nos a nós próprios, apesar de todas as diferenças. E isso, estou em crer, é o primeiro passo de uma grande caminhada. 

JdB  

13 novembro 2013

Cartas dos dias de hoje*

[texto enviado a uma irmã, enviuvada recentemente, surpreendida pelo que aconteceu e muito temente pelo futuro]

A morte, na expectativa  que o surpreendido  abandonado dela  faz,  era suposto gerar o apagamento total do desaparecido, arrastando com ele o seu todo, apagando-se do presente, sepultando-se no jazigo da memória.
Porém, é enorme a surpresa, a desorientação, a perplexidade, quando se percebe que a morte eclipsou exclusivamente a pessoa, o ser concreto, real, tangível, deixando todavia intocado, ileso, indiferente ao sucedido, o "meu" amor por ele, a "minha" necessidade dele, o "meu" sonho dele, a "minha" essência dele e nele, a "minha" existência justificada a existir nele.
Afinal, a morte não me muda a mim, apenas o muda a ele, extingue-o, mas a mim, mantém-me exactamente como na véspera. Amo hoje como antes do passamento. Mas amo em modo absoluta e irremediavelmente  solitário.
A dor que se vai sentindo a partir do acontecimento vai tendo sucessivas faces: no primeiro momento  prevalece a pena por ele, a ternura e solidariedade pelo seu sofrimento, pelo seu fim, o bem querer-lhe, é viver a dor alheia; no segundo momento destaca-se a mágoa pelo que não se vai viver, pelo que não vai acontecer, pelo futuro perdido, pelo jamais consumado; segue-se, depois, a etapa do ajuizamento, da recriminação, do remorso, a martirização pelo tempo e oportunidades julgadas perdidas, aquilo que devia ter sido e, por fim, desagua-se na constatação, no confronto com a evidência de que a morte dele, acima de tudo, significa que "eu" perdi o tempo, o lugar e o modo de eu existir. Estou abandonado, chamo para o silêncio, ergo os braços para o vazio, caminho para nenhum lugar, olho para o breu, choro para as pedras, falo para o vento, espero para o desespero, sonho para o nevoeiro, dou-me ao vácuo, abraço a água. Sou o tudo, na masmorra do nada.
Não há como fugir desta etapa, não há consolo para o teu hoje. Não há promessas de amanhãs radiosos que agora te animem, não há oásis cuja visão te salve, não há futuros que operem já o milagre da felicidade.
O que existe é uma situação presente, devastadora e que te desespera.
O que podes fazer? Perguntar-me-ás.
Pois bem, se é certo que não podes mudar a situação, as circunstâncias do teu presente, tens, porém, a suprema liberdade de escolher e assumir a  tua atitude perante essas mesmas circunstâncias.
Tens o direito e o poder de converter o teu presente numa atitude ao serviço do "sentido" que entendas atribuir à tua vida, a esta vida que tens e és.
Busca em ti e por ti um novo sentido para a tua vida, qualquer que ele seja, e entrega-te a ele, à sua realização, ao seu acontecimento, à sua perfeição.
Encontra a tua nova causa de vida, uma razão para seres, e segue-a de modo fiel, total e empenhado. Age em cada dia, em cada hora, em cada momento na busca da realização desse sentido. Encontra uma direcção, um horizonte, um além, necessariamente fora de ti, nada busques em ti ou para ti. A meta fixada tem de te ser estranha, acontecer fora do eu, e faz o que tiver de ser feito para lá chegares.
Esquece-te de ti, faz-te serva de uma causa que seja maior que tu.
A serenidade e a paz irão então acontecer-te à medida que fizeres o caminho. Serão surpreendentes os efeitos colaterais que te vão acontecer. Sem perceberes como ou quando, vais encontrar-te a viver, a reviver.
Essa causa, o sentido, não tem de ser extraordinário, invulgar, aparatoso, bombástico - qualquer sentido teleológico é perfeito e suficiente para operar em ti a redenção.
Não estou a fazer retórica ou malabarismo de "auto-ajuda", estou a partilhar a minha profunda convicção de que só pelo sentido da vida é possível vencer as mais sinistras circunstâncias que se nos deparem.
Tenho a certeza de que esta via te libertará e não serás mais um todo na masmorra do nada.
Para sempre sofrerás pela morte do teu marido, para sempre o amarás, para sempre o teu eu será nele, mas, apesar disso, serás feliz.
Por hoje cuida do teu quotidiano, da tua sobrevivência, mas por hoje começa também a servir o teu (novo) sentido.

* enviado por mão amiga


12 novembro 2013

Duas Últimas

Hoje homenageio Joni Mitchell, cantora folk canadense que completou 70 anos na passada semana. Pertenceu à fabulosa geração de artistas que nos inesquecíveis anos sessenta e setenta do século XX deram asas à música popular, tradicional e folclórica, provinda sobretudo da América interior e profunda.

Uma voz e uma guitarra prodigiosas.

Espero que apreciem as duas músicas escolhidas. Para mim, dois bons exemplos de virtudes como a sensibilidade e o bom gosto, transportadas para a cena musical.

Nunca tive oportunidade de a ouvir ao vivo, como aliás sucedeu com a maior parte dos meus ídolos de juventude. À laia de consolo, no próximo dia 14 várias cantoras portuguesas farão no CCB um tributo a J Mitchell, cuja qualidade espero que não desmereça a homenageada. Se Deus me der vida e saúde, lá estarei para o confirmar.

fq





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