20 novembro 2015

Inveja *

A militância politica de Vitória tinha começado cedo, por alturas da instrução primária. Habituara-se a ver o pai, comunista convicto e militante, com um discurso entusiasmado, a bramar contra os fascistas, contra as injustiças, contra a falta de solidariedade - contra aquilo a que ele chamava a canalha. O combatente chegava a casa aos fins-de-semana depois de mais uma ocupação de terra, de uma campanha política numa fábrica de gestão capitalista selvagem, de uma campanha de alfabetização de populações que desconheciam como alinhar as letras para compor poemas sofridos.

Nos antípodas desta realidade estava Manuel Maria, filho de uma sociedade que identificava o mundo de Vitória porque numa contenda os oponentes sempre se reconhecem. Ainda que numa visão metafórica, os seus pais eram os donos das terras que o militante político ocupava, administravam as fábricas onde os operários eram supostamente explorados, tinha um tratamento respeitoso junto das populações que não sabiam redigir textos simples. Manuel Maria usava expressões como os Pais foram ou as férias na quinta. Incongruências linguísticas de uma gente que preservava acima de tudo a propriedade privada, mas que não usava pronomes possessivos na sua sintaxe própria.

Vitória e Manuel Maria descobriram-se mutuamente para satisfazer aquela frase desinteressante e vagamente verdadeira que afiança que os extremos se tocam. Cruzaram-se ambos na improbabilidade de amigos comuns, mas os seus olhos encontraram-se num instante certo, porque se tivesse havido um minuto de atraso – ou de avanço - a sua atenção teria focado outros aspectos do mundo em redor, e algo se perderia no encaixe possível de almas desconhecidas.

Uma semana depois, aquele que não tinha por hábito usar pronomes possessivos no seu fraseado, entrava em casa da filha do comunista militante cheio de uma curiosidade levemente enervada. Munido de uma discrição que era filha de uma educação cheia de regras, o seu olhar prendeu-se na profusão de biografias de Marx e Engels, nas visões elogiosas do comunismo mundial, nos relatos sofridos das vítimas das prepotências, nas encadernações diversas dos pensamentos de Mao ou de Ernesto Guevara. A música era conforme – porque na verdadeira militância política não pode haver aspectos discordantes, não se pode abrir uma brecha na solidez revolucionária que abra caminho à incoerência burguesa.

Sentaram-se e, ao fim de 10 minutos de uma conversa neutra – confortavelmente neutra – houve algo entre eles que levou os olhos a tocaram-se, as mãos a tocaram-se, as bocas a tocaram-se. Tudo se tocou num furor erótico que era fruto de um desejo irresistível, de uma atracção quase fatal. Quando deram por isso encaminhavam-se na direcção do quarto, impelido pela vontade de ambos.

Quando entraram no quarto, a boca de Manuel Maria encheu-se de espanto – era um quarto clássico, onde ardiam várias velas de cores diferentes e aromas diferentes. Numa aparelhagem estereofónica, Tony Bennett, o homem que se chamou Anthony Dominick Benedetto, cantava, na sua voz sensual

I left my heart / in San Francisco

enquanto ao lado da cama um tabuleiro com caviar, meio limão, dois copos e uma garrafa de champanhe – e não espumante – rematavam o cenário.

O sexo entre ambos (teria havido amor?) seria bom – clássico, arrojado, criativo, lento, brutal, acelerado, respeitador dos tempos alheios, preocupado por fetiches próprios.

Nas semanas seguintes as noites repetiram-se: em primeiro lugar os livros da esquerda revolucionária, do elogio do marxismo, dos amanhãs que cantam. Em seguida o sexo ao som de Tony Bennett, do caviar, das ostras, dos vinhos a condizer.

Um dia, Manuel Maria disse-lhe:

És muito contraditória, companheira! Não sei se consigo voltar cá mais...

Sabe qual é o seu problema, senhor doutor Manuel Maria?

Diz lá, camarada Vitória. Qual é?

É a tua relação com a minha incoerência. Sabes, no fundo, o que tu tens é inveja desta minha dupla faceta, da facilidade com que vivo com o Tony Bennett e a Brigada Victor Jara, com os tremoços e com o caviar. Inveja, é o que tu tens. E isso é um pecado, ou não?

JdB

* publicado inicialmente em 5 de Abril de 2010

19 novembro 2015

MTBF

23 dias. O que são 23 dias? Nada, aparentemente. São mais de três semanas, mas menos de quatro. Mas 23 dias pode ser uma amostra com uma dimensão suficientemente boa para que daí tiremos ilações. Eu explico, não vá alguém achar que falo de esoterismos.

Trabalhei 20 anos na indústria, sendo que essas duas décadas - não me canso de repetir - fizeram de mim o profissional que sou hoje, mesmo que a minha actividade profissional actual já pouco ou nada tenha a ver com o passado mais recente. E foi aí, nessa minha actividade fabril que travei conhecimento com um indicador: MTBF. Uma sigla que significa isto: Mean Time Between Failure. Isto é, traduzido para português, tempo médio entre falhas. 

Olhamos para uma máquina. Ao fim de cinco minutos avaria; é reparada (ou solucionado o que a levou a parar) novo período de cinco minutos e volta a parar. O MTBF é, obviamente de cinco minutos. Analisam-se os factores que levam à paragem sistemática da máquina; corrigem-se. A máquina já não pára ao fim de cinco minutos, mas ao fim de 10, e depois 15 e por aí em diante. Quanto maior for o MTBF, melhor estará a máquina.

Imaginemos agora que a máquina está 23 dias sem parar (por avaria ou outra falha). Significa isto que as condições que estiveram subjacentes a este período de não-paragem são possíveis. O que é preciso? Analisar o que esteve por trás deste aparente sucesso e replicar as condições. Ou, nalguns casos mesmo, repor as condições iniciais da máquina, que quando foi adquirida estava preparada para trabalhar, não parar a cada dia.

Aplique-se este raciocínio a outras realidades. Agarre-se nos 23 dias e repita-se. Um dia - voltando à fábrica - percebemos que basta alguém que, no fim do turno, desligue as luzes, porque a máquina não precisa de ninguém.

Nota: ontem almocei com um grande amigo e falámos sobre isto. Não sendo, nem eu nem ele, mentecaptos, é sinal de que se pode conversar sobre este tema de frente para uma sopa e um copo de vinho.  MTBF: um indicador a fixar.

JdB    

17 novembro 2015

Duas Últimas

Sob o título "Paris vale bem uma missa" encontro o texto abaixo (de Maria Teixeira Alves) no blogue Corta-Fitas (de onde retiro também o poster da noite de oração):

Gostava de ver nas televisões de todo o mundo, um missa ao ar livre numa praça de Paris, com os franceses a rezarem em conjunto e em voz alta, pelas vítimas dos atentados de sexta-feira. Imaginem uma praça com velas acesas a ecoar a avé maria. Isso sim seria uma resposta eficaz ao ódio do ISIS.
A ideia de que em cada atentado a fé cristã cresce é lhes fatal.
Uma Avé Maria em francês seria muito mais eficaz do que a Marseillaise, para um grupo de assassinos que faz o que faz em nome da guerra santa. Mas os franceses não parecem perceber isso.


Muito se disse e há-de dizer ainda sobre a barbárie de 6ªf em Paris. Resta-nos rezar pelas vítimas, sobretudo pelos familiares das vítimas que cá ficaram, pelo discernimento de quem tem o poder de impedir isto, ou a escalada disto, mas também pelo discernimento de cada um de nós, gente que gosta de formar uma opinião assente em valores cristãos e em desejo de segurança.

JdB

16 novembro 2015

Vai um gin do Peter’s?

Recentemente, passou na Gulbenkian a música originalíssima e empolgante do suíço Arthur Honegger (1892-1955), com uma produção musical muito extensa, a incluir bandas sonoras de filmes e actuações na rádio. 

A dimensão cinéfila perpassa toda a sua obra, indo muito além das composições feitas para o cinema. Assim acontece com a oratória que compôs a partir de um texto extraordinário de Paul Claudel (1868-1955): «La danse des Morts».

A parceria e cumplicidade artística entre o escritor e o compositor chegou por intermédio da actriz-bailarina Ida Rubinstein que, em 1934, apresentou o músico ao mestre das letras na altura Embaixador de França em Bruxelas.  

Apesar do feitio reservado, Honegger frequentava as tertúlias dos artistas e intelectuais que fervilhavam por Paris, à cabeça Jean Cocteau, com quem formou o Grupo dos 6, desejosos de lançar uma nova escola de música clássica anti-romântica. Mas a sua participação naquele grupo foi sol de pouca dura. 

    
Com Claudel tudo correu melhor. Do primeiro trabalho em equipa resultou «Jeanne d’Arc au bûcher». Em 1938, com a Europa a assistir apavorada à escalada expansionista de Hitler, os artistas lançaram-se na feitura da revolucionária A Dança dos mortos. Um título algo chocante e insólito para o século XX e, mais ainda, para o nosso tempo.

A ideia partira de Claudel, que ficara impressionado com os desenhos do bávaro Hans Holbein (1497-1543) , com esqueletos entretidos numa coreografia híper animada, que pensaríamos saída da banda desenhada de um cartoonista provocador da actualidade. Difícil de acreditar que vinha do século XVI, seguindo aliás uma tradição muito em voga na Idade Média de lembrar a proximidade da morte, quase sempre com enorme sentido de humor e forte carga irónica, a aliviar o propósito didático. De facto, encarava-se abertamente o elo inalienável entre vida e morte explorando as várias ramificações do tema. Assoma, de imediato, a eternidade versus a caducidade visível do presente, representadas de braço dado.

A Morte, na gravura de Hans Holbein, o Jovem

É nos séculos posteriores, ditos mais científicos e modernos, que a morte ganha uma solenidade pesada para exorcizar e até camuflar o medo associado ao conceito, chegando à actualidade completamente relegada para a zona dos assuntos intocáveis, tornada o maior tabu do século XXI. E logo nós que seríamos uma geração pós-tabus, preparada para arrasar os adamastores que tinham importunado os nossos antepassados, esses sim, gente dada a temores menos racionais e crenças cegas.    

Em «La danse des morts», a prosa poética do francês funde-se com a melodia vanguardista do suíço, numa harmonia e expressividade invulgares, que nos transportam para um universo entre o céu e a terra onde, estranhamente, não nos sentimos estrangeiros. Talvez por tudo ali ser tão habitado...

II parte -



A ironia é máxima quando o coro entremeia cantos populares, nomeadamente «Sur le pont d’Avignon» com letra adaptada, a dançar sim, mas não sobre a bonita ponte, trocada agora pela tampa da tumba, que se escancara para o morto recuperar alguma vitalidade. A «visão dos ossos secos» inspira-se numa passagem do Antigo Testamento (cap. 37 do Livro de Exequiel), em que Deus conduz o profeta a uma planície coberta de ossaturas, a quem devolve o dom da vida para aludir à restauração do povo judeu.

O libreto de Claudel fala por si, desdobrando-se em partes recitadas e cantadas, num estilo híbrido, entre o musical e a ópera. Ao coro juntam-se os solistas – soprano, contralto e barítono –  e o recitante (narrador). O entusiasmo do escritor chegou ao pormenor de anotar recomendações musicais para a ária acompanhar em pleno o sentido das palavras. Exemplo: «Começa por um ribombar de trovão formidável, não um simples trovão de teatro, um trovão musical alargado, onde o som rola, vai e vem, ressalta sobre ele mesmo, como se ouve nas grandes trovoadas da primavera» – a estação do renascimento, por excelência.

O próprio Honegger confirma a musicalidade do trabalho do amigo: «Para A Dança dos Mortos, pedi a Claudel que me lesse e relesse todas as directrizes a fim de seguir o mais próximo possível o seu pensamento. Tudo estava previsto no seu espírito, todas as intenções especificadas, bem como as distribuições das vozes e a cor da orquestra.»

Excerto da letra da Oratória:

  Choeur parlé
     Souviens-toi homme que tu es esprit
      et la chair est plus que le vêtement
      et l'esprit est plus que la chair
      et l'oeil est plus que le visage
      et l'amour est plus que la mort.

Choeur chanté
       Dansons, sur le pont de la tombe,
       on y danse y danse y danse,
       sur le pont du tombeau
       tout le monde y danse en rond !
       En rond dansons la carmagnole,
       vive le son, vive le son,
       dansons la carmagnole,
       vive le son du clairon !

Récitant
       Le Pape !...
       L'Evêque !...
       Le Roi !...
       Le Chevalier !...
       Le Philosophe !...   (…)

Próximo do final, o recitativo recorda a mensagem de Deus ao homem, proclamando telegraficamente:

       «J’éxiste!»

No último número, o coro retoma um dos leit-motiv do libreto:

     «Lembra-te Homem que és pedra e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja
      e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.» (Mt.16, 18)

O coro entoa ainda uma frase do Salmo:

      «Souviens-toi de moi, Seigneur,
       parce que je suis poussière
       et que je retournerai en poussière !»

A Oratória termina com um sussurro do soprano, aparentemente apaziguador, mas a adensar aquele mistério de vida e morte entrelaçadas.

Já no século XIX, Camille Saint-Säens (1835-1921) produzira uma obra sobre a mesma temática, numa sonoridade mais confortável e ligeira, que teve enorme influência posterior, nomeadamente em Honegger. De título ainda mais provocador – «La danse macabre» – o humor é aqui desconcertante, até pelo colorido lindo da orquestração. Camille inspira-se numa superstição francesa bem antiga, sobre uma noite de Outono em que os mortos se evadiriam dos túmulos para dançar freneticamente até ao canto do galo os reconduzir ao silêncio mais profundo. Uma tese arrojada, a fazer fé na capacidade de os esqueletos auto-recuperarem a vida, embora só uma vez ao ano enquanto o sol não nasce, género recarga curtíssima. Um bocadinho inglório para os mortos e assustador para os vivos, mas q.b. certeiro enquanto pequena revanche dos que se sentem excluídos do ciclo temporal. Típico wishful thinking de alguns (a expressão inglesa é a mais lapidar)...



Muito refrescante redescobrir o vanguardismo extraordinário dos nossos antepassados, que nos fazem sentir próximos das gentes de outras épocas. Algumas bem distantes. Que bom esta caça aos tesouros do passado ser infindável. Então na música, as redescobertas são constantes. Até porque é a expressão de arte a que melhor se aplica a metáfora da Bela Adormecida, aquela tristinha escondida num castelo inacessível. Até ser executada, a pauta funciona como uma princesa à espera de ser acordada. Felizmente que a Gulbenkian tem ajudado grandemente, cumprindo na perfeição o papel difícil do príncipe. 

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

15 novembro 2015

33º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 13,24-32

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Naqueles dias, depois de uma grande aflição,
o sol escurecerá e a lua não dará a sua claridade;
as estrelas cairão do céu
e as forças que há nos céus serão abaladas.
Então, hão-de ver o Filho do homem vir sobre as nuvens,
com grande poder e glória.
Ele mandará os Anjos,
para reunir os seus eleitos dos quatro pontos cardeais,
da extremidade da terra à extremidade do céu.
Aprendei a parábola da figueira:
quando os seus ramos ficam tenros e brotam as folhas,
sabeis que o Verão está próximo.
Assim também, quando virdes acontecer estas coisas,
sabei que o Filho do homem está perto, está mesmo à porta.
Em verdade vos digo:
Não passará esta geração sem que tudo isto aconteça.
Passará o céu e a terra,
mas as minhas palavras não passarão.
Quanto a esse dia e a essa hora, ninguém os conhece:
nem os Anjos do Céu, nem o Filho;
só o Pai».

14 novembro 2015

Pensamentos impensados

Chamem a ASAE
Homem interceptado à chegada ao aeroporto, suspeito de trazer droga no interior do corpo. Depois de uma lavagem ao estômago, conclui-se que era, apenas, o pequeno almoço servido a bordo.

Maria de Belém a Belém
Não tem altura mas está à altura.

Natal é quando um publicitário quiser
Lido num folheto de publicidade novas tradições de Natal.
Quem me dera semelhante imaginação.

Pobreza desvergonhada
Cavaco confessou ter parco espólio. Deve ser espóliomielite.

Aguenta que é serviço
A praxe é a prova dos novos.

Escalas
Pôncio Pilatos foi superior a Jesus Cristo. Poncio Pilatos lavou os membros superiores enquanto Jesus Cristo lavou os membros inferiores.

Nova cozinha
Virar o bife em prego.

Costas largas
Já tivemos o Costa de África, já tivemos o Costa do Castelo, agora temos o Costa da Índia.

SdB (I)

13 novembro 2015

Das emoções

A conversa decorreu inicialmente entre uma torrada, um sumo de laranja e uma água do castelo com gelo e limão. No dia seguinte foi em frente a uma lareira. Em ambos os momento persiste uma pergunta: qual o verdadeiro interesse de reflectirmos sobre estes temas?

Nas várias formas de arte, o que provoca em nós emoções? Emocionamo-nos da mesma forma com cinema, literatura (romance, poesia, outros) pintura, escultura, fotografia? Todas estas formas de arte têm a mesma capacidade de nos suscitar abalar, comover? 

Olho para dentro de mim: como para a maior parte das pessoas, estou certo, o cinema tem uma enorme capacidade para me envolver, "sugando-me" para dentro da história, tendo pena de quem sofre, alegrando-nos com quem se sente feliz. Acontece o mesmo com a literatura, nomeadamente o romance. Já pouco sinto quando leio poesia, provavelmente porque tenho muita dificuldade (que é diferente de gosto, ou ausência de) em lê-la, sobretudo se lhe faltar métrica e rima. Quando penso em fotografia lembro-me do Barthes e da sua noção de punctum. Uma fotografia tem a capacidade de me provocar uma emoção. 

Relativamente à música, há uma nuance. Quase todos os géneros musicais me oferecem a possibilidade da emoção, mas tenho de lhes associar um momento ou uma época em que tenha sido feliz: uma certa juventude, uma certa pessoa, um certo momento. A música clássica independe de tudo isso. Comove-me e, num certo "estilo" - nomeadamente a música coral  - leva-me a um patamar diferente. 

Vem por último a pintura / escultura. Posso perder horas, já aconteceu, a deambular por uma época ou um pintor específico. Aprecio a beleza, a técnica (enfim, sou muito ignorante) o tema. Mas não há um único quadro que me suscite uma emoção, para além da apreciação da estética. Uma fotografia emociona-me; uma pintura que reproduza o que reproduz a fotografia não me toca nem um milímetro. Porque será?

O assunto não te interesse, de facto, a não ser para mim. Desculpem qualquer coisinha...

JdB

PS: podemos admitir como verdadeiro que aquilo que lemos reflecte um pouco do que nós somos? Se sim, o que diz de alguém o facto dessa pessoa detestar ler romances?     

12 novembro 2015

Textos dos dias que correm *

(...)

Na vida da generalidade das pessoas, até uma determinada altura olha-se para o mundo – as pontes, a música, a pintura, os contratos de trabalho ou de arrendamento - com os olhos de uma relativa ignorância. As coisas agradam-nos, soam-nos bem, parecem-nos correctas. Há um primeiro olhar, digamos, não técnico. Vinga a nossa sensibilidade, a nossa perspicácia e também, nalguns casos, os genes que nos fazem dar mais atenção a alguns pormenores. No seguimento normal da vida das pessoas aparecem os cursos, as formações, a entrada no nosso cérebro de informação científica transmitida por quem se supõe saber mais. As doses de conhecimento são dadas gradualmente, de acordo com critérios pedagógicos, para que tudo fique retido e possa ser aplicado posteriormente.

A partir de uma dada altura já não olhamos para as mesmas coisas com os mesmos olhos: o engenheiro atravessa a ponte sabendo os cálculos que foram feitos para suportar as cargas previsíveis. A ponte deixou de ser uma bonita obra de arquitectura para passar a ser um conjunto de cálculos, uma sucessão enorme de equações matemáticas onde entram a resistências dos materiais, a predominância dos ventos e das correntes, a circulação estatística das viaturas multiplicada por um coeficiente de segurança. 

A partir de uma dada altura, para assemelharmos a frase ao raciocínio, o músico já não ouve apenas uma peça musical. Para ele, e sobretudo para ele, que estudou essas matérias, há notas dominantes, influências identificáveis no tempo, melodias que o naipe de metais ressalta, os instrumentos de corda abafam, os coros sublinham. Deixou de ser apenas uma peça audível, para ser o produto da técnica da composição e da criatividade do autor.

Há, portanto, uma dimensão científica, profissional, académica, que só os iniciados encontram naquilo que observam – seja uma ponte ou uma sinfonia.

Como é que um padre olha para uma mulher? Existe seguramente, na mente de muitos, uma injustiça ao nível do entendimento versus acesso. A partir do momento em que se forma na escola do direito, o outrora universitário, agora licenciado, olha para o contrato, entende-o, domina-o, converte-o em benefício do seu cliente, não esquecendo a ética profissional. Com o entendimento (também) vem o acesso, a possibilidade de uso, sendo que a expressão tem aqui a sua dimensão mais nobre. É fácil entender que esta aproximação de ideias se aplica ao músico ou ao engenheiro, este na construção da ponte, aquele na composição da sinfonia.

Onde está, então, a injustiça? Enquanto não profissional, digamos assim, o sacerdote pode fruir a mulher, tendo dela o entendimento e a compreensão que a maturidade lhe confere. Ao aceder ao nível superior, isto é, ao estudar a matéria que lhe permite o entendimento da alma humana e, assim, da mulher, ainda que com as especificidades inerentes, é-lhe retirado, gradualmente, o acesso ao objecto estudado. O engenheiro é-o na sua plenitude legal e afaga o ferro com que se construirá a ponte. Estabelece-se entre ambos uma relação próxima, íntima, sem mais segredos do que aqueles que advêm de algum desconhecimento que sempre existe.

O sacerdote, ao contrário, faz votos, estabelece imediatamente uma distância entre si e o corpo daqueles que são a sua preocupação primária. O músico passa os dedos por uma partitura, corre o arco sobre as cordas do violoncelo, retira-lhe o som sublime da tristeza. O padre, por seu lado, conforta a alma, que alguns afiançam não existir, outros sustentam não ter opinião, havendo um número significativo que crê nelas. No entanto, a alma não se palpa, por não ser corpórea. 

(...)

António Costa Carlos, in Subsídios para a Materialidade das Profissões (2012, edição do autor)

11 novembro 2015

Poemas dos dias que correm

"Cristo na cruz. Os pés tocam a terra.
Os três madeiros são de igual altura.
Cristo não está no do meio. Ê o terceiro.
A negra barba pende-lhe sobre o peito.
O rosto não é o rosto das gravuras.
É áspero e judeu. Não o vejo e continuarei
a procurá-lo até ao dia derradeiro
dos meus passos pela terra.
O homem alquebrado sofre e cala.
A coroa de espinhos fere-o.
Não o alcança a mofa da plebe
que viu sua agonia tantas vezes.
A sua ou a de outro. Dá o mesmo.
Cristo na cruz. Desordenadamente
pensa no reino que talvez o espere,
pensa numa mulher que não foi sua.
Não lhe é dado ver a teologia,
a indecifrável Trindade, os gnósticos,
as catedrais, a navalha de Occam,
a púrpura, a mitra, a liturgia,
a conversão de Guthrum pela espada,
a Inquisição, o sangue dos mártires,
as atrozes Cruzadas, Joana D’Arc,
o Vaticano que abençoa exércitos.
Sabe que não é um deus e que é um homem
que morre com o dia. Não se incomoda.
Incomoda-o o duro ferro dos cravos.
Não é um romano. Não é um grego. Geme.
Deixou-nos esplêndidas metáforas
e uma doutrina do perdão que pode
anular o passado. (Esta frase
escreveu-a um irlandês numa prisão.)
A alma procura o fim, apressada.
Escureceu um pouco. Já morreu.
Anda uma mosca pela carne quieta.
De que me pode servir que aquele homem
tenha sofrido, se sofro agora?»

Os Conjurados [Los Conjurados], Jorge Luis Borges  (Tradução de Maria da Piedade M. Ferreira e Salvato Teles de Meneses, Ed. Difel)

10 novembro 2015

Duas Últimas

Bruce Springsteen dispensa apresentações. Refiro apenas que no meu top 10 de autores de música ligeira tem presença assegurada.

Como o dia já vai longo, a imaginação vai fenecendo e o autor do estabelecimento quer com pleno direito saber com o que pode ou não contar, deixo-vos com um texto curto compensado por duas longas interpretações bem ao gosto musical e lírico de Springsteen.

Permito-me chamar a atenção para o saxofone dominador do enorme e infelizmente saudoso Clarence Clemons, falecido em Junho de 2011.

Espero que me acompanhem na escolha.


fq



09 novembro 2015

Poemas dos dias que correm

Imagem tirada da net


Quanto Ódio

quanto ódio
                   diz
quanto ódio
                   não sabes
                            tens
                            dentro de ti

o deferente tapete da palavra
a rede bélica
os rasgos secundários

                            TUDO

engendra
                        articula
                                        atavia
             a sala da tua fala


Ana Hatherly, in "Um Calculador de Improbabilidades"

***

Cantiga do Ódio

O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir a servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa.
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros?

Carlos de Oliveira, in 'Mãe Pobre'


08 novembro 2015

32º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 12,38-44

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus ensinava a multidão, dizendo:
«Acautelai-vos dos escribas,
que gostam de exibir longas vestes,
de receber cumprimentos nas praças,
de ocupar os primeiros assentos nas sinagogas
e os primeiros lugares nos banquetes.
Devoram as casas das viúvas
com pretexto de fazerem longas rezas.
Estes receberão uma sentença mais severa».
Jesus sentou-Se em frente da arca do tesouro
a observar como a multidão deixava o dinheiro na caixa.
Muitos ricos deitavam quantias avultadas.
Veio uma pobre viúva
e deitou duas pequenas moedas, isto é, um quadrante.
Jesus chamou os discípulos e disse-lhes:
«Em verdade vos digo:
Esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros.
Eles deitaram do que lhes sobrava,
mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha,
tudo o que possuía para viver».

07 novembro 2015

Pensamentos impensados

Suinicultura
Quem porco nasce, tarde ou nunca toma banho.

Por linhas tortas
Os animais não têm direitos, o Homem é que tem obrigações.

Sem mãos a medir
Duarte de Almeida, o Decepado, era um handy-capado.

Deus me livro
Haverá alguma edição do Corão em papel bíblia?

Chinesices
Os chineses vão ter de reaprender a fazer o 2º filho.
Prevê-se grande sucesso do Kamasutra..

A estupidez campeia
A lagosta cozida e o salmonete vão ser considerados carnes vermelhas.

Neologismo
A acção de responder a uma gravação, e mail, etc. chama-se fidebecar.
(por favor divulguem).

O carteiro toca sempre 2 vezes
Há vales que vêm por bem.

SdB (I)


06 novembro 2015

O Insuportável dia de Todos-os-Santos *

Caro sobrinho:
Colocas-me diante de uma questão essencial do combate à fé cristã.
De facto, há que evitar por todos os meios possíveis que os humanos tomem para si o exemplo de outros que passaram, antes deles, por esta terra.
Não há nada mais abominável que um santo que ilumina essa gentalha, ajudando-a a atravessar as dificuldades da vida.
Por isso gostava de partilhar contigo quatro estratégias para destruir a imagem de todos os santos. Se as aplicares bem, terás resultados imediatos e duradouros. Aliás, basta aproveitar os exageros desses miseráveis humanos para os afastar do nosso grande Inimigo.

1ª Estratégia: OS SANTOS MILAGREIROS
Esta estratégia talvez seja das mais fáceis de aplicar uma vez que, mesmo sem a nossa ajuda, já toma proporções escabrosamente saborosas. Há humanos cuja formação cristã é tão rudimentar que tomam os santos como uma espécie de deuses aos quais devem adorar. Levam consigo dinheiro, fotografias, velas, papelinhos, depositando neles a secreta esperança de que tudo mude no dia seguinte.
É bom acalentar essa esperança e fazer-lhes crer que podem ficar à espera de braços cruzados. É que, conforme constatam que, uma e outra vez, nada muda, acabam por ganhar uma tal frustração que, mudarão de santo em santo até à exaustão; e, se tudo correr em nosso favor, irritar-se-ão com as coisas de Deus e acabarão por se afastar definitivamente do caminho de fé. Os que me preocupam são aqueles que, fazendo exactamente os mesmos gestos, se limitam a pedir a intercessão desses santos para que Deus lhes dê a luz e a força para que ultrapassem as suas dificuldades. E o mais assustador é quando sabem que tudo depende também do próprio esforço. Esses são obstinados; muito difíceis de enganar.

2ª Estratégia: OS SANTOS PÁLIDOS
Algo que me diverte é constatar como alguns humanos representam os santos. Uns, num estilo excessivo cheio de dourados e brilhantes. Outros, no estilo muito despojado, de cabeça caída, cara pálida e olhar ausente. Uns e outros, fazendo uma muito pálida ideia do que seriam os próprios santos, como pessoas, no dia-a-dia. Quando os humanos, através das imagens, são induzidos a crer que os santos pertencem a um tempo muito antigo – ou melhor ainda, mítico - ou que, simplesmente, não parecem deste mundo, e que, se passaram por cá, foi quase por acaso, esse é um grande contributo para a nossa missão.
Um outro extremo com o qual me regozijo é quando eles representam os santos nos materiais e na dimensão dos brinquedos das crianças. Não há nada mais agradável que ver os humanos a acreditar em talismãs que levam na carteira ou no carro. Os que nos dão verdadeiras dores de cabeça são aqueles que param a rezar nas igrejas e sabem que aquela imagem é apenas uma representação; ou aqueles que levam uma medalhinha consigo e sabem que ela não tem poder mágicos, mas - algo muito mais insidioso – aproveitam-se dela para abrir o coração Àquele que nós queremos que eles esqueçam.

3ª Estratégia: OS SUPER SANTOS

Sempre que os humanos - com as suas projecções - idealizam os santos, isso deve deixar-nos verdadeiramente satisfeitos. Sempre que, em pinturas ou esculturas, em filmes ou biografias, exageram as qualidades humanas e espirituais dos santos e omitem todo o tipo de sombras, lutas e dificuldades que tiveram, isso dá um efeito espantoso! A ingenuidade dos humanos é tal que, ao representar os santos dessa maneira, não percebem que, em vez de embelezar e oferecer um modelo a si próprios, estão a inventar alguém que nunca existiu; e essa é a melhor forma de criar dois mundos aparentemente afastados: o dos santos e o dos humanos.
Não é preciso um esforço imenso para que os humanos se convençam de que nada têm a ver com aquela gente. Aliás, o supra-sumo disto é quando os mantemos na ilusão de que os santos nasceram santos, ou tiveram uma conversão repentina e nunca tiveram que subir a longa escada da santidade! Isso é hilariante; e tem efeitos admiráveis. Qualquer humano fica esmagado pela frustração e pela culpa, ao pensar que é o único que se bate com aquelas tentações ou limitações; e que nunca será capaz de chegar a Deus. Pelo contrário, se condescendermos em que seja mostrada qualquer debilidade ou fragilidade que seja dos santos, é dar oportunidade a que essa gentinha humana se identifique e encontre neles alguma pista para o seu crescimento. Isso é arriscado demais: seria catastrófico para nós!

4ª Estratégia: OS SANTOS-A-EVITAR-A-TODO-O-CUSTO
Independentemente do sucesso das estratégias anteriores, vale tudo para fazer com que os humanos acreditem em santos irreais, santos que nada tenham a ver com as suas vidas. O pior que nos poderia acontecer era que eles descobrissem os santos que acordam a meio da noite - várias vezes - para acudir um filho e, de manhã, agarram em si e ainda vão trabalhar; os santos que passam o dia sentados à secretária, entregando-se a um trabalho monótono mas que sabem beneficiar tanta gente; os santos que ninguém vê, porque não têm condições físicas para sair de casa, ou do hospital, ou do lar; os santos que adormecem no autocarro, apertados e aquecidos pelo respirar de todos, em dia de chuva, e ainda oferecem o lugar; os santos que sujam as mãos no mundo da droga, da miséria ou da política, para limpar a alma da sociedade; os santos, enfim, que arriscam a vida na luta pela justiça e pelo bem comum. Todos esses são os mais ameaçadores para a nossa missão.
Neste ponto, é impreterível que persuadamos os cristãos a continuar a declarar santos apenas a padres e religiosos, esquecendo esses outros humanos, que vivem inseridos no mundo. O pior que nos poderia acontecer era que qualquer pessoa na rua considerasse a santidade como algo que tem a ver consigo. Esperemos que isso nunca aconteça. Seria o fim da nossa espécie.

Casa do Enxofre, no insuportável Dia de Todos Eles

Vorazmente Teu,


Tio Escritorpe

(* C. S. Lewis, in Vorazmente Teu)

05 novembro 2015

Duas Últimas

Tenho uma ideia vaga de que a música clássica tem andado arredada do Duas Últimas. Não quis ir confirmar, pelo que a introdução não só não tem interesse como talvez não seja correcta...

Desde sempre que gosto de música triste, tema sobre o qual escrevi amiúde. Gosto de música triste quando está um sol radioso, quando chove, quando a alma se me entristece ou pipila de alegria, como um passarinho. A música alegre não me puxa para cima, como a música triste não me deprime. Para além da dimensão puramente estética (é bonito / não é bonito) ou do gosto pessoal (gosto / não gosto), a música clássica triste (e será que a palavra "triste" é utilizada com propriedade) tem um efeito relaxante. Sossega-me, talvez mesmo me ajude nalguma criatividade. Não sei se é assim, mas gosto de pensar que pode ser.

Ouvir estes pouco mais de dez minutos do Requiem Alemão de Brahms é entrar em contacto com o Sublime, que é um degrau acima da Beleza. Vale a pena ouvir com atenção, em silêncio, sem problemas de volume, que isto não é música de fundo. Estou em crer que todos os Requiem (pelo menos até à fase romântica) são profundamente bonitos. Este não é excepção. Oiçam alto - e entusiasmem-se por ouvir o resto.

JdB

04 novembro 2015

Carta a um anjo

Foi hoje, mas há catorze anos.

Hoje é dia de acalentar a esperança de vivermos dias melhores, de mantermos as boas lembranças e de nos esquecermos das más, de darmos um sentido à vida, de fazer da escuridão de algumas memórias uma luz que se acende para nós, para os outros; é dia de acalentar a esperança de não nos esquecermos de ninguém quando nos lembramos de ti, da esperança de nos encontrarmos todos um dia, mesmo que não saibamos nada, porque tudo é um enigma - o Céu, o amor de Deus, o propósito de sermos ou o mistério de existirmos. Hoje é dia de acalentar a esperança de saber diferençar a matéria do pó, o essencial do transitório, as pessoas dos transeuntes, os desafios dos tropeços, o olhar do ver.

Hoje é dia de acalanto; de aconchegar ao peito uma imagem, uma presença, uma memória, uma saudade, uma mão, uns dedos, uma certeza; é dia de acalmar um incómodo, de consolar um coração que bate tranquilo, não apesar de, mas por causa de. Hoje é dia de acalanto; é dia de aquecer a alma com o pó do Amor, de estender um olhar para além das agruras da vida corriqueira e o depositar na eternidade que não conhecemos, que estranhamos, mas onde já vives para nos ensinar o caminho. Hoje é dia de acalanto para cada um de nós que te conheceu directamente ou de ouvir falar, que estendeu uma mão quando a nossa pendia insegura, que nos falou mansamente para partir o silêncio que doía. Hoje é dia de fitarmos os olhos no Céu onde tudo começa e onde tudo acaba. É dia de dizermos dorme anjo. É dia de acalanto.   

JdB, em nome de todos os outros cujos nomes conheces, em cujas almas sopras 
  

03 novembro 2015

Poemas dos dias que correm

felizes


felizes os pacíficos, que suspendem a violência
e reparam as redes de logradas fainas
(ai a guerra, mãe da pobreza e irmã da morte)

felizes os que aos olhos do mundo
passam por inútil carga social ou rendimento zero
e que escondidamente participam da alegria
que aligeira a vida
(ai aqueles que a sede de poder afoga)

felizes os pobres de alguma pobreza boa
felizes os que lavam as feridas e vivem com os cegos
honrando neles o fundo de humanidade
que lhes é comum

felizes os que nas situações-limite
decidem da singularidade do fazer, da urgência
felizes os que, excluídos, despojados de qualquer imagem
no documento mortal pregado na cruz
inscrevem os seus corpos

felizes os que, intacta, guardam a sensibilidade
à injustiça, apegados só à força da Palavra que cura

felizes os que não pactuam com os anjos
escuros da morte total
nem desculpam os «erros humanos»
das nossas sociedades sem olhos
(ai os que no inferno climatizado sobrevivem
ai o terror mole do dia a dia sobre os ombros)

felizes os que, à imagem de Deus, perdoam
alargando o coração às dimensões de um mundo abençoado



José Augusto Mourão
In "O nome e a forma", ed. Pedra Angular

02 novembro 2015

Vai um gin do Peter’s?

Um dos clássicos do cinema, que vale a pena rever de quando em vez, é o lendário «ON THE WATERFRONT»(1), com um título em português pouco sugestivo: «Há lodo no cais». A tradução espanhola até resultou das mais felizes: «La ley del silêncio», a par da brasileira, que vai directa ao ponto quebrando o suspense que os europeus procuraram preservar: «Sindicato de Ladrões».

Assinado pelo realizador americano de ascendência grega ortodoxa, com raízes judaicas e nascido em Istambul, Elia Kazan mudou-se para os EUA aos 4 anos. E foi esta a pátria que amou com todas as suas forças, considerando-a o país da liberdade, por excelência. Considerava que «America is a dream of total freedom in all areas».

Apesar de premiado com 8 Óscares, em 1954 (quando as estatuetas eram atribuídas com mais critério), Globos de Ouro e Baftas dos mais significativos, à época causou enorme polémica por expor a mafia instalada no sindicato do poderoso porto de Nova Iorque. Tinha demasiada qualidade para poder ser ignorado e banido, com banda sonora de Berstein, fotografia a preto-e-branco lindíssima, além da interpretação magistral de Marlon Brando, que não o reconheceu quando viu o filme no estúdio saindo porta fora envergonhado com o seu desempenho. Com o tempo, os ânimos acalmaram e o filme entrou serenamente para o Top 10 das melhores obras da Sétima Arte. 

O argumento inspira-se na reportagem jornalística de Malcolm Johnson, premiada com o Pulitzer. A trama, baseada em factos verídicos, começa por ser muito prosaica, acompanhando a existência de um rapaz pobre, igual a tantos outros, treinado para sobreviver a qualquer preço. A violência entranhara-se-lhe na pele, desde tenra idade, regendo o seu dia-a-dia. Percebe-se a atracção pelo ringue e depois a necessidade desse ex-pugilista – Terry,  encarnado por M. Brando – fazer biscates para ganhar a vida, no porto de Nova Iorque. 


Também faz sentido ser bem acolhido pela máfia sindical, passando a mercenário incumbido de impor à maioria as regras absurdas de um sindicato despótico, onde qualquer assomo de protesto era calado pela força. Chamavam-lhe a lei do D&D (deaf and dumb), na abreviatura inglesa, obrigando todos a funcionar como surdos-mudos.

Estranho, mas igualmente verídico, foi, a dada altura, o tal mercenário ponderar uma mudança de vida para se regenerar! Grande revolução os valores maiores entrarem no horizonte mental de um rapaz que vivia imerso no imediatismo, puro e duro. De forma directa, interpelava-o a Justiça. Mas, de forma mais velada, deixara-se tocar pela própria de Verdade, i.e., por aquilo que a realidade é, sem os enviesamentos calculistas com que a acabamos por a achatar segundo os nossos interesses individualistas e autistas. Daqui irrompem sempre histórias muito criativas e factuais, daquelas de carne-e-osso, que entram para a História.

Fluindo com um realismo levado ao fio da navalha, a cena de abertura emite logo um primeiro e ínfimo sinal de dissonância num status-quo que parecia imutável, quando um estivador ainda novo (Joey) é selvaticamente atirado de um terraço abaixo, como se fosse um boneco. Era a sorte que esperava os que ousavam colaborar com as autoridades, rompendo o muro de silencio dos D&D.  Ora, Terry servira de isco para a vítima ser encurralada no terraço, mas ficara visivelmente desconfortável com um desfecho tão excessivo. Não tanto pela violência, a que estava habituadíssimo, mas por terem sido atropeladas regras mínimas de lealdade e de bom senso. Curiosamente, Terry era o único criador de pombos no seio das cúpulas sindicais, dominadas por falcões. Aprendera com os seus amigos pombos a fidelidade até à morte, às pessoas e aos princípios, por pouquíssimos que fossem (e eram), uns e outros. No fundo, não alinhava totalmente com o núcleo duro, cujo capo apostava fortemente nele.

Após o homicídio de Joey, aparece a família e a irmã desesperada a reclamar justiça, querendo romper o tal muro de silêncio, onde os assassinos prosperavam impunemente. A tentar acalmá-la, o padre amigo católico, pede-lhe tempo e fé, prontificando-se a recebê-la na Igreja. Réplica pronta da rapariga: Conhece algum santo que se tenha escondido na Igreja?

Mais brechas vão emergindo sub-repticiamente, alterando os comportamentos de alguns. Inspirado pelo alerta da rapariga, o sacerdote adopta o porão dos navios de carga como púlpito dos sermões incisivos, de denúncia frontal e a instigar à sublevação cívica dos estivadores, para se emanciparem do pesado jugo sindical. Não poupava nas comparações mais radicais, que deixavam os chefes sindicais à beira de um ataque de nervos: sim, Cristo voltava a ser crucificado em cada estivador maltratado e injustiçado.

 Como se fosse pouco no adensar da trama, Terry fica tocado por uma loira colegial e bondosa, que calha a ser a irmã da vítima, em cujo crime estivera involuntariamente envolvido. Percebemos que o seu temperamento frontal não lhe permite negar tal evidência. Nem essa nem nenhuma. Indomável até à medula, nada o fazia dobrar, nem mesmo a lei marcial dos chefes sindicais, de quem calhava a ser amigo. Só estímulos positivos o influenciavam, provando haver um lado muito benigno na sua natureza rebelde, mas com um fundo de verdade notável. Até porque coragem não lhe faltava. Também do lado da loira, a somar aos outros encantos, havia uma assertividade e bravura que não daria para passar despercebida. E não passou, claro.


Aos poucos, assistimos à viagem de um ser humano em crescimento, revelando as possibilidades inimagináveis de um coração que resolve bater-se pela justiça, com tudo o que isso implica, nomeadamente cortar com a engrenagem do mal a que pertencera.

Previsivelmente, o gang intratável dos sindicatos reage da pior maneira. Considerando-se, afinal, dono dos seus membros, qualquer tentativa de afastamento é taxada de traição, punível com pena de morte. No seu curtíssimo  e intolerante modelo de sociedade, não existem dissidentes vivos. Só dois grupos podem e devem coexistir, como em todas as ditaduras: o pequeno núcleo de líderes açambarcadores dos recursos e uma comunidade numerosa de gente à sua mercê, praticamente escravizada.

Imprevisível é a forma como Terry enfrenta a máfia e os vai neutralizando, sem disparar (a contragosto) uma única bala, que se afiguraria a única solução eficaz. Guiado e até atrapalhado pelos insólitos conselhos do padre, demasiado pacifistas e inadequados para uma guerra clandestina, o recém-convertido rebelde acaba por criar uma frente de combate que se revela incrivelmente eficaz, apenas sustentada numa causa Justa.


Quem diria que esgrimir uma arma tão etérea seria suficiente para derrubar o arsenal militar dos mafiosos. Faz para o caso, esta luta ter sido travada nos Estados Unidos, o expoente da democracia, segundo o realizador, onde as instituições – entre a sociedade civil representada pelo sacerdote e pela maioria silenciosa dos trabalhadores que a dada altura despertam, a justiça e as forças policiais (com uma intervenção muito profissional no filme) – são o melhor garante do Estado de Direito. Por isso, os pobres acabam por ficar menos expostos aos exploradores, enquanto os criminosos tendem a ser punidos. 


De algum modo, a recomendação de Sophia ecoa abundantemente pelo filme, em especial nas personagens do P.Barry e de Edie – “Vemos, ouvimos e lemos./ Não podemos ignorar.” Confirma-se quanto a resposta ao grito da Justiça franqueia sempre a possibilidade de abrir um caminho melhor para a humanidade, sobretudo em favor dos sem-voz. Terry revela ainda o espectáculo extraordinário de um ser humano que resolve tornar-se boa pessoa. Ainda bem que não ignorou, como sugere a poeta (nunca poetisa). 

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_________________
(1) FICHA TÉCNICA:
Título original: ON THE WATERFRONT   (com Óscar do Melhor Filme)
Título traduzido em Portugal: HÁ LODO NO CAIS 
Realização: Elia Kazan  (Óscar) 
Argumento: Budd Schulberg  (Óscar).
A partir da publicação de reportagens jornalísticas de Malcolm Johnson, publicadas no New York Sun e  premiadas com o Pulitzer.
Produzido por: Sam Spiegel
Banda Sonora: De Leonard Bernstein
Duração: 108 min. 
Ano:       1954
País: EUA
        Elenco:
Marlon Brando  (Terry Malloy; Óscar do Melhor Actor) 
Eva Marie Saint (Edie Doyle; Óscar da Melhor Actriz Secundária)
Lee J. Cobb  (Michael J. Skelly, conhecido por "Johnny Friendly")
Karl Malden (Padre Barry)
Rod Steiger (Charley, conhecido por "The Gent" Malloy)


Prémios: 
- 8 dos principais Óscares em 1954, nomeadamente de  Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento , Melhor Fotografia, Melhor Montagem, Melhor Actor, Melhor Actriz Secundária.  
- Bafta em 1954 (Reino Unido) - Venceu na categoria de Melhor Actor Estrangeiro p. Marlon Brando.  
- Globos de Ouro 1954 (EUA), nas categorias de Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Fotografia.
- Em 1989, a Library of Congress classifica-o como uma obra relevante «cultural, histórica e esteticamente», pelo que é seleccionado para ficar guardado no arquivo do National Film Registry. 
- Em 1997, o American Film Institute considerou-o o 8º Melhor Filme de todos os tempos.
             


01 novembro 2015

Solenidade de Todos os Santos

EVANGELHO – Mt 5,1-12

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
Rodearam-n’O os discípulos
e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

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