03 maio 2009

Imagens dos dias que correm (I)

Mother and Child (detalhe de The Three Ages of Woman), c.1905, Gustave Klimt

4º Domingo da Páscoa

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico. Mas hoje é, igualmente, o Dia da Mãe, pelo que relembro a minha condição de filho.

O meu post de hoje vai recheado de lembranças e homenagens. Em primeiro lugar segue a minha própria Mãe, por tudo o que me ensinou. Lembro-me, também, de todas as minhas amigas que tiveram a alegria da maternidade, seja ela biológica ou não, que abdicaram do seu sossego, conforto, comodidade para se entregarem a algo maior. Não esqueço as que se preparam para ser mães, desejando que encontrem nesse estado mais ou menos próximo uma alegria imensa, uma responsabilidade forte, um desafio quase transcendente.

Lembro as mães alegres, a quem a sorte e o esforço deram filhos saudáveis, equilibrados, encarreirados na vida correcta que escolheram seguir. Mas também, e sobretudo, as sofridas, que viram os seus filhos seguir caminhos incertos e dolorosos e que choraram com a doença, as fragilidades, mas, também, o desinteresse. Por todos os motivos, as que viram os seus filhos partir, vítimas de um mundo nem sempre justo.

Numa dimensão mais pessoal, lembro a condição de filhos dos meus próprios filhos e estou certo de que aquilo em que se tornaram é fruto de um trabalho conjunto e difícil, imperfeito mas esforçado, onde o papel de uma Mãe se reveste sempre de uma importância vital.

Bom Dia da Mãe

JdB

02 maio 2009

Imagens dos dias que correm


Fotografia tirada pelo meu telefone. Talvez seja tão bom que converte logo para aguarela...

Músicas dos dias que correm

Humanos - Muda de Vida

Explicação

Por motivos que se prendem com a importância das coisas, a crónica habitual de DaLheGas - esperada com ansiedade de semana para semana - não sairá hoje, o que lamentamos.

Resta-me, como editor e dono deste estabelecimento, entreter da melhor forma possível os visitantes deste espaço, o que faço com a certeza da imperfeição. Desculpem qualquer coisinha e oiçam a música, que pode ter um título premonitório.

JdB

01 maio 2009





nunca estive em buenos aires. nunca visitei a argentina. nunca coloquei um pé na patagónia (esse lugar mítico acima de quase todos, na minha escala interior). mas li muito sobre esse pedaço austral de terra e mar, partilhado por chile e argentina. eram os meus anos noventa e com eles aconteceram leituras intensas: o mais acessível (e, por vezes, tocante) luis sepúlveda; o chique e 'dandy' bruce chatwin; o velho lobo do mar chamado francisco coloane.. com eles descobri mapas geográficos, deambulei por outros tantos lugares inventados. sei de cor, desde então, nomes como ushuaia, puerto valdés, cabo horn, canal beagle, glaciar perito moreno, punta arenas, parque natural de torres del paine..

um dia, há anos suficientes para o poder agora escrever, gostei muito de uma pessoa que gostava muito de buenos aires - por lá ter vivido. e a cidade nela.

isto tudo para dizer que a argentina é um dos meus 'países afectivos', uma das minhas 'pátrias de estimação'.

segunda-feira, no cinema são jorge, à noite, estará um moderno cantor vindo precisamente de buenos aires. não li o suficiente, para saber se é bom ou mau, de acordo com os puristas e os teóricos da 'world music'. o que sei é que gosto muito da canção abaixo, que vos deixo como aperitivo para o espectáculo. se puderem ir, apareçam por lá - é coisa para valer a pena. chamemos-lhe intuição..

quanto à argentina, a buenos aires, à patagónia, um dia destes ganho coragem. ou então não. é que não se deve voltar aos sítios onde se foi feliz, não é verdade? e eu, sem nunca lá ter ido, dias houve em que, nesses mesmos sítios, como diz o outro cavalheiro da televisão, 'fui muito feliz'.




daniel melingo, 'sin luna'

30 abril 2009

A mala Louis Vuitton

Olhos negros de veludo. Olheiras românticas, naturais, nariz perfeito, cabelo grosso apanhado na nuca, pele translúcida. Mulher fatal, mulher menina, que conhece os seus encantos e que os usa alegremente, a seu belo prazer. Mancebos e homens, todos caíam aos trambolhões quando o seu olhar se cruzava com o dela. Olhar expressivo, trocista, divertido mas, tantas vezes, longínquo, introspectivo, intenso. E que gozo era vê-la rir alto, abrindo a boca grande e bem desenhada. Confiança transbordante, inteligência rápida, cortante, modos ora elegantes ora bruscos, nervosos. Adivinhava-se-lhe um temperamento forte e indomável. Ou talvez não … talvez tanta graça ocultasse muita fragilidade e uma fuga para a frente de um passado de dor, de dias e noites solitárias, ela com os seus livros, os seus livros com ela, tentando abstrair-se duma infância e juventude sem amor ou atenção.

Quem era ela afinal? Aparecia todas as noites, qual rainha, no pub barulhento e cheio de fumo. Do fundo da sala cheia, duma juke box que mais era uma velharia, arfava uma música country que ninguém ouvia. Sofás puídos, bancos forrados a couro encarnado, cervejas douradas brilhando à luz das lanternas baixas. A atmosfera era pesada mas animada, ao gosto da gente das redondezas. Gente ruidosa, mal lavada, rude e honesta, tal era a população que vivia naquele pedaço de terra fria e brumosa. Por isso se encantavam todos com os seus modos, a sua elegância e a sua aura de mistério.

Passava os dias em casa e as noites no pub, falando com todos e com nenhum, alegrando-os com a sua presença requintada, o seu olhar sedutor e aquele riso de perder a cabeça! Nunca explicava o que fazia durante o dia e muito menos as suas origens ou passado.

Chegara certa manhã, em meados de Setembro, com uma enorme mala Louis Vuitton, já velha e coçada, um casaco de astracã e um chapéu de aba larga e arredondada. A primeira coisa que fez foi dirigir-se à mercearia local, que sabia de todos os quartos para alugar. Alugara um com vista rasgada para o porto de mar e para uma pequena escola primária. Não tinha qualquer luxo, mas era agradável na sua simplicidade e tecidos desbotados.

E assim se passaram 3 meses. Em casa durante o dia, à noite no pub. Não saía, não se encontrava com ninguém. Havia quem a tivesse visto à janela do quarto, olhando demoradamente o recreio da escola primária. Mas para além disso, nada. Sempre elegante, fina, bem maquilhada. Só tinha dois vestidos, de corte impecável, ainda que antiquado, que usava alternadamente, e que lembravam tempos mais fartos. Se calhar tinha esbanjado a fortuna em casinos. Era o que constava …

E um belo dia, já próximo do Natal, apanhou o primeiro autocarro da manhã, era ainda noite, e abandonou a povoação sem se despedir de ninguém.

A senhoria, que nunca tinha trocado mais que duas palavras com ela, nem sequer entrado no quarto durante aquele tempo, e que se limitara a preparar-lhe as refeições servidas religiosamente às 8, 13 e 19:30, assustou-se quando o vizinho do lado a informou que tinha visto a sua inquilina na paragem de autocarro antes do raiar do dia. Ainda o homem não tinha acabado de falar, já ela lhe virara as costas, correndo escada acima rumo ao quarto dos tecidos desbotados.

O quarto estava meticulosamente arrumado. Os lençóis da cama usados dobrados aos pés da cama, um pequeno monte de notas num envelope e um bilhetinho azul claro, pousado na escrivaninha, com a seguinte mensagem: Obrigada por tudo. Encontrei o que precisava neste recanto do mundo: sossego, liberdade, convívio com gente sã e despreocupada que me fez rir e voltar a ser eu. Pedia-lhe o grande favor de entregar o que aqui deixei, na mala junto à janela, a uma menina de tranças loiras, alta e esguia, bibe verde às riscas e laçarotes cor-de-rosa no cabelo, que todos os dias via da janela deste quarto. Diga-lhe que encheu de alegria os meus dias tristes. Até sempre. M.

A senhoria, intrigada, voltou-se e deparou com a enorme mala Louis Vuitton debaixo da janela. Lentamente, um pouco a medo, aproximou-se e abriu-a. De tantos nervos, a tampa caiu-lhe das mãos e a mala voltou a fechar-se com um ruído seco. Tentou novamente, agora com as duas mãos. Desta vez a mala abriu-se, revelando o seu conteúdo. Cuidadosamente dobrada e maravilhosamente executada, estava uma colcha de cama em magnífica renda de Bilros cor de pérola.

Então era isso, disse a velhota com os seus botões, aqui fechada a fazer renda… deve ter trazido o baú cheio de novelos em vez de vestidos. Para o que lhe havia de dar ... ele há cada maluco…

PCP

29 abril 2009

15.000 - há horas felizes...

No dia em que ATM nos brindou com um belíssimo e cirúrgico tema sobre pessimismo, desânimo, conformismo e fatalismo, é-me grato constatar, como editor e dono deste estabelecimento, que atingimos os 15.000 visitantes desde que este espaço nasceu.

Aos visitantes que por cá passam, assim como aos meus colegas bloguistas que abrilhantam este canto, um agradecimento especial.

Tal como alguém vaticinava, alcançámos este número numa 4ª feira. Há horas felizes...

JdB

Largo da Boa-Hora

Primeira de Duas

Hoje, aqui sentado no meu banco, tomei uma decisão que é arriscada, inovadora e experimental, mas da qual espero colher os maiores benefícios, e que partilho convosco para, se resultar, me acompanharem.
O meu projecto é adoptar em mim tecnologias da informática que tão bons e eficientes resultados proporcionam nos computadores, conforme todos constatamos.
Assim, decidi instalar em mim, pelo adequado download, um antivírus que imunize o meu hardware (alma, cérebro, coração) e o meu software (aplicações emocionais e racionais) contra ataques dos vírus mais ameaçadores para a sua estabilidade e performance, quer impedindo a sua entrada no meu sistema, quer neutralizando eventuais infecções já provocadas.
Como é sabido, a aplicação destas tecnologias ao ser humano ainda não foi tentada, quanto mais testada, mas eu arrisco a ser cobaia.
Ora, a primeira tarefa é delimitar, na panóplia dos vírus existentes, quais os elegidos para lhes impedir o acesso e expurgá-los do sistema se por acaso já passaram.
Como é sabido, não existe, ainda, no mercado, o produto de que falo, pelo que tenho eu de construir a aplicação a instalar, a qual será assim artesanal, protótipo, e, porque não sou especialista, muito limitada no seu alcance.
Acresce que não saberia cobrir todo o espectro dos vírus danosos, nem arriscaria ir tão longe na introdução experimental de tal novidade no meu sistema, porque certa cautela e prudência são mais do que recomendáveis, desconhecendo-se, como desconheço, os efeitos colaterais e demais sequelas possíveis destes caminhos nunca dantes navegados.
Tudo meditado e sopesado, e privilegiando as urgências e importância nociva, elegi como vírus alvo, a interditar ou expurgar, o desânimo, o pessimismo, o conformismo e o fatalismo.
Aqui começam as dificuldades deste artífice informático. É que tenho, primeiro que tudo, de caracterizar cada um dos elencados vírus para incorporar no programa o respectivo antídoto. Vamos, pois, lá tentar.
Desânimo, patologia da alma, que provoca no sujeito desalento, abatimento, esmorecimento, gerando uma incapacidade de acção e reacção para enfrentar a vida e as suas dificuldades. Em casos extremos reduz o ser humano, por excesso de inércia e inactividade reactiva, à condição de autómato, apenas capaz de agir e reagir a estímulos básicos e necessidades vulgares, decorrentes da mera sobrevivência. Importam consigo, sempre, o apagamento da alegria, da vontade de fazer, da confiança em conseguir alcançar, ou pelo menos de cair a lutar, a tentar.
Arrastam-se em quotidianos de tédio, em que está indistinta a distinção de si mesmos, engrossando caudais de seres que, por causa nenhuma, seguem os mesmos caminhos, na mesma ordem das coisas banais e vulgares, como que agrilhoados a um não destino qualquer, pois todos são indiferentes.
Pessimismo, patologia da alma, que provoca no sujeito a convicção profunda, a certeza absoluta de que no itinerário da vida o mal prevalece sobre o bem, o mau sobre o bom, o desamor sobre o amor, a dor sobre a felicidade, o infortúnio sobre a boa ventura, o insucesso sobre o êxito, a ruína sobre a edificação, a frustração sobre a obra, o pesadelo sobre o sonho. Em casos extremos reduz o ser humano, por premonições e visões dantescas, à condição de apavorado, tolhido e transido de medos e maus augúrios, mortificando-se por antecipação de sofrimentos certos, que lhes cobrem a alma com mantos pesados e negros de luto, e lhes encovam os olhos num negrume de breu. Arrastam-se em quotidianos que são cortejos fúnebres de um constante enterramento da vida, lamuriento e lúgubre.
Conformismo, patologia da alma, que provoca no sujeito a aceitação incondicional e reverente do actual estado das coisas, do se ser o que se é, do se sentir o que se sente, do se desejar o que se deseja, do se estar onde se está, do viver o que se vive e como se vive, numa renúncia e abdicação conscientes e voluntárias à alteração, inovação e até revolução, se necessário. Em casos extremos reduz o ser humano à condição de amorfo, de discípulo obediente acrítico, de subserviente da ordem e estado das coisas tal como configurados, formatados, no tempo em que vão passando. A vontade própria, privada que está do alimento do sonho, da imaginação e fantasia, do projecto, da ambição e desejo, esbate-se e dilui-se até se liquefazer em curso para uma qualquer vala comum.
Arrastam-se em quotidianos que são cortejos de cegos que recusam ver o sol e o horizonte, apenas lhe importando a corda guia que, estendida pela hierarquia e poder, lhes vai atando os caminhos.
Fatalismo, patologia da alma, que provoca no sujeito o convencimento da sua impotência para influenciar o curso dos acontecimentos, de modo que o destino de cada um, por mais que se faça, está fixado “a priori”, e seguirá inexoravelmente essa determinação, desacreditando-se, assim, a autodeterminação como expoente da condição humana, cujo exercício, na verdade dita, ou pelo menos influencia, decisivamente o futuro de cada um. Em casos extremos, reduz o ser humano à condição de testemunhas de si próprios, com abdicação de criadores de si mesmos, numa deprimente troca do lugar no palco pela cadeira de plateia, de intérpretes da sua vida passam a espectadores de uma vida que, por pormenor despiciendo, até é a sua. Desacreditando na sua vontade, esclarecimento, coragem, inteligência, capacidades, talentos, vontade, sonhos e desejos, desprendem-se de si próprios, largando o seu destino ao sabor das correntes, marés e ventos, como coisa que lhes não pertence guardar, definir e seguir como coisa própria. Quando se entrega o destino à discricionariedade do que está escrito nos astros, vai também, nessa entrega e desprendimento, a alma, que existe precisamente para animar a escolher e cumprir o que se decidiu livremente ser. A alma é o sopro, o vento, que enfuna as velas da nossa barca no rumo que o homem do leme lhe deu.
Arrastam-se em quotidianos que são cortejos de bruxos e adivinhos, astrólogos e magos, curandeiros e adivinhadores, curiosos e dedicados a descobrirem e lerem o que sabem já estar escrito no futuro, desprezando nessa ânsia o presente que vai passando e que não vivem na ganância da antecipação.
Escolhidos os mais ameaçadores vírus, e descritos sumariamente (desânimo, pessimismo, conformismo e fatalismo), cabe agora a este aprendiz de feiticeiro informático desenhar o antivírus, coisa que farei noutra jornada de trabalho, que o Sol vai alto e o tempo de estada neste Largo por hoje terminou.

ATM

28 abril 2009

Quase História

Nunca passou desse quase
o quase de te beijar.
E, sem passar dessa fase
(da fase do desejar),
sem te dizer uma frase,
sem sequer me aproximar,
sabe tão bem esse quase
que assusta só de pensar
que o quase só chega a quase
se for a sério o tentar.

JCN

27 abril 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, dia de S. Gabriel, padroeiro dos correios.

Meu querido Igor, amor do meu coração,

Levantei-me descrente da previsão meteorológica. Do apartamento onde vivo ouvem-se, ao longe, rumores de ondas a bater nas rochas, respira-se um ar de maresia que encanta, tão diferente do que temos em Moscovo.

Tinha algum tempo antes da aula seguinte neste instituto onde ensino os poetas russos - a sua profundidade, o seu patriotismo e devoção à Mãe Rússia. Assim, fui dar uma volta rápida até à praia, sorver o ar salgado, senti-lo na pele e nos cabelos, deixar-me envolver por uma qualquer inspiração que me leve a escrever esta carta, e que ela te revela a felicidade em que vivo, apesar da tua ausência.

O mar estava batido, fruto do mau tempo que tem assolado esta área do país. A praia, completamente deserta, era varrida por ondas que iam e vinham com uma cadência própria, indiferentes à minha vontade. Soprava um vento forte, mas, mesmo assim, virei a cara para o enfrentar. Fechei os olhos e, por momentos, estavas ali comigo: as tuas mãos delicadas de pianista, os teus cabelos desgrenhados tão característicos de qualquer artista, os teus olhos oscilando entre o vivo de quem apanha tudo à volta e o absorto de quem se refugia num mundo próprio. Sentei-me numa rocha e observei a tonalidade do mar, entre o azul claro e o azul-escuro, com manchas esverdeadas salpicadas de espuma branca. Senti-te ao meu lado.

Não sou escritora, não te saberia descrever poeticamente o ambiente que me rodeava. Há uma sensação difícil de partilhar na visão de um temporal. Haverá quem se atemorize, quem seja vencido por tristezas, quem se refugie na segurança e conforto de um lar. Eu quis vivê-lo, porque é no vento forte, na ameaça de chuva, no presságio de trovoadas que me elevo e vivo, sigo em frente, me confronto com as dificuldades, encontro criatividade e força para ultrapassar obstáculos.

Não deixei de sorrir. Tudo parece conjugar-se para levar a bom porto o que me trouxe aqui: um emprego regular a ensinar o que a Rússia produz de melhor em termos de literatura, um dinheiro que vou juntando para compormos a nossa vida. Na visão quase em permanência do mar - algo que se vai tornando perigosamente viciante - suspiro pelo tempo em que nos poderemos abraçar, ler juntos ao som dos nossos clássicos. Quero olhar para ti e sentir que acreditas quando te digo que és o homem da minha vida, e que a passagem por este país não é mais do que o intervalo para um segundo acto - tu e eu - que se adivinha glorioso.

Guardo todos os meus abraços para ti, amor da minha vida. Tua, Olga.

Olga, a russa licenciada em Literatura cuja avó foi protegida da Czarina e cita os poetas quando recebe clientes, não é mentirosa. Traduziu-me a carta que escreveu ao seu namorado e, no seu rosto, não havia vestígios de desonestidade, laivos de um espírito enganoso. Estou certo de que quando ela fechou os olhos e a escreveu, vertendo lágrimas saudosas sobre um papel de média qualidade, viu o mar, sentiu o ar salgado, tentou vislumbrar a rotina certa das ondas que se desfazem num areal vazio. Há cartas que se escrevem às escuras, sem ver as letras que se ordenam ao longo de linhas direitas, sem atentar na precisão da pontuação, sem qualquer preocupação sobre as palavras escolhidas, porque as mais verdadeiras são as que nos saem da ponta de uma caneta sem que passem pelo crivo da artificialidade.

É neste mundo que Olga vive, porque quando desperta para a realidade e olha pela janela vê o tapume do prédio que vai sendo demolido junto a esta Fábrica da Ilusão. O ruído ambiente não é o das gaivotas que planam sobre o mar, mas o dos martelos pneumáticos que destroem tijolo e cimento. O cheiro não é o da maresia, mas o dos corpos humanos, do pó que anda pelo ar, das águas-de-colónia baratas ou inexistentes que classificam quem lhe entra pelo quarto adentro. Quando destapa os ouvidos não é Rachmaninoff que ouve, mas a frase fatal,

- Olga, tem aqui um cliente
.

ainda que dita com um tom de voz simpático, de quem tenta conciliar humanidade e rentabilidade.

Olga, a rapariga alta e de olhos esverdeados que veio de Moscovo, não mente. É naquele mundo que ela vive, porque o outro (será o da realidade ou da fantasia?) não é mais do que um devaneio. Todos temos luz e sombra, assumidas de forma própria por quem se olha ao espelho da vida. De facto, quantos somos dentro de nós?

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

Interpretações dos dias que correm



A propósito de um concerto fantástico. Sábado à noite no Centro Cultural de Belém.

Nota: a interpretação termina aos 5:17s. Vale a pena.

Lanterna Vermelha - explicação

Não sei se terá sido a ASAE ou o SEF, mas o facto é que a Lanterna Vermelha abrirá hoje ligeiramente mais tarde, talvez pelas 11 da manhã. Informação dada a pedido de MTS. Fiquem por perto.

JdB

26 abril 2009

3º Domingo da Páscoa

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

A minha vida não será muito diferente da existência da maioria das pessoas: momentos bons, em que tudo parece correr sobre rodas fruto de um alinhamento favorável dos astros, da sorte, do nosso esforço; outros haverá em que me vem à memória uma frase dita por um amigo de longa data à mesa das cartas: quando a sorte é maniversa, nada vale ao desinfeliz: em cima de uma vida profissional periclitante surge um pneu furado numa estrada secundária às escuras, depois de detectada uma dor de dentes descontrolada a horas impróprias de dentista.

Algumas pessoas com quem vou conversando solidarizam-se com os meus momentos menos bons, assim como se regozijam com os que me alegram. Para os primeiros têm palavras de estímulo, de conforto, de ânimo. Não raras vezes surgem frases retiradas da alma, da sabedoria popular, dos livros de auto-ajuda: vais ver que Deus te ajudará, ou, ainda, um dia descobrirás o sentido para isto que acontece; já devo ter ouvido que não há acasos, tudo tem uma razão.

Confesso com humildade e convicção em partes iguais: tenho a certeza de que Deus não tem nada a ver com o interruptor que é a minha (nossa) vida, no sentido de não ser Ele quem o activa. Se assim fosse, qual a justiça de ver gente de um lado a quem tudo parece correr bem e, do outro, gente a quem a vida parece um permanente carreiro de silvas? De facto, o que nos acontece faz parte das leis terrenas, do acaso, da nossa atitude, também, perante alguns acontecimentos que ensombram ou iluminam os nossos passos.

Quanto ao sentido que damos aos acontecimentos, tudo fia mais fino… Há muito que me habituei a não perguntar porquê?, mas para quê?. Há uma sensação de déja vu, tantas as repetições do raciocínio. Confesso, no entanto, que nem sempre consegui obter respostas. Nalguns casos, mesmo, a minha mente tem dificuldade em formular a pergunta. Quedo-me pelos sentimentos mais negativos e que não acrescentam qualquer valor à resolução dos vários problemas com que me defronto. Quando me indicam criaturas de Deus que fizeram isto ou aquilo, que reagiram com sucesso desta ou daquela maneira, respondo silenciosamente com o encanto na diversidade da vida: nem todos resolvem todos os problemas da mesma forma, e alguns só conseguem mesmo resolver parte.

E, de facto, pergunto: será que tem de haver um sentido para aquilo que nos acontece, ou, independentemente de sabermos as causas de determinadas ocorrências, a nós não nos resta mais do que apanharmos os despojos em que nos tornámos e talharmos um fato novo à medida do que sobra ou se reconstruiu? Haverá, na realidade, um motivo para tudo o que nos sucede, ou desse mesmo tudo apenas podemos e devemos tirar um ensinamento? Será que determinados eventos na nossa caminhada fazem parte de um esquema global e misterioso, cujo sentido nem sempre temos tino para descortinar? Essa coisa de um dia mais tarde perceberás porque te aconteceu isto baralha-me o raciocínio, confunde-me, leva-me ao determinismo e ao livre arbítrio. Não te metas nisto - seria conselho amigo de um professor de Ciências Naturais às dúvidas legítimas de alunos curiosos...

Muito se fala, a propósito do que referi acima, de felicidade, do que isso é, do que queremos e de como lá chegamos. Textos há que nos surpreendem, não pelo raciocínio brilhante, mas pela oportunidade do seu surgimento. Será uma prova da tal ordenação de factos e acontecimentos à escala planetária e oculta? Texto do Pe. Vasco P Magalhães, retirado daqui:

Uma mentira, por mais que se proclame e repita, não passa a ser verdade. Uma das mais frequentes e destruidoras é esta: Tenho direito a ser feliz! E esta mentira instala-se na cabeça de imensa gente a ponto de justificar tanto abandono e sofrimento, tanto acto egoísta. Tudo por um prazer, quase sempre efémero, tornado direito. Com isto avança um mundo doente e em ruptura. Ser feliz não é direito, mas dever! Tenho o dever de procurar a felicidade e só me aproximarei dela fazendo felizes os outros! Mas, atenção, felicidade não é ausência de sofrimento.

JdB

25 abril 2009

Meu caro 25 de Abril

Naquele último ano em Angola eu tinha feito uma exemplar 1ª classe. Lia todos os reclames da cidade com destreza, contava dinheiro sem dúvidas e inaugurava-me nos caminhos da Liberdade. Vagueava pelas ruas, juntava-me a uns quantos como eu, e a praia Morena era toda nossa. Eu já estava lançada e a minha família habituada, quando vossemecê apareceu todo badalado. Foi vir e ver: só desgraça, só confusão. A bem dizer, tramaste-me a vida. E não foi pouco. Estava tudo muitíssimo bem encaminhado lá em Benguela. Tudo sobre rodas 25! A minha Liberdade acabou quando a tua começou. Isso não gostei. Não gostei mesmo ó 25.

DaLheGas

24 abril 2009

(Alguns d)os Discos da Minha Vida

(continuação da semana passada)

por vezes, em particular comentando o peso da música no blog "flores de inverno", chegam-me reacções do género: "fala muito de música, de bandas, de artistas, de canções que não conheço de todo!". ou ainda coisas como: "nem sempre é fácil de seguir os seus textos sobre música!". e também tiradas como esta: "isso de música moderna não é bem para mim!".

pois bem, para todos vós, eventuais interessados em aprofundar este mundo, resolvi dar uma ajudinha. nada de transcendente, apenas e só uma lista, devidamente comentada (mas não no sentido mais técnico ou contextual dos artistas ou de cada disco, antes de uma forma que apelidarei de "mais impressiva"), contendo duas dúzias de discos fundamentais no meu próprio percurso enquanto ouvinte atento de tudo o que se faz no (cada vez mais vasto) campo da música popular moderna (desde os anos 60 até aos dias de hoje, em termos de balizas temporais).

estes são alguns dos que resistiram à passagem do tempo, esse teste decisivo. poderiam estar aqui outros tantos, bem o sei. no entanto, quando fazemos estas coisas o coração também conta. faltarão aqui, seguramente, discos fundamentais. por uma questão de critério, resolvi excluir toda a música portuguesa mais pop-rock, toda a música brasileira, toda a world-music, toda a música electrónica mais experimental, os projectos declaradamente mais underground, bem como áreas que humildemente pouco domino (à cabeça, desde logo, música clássica, canto lírico, jazz) ou até música dos dias de hoje (por lhe faltar exactamente nem que seja meia-dúzia de anos de perspectiva..).

é, por outro lado, uma lista essencialmente criada & interpretada em língua Inglesa. com poucas excepções, pode ser arrumada na gaveta da "música pop rock de origem anglo-saxónica". começa na segunda metade dos anos sessenta e termina no início do XXI. repito: muito longe de exaustiva, é apenas e só uma possível porta de entrada para novas descobertas, que vos oferece uma "garantia mínima de qualidade".

uma leitura mais atenta (e, idealmente, a sua escuta) conduzirá a uma outra conclusão: quase todas estas obras têm em comum uma propensão para o formato canção, para o que se chama o "singersongwriting". é uma música fortemente pessoal, fortemente emocional, escrita e cantada na primeira pessoa. ninguém tem culpa do que gosta (ainda que o gosto se eduque, dentro de certa razoabilidade) e, muito menos, do que é (ainda que tenhamos todos a possibilidade e a obrigação, diria étca, de nos aperfeiçoarmos continuamente). mas isto são já, como dizer?, outras músicas!

que vos seja minimamente útil, são os meus votos. podem sempre descobrir estas coisas devagarinho, via "you tube". ou então imprimirem a lista e, de vez em quando, arriscarem comprar um destes disquinhos.

boas descobertas!

lambchop, is a woman
tão bonito, mas tão bonito. tão terno, mas tão terno. tão zen, minimal, que parece música de outro mundo. melódico, cifrado, cheio de palavras inglesas que quase não se entendem.. e, no entanto, é tão fácil perceber que eles falam de jardins. de flores. de coisas assim. e sim, "is a woman". ou "is a man". nada mais importa, tantas vezes.

lloyd cole & the commotions, rattlesnakes
um quase clássico. há muito que admiro este rapaz-hoje-homem. não é um génio, mas tem "qualquer coisa". neste disquinho há música que nos leva "on the road". pele perfeita, corações despedaçados, fogos de verão, animais do deserto. metáforas perfeitas e linhas musicais perfeitas de um certo tempo - o tempo certo.

lucinda williams, essence
country-rock, com um pouco de chanson americana, algum blues.. um disco que poucos conhecem. o melhor desta senhora, que, numa voz marcada pelas agruras da vida, nos canta um amor carnal, o desejo - a par do amor divino - de uma forma que é sublime. é esta a palavra, sublime.

neil young, after the goldrush
o disco de neil young. mais um que não tem uma ruga. e que começa em 20 valores e acaba em 2o valores, sem oscilar um décimo de segundo. música com nervo, música com riffs de guitarra e com guitarras que choram. é um disco que nunca me cansa, que está sempre pronto para me receber, é um disco generoso - "don't let it bring you down, it's only castles burning", não é tio neil?

perry blake, perry blake / still life / california
um génio da modernidade, nos seus primeiros 3 discos: tão negros, tão tristes - e tão bonitos, mas tão bonitos, que, sem hesitar, o coloco ao lado dos maiores. os discos mais recentes estão abaixo, mas os primeiros 3 talvez não tenham igual na sua qualidade homogénea, dentro dos singersongritters dos últimos 15 a 20 anos. música de sombras, de sussurros, de saudades, de mágoas, de abandono, de dor. e, contudo, cada canção é uma estrela cadente.

david sylvian, secrets of the behive
clássico deste rapaz fundador dos japan. disco de 1987, cuja descrição possível poderia passar por: atmosférico, literato, lento, lírico - música celestial, se por acaso um deus grego fosse hoje poeta pop.

spain, the blue moods of spain
slow core. grupo algo obscuro, mas que nos deixou esta obra-prima (entre os 3 que gravou, nos finais dos anos 90). desta música se diz que é aquela que nos embala numa noite de verão, enquanto deitados numa cama de rede ao relento, olhamos a estrelas e dentro de nós construímos e depois destruímos universos inteiros. rima com bandas como low, mazzy star, coisitas assim.

gavin friday, each man kills the thing he loves
este senhor fez, a meu ver e do que conheço, uma única coisa "a sério" : este disco. mas este disco é o disco, mais um, da ressaca amorosa. mistura kurt weill com tom waits, mistura oscar wilde com brecht. tem um grupo de instrumentistas que é um all-stars. mas tem, antes de mais, uma alma negra. nele se canta a queda. o que era, o que já foi. é assim como um único grito.. o estertor da beleza. e do sentido.

jay jay johanson, whiskey
uma estreia em grande, nos idos de 1996. um pastiche que arrisca o ridículo e ganha a dignidade. crooner romântico envolto em electrónica quase de feira. vicia. e tem uma coisa que é "apenas" jay jay a fazer de michael nyman a fazer de mozart a fazer de.. deus? lá para meio do disco e chama-se "i am older now"..

camané, uma noite de fados / na linha da via / pelo dia dentro
a minha descoberta do fado. os concertos. os café-concertos. o repertório perfeito. a voz que canta de dentro. uma experiência, para mim, quase religiosa. eu me confesso: adoro camané. como nunca pensei.. foi assim, aos 30 anos, amor à primeira vista. é só emoção.

micah p. hinson and the gospel of progress, sem título
este disco de 2004 ou 2005, narra, em estilo autobiográfico, a queda do seu autor (mais uma vez, um amor louco..). é o disco mais negro que escutei nestes últimos anos. e isto é dizer muito, porque, como já deu para perceber, sobre as sombras sei alguma coisa ;-). arrepia tanta exposição, tanta dor, tanta coisa que sabemos ser.. exactamente assim. a escutar, mas com cinto de segurança bem colocado..

azure ray, hold on love
duas meninas que criam uma atmosfera introspectiva, extremamente doce e harmoniosa, para cantar coisas sérias, daquelas que poucos de nós sabemos exactamente como articular. uma porta aberta, mágica e linda, para o coração, para as geografias interiores. um disco soberbo, repleto de recantos preciosos. intemporalmente belo.

rufus wainwright, poses
"poses", "the tower of learning" e "cigarrettes and chocolate milk" - 3 canções que nos mandam para cima, muito para cima. descobri-o, deitado numa cama, a olhar o céu estrelado de um quarto decorado com estrelinhas reflectoras. aqui entro na minha história pessoal. uma forma de dizer que cada disco de que atrás falei tem um outro nível. aquelas coisas que são o que de mais precioso guardamos em nós. é isto a música. a banda sonora da aventura humana.

gi

23 abril 2009

i noutro instante ainda...

i num instante tudo muda

Cartas


Mão simpática, e que conhece bem o meu apreço por cartas, fez-me chegar um caixote poeirento onde se amontoava a generalidade das que me foram endereçadas ao longo dos tempos.

Naquela caixa de cartão canelado em mau estado e sujo estavam anos de correspondência sem o menor interesse para a cultura nacional: não revelam pensamentos superiores, não evidenciam versos redentores, não mostram textos que mereçam publicação. Nada daquilo - confesso sem a menor vontade de diminuir o que quer que seja - tem valor a não ser para uma pessoa: eu! Talvez, por mera curiosidade revivalista, para alguns dos remetentes.

Ao passar a mão por aquela quantidade de envelopes velhos, e na tentativa de os organizar minimamente (podia chamar-lhe classificação mas afigura-se-me demasiado pomposo…) encontrei uma carta de 1971, sobre a qual escrevi quando me referi à minha amizade com o JdC. Do meu acervo (como soa bem esta palavra...) talvez seja a mais velha: um papel trivial, uma caneta de feltro trivial, palavras triviais e demolidoras para quem tem anseios do alto dos seus 13 anos.

Mas, o facto é que naquela correspondência, simples e despretensiosa, está grande parte da minha vida. Reli, entre outras, cartas de amores e desamores, de amigas que morreram cedo de mais, de gente que me brinda com o gosto da sua amizade há mais de 30 anos, de pessoas que nunca mais vi e que há três décadas já encontravam características que ainda hoje tenho, de amigas estrangeiras que não reconheceria na rua e que alegravam os verões estorilenses, de gente que, no Brasil, recomeçou a vida após a revolução.

O correio electrónico matou a carta, transformando algo que podia ser fascinante do ponto de vista da grafologia, da ordenação de ideias, escolha do papel e envelope, num exercício de eficácia duvidosa, palavras encurtadas, siglas, pontuação que, arrumada de certa forma, revela bocas que choram ou que riem. Raras são as pessoas que escrevem por email e que revelam cuidado pela forma e pelo conteúdo. Na maioria dos casos (e contra mim falo) queremos apenas que nos entendam. Sinal dos tempos...

O meu caixote não tem encanto científico nem cultural. Mas, repito, está ali a minha vida de jovem imberbe, adolescente apaixonado e infeliz, militar garboso e exilado em quartéis próximos, filho, marido, pai, amigo. No futuro, estou convencido, não se publicarão mais cartas, porque a voragem do espaço que se ocupa obrigará as pessoas a fazerem delete e, posteriormente, empty recycle bin. Um dedo apenas apaga uma vida de partilha.

Sempre gostei da epistolografia, porque acredito que é numa carta que nos revelamos. Mas isso sou eu.

JdB

22 abril 2009

Largo da Boa - Hora

Este meu Largo está luminoso, ensolarado. Predomina o azul do céu e a claridade emana das fachadas; esvoaçam os pombos e os pardais depenicam por entre as pedras alvas da calçada, as árvores agitam-se pela força da Primavera que lhes dá vida e movimento. Na calçada desenham-se esguias sombras, os meus bancos retomam o seu sentido, as janelas estão escancaradas a sorver o ar fresco e límpido. As pessoas que surgem já não correm, caminham como em passeio. Enfim, tudo flui na simplicidade e ligeireza dos tempos amenos e primaveris que adoçam e pacificam.
Olho o meu Largo que suportou estoicamente o inverno e que agora se aconchega na ternura da primavera. Sinto-me bem, sinto-me alegre, apetece-me estar a desfrutar esta calmaria, esta serenidade.
Mas não posso ficar, tenho de partir, tenho uma agenda a cumprir. São horas de ir, são sempre horas para qualquer coisa.
Sinto raiva deste viver que não consente momentos de indolência, de recolher o sol, a luz, a cor e os sons que me aquecem, abraçam e embalam, suspendendo-me para me diluir neste quadro que me rodeia, sem mais ser do que uma parte dele e com ele, como se estátua aqui pousada fosse.
Mas não. Não sou, nem nunca serei mais do que inquietação em movimento, sempre em afazeres, sempre em acção, sempre ocupado, sempre em caminho.
A causa de não poder fazer parte de quadro algum, nem que seja por umas horas, está no excesso de coisas, de assuntos, de eventos, de pessoas, de compromissos, de empreendimentos em que nos deixamos envolver e que acumulámos nas nossas vidas.
Sinto-me presa de uma teia de aranha, em que falta sempre suprir um emaranhado de fios para alcançar a liberdade de estar livre de compromissos, de obrigações, de tarefas e prazos a cumprir.
Há sempre um mais a fazer, um ainda a realizar, um último toque ou retoque que impede, adia aquele tempo de dissolução, como inerte, num quadro qualquer de que eu queira fazer parte.
Por vezes apetece-me gritar pelo direito a ser coisa, sem outro fazer do que estar e ficar sem mais na paisagem que quero desfrutar. Ser pessoa cansa…
No fundo, do que estou a tratar é do direito, melhor, necessidade emocional, de existir tempo de contemplação na nossa vida, por contraposição ao permanente tempo de acção em que nos vamos esgotando, sem oportunidade para o primeiro.
Dir-me-ão que o segredo para a viabilização, para a conciliação destes tempos e modos de vida estará na selectividade, na escolha criteriosa das “acções” que assumimos e aceitamos, para que sobeje tempo para a contemplação que reclamamos, para a diluição nos quadros que elegemos, para fazer parte deles como paisagem.
Em teoria, esse segredo, essa recomendação, não terão contradição. Mas, na prática, a sua eficácia já não será tão evidente.
Com efeito, ser pessoa tem inexoravelmente, por inerência, uma série de qualidades (títulos) extra, que se adquirem automaticamente, e que limitam por natureza a possibilidade dessa selectividade.
O primeiro título inerente a ser-se pessoa é o de cidadão. Ora, ser cidadão importa uma série de trapalhadas, trabalhos e burocracias que, além de imensas, a respectiva necessidade de realização se renova logo que está concluída a última etapa (tratado o cartão de cidadão caduca a carta de condução, obtida o cartão de utente da saúde caduca o passaporte, e assim por diante, até ao infinito).
Ser cidadão consome agenda, porque o Estado acalenta uma relação com os seus cidadãos que exige contactos amiúdes e prolongados, havendo sempre, em cada mês, ou até semana, um assunto a tratar conexo com essa relação de cidadania.
Existem, ainda, os subtítulos de contribuinte fiscal e beneficiário da segurança social, os quais, todos sabemos, são assuntos constantes no dia-a-dia da pessoa.
O segundo título que acompanha a pessoa é o de profissional. Ser-se profissional hoje, seja do que for, é um sacerdócio, e não um modo de sustento. Aparentemente, e só aparentemente, somos todos absolutamente indispensáveis, preponderantes, importantíssimos nas organizações para as quais trabalhamos, sendo cada um conditio sine qua non para o respectivo êxito. Com este grau de responsabilidade, até sentimentos de culpa temos por gozar fins-de-semana ou férias, quanto mais não viver nos dias úteis obcecados e completamente comprometidos e disponíveis, a toda a hora, modo e para o que seja.
Como terceira inerência da categoria pessoa, temos o título de consumidores. Arrepia pensar nos trabalhos, diligências, esforços e angústias que consumir bens e serviços importam. Tratar de seguros, abastecimentos das redes públicas, televisão, telemóveis, computadores, e toda a demais panóplia de comodidades e utilidades que nos rodeiam é agenda. E que agenda! Há sempre um pendente, esta é uma constatação sem excepção, e, se incluirmos o banco….então não falhará um dia em que não tenhamos de cumprir qualquer diligência ou tarefa.
E poderia seguir enunciando os demais títulos inerentes à categoria pessoa, como seja o de proprietário, social, etc, etc., mas tal talvez não se justifique, porque já entenderam o meu pensamento sobre a pretensa liberdade de sermos selectivos na escolha do tempo que dedicamos à acção, para sobrar o necessário para a contemplação.
Lamentavelmente, a conclusão é que a pessoa, porque é, em simultâneo, cidadão/contribuinte/profissional/consumidor/proprietário/social/etc, etc, tem os seus santos dias preenchidíssimos para dar conta dos recados e incumbências destes títulos todos, pouco lhe sobrando para a almejada contemplação.
Parece-me irrefutável o que venho descrevendo – acumulamos dever fazer, sem oportunidade para o nada fazer. Mas, e aqui é um paradoxo, apesar de todos sentirmos este excesso de deveres, a verdade é que, inexplicavelmente, ainda complicamos mais as nossas vidas com voluntárias e suicidas sobrecargas de “deveres” que limitam, ainda mais, a nossa liberdade.
Exemplos não faltam: alimentamos dependências como seja a da (des)informação, da televisão, do cinema, do consumismo, ou inventamos necessidades que realmente não temos e que colmatamos com dispêndio da nossa liberdade e tempo.
Sabem, pode ser que não haja outra forma, que a realidade, sendo esta, não possa ser modificada, e que tenhamos de nos conformar., Mas dói, faz pena e até revolta que ninguém veja as árvores crescerem, apenas nos espantamos pelo tanto que entretanto cresceram.
Deixo aqui um desafio que aceito para mim: vou escolher uma árvore pequena e comprometo-me a diariamente gastar alguns minutos a vê-la crescer; vou quotidianamente contemplar esse pedacinho de natureza, em homenagem a toda a Natureza que a agenda me rouba.

ATM



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