05 setembro 2022

Músicas e artistas dos dias que correm

 


Susan Kay Quatrocchio nasceu numa família católica e musical em Detroit, Michigan. Corria o ano de 1950. Soube agora, ao passar numa rua secundária de Praga, que Suzi Quatro vem cá cantar, em 23 de Abril do ano que vem. Terá quase 73 anos, pois nasceu a 3 de Junho. 


Para a rapaziada da minha idade, aqui fica Suzi Quatro. Para os mais afoitos, apressem-se a comprar bilhetes, que o espectáculo pode esgotar. Ou ela esgotar-se...

JdB

04 setembro 2022

XXIII Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Lc 14,25-33

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
seguia Jesus uma grande multidão.
Jesus voltou-Se e disse-lhes:
«Se alguém vem ter comigo,
sem Me preferir ao pai, à mãe,
à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs
e até à própria vida,
não pode ser meu discípulo.
Quem não toma a sua cruz para Me seguir,
não pode ser meu discípulo.
Quem de entre vós, que, desejando construir uma torre,
Não se senta primeiro a calcular a despesa,
para ver se tem com que terminá-la?
Não suceda que, depois de assentar os alicerces,
se mostre incapaz de a concluir
e todos os que olharem comecem a fazer troça, dizendo:
'Esse homem começou a edificar,
mas não foi capaz de concluir'.
E qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei
e não se senta primeiro a considerar
se é capaz de se opor, com dez mil soldados,
àquele que vem contra com ele com vinte mil?
Aliás, enquanto o outro ainda está longe,
mand
a-lhe uma delegação a pedir as condições de paz.
Assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens,
não pode ser meu discípulo».


02 setembro 2022

Regresso a Praga (I)

 Volto a Praga pela quarta vez. Como já escrevi neste estabelecimento, considerei a cidade a mais bonita que visitara no interrail - isto depois de visitar Paris, Viena, Munique, Salzburgo, Budapeste. Gostava de recuar 40 anos para ter a certeza do que me impressionou numa cidade então da Cortina de Ferro. Gostava de recuar quase 20 para ter a certeza do que voltou a impressionar-me quando lá voltei pela segunda vez.  Praga continua uma cidade lindíssima, muito equilibrada do ponto de vista da arquitectura, pejada de esplanadas e jardins. Não a acho esmagadora - e talvez também seja isso que me provoca tanto encanto. É, apenas, uma cidade de uma beleza muito grande. 

JdB






01 setembro 2022

Palavras dos dias que correm

As Palavras não Servem para Nada

Foi quando aprendi que as palavras não servem para nada; que as palavras nunca se adaptam nem mesmo ao que elas querem dizer. Quando ele nasceu compreendi que a maternidade foi inventada por alguém que tinha de arranjar uma palavra para isso, porque as que tinham os filhos não queriam saber se havia ou não uma palavra para isso. Compreendi que o medo foi inventado por alguém que nunca tinha tido medo; o orgulho, por quem nunca tinha sentido orgulho.

William Faulkner, in 'Na Minha Morte'

***

As Palavras Condicionam o Pensamento e o Entendimento

As nossas palavras giram em torno das nossas ideias porque não somos capazes de exprimir plenamente um pensamento por palavras, caso contrário o entendimento - pelo menos entre pessoas inteligentes - há muito estaria estabelecido. Mas os nossos pensamentos giram também em torno das nossas palavras, e é isso que é mais grave. Se tivéssemos a força, a coragem ou a possibilidade de pensar totalmente fora das palavras, estaríamos mais avançados do que o estamos agora.

Arthur Schnitzler, in 'Relações e Solidão'

31 agosto 2022

Vai um gin do Peter’s ?

 NO ANO DA MORTE DE FERNANDO PESSOA (I) 

Por mérito de um italiano ligado ao maior evento cultural da Europa – o «Meeting» de Rimini (lançado em 1980) – receberam destaque três poemas de Fernando Pessoa desconhecidos em Portugal, à parte de um par (mesmo!) de especialistas na obra pessoana(1). 

www.meetingrimini.org/edizioni/edizione-2022/

As três composições têm em comuns datarem do último ano de vida do poeta (1935), centrarem-se na figura de Cristo e serem pouco conhecidas do grande público. Neste “gin” segue o poema partilhado por mão amiga, participante na edição do Meeting de Rimini deste ano, que dedicou uma exposição ao poeta que mais se desdobrou em heterónimos:  

Cartaz da mostra dedicada a Pessoa e intitulada a partir da sua frase:  «Se voglio, voglio l’infinito».

 «O REI, cuja coroa de oiro é luz
Fita do alto trono os seus mesquinhos.
Ao meu Rei coroaram-n'O de espinhos
E por trono Lhe deram uma cruz.

O olhar fito do Rei a si conduz
Os olhares ansiosos e sozinhos.
Mas mais me fitam, e mortas sem carinhos,
Essas pálpebras mortas de Jesus.

O Rei fala, e um seu gesto tudo prende,
O som da sua voz tudo transmuda.
E a sua viva majestade esplende;

Meu Rei morto tem mais que majestade;
Diz-me a Verdade aquela boca muda;
E essas mãos presas dão-me a Liberdade
.»

________________________________________________

Versão do poema sem título de F. Pessoa (1935) adoptada na tese de doutoramento de Carlos Pittella-Leite: “Pequenos infinitos em Pessoa: uma aventura filológico-literária pelos sonetos de Fernando Pessoa”.

É invulgar, mas interpelativo, as férias poderem ficar associadas a pedidos maiores como o do grande poeta português, que reclama pelo infinito, por uma infinita e eterna liberdade! Porque férias também são tempo e tempo não quadra com silly season. 

Maria Zarco 

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 
__________________

(1) Caso de Carlos Pittela-Leite, cujo tema do doutoramento foram os sonetos de Pessoa.  

30 agosto 2022

Da importância das palavras *

Um dia destes, na minha ronda de blogues, encontrei um pensamento. Alguém se questionava sobre o que o salvava do caos, sendo que a resposta reiterada era: a palavra. O sentido era este, se bem que o reproduza de forma obscenamente simplista. Não sei se poderei dizer o mesmo sem que se adivinhe uma presunção a que não quero atirar-me. Não obstante, estou em crer que a palavra escrita desempenhou uma grande importância nos momentos - e foram alguns - em que o caos se instalou dentro de mim com ideias de ficar. 

Porque escrevo - seja no blogue, nos textos académicos que se prendem com temas que me tocam, nas cartas que envio aos que me estão mais próximos, nas frases com que invado de forma maçadora a caixa de correio alheia? Porquê? Para ordenar a desordem, para organizar o caos, para alumiar um  buraco, para iluminar um caminho, para encontrar sentido para as coisas. Escrevo para mim próprio, sobretudo, mesmo que disfarce a tontaria - ou uma aparente vaidade - dirigindo-me aos outros. Estou tão certo disso como do meu número de contribuinte que fixei há anos.

(Também o faço por divertimento, mas porque não poderá ser isso considerado uma terapia, passe o exagero?) 

Tem isto alguma relevância? Não, a não ser para mim. Para os outros são violações do sossego próprio, frases cujo sentido nascem e morrem dentro de mim, apesar dos que me conhecem o suficiente para entender os subterfúgios ou as bizarrias. É por isso que envio mais do que recebo, lutando interiormente contra a ideia da desilusão que advém de uma contabilidade desencontrada. Afinal, o combate ao caos é essencialmente solitário, e cada um sabe como fazer o seu. Perceber isto é perceber muito, porque o deve e o haver da vida estão longe de serem iguais. Felizmente, direi eu, apesar de tudo...

JdB 

* publicado originalmente a 21 de Agosto de 2014

29 agosto 2022

Músicas dos dias que correm *

 



* enviado por mão amiga, no seguimento de um bom jantar e de uma boa conversa. E também porque estiverem este Sábado em Cascais.

28 agosto 2022

XXII Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Lc 14,1.7-14

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus entrou, a um sábado,
em casa de um dos principais fariseus
para tomar uma refeição.
Todos O observavam.
Ao notar como os convidados escolhiam os primeiros lugares,
Jesus disse-lhes esta parábola:
«Quando fores convidado para um banquete nupcial,
não tomes o primeiro lugar.
Pode acontecer que tenha sido convidado
alguém mais importante que tu;
então, aquele que vos convidou a ambos, terá que te dizer:
'Dá o lugar a este';
e ficarás depois envergonhado,
se tiveres de ocupar o último lugar.
Por isso, quando fores convidado,
vai sentar-te no último lugar;
e quando vier aquele que te convidou, dirá:
'Amigo, sobre mais para cima';
ficarás então honrado aos olhos dos outros convidados.
Quem se exalta será humilhado
e quem se humilha será exaltado».
Jesus disse ainda a quem O tinha convidado:
«Quando ofereceres um almoço ou um jantar,
não convides os teus amigos nem os teus irmãos,
nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos,
não seja que eles por sua vez te convidem
e assim serás retribuído.
Mas quando ofereceres um banquete,
convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos;
e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te:
ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.


25 agosto 2022

Dos casais que se imaginam maçados

 Comecei a viajar pelos meus 16 anos, talvez. Ia para casa de amigos e, por isso, fazia muito a vida que eles faziam: praia, jantares em casa de outras pessoas, passeios aqui e ali. Quando comecei a viajar sozinho - por altura dos 20 anos, talvez -  encetei o tempo dos museus. Fiz o interrail e outras viagens numa vertente muito cultural, pois passava os dias a ver exposições. Quando percebi que a cabeça já confundia tudo, e não me lembrava do que tinha visto em Viena ou se um determinado quadro estava em Florença, atirei-me para as esplanadas ou para outros sítios onde pudesse observar o próximo. Queria ver gente: as pessoas individuais a lerem um livro ou uma revista, grupos numa dinâmica própria, casais a interagirem. Não me interessava saber ou conhecer, porque não consigo adivinhar a vida das pessoas. Mas interessava-me, isso sim, imaginar: quem são, o que fazem, o que as motiva, com que choram ou com que perdem a cabeça, de que forma amam ou odeiam. 

Há cerca de 30 anos, Martin Parr fotografou um conjunto de casais, tendo essas fotografias sido publicadas no seu livro Bored Couples (Galerie du Jour Agnès B., 1993). Nada o ligava às pessoas fotografadas. Olhei para as fotografias e vi-me atrás da lente com que ele viu as pessoas que eu via nas esplanadas, nos restaurantes, sentadas numa fonte no meio de uma praça ou nas escadarias de uma rua movimentada. Não sabia se o olhar de paixão era paixão, se a ideia de um feitio violento ou manso pela linguagem corporal era isso ou uma insegurança; não sabia se uma boa sensual e semi-aberta para uma companhia do lado de lá de uma mesa não seria apenas sarcasmo ou antevisão de uma infidelidade. 

Ver as fotografias de Martin Parr (há mais aqui) é ver tudo, porque é imaginar tudo. 

JdB






24 agosto 2022

Textos dos dias que correm

Não Tenho Rancores nem Ódios

Pertenço a uma geração que ainda está por vir, cuja alma não conhece já, realmente, a sinceridade e os sentimentos sociais. Por isso não compreendo como é que uma criatura fica desqualificada, nem como é que ela o sente. É oca de sentido, para mim, toda essa (...) das conveniências sociais. Não sinto o que é honra, vergonha, dignidade. São para mim, como para os do meu alto nível nervoso, palavras de uma língua estrangeira, como um som anónimo apenas.
Ao dizerem que me desqualificaram, eu não percebo senão que se fala de mim, mas o sentido da frase escapa-me. Assisto ao que me acontece, de longe, desprendidamente, sorrindo ligeiramente das coisas que acontecem na vida. Hoje, ainda ninguém sente isto; mas um dia virá quem o possa perceber.
Procurei sempre ser espectador da vida, sem me misturar nela. Assim, a isto que se passa comigo, eu assisto como um estranho; salvo que tiro dos pobres acontecimentos que me cercam a volúpia suave de (...).

Não tenho rancor nenhum a quem provocou isto. Eu não tenho rancores nem ódios. Esses sentimentos pertencem àqueles que têm uma opinião, ou uma profissão ou um objectivo na vida. Eu não tenho nada dessas coisas. Tenho na vida o interesse de um decifrador de charadas.
Mas eu não tenho princípios. Hoje defendo uma coisa, amanhã outra. Mas não creio no que defendo hoje, nem amanhã terei fé no que defenderei. Brincar com as ideias e com os sentimentos pareceu-me sempre o destino supremamente belo. Tento realizá-lo quanto posso.
Nunca me tinha sentido desqualificado. Como lhe agradecer ter-me ministrado esse prazer! Ele é uma volúpia suave, como que longínqua.
Não nos entendem, bem sei...
...Assim como criador de anarquias me pareceu sempre o papel digno de um intelectual (dado que a inteligência desintegra e a análise estiola).

Fernando Pessoa, 'Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação'

22 agosto 2022

Propostas curriculares para o ano lectivo 2022 - 2023 (farei um, dois, ou nenhum dos seminários...)

TEO5.921704/ TEO8.921710 Tópicos de Teoria Literária (12 ECTS, S1, 2ª, 9:30-12:30, Miguel Tamen)

Obiter dicta

Um obiter dictum é um dito de baixo valor epistémico.  No entanto, tais ditos podem ser importantes na caracterização de acções, acontecimentos ou pessoas.  O seminário ocupar-se-á de descrições de pessoas, existentes e inexistentes, a partir de ditos incidentais que lhes foram atribuídos por terceiros.  Discutir-se-ão, entre outros, fragmentos e paráfrases de Diógenes Laércio, o Evangelho de Tomé, a conversa de mesa de Lutero e Coleridge, extractos de Life of Samuel Johnson, de James Boswell e das conversas de Eckermann com Goethe, Sartor Resartus, de Thomas Carlyle, e  “Notas para a recordação do meu Mestre Caeiro”, de Fernando Pessoa.


TEO5.921709/ TEO8.921715 Tópicos de Teoria Literária (12 ECTS, S2, 4ª, 9:30-12:30, Maria Sequeira Mendes)

A arte da crítica

“Some of my very best work went into that book and they’re treating it like a Mills and Boon potboiler, it just doesn’t make sense. I don’t expect them to give me the Nobel Prize, for Christ’s sake – I do know my own limitations, only too well, alas! – but isn’t it rather peculiar that not one of them so far has spotted the perfectly obvious point that the whole thing is meant to be an allegory of Good and Evil?”, diz a romancista num conto de Francis Wyndham.   Este seminário reflecte sobre a actividade de críticos que se ocupam (ou que se ocuparam) da produção artística do seu tempo (teatro, cinema, livros, séries de televisão), procurando demonstrar o seu valor. Leem-se artigos de autores como Andrew O’Hehir (Salon.com), David Orr (NYT), Emily Nussbaum (New Yorker), Michael Billington (The Guardian), Patricia Lockwood (LRB), entre outros, e responde-se a uma série de questões: que apreciamos num artigo de crítica?; que estratégias usam certos críticos?; podemos apreciar a crítica de espectáculos que não vimos ou de livros que não lemos? Procura-se perceber se a crítica estará, como pensa a romancista, morta e enterrada, ou se ainda existe esperança para quem procura ocupar-se destes objectos do presente. Ao longo do seminário os alunos farão exercícios tentativos de crítica.  


TEO5.921707/ TEO8.921713 Tópicos de Teoria Literária (12 ECTS, S2, 5ª, 9:30-12:30, José Maria Vieira Mendes)

Staying With the Trouble

Em um dos seus últimos livros, Staying With the Trouble. Making Kin in the Chthulucene, Donna Haraway escreve: “staying with the trouble requer que aprendamos a estar verdadeiramente presentes, não num lugar de fuga algures entre (...) futuros salvíficos ou futuros apocalípticos, mas enquanto criaturas mortais embrenhadas em miríades de configurações inacabadas de lugares, tempos, matérias, significados.” Neste seminário iremos ler alguns textos desta bióloga, filósofa e feminista, estabelecendo com a sua escrita e pensamento uma relação literária que se apoia no seu vocabulário e metáforas idiossincráticos. Com esta aproximação procuraremos também ecos do seu pensamento em textos de autoras e autores como Octavia Buttler, P.B. Preciado, Franz Kafka ou Legacy Russel, aprendendo com Haraway a ficar com o problema ou dificuldade (trouble).



21 agosto 2022

XXI Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Lc 13,22-30

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus dirigia-Se para Jerusalém
e ensinava nas cidades e aldeias por onde passava.
Alguém Lhe perguntou:
«Senhor, são poucos os que se salvam?»
Ele respondeu:
«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita,
porque Eu vos digo
que muitos tentarão entrar sem o conseguir.
Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta,
vós ficareis fora e batereis à porta, dizendo:
'Abre-nos, senhor';
mas ele responder-vos-á: 'Não sei donde sois'.
Então começareis a dizer:
'Comemos e bebemos contigo
e tu ensinaste nas nossas praças'.
Mas ele responderá:
'Repito que não sei donde sois.
Afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade'.
Aí haverá choro e ranger de dentes,
quando virdes no reino de Deus
Abraão, Isaac e Jacob e todos os Profetas,
e vós a serdes postos fora.
Hão-de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul,
e sentar-se-ão à mesa do reino de Deus.
Há últimos que serão dos primeiros
e primeiros que serão d
os últimos».

19 agosto 2022

Dos Homens e das reses *

Assumamos duas ideias chave:

no domínio da matemática, que o limite de algumas funções tende para infinito;

no domínio de outras ciências, que a existência da Terra é finita, porque são finitos a água e o calor do sol.

Aprendemos, nós, os cristãos, que o Homem foi feito à imagem e semelhança de Deus, que em cada um dos entes nascituros já há um sopro divino. Ora, acredito que esse tal influxo com que cada um foi bafejado é apenas uma infinitésima marca do Criador, como se fossemos uma rês ferrada na perna, ou uma criança deixada na roda dos enjeitados acompanhada de um lenço onde se bordou "Justina, virei buscar-te um dia, perdoa-me". Nem a marca gravada a quente nem a cambraia guarnecida de texto e lágrimas são indicadoras de santidade, perfeição, bondade, espírito recto. Revelam apenas uma propriedade que alguém - ou Alguém - reclamará um dia, seja numa tórrida e feliz tarde de um Agosto qualquer, seja no fim dos tempos, quando a Terra não for mais do que frio e noite.

Há nas crianças, naquilo que é o melhor do mundo, uma inquebrantável maldade. Gozam com quem tem óculos, com quem coxeia, com quem está inchado de remédios, com quem gagueja, com quem tem uma madeixa de cor bizarra, que a genética atraiçoa os mais capazes e o destino amaldiçoa os mais puros. Deus está lá, apesar do dichote carregado de desumanidade, da troça onde se pressente um vaguíssimo cheiro a enxofre encoberto pela fragrância matutina. O que significa isto? Que nascemos com uma origem desarmónica, como o bezerro que tem um olho cegado pela imperfeição. E no entanto o sopro está lá, e o ferro em brasa encosta-se na mesma num fumego de carne. É Meu filho, dirá Alguém; o gado é meu, dirá alguém.

Enquanto seres racionais somos uma função cujo limite tende para um fim harmonioso, que é o infinito da matemática. Procuramos a perfeição, sabendo que não a alcançaremos jamais. Na natureza as coisas tendem para, porque aquilo que já é tem uma dimensão morta, fixa, estática - um concerto de Beethoven, um ovo Fabergé, a Ronda da Noite de Rembrandt. Assim sendo, acumulamos imperfeição, porque o nosso passado - carregado de defeito - é sempre superior ao nosso futuro, onde se vislumbra o apuro máximo. Há sempre mais passado do que futuro, porque o que foi é uma realidade, e o que está para vir é apenas uma hipótese que se confirma momento a momento. Por isso a longevidade é uma realidade traiçoeira: por um lado, são mais anos de aperfeiçoamento na procura da Beleza; por outro lado, são mais anos de acumulação de Fealdade. A contabilidade não é uma ciência exacta.

Como seres humanos, nascemos bafejados pelo Divino; o sopro é um ferro em brasa num corpo pequeno e sorridente, que não cheira a carne queimada mas a alma repleta. Este hálito celeste não está impregnado de probidade, como o ferro não está impregnado de bravura. Revelam apenas uma propriedade que, no caso dos seres animados de sentimentos, vem com uma condição - não desistir, porque o tempo é finito. 

JdB    

* publicado originalmente a 4 de Março de 2015

18 agosto 2022

Músicas (muito repetidas) dos dias que correm

 

Uma música fantástica, uma execução fantástica, uma animação fantástica. Abanem-se, em podendo e querendo.


JdB

17 agosto 2022

Vai um gin do Peter’s ?

 SABOTAGEM NO DIA DA RÚSSIA?

As pesquisas interessantes do jornalista José Milhazes (fluente em língua russa) aos meandros da guerra na Ucrânia, a partir da perspectiva do país invasor, permitiu-nos conhecer inúmeros actos heróicos de cidadãos russos críticos da barbárie de Putin em território ucraniano. Com risco de vida, têm denunciado o rol de mentiras e de crueldade do Kremlin, que insiste na impiedosa invasão de outro país soberano. Como se não bastasse a destruição de cidades ucranianas, alvejando sem escrúpulos alvos civis, Moscovo também se tem revelado insensível às baixas das suas tropas, escondendo e mentindo sobre o número de mortes, que já atingiu cifras obscenas, cada vez mais difíceis de assumir junto da população russa sem aumentar a turbulência interna.     

Um dos actos que resultou mais divertido e de provável sabotagem perpassou nos cartazes destinados a abrilhantar os festejos do dia da Rússia, este ano (a 9 de Maio). Do lay-out à imagética usada, nada pareceu inocente, destacando-se a associação das tropas russas aos nazis que invadiram a Rússia durante a Segunda Guerra Mundial. Como não perceber a insinuação de que Putin será o Hitler do nosso tempo? A intrigante colecção de cartazes vem explicada com bom detalhe neste artigo gentilmente cedido pelo autor:

«A guerra das bandeiras

O espectáculo da parada militar de 9 de Maio em Moscovo, carregado de símbolos bélicos, não é fácil de interpretar.

Que significam tantas foices e martelos? Porque é que muitos esquadrões desfilavam com bandeiras vermelhas? E havia tantas insígnias comunistas? E enormes decorações da extinta União Soviética? As iniciais do país voltaram a ser CCCP (União Soviética), como estava escrito em letras garrafais na praça Vermelha? Que faziam tantas fotografias de Stalin na parada militar? Ainda mais, porque é que os cartazes de propaganda da parada de 9 de Maio usavam símbolos nazis e fotografias norte-americanas?

Felizmente, a Rússia não virou comunista, nem nazi. A história é mais longa.

Quando se deu o Cisma do Oriente (ano 1043) e o mundo grego quebrou a unidade da Igreja Católica, a Rússia acompanhou Constantinopla, que então se considerava «a nova verdadeira Roma». Quando os Otomanos invadiram Constantinopla (ano 1453), Moscovo considerou-se a herdeira desse título, passando a ser «nova-nova verdadeira Roma». É por isso que, até hoje, os ortodoxos russos se consideram os eleitos por Deus para salvar a Terra.

Durante quase um século, os comunistas perseguiram o povo em nome do ateísmo. Esse período terrível não deixou saudades, excepto num ponto: foi o momento em que mais povos estiveram submetidos à autoridade de Moscovo. Com a queda do comunismo, algumas dessas colónias aproveitaram para ficar independentes, o que é considerado pela Igreja Ortodoxa russa o retrocesso mais grave dos últimos séculos. Assim se explica que uma igreja cristã erga as bandeiras do regime comunista, não já como símbolos marxistas, mas como momento alto do imperialismo russo.

Nos seus múltiplos esforços para acabar com a guerra, o Papa falou por vídeo-conferência com o Patriarca Ortodoxo de Moscovo no dia 16 de Março. Infelizmente, a conversa não correu bem. Ao fim de ouvir durante 20 minutos o Patriarca ler um discurso a defender o direito da Rússia a invadir a Ucrânia, o Papa Francisco não se conteve e interrompeu-o: «Irmão! Não pode fazer de menino do coro de Putin!». Parece que o Patriarca vê a hierarquia ao contrário: Putin é que é o santo servidor do Patriarcado de Moscovo.

Alguns russos não concordam com este programa imperialista e talvez isso explique as imagens nazis nos cartazes de propaganda russa. Quando o regime se deu conta da brincadeira, era tarde demais. Os cartazes já estavam na rua, a sugerir ao povo russo quem faz actualmente o papel dos nazis.» 

Que significavam os símbolos comunistas na parada militar de 9 de Maio?

Olhando para as decorações da praça Vermelha no 9 de Maio, parecia que o país voltava a chamar-se União Soviética: CCCP.

Uma fotografia norte-americana da Segunda Guerra Mundial (à direita) serviu de base ao cartaz russo (à esquerda) a anunciar a parada militar em Moscovo, com a bandeira americana substituída pela bandeira comunista. A legenda do cartaz significa «Pela nossa VITÓRIA!». [Fotografia apresentada pelo jornalista José Milhazes no Jornal da Noite, na SIC Notícias].

Cartaz russo da parada militar de 9 de Maio de 2022 em Moscovo. A fita amarela e vermelha das forças russas emoldura a fotografia de um regimento nazi. [Fotografia apresentada pelo jornalista José Milhazes no Jornal da Noite, na SIC Notícias].

Cartaz de rua russo a anunciar a parada militar de 9 de Maio de 2022 em Moscovo. As riscas amarelas e vermelhas das forças russas sobre uma fotografia de pilotos alemães da Segunda Guerra Mundial, com a frase «Eles lutaram pela pátria». [Fotografia apresentada pelo jornalista José Milhazes no Jornal da Noite, na SIC Notícias].

À esquerda, cartaz de rua a anunciar a recente parada militar de 9 de Maio. Por trás das cores da Federação Russa, vê-se parte de um cartaz de propaganda nazi com um soldado a lançar uma granada. A legenda do cartaz nazi, à direita, dizia «A Alemanha luta em todas as frentes». [Fotografia apresentada pelo jornalista José Milhazes no Jornal da Noite, na SIC Notícias].

José Maria C.S. André
Publicado em media e blogs anglo-portugueses 
no final de maio de 2022


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

16 agosto 2022

Pensamentos dos dias que correm

 A Fidelidade é a mais Integral de todas as Virtudes Humanas

A fidelidade (...) é a mais integral de todas as virtudes humanas. O homem participa numa batalha e, sem a fidelidade, não conhece a sua luta; apenas usa da violência, interpreta uma vontade, é instrumento de uma opinião. A fidelidade move-o desde a sua origem, é a primeira condição da consciência. Não se efectuam coisas novas sem fidelidade. Não se engrandece a piedade ou se priva com o mais simples sentimento, sem a fidelidade. Uma acção progressiva tem que ter raízes tumulares, raízes naquilo que encerrámos definitivamente - uma era, um conhecimento, uma arte, uma maneira de viver. A fidelidade, disse eu, assegura-nos o tempo de criar e o tempo de destruir o que se tornou inconforme à imagem do homem. Nada é digno de valor, sem fidelidade.

Agustina Bessa-Luís, in 'Alegria do Mundo'

15 agosto 2022

Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria

 EVANGELHO - Lc 1,39-56

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naqueles dias,
Maria pôs-se a caminho
e dirigiu-se apressadamente para a montanha,
em direcção a uma cidade de Judá.
Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel.
Quando Isabel ouviu a saudação de Maria,
o menino exultou-lhe no seio.
Isabel ficou cheia do Espírito Santo
e exclamou em alta voz:
«Bendita és tu entre as mulheres
e bendito é o fruto do teu ventre.
Donde me é dado
que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?
Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos
a voz da tua saudação,
o menino exultou de alegria no meu seio.
Bem-aventurada aquela que acreditou
no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito
da parte do Senhor».
Maria disse então:
«A minha alma glorifica o Senhor
e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador,
porque pôs os olhos na humildade da sua serva:
de hoje em diante me chamarão bem-aventurada
todas as gerações.
O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas:
Santo é o seu nome.
A sua misericórdia se estende de geração em geração
sobre aqueles que O temem.
Manifestou o poder do seu braço
e dispersou os soberbos.
Derrubou os poderosos de seus tronos
e exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens
e aos ricos despediu de mãos vazias.
Acolheu a Israel, seu servo,
lembrado da sua misericórdia,
como tinha prometido a nossos pais,
a Abraão e à sua descendência para sempre».
Maria ficou junto de Isabel cerca de três meses
e depois regressou a sua casa.

14 agosto 2022

XX Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Lc 12,49-53

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
«Eu vim trazer o fogo à terra e que quero Eu senão que ele se acenda? Tenho de receber um baptismo e estou ansioso até que ele se realize.
Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra?
Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão. A partir de agora, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três.
Estarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra».

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