09 maio 2009

Amanhã vai chover

Do Bairro Alto ao Camões, do Largo do Chiado à Rua Garrett, a todas as ruas e travessas, não há chuva ou céu de chumbo que as desarme, esbata ou deprima. Romântica, oitocentista, lavada, afrancesada, a dizer, voilá, votre Tavares! Ou vinde, vinde almoçar. E almoçar no Tavares em dia de chuva, oh, soa bem. A Sala de Chá serve almoços, num menu mais simplista mas não menos tentador. E pequenos-almoços recheados, lanches de perder a cabeça, chás oriundos das mais conceituadas colheitas do mundo. Um espaço airoso e cheio de luz, onde se goza a expressão expectante do nosso Eça, que aqui saciou estômago e ideias.

Reabriu com entusiasmo, foi notícia a encetar 2004. Andava moribundo o Tavares. Muito durara ele. Duzentos e vinte anos de vida! De vida e de história. Longa, cheia de nomes, episódios, um ror de graças e contra-graças, e a derradeira trama dos tempos e da idade, que se instalou devagar, e a modinho, atacou o espaço, o brio, as vontades, e pior, a clientela.

Quando uma bela manhã, se percebeu que havia buliço no 37 da Misericórdia, foi a machadada final. Obras no Tavares. Estava certificado o morto. Lá se vai mais uma linha da escritura do Chiado. Tudo metia o nariz na vidraça, tudo fingia abrigar-se nas varandas de barriga, só para ver, ter a certeza e poder conjecturar e ir contar que aquilo ia tudo abaixo. E ao entulho que saía, lá se vai mobília, talha, lustres, tapetes e todos os folhos do luxo que gozaram gerações, à mesa do restaurante mais chique da capital.

Mas há sortes teimosas. Assim que lhe douraram as letras, sobre a pompa alva do primeiro andar, ai Chiado, isto vai aquecer. O Tavares quer renascer. E calaram-se as ideias até que as portas já reluziam, os vidros amanheciam impecavelmente limpos, os candeeiros cristalinos pendiam acesos do tecto de oiro, entalhado, informado. E à noite, toda a Pátria viu se quis. O Tavares reabriu. O Tavares, sim, o Rico, dos intelectuais, das comezainas divinais, e outras coisas que tais.

Resistiu um emblema da cidade, interessado em receber com o melhor de Portugal, os doces mais irresistíveis, de bem feitos, que se podem comprar ao quilo. Quem reza a carta é pois o “ratinho” Avillez. Mas dizia eu que ele há sortes teimosas, e há. E se ao Tavares não lhe valeram desta vez Os Amigos de Lisboa, nem lhe deitou a mão a edilidade, personalidade alfacinha ou grupo económico de prestígio, valeu-lhe um homem de fora, advogado de Leiria, que não perdurou no sonho mas conseguiu pô-lo de pé. Nós, que contraímos a dívida da gratidão, devemos-lhe a factura. Amanhã vai chover e o Tavares está fechado. Diabos o levem!

DaLheGas

2 comentários:

maf disse...

Gosto desta sua mania de personificar as coisas. De dar vida aos objectos, como se de pessoas se tratassem. Ainda um dia a hei-de ver a fazer uma declaração de amor a um ... digamos .... semáforo, porque nao? lolol
Será que ainda lá há aquelas trouxas de ovos maravilhosas, cuja cor se misturava com a talha dourada dos espelhos e paredes ?

DaLheGas disse...

já falei um bom bocado com o cauteleiro do largo da misericórdia, a pensar que era um vivo ehehehe mas não deu tempo de me apeixonar :)

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