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25 abril 2019

O 25 de Abril e eu

Não me dei ao trabalho de ver o que tenho postado neste dia, em anos anteriores. Sei que poderia ter colocado uma bandeira de Portugal atravessada por uma tarja negra, que as há pela net de certeza, porque para muitos portugueses ainda, o dia de hoje foi dos mais negros da nossa História. Poderia por um cravo esmagado, o Vasco Lourenço caricaturado, o Vasco Gonçalves que já de si é uma caricatura, ou qualquer outra imagem que ande por aí e que denigra o dia. Podia por a inversa, transcrevendo poemas aos amanhãs que cantam ou músicas de José Afonso, um homem que é algo cá de casa. Podia por tudo e a sua inversa. Mas vou falar do que foi um certo 25 de Abril para mim. 

À pergunta onde estavas no 25 de Abril? a resposta é fácil: em casa. Saí à socapa (era suposto ficarmos resguardados, mesmo numa rua que acabava num baldio, em S. Pedro do Estoril) para ir à mercearia do bairro comprar Português Suave sem filtro. Enquanto uma parte de Portugal (não sei bem que parte) se atulhava de alimentos para colmatar uma possível escassez, o meu temor era não ter cigarros. Cada um tem as suas prioridades, e as minhas, as de um rapaz de 16 anos, eram essas.

Já qui escrevi uma vez sobre o tempo do 25 de Abril e os meses / poucos anos que se seguiram. Foi um tempo de descoberta política e de defesa, não dos oprimidos, do campesinato ou do operariado, nem sequer do grande capital, mas de um modelo de vida assente (também) na propriedade privada e na liberdade religiosa. Foi - e muito - um tempo de combate ao PC (sobretudo), de militância no CDS. Era um tempo pouco dado a relativismos - não se era não comunista, mas anti-comunista. Era um tempo de ameaças físicas mesmo que essas (no meu caso) não redundassem em confrontos reais: colaborei na segurança ao primeiro comício da Juventude Centrista no S. Luís, em Novembro de 1974, fiz parte do primeiro grupo que colou cartazes do CDS em Évora (feito de que não me orgulho, porque pintar a Praça do Giraldo não é curriculum, mas cadastro), defendi bancas do partido no liceu de S. João do Estoril, fui testemunha de conversas sussurradas, terços rezados e sinais de luzes no Alentejo, em 1975, porque havia as ocupações e os latifundiários. 

O meu 25 de Abril não foi o das grandes liberdades, das grandes conquistas ou das grandes lutas. Foi um tempo claro, decidido, absoluto (por oposição a relativista). Foi um tempo de emoções adolescentes, de ideias de futuros comprometidos, de escuta da Deutsche Welle ou da BBC, ou de especulação sobre o número de barcos de guerra na barra do Tejo. Foi um tempo, também, de memórias que ficaram, de sons que não se esquecem - as marchas, as caras graves da Junta de Salvação Nacional, o monóculo de Spínola, a indigestão de cravos, os ódios proferidos na televisão, a ideia de que o país era todo democrata, porque no dia 25 era todo anti-fascista. Mas também do PDC, do Partido do Progresso, do MIRN ou do ELP, da distribuição secreta e perigosa (enfim...) de panfletos contra a canalha esquerdista.

Não tendo na família grande militância política, não se conversando (ou não tendo eu ideia disso) de política à mesa do jantar, um rapaz de 16 anos tem uma ideia do país que fica circundada pelo liceu, pela rua, pelos locais de sábado à noite, pelos slows dançados com raparigas (quase) imóveis, pela nitidez dos combates, pela identificação clara de quem é quem, de quem está do nosso lado.  

JdB      

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